“Como elRei mandou degollar dous seus criados, porque roubarom huum judeu e o matarom”


Este Rei Dom Pedro em quanto viveo, husou muito de justiça sem afeiçom, teendo tal igualdade em fazer direito, que a nenhuum perdoava os erros que fazia, por criaçom nem bem querença que com el ouvesse; e se dizem que aquel he bem aventurado Rei, que per si escodrinha os malles e forças que fazem os pobres, e bem he este do conto de taaes, ca el era ledo de os ouvir, e folgava em lhes fazer direito, de guisa que todos viviam em paz, e era ainda tam zeloso de fazer justiça, espeçiallmente dos que travessos eram, que perante si os mandava meter a tormento, e se confessar nom queriam, el se desvestia de seus reaaes panos, e per sua maão açoutava os malfeitores, e pero que dello muito prasmavom seus conselheiros e outros alguuns, anojavasse de os ouvir, e nom o podiam quitar dello per nenhuuma guisa. (…) Assi aveo que pousando el nos paaços de Bellas que el fezera, dous seus escudeiros que gram tempo avia que com el viviam, seendo ambos parceiros ouverom comselho que fossem roubar huum Judeu que pelos montes andava vendendo speçearia, e outras cousas, e foi assi de feito, que forom buscar aquella çuja prea e roubaromno de todo, e o peor desto, foi morto per elles; sua ventura que lhe foi contraira, aazou de tal guisa que forom logo presos e tragidos a elRei ali hu pausava. ElRei como os vio tomou gram prazer por seerem filhados, e começouhos de preguntar como fora aquello, elles pensando que longa criaçom e serviço que lhe feito aviam, o demovesse a ter alguum geito com elles, nom tal como tiinha com outras pessoas, começarom de negar, dizendo que de tal cousa nom sabiam parte. El que sabia ja de que guisa fora, disse que nom aviam por que mais negar, que ou confessassem como ho matarom, se nom que a poder de cruees açoutes lhe faria dizer a verdade: elles em negando, virom que elRei queria poer em obra o que lhe per pallavra dizia, comfessarom todo assi como fora; e elRei sorrindosse disse que fezerom bem, que tomar queriam mester de ladroões e matar homeens pelos caminhos, de se ensinarem primeiro dos Judeus, e depois viinriam aos Christãos; e em dizendo estas e outras palavras passeava perantelles dhuma parte aa outra, e parece que nenbrando-lhe a criaçom que em elles fezera e como os queria mandar matar, viinham-lhe as lagrimas aos olhos per vezes; depois tornava asperamente contra elles reprendendoos muito do que feito aviam, e assi andou per huum grande espaço. Os que hi estavam que aquesto viam, sospeitando mal de suas razoões, aficavamse muito a pedir merçee por elles, dizendo que por huum Judeu astroso nom era bem morrerem taaes homeens, e que bem era de os castigar per degredo, ou outra alguuma pena, mas nom mostrar contra aquelles que criara pello primeiro erro tam grande crueza. ElRei ouvindo todos respondia sempre que dos Judeos viinriam depois aos Christaãos, en fim destas e outras razoões, mandou que os degollassem, e foi assi feito.”

Fernão Lopes (1380– 1460), Crónica de D. Pedro I

Nota – O relato do cronista é demonstrativo da mentalidade cristã medieval e do comportamento geral em relação aos judeus portugueses. A pesada pena de morte – uma punição normal para a época, mesmo para pequenos delitos contra a propriedade (roubo de galinhas, por exemplo) – é imposta pelo rei aos escudeiros não por eles terem morto o judeu vendedor de especiarias, mas porque “poderiam depois vir a matar cristãos”. Assim era a justiça de D. Pedro I, “O Justiceiro”. De notar ainda a defesa dos escudeiros feita pelos conselheiros, que diziam ao rei: “por um maldito judeu não era bem morrerem tais homens.”

Judeus Secretos e o Aperto de Mão

Os portugueses têm o estranho costume de não “cruzar” apertos de mão. Isto é, quando quatro pessoas se cumprimentam simultaneamente, tenta evitar-se que os braços se intersectem durante o aperto de mão, formando uma cruz. Quando confrontados por estrangeiros perplexos, desconhecedores do costume, em regra, os portugueses não sabem explicar a razão de ser desta tradição, relegando-a para a vasta categoria das “superstições populares”…

Os portugueses têm o estranho costume de não “cruzar” apertos de mão. Isto é, quando quatro pessoas se cumprimentam simultaneamente, tenta evitar-se que os braços se intersectem durante o aperto de mão, formando uma cruz. Quando confrontados por estrangeiros perplexos, desconhecedores do costume, em regra, os portugueses não sabem explicar a razão de ser desta tradição, relegando-a para a vasta categoria das “superstições populares”.
Na verdade, a origem do estranho gesto remonta aos finais do século XV, altura em que os judeus portugueses foram forçados a converter-se ao catolicismo sob pena de morte. Para muitos, a conversão assumiu apenas um aspecto exterior, continuando o judaísmo a ser praticado dentro de casa, de forma secreta e escondida. Vários historiadores compilaram listas de orações criptojudaicas quinhentistas – algumas sobreviveram até aos nossos dias na comunidade de Belmonte – que denotam uma tentativa de manter viva a ligação ao judaísmo. A mais conhecida será a oração dita pelos cristão-novos/criptojudeus ao entrar numa igreja: “Nesta casa entro mas não adoro pau nem pedra mas sim o Deus que tudo governa, Adonai, Deus de Israel” (in Os Criptojudeus da Faixa Fronteiriça Portuguesa, Eduardo Mayone Dias, 1997).
Da mesma forma, outros gestos quotidianos seriam influenciados por esta necessidade de manter afastados os símbolos da religião que lhes fora imposta à força. A cruz (e os crucifixos) era vista pelos cristãos-novos portugueses como um símbolo aziago e, como tal, a evitar a todo o custo. Segundo David M. Gitlitz, professor da University of Rhode Island, no seu livro Secrecy & Deceit: The Religion of the Crypto-Jews, é neste contexto que judeus portugueses forçados ao catolicismo começam a evitar cruzar braços quando apertam a mão a alguém, afirmando que o gesto “dá azar”. O mesmo costume alargou-se também à representação acidental da cruz à mesa, evitando cruzar facas e garfos.
A assimilação dos judeus forçados à conversão, que ocorreu nos séculos posteriores, levou à propagação da prática, tornando-a parte do subconsciente colectivo nacional – chegando mesmo a implantar-se também em algumas regiões do Brasil, onde durante o período colonial existiram comunidades significativas de cripto-judeus, nomeadamente no Recife e na Bahia.
Hoje, ironicamente, o mais católico dos católicos continua a evitar “fazer cruzes” quando aperta mãos, desconhecendo que o gesto surgiu como resistência, e mesmo rejeição, ao catolicismo imposto à força aos judeus portugueses no século XV.

Freud

 Sigmund Freud (6/5/1856 - 23/9/1939)


Os judeus continuaram a interessar-se pelos assuntos espirituais enquanto os infortúnios políticos da sua nação os ensinaram a valorizar devidamente o único bem que lhes restou: a sua literatura, as suas crónicas escritas. Logo após a destruição do Templo de Jerusalém, consumada por Tito, o rabino Johanan ben Zaccai solicitou autorização para abrir a primeira escola para o estudo da Torá. Desde então, o povo desagregado manteve-se unido graças à Sagrada Escritura e aos esforços espirituais que esta suscitou.”

Sigmund (Solomon) Freud (6/5/1856 – 23/9/1939), judeu nascido em Freyberg, na Áustria. in Moisés e a Religião Monoteísta, Guimarães Editores, Lisboa 1990 [uma má edição, por sinal, virtualmente assassinada por uma tradução intrometida e desconhecedora da história judaica]

O aniversário de Freud é recordado por Francisco José Viegas, no Aviz, e por Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado – este também um blog aniversariante. Parabéns aos navegantes.

Paz Selvagem

Yehuda Amichai

Não a paz de um cessar-fogo
nem mesmo a visão do lobo e do cordeiro,
Mas antes
como no coração quando acaba a excitação
e não se consegue falar a não ser do susto.
Eu sei que sei matar, isso faz de mim um adulto.
E o meu filho brinca com uma pistola de plástico
e sabe abrir e fechar os olhos e dizer mamã.

Uma paz
sem o grande barulho de fazer das espadas arados
Sem palavras, sem
o ruído surdo de um pesado carimbo:
que seja leve, flutuante, como preguiçosa espuma branca.
Um pequeno descanso para as feridas – quem fala de cura?
(E o grito dos órfãos é passado de uma geração
para outra, como uma corrida de estafetas:
o testemunho nunca cai.)

Deixem-na vir
como flores do campo, selvagens,
abruptamente, porque o campo
precisa delas: paz selvagem.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita que hoje, 6 de Maio de 2004, completaria 80 anos. Um poema aniversariante que a Judiaria dedica ao Abrupto, “o verdadeiro blogue do judeu errante“, que hoje comemora um ano de existência. Parabéns José Pacheco Pereira.

Nota: Anunciando a criação do Prémio de Poesia com o seu nome, o diário israelita Ha’aretz publica na sua edição em hebraico um poema inédito de Amichai, intitulado “Estações”. Dedicado à guerra, um tema recorrente em Amichai, a sua complexidade não permite traduções apressadas, mas prometo uma tentativa assim que o tempo me permitir.

Shlomo Bar

Shlomo Bar – Yeladim Ze Simcha

Músicas da Judiaria I
(clique na imagem para ouvir a canção)

A Rua da Judiaria passa a ter uma rubrica dedicada exclusivamente à música. Para inaugurar este espaço, escolhi uma canção de Shlomo Bar, Yeladim Ze Simcha. Para a ouvir, e para saber mais sobre o cantor e a sua banda, é só clicar aqui. Vale bem a pena. As Músicas da Judiaria vão ficar disponíveis no Arquivo da coluna da direita. Espero que gostem.

Amor de Jerusalém

Há uma rua onde vendem só carne
E há uma rua onde vendem só roupas e perfumes.
E há dias onde vejo só aleijados e cegos
E aqueles cobertos de lepra,
E aqueles com lábios retorcidos.

Aqui eles constróem uma casa e ali destroem
Aqui eles cavam a terra
E ali cavam os céus
Aqui eles sentam-se e ali eles andam
Aqui eles odeiam e ali eles amam.

Mas aquele que ama Jerusalém
Com o livro turístico ou com o livro de orações
é como o que ama a mulher
com um manual de posições sexuais.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Literatura e Realidade

Caricatura de AB Yehoshua da autoria de David Levine, publicada na New York Review of Books Descrito uma vez por Harold Bloom no New York Times como “uma espécie de Faulkner israelita”, Avraham B. Yehoshua, professor de Literatura Comparada na Universidade de Haifa, é um dos meus escritores contemporâneos preferidos. No seu último livro, A Missão do Homem dos Recursos Humanos – uma Paixão em Três Actos (Shlichuto Shel Ha-Memune Al Mashabei Enosh), acabado de lançar em Israel (e por enquanto apenas disponível em hebraico), A. B. Yehoshua conta a história de um burocrata israelita encarregue de acompanhar o corpo de Yulia Ragayev, uma emigrante russa morta num atentado suicida em Jerusalém.
Em entrevista ao diário israelita Maariv, Yehoshua fala da génese do romance: “Até agora, acredito que em certa medida, os mortos e feridos têm sido encerrados numa caixa, tanto socialmente como de um ponto de vista literário. Eu quis penetrar esta caixa e examinar o ambíguo sentido de culpa que a cobre: a Direita política sente culpa por causa da nossa impossibilidade de defender as nossas crianças, enquanto a Esquerda sente culpa porque interpreta estes atentados como uma punição. Depois há o facto da grande maioria das pessoas mortas ou feridas nos atentados suicidas serem oriundas de classes desfavorecidas – israelitas pobres e trabalhadores imigrantes.”
Na entrevista, Yehoshua admite que escrevera o seu penúltimo romance, A noiva Liberta, com um maior “sentimento de paz interior”.
“Foi uma tentativa de compreender os árabes, mas não a insanidade dos atentados suicidas. Este novo livro nasceu da própria realidade – da necessidade de enfrentar a realidade, mas não de uma forma sentimental. Foi por isso que escolhi uma mulher sem família, que não tinha ninguém que a chorasse, que não tem nada a ver com o conflito político em questão. Mesmo assim, eventualmente este tipo, que faz parte do sistema burocrático, subitamente sente compaixão e mesmo amor por esta mulher que ele nunca conheceu.”
Yehoshua começou a escrever este romance em 2002, e poucas semanas depois um amigo seu morria num atentado em Jerusalém, e outros dois foram feridos num outro ataque suicida num restaurante em Haifa. “Subitamente tudo estava mais perto, invadia a minha vida. Queria uma maior distância da realidade, mas esta continuava a forçar-se sobre mim.” Membro da chamada “esquerda literária” israelita, ao lado de Amos Oz e David Grossman, nas suas últimas intervenções públicas, ao mesmo tempo que continua a condenar os atentados terroristas palestinianos, A.B. Yehoshua tem apelado ao fim da ocupação e ao desmantelamento dos colonatos.

A Visitar: Haaretz – Shadow play in the twilight zone (recensão do livro) / Talkin’ ’bout his generation / Avraham B. Yehoshua (bio) / Yehoshua Interview (Ha’aretz, March 2004) / Abraham B. Yehoshua – Books in Translation / Ideas – A.B. Yehoshua – International Society for the Performing Arts / A.B. Yehoshua: What’s the alternative? :: Middle East Information / A B Yehoshua – The Literature of the Generation of the State / Articles by A. B. Yehoshua / Une interview d’A.B. Yehoshua / The Independent : AB Yehoshua: The border guard / A trajetória sefardita em ‘O Sr. Máni’, de A. B. Yehoshua (Dissertação de Mestrado).

[Em português, existem actualmente apenas dois livros de A.B. Yehoshua no mercado: Shiva e Viagem ao Fim do Milênio, traduzidos por Milton Lando e editados no Brasil pela Companhia das Letras (disponíveis aqui). Em edições agora esgotadas, foram ainda lançados no Brasil os seus romances O Amante (Summus), Senhor Mani (Imago) – o meu favorito – e Cinco Estações (Imago). Em Portugal… nada.]

Credo

Ri, ri de todos os meus sonhos!
O que sonho será realidade!
Ri por eu acreditar nos homens,
E por acreditar em ti.

Minha alma pede ainda uma liberdade,
Que não se troca por bezerros de ouro.
Porque ainda acredito nos homens,
E no seu espírito forte e corajoso.

E no futuro acredito
Que ainda distante, ele virá
Quando nações abençoem outras
E paz por fim a terra encherá.

Shaul Tchernichovsky (1875-1943), médico, poeta e tradutor israelita de origem russa. Poema escrito em 1928.

International Poets Festival, Jerusalém. Poster de Raphie Etgar

Gershom Sizomu

Retratos III – Judeus na Primeira Pessoa

 Gershom Sizomu

Sou o líder espiritual dos judeus do Uganda (Abayudaya), em África. Somos poucos em número, mas somos uma comunidade judaica forte, espiritual e profundamente religiosa. Somos mais de 600.
Nascido em 1969, tenho 34 anos. Com a minha mulher, Tzipoprah, viajei até Los Angeles, na Califórnia, onde estudo no Colégio Rabínico da University of Judaism. Estamos muito longe da nossa terra.
Quando tinha apenas dois anos, Iddi Amin Dada, lendário pela sua crueldade e corrupção, tomou o poder e a presidência do Uganda pela força das armas. Entre 1971 e 1979, quando finalmente o seu regime foi derrubado, Amin tornou ilegal a nossa observância religiosa e proibiu que nos declarássemos judeus. Deu-nos três alternativas: a conversão ao islão ou ao cristianismo, abjurar por completo ao judaísmo ou a morte.
Enquanto muitos do nosso povo sucumbiram à primeira alternativa convertendo-se, a minha família e outras continuaram a celebrar o Shabbat e outros mitzvot em segredo. Na maior parte das vezes, celebrávamos os serviços religiosos nos quartos, onde podíamos adorar o nosso Deus de forma sussurrada.
Em 1989, aos 20 anos de idade, foi preso conjuntamente com outros três judeus. Fomos apanhados quando mobilizávamos a nossa juventude para aprender a tradição judaica e a língua hebraica, e quando reconstruíamos a nossa sinagoga, destruída durante o regime de Iddi Amin. Sofremos às mãos dos líderes muçulmanos e cristãos locais, que não estavam interessados na existência de uma comunidade judaica.
Para se ser judeu no Uganda é necessário suportar intimidação, opressão e insultos. Debatemo-nos com restrições no acesso a serviços sociais administrados por muçulmanos e cristãos. Mas o Uganda não é um desafio só nosso.
Eu não pareço judeu aos olhos dos outros, mesmo da comunidade judaica internacional, e muitas vezes me perguntam, “como se tornou judeu?” e “quem o converteu?”
Apesar de ter enfrentado situações que colocaram a minha vida em risco durante os meus 34 anos enquanto judeu no Uganda, sou também apenas mais um membro de um povo especial – os judeus – que tem resistido durante muitos séculos de ódio e opressão e continuam a dizer shalom ao mundo.”

Gershom Sizomu, judeu do Uganda, actualmente a estudar na Ziegler School of Rabbinic Studies da University of Judaism, em Los Angeles. Testemunho retirado do livro I Am Jewish: Personal Reflections Inspired by the Last Words of Daniel Pearl, 2004.

[A comunidade Abayudaya, de judeus do Uganda, foi fundada em 1919 por Semei Kakungulu. Um tribunal rabínico (beit din), composto por rabinos conservadores, efectuou a “conversão em massa” dos membros da comunidade Abayudaya em Fevereiro de 2002, “legalizando” a situação dos judeus do Uganda aos olhos da comunidade judaica internacional.]

A visitar: A History of the Abuyudaya Jews of Uganda / Kulanu: The genesis of the Abayudaya Community / Kulanu: Visiting the Ugandan Miracle / The Jews of Africa – The Abayudaya of Uganda / Abayudaya: Music from the Jewish People of Uganda / Abayudaya: les juifs noirs de l’Ouganda / Economist.com | Uganda’s Jews / Jewish Post of New York Online – The Jews of Uganda / The Jewish Journal Of Greater Los Angeles – Out of Africa, Into the Valley / Moving Heaven And Earth (documentário).


Fotos de Richard Sobol.

A Israel

Quem me dirá se estás neste perdido
Labirinto de rios seculares
Do meu sangue, Israel? Ou os lugares
Que os nossos sangues têm percorrido?
Tanto faz. Sei que moras no sagrado
Livro que abarca o tempo e que essa história
Do rubro Adão redime e na memória
E agonia do Crucificado.
Estás nesse livro, que é sempre o reflexo
De cada rosto que sobre ele se inclina
E do rosto de Deus, que num complexo
E árduo cristal terrível se adivinha.
Salve, Israel, que guardas a muralha,
A de Deus, na paixão dessa batalha.

Jorge Luis Borges, Elogio da Sombra, 1969.

[via Contra a Corrente.]

::A LER::: Borges judío / Judeidad y Borges / Borges on The Jews / Evelyn Fishburn: Borges, Cabbala and “Creative Misreading” / Editorial Letralia: ” Borges e la Kabbalah / FORWARD : Why Jorge Luis Borges Wished He Was an ‘Israelite’ / Algunas reflexiones sobre el “judaísmo” de Borges” / Literatura e judaísmo: o rosto judeu de Borges, Gerson Roani.

“Expressões e palavras a abandonar”

Foi com uma série de posts com este título, no seu brilhante Bomba Inteligente, que a Charlotte lançou um repto que pegou como fogo na pradaria pela blogolândia.
O desafio de limpar a língua corrente de detritos foi aceite, complementado e comentado nos blogs The World as We Know It, Azul Limão, à Deriva, My Moleskine, Ad Libitum, O Acidental, What do you represent, Mar Salgado, No Quinto dos Impérios, Homem a Dias, Contra a Corrente, Mood Swing e Miniscente.
Antes de prosseguir, convém aqui confessar que nunca me chocaram utilizações inventivas da língua de Luís de Camões, João Ubaldo Ribeiro e da mãe de John dos Passos. Choca-me muito mais o atavismo luso, que leva muitos a recusarem ler livros em excelentes edições brasileiras, só porque nelas se troca “acto” por “ato” e “facto” por “fato”. Já li críticos conceituados, de diários lisboetas de referência, a menosprezarem “brasileirismos” em livros… impressos no Brasil. Pois. Mas essa é matéria para outros posts – quem quiser ler mais sobre o tema, pode visitar o Aviz, onde Francisco José Viegas escreveu já extensamente sobre o assunto.
Regressando às palavras e expressões que a nossa Charlotte gostaria de ver abandonadas, tendo a concordar com a maioria delas. De todas as entradas sugeridas pelos bloguistas, foi a do Rodrigo Moita de Deus, no seu Segundo Sentido, que mais me deixou a pensar. Escreve ele:

“Oiço alguém falar. Eu queria, eu gostava, eu tenho, eu faço, eu aconteço eu, eu, eu, eu… e que tal abolir também o excessivo culto de personalidade?”

Concordo com o Rodrigo, não pela linguística estrita, mas pelo aspecto ético. A minha proposta de adenda para erradicação vocabular entra também por este caminho. Mas mais do que o auto-engrandecimento contido nestas expressões, proponho que se abandone o maior exemplo de lambe-botismo entranhado na alma lusitana: o “senhor(a) doutor(a) lançado de rajada a toda a gente que tenha completado um ano na universidade.
Este senhor doutor é um exemplo ainda vivo de provincianismo novecentista queiroziano, cultivado até à exaustão pelos meus camaradas dos media, para quem qualquer político é senhor doutor.
Na Europa não me lembro de equivalentes (talvez à excepção da Itália). No resto do mundo apenas existe o culto do título académico na América Latina, e mesmo assim no Brasil a culpa é toda nossa, por via da herança colonial. No México, na Bolívia e no Peru, por exemplo, os presidentes, senadores e deputados são tratados por “licenciados”, uma expressão igualmente pomposa, mas pelo menos mais verdadeira.
Aqui estou completamente de acordo com os anglo-saxónicos: doutor só o médico, e mesmo assim em moderação (apenas no consultório). Os americanos abrem também uma excepção para os teólogos. Na América, os reverendos pastores são também doutores. Mas os encómios honoríficos ficam-se por ai. Senhor e senhora chegam-lhes perfeitamente. E para nós, portugueses, deveriam chegar também.
Em contrapartida, Portugal é o único país onde “engenheiro” e “arquitecto” são títulos passíveis de utilização em conversas normais para apresentar alguém: “Este é o senhor engenheiro. Senhor engenheiro, apresento-lhe o senhor arquitecto.” Lindo.
Que se abandone o senhor doutor, o senhor engenheiro e o senhor arquitecto. Mas especialmente o senhor doutor. Digo eu.
Fica já aqui uma promessa: o primeiro que me chame senhor doutor – e o disser assim, sem ironia, mesmo depois do doutoramento –, parafraseando um escritor brasileiro de quem muito gosto, “cascudo nele”!

“Porquê?”

Primo Levi

“Levado pela sede, olhei para um pingente de gelo do lado de fora da janela, ao alcance da mão. Abri a janela e parti-o, mas um guarda corpulento e pesado que rondava lá fora tirou-mo da mão abruptamente. “Warum?” Perguntei-lhe no meu mau alemão. “Hier ist kein warum” (aqui não há porquês), respondeu ele, empurrando-me para dentro.”

Se Questo è un Uomo“, Primo Levi (1919-1987); escritor, judeu italiano, sobrevivente de Auschwitz.

[Uma das suas mais paradigmáticas obras, “Se Isto é Um Homem” – escrito apenas um ano depois de ter saído do campo de concentração –, foi reeditado em Portugal há cerca de dois anos na Colecção Mil Folhas, do Público. Existe ainda à venda outra edição da Teorema, que publicou também “A Trégua”, a continuação de “Se Isto é Um Homem”, tido por muitos como a obra maior de Primo Levi.]

La synagogue


Sinagoga Portuguesa de Amsterdão. Foto de Amélia Pais (2004).

Ottomar Scholem et Abraham Loeweren
Coiffés de feutres verts le matin du sabbat
Vont à la synagogue en longeant le Rhin
Et les coteaux où les vignes rougissent là-bas

Ils se disputent et crient des choses qu’on ose à peine traduire
Bâtard conçu pendant les règles ou Que le diable entre dans ton père
Le vieux Rhin soulève sa face ruisselante et se détourne pour sourire
Ottomar Scholem et Abraham Loeweren sont en colère

Parce que pendant le sabbat on ne doit pas fumer
Tandis que les chrétiens passent avec des cigares allumés
Et parce qu’Ottomar et Abraham aiment tous deux
Lia aux yeux de brebis et dont le ventre avance un peu

Pourtant tout à l’heure dans la synagogue l’un après l’autre
Ils baiseront la thora en soulevant leur beau chapeau
Parmi les feuillards de la fête des cabanes
Ottomar en chantant sourira à Abraham

Ils déchanteront sans mesure et les voix graves des hommes
Feront gémir un Léviathan au fond du Rhin comme une voix d’automne
Et dans la synagogue pleine de chapeaux on agitera les loulabim
Hanoten ne Kamoth bagoim tholahoth baleoumim

Guillaume Apollinaire, poeta francês de ascendência judaica.

[via Abrupto, EARLY MORNING BLOGS 189]

A Minha Revolução

A minha Revolução

Ele há coisas que uma criança tem sérias dificuldades em compreender. Uma delas é perceber que não convém muito cantar nos transportes públicos as cantigas revolucionárias que o avô lhe ensina. As crianças não percebem nada de ditaduras caducas. Pelo menos eu não percebia.
Em 25 de Abril de 1974 eu tinha quatro anos e um caso agudo de parotidite. O nome clínico faz a coisa parecer muito mais grave do que era na realidade – afinal o que eu tinha era só papeira. Não se guardam grandes memórias dessa idade, mas há coisas que recordo por entre algumas neblinas. Lembro-me de ter um mostrengo de um inchaço no pescoço, e da minha irmã não parar de gozar comigo. Lembro-me de ter acordado cedo e de ver o meu pai sentado na cama, debruçado sobre um pequeno rádio a pilhas. Lembro-me dele perguntar se alguém sabia do meu avô. Lembro-me dos meus pais me terem levado ao hospital, a Lisboa, e da janela de trás do Renault 10 ver por todo o lado soldados de armas na mão. Lembro-me do meu pai buzinar e acenar-lhes com dois dedos levantados em “V”. Lembro-me dos meus pais rirem muito um para o outro. Felizes.
Em minha casa, até àquele dia, “política” tinha sido uma palavra feia, que evocava memórias dolorosas aos meus pais e à minha avó. O culpado era o meu avô, que teimava em desafiar o regime, cismando em conhecer-lhe as cadeias e os interrogadores da PIDE. A política, fazia-a ele às escondidas, tal qual como em casa me ensinava cantigas que um miúdo de quatro anos provavelmente não deveria aprender – hinos revolucionários e canções que falavam de Liberdade. Coisas que eu não imaginava o que fossem, mas que o meu avô sonhava um dia poder viver.
Em minha casa, o 25 de Abril de 1974 foi, acima de tudo, a revolução do meu avô. António Emídio, um homem que sempre desprezou a mediocridade, viu derrocar um regime medíocre e bolorento. É verdade que só tinha quatro anos, mas mesmo sem perceber muito bem, nem como nem porquê, comecei naquele dia a olhar para o meu avô como quem olha para um herói de livros de quadradinhos. Faz hoje 30 anos que o vejo assim.

Revolução

Para Cada Pessoa Há um Nome *

Para cada pessoa há um nome
outorgado sobre ela por Deus,
a ela dado pelos seus pais.

Para cada pessoa há um nome
concedido pela sua estatura
e pelo seu sorriso
e pela sua forma de vestir.

Para cada pessoa há um nome
vertido pelas montanhas
e pelas paredes que a circundam.

Para cada pessoa há um nome
dado pela roda da Sorte
ou por aquilo que os vizinhos lhe chamam.

Para cada pessoa há um nome
inscrito pelas suas falhas
ou pelos seus desejos.

Para cada pessoa há um nome
entregue pelos seus inimigos
ou pelo seu amor.

Para cada pessoa há um nome
derivado das suas celebrações
e da sua ocupação.

Para cada pessoa há um nome
apresentado pelas estações
e pela sua cegueira.

Para cada pessoa há um nome
que ela recebe dos mares
e que lhe é dado pela sua morte.

Zelda, poeta israelita falecida em 1984. Este poema, Para Cada Pessoa Há um Nome, tornou-se sinónimo da necessidade de recordar as vítimas do Holocausto e anualmente é recitado em cerimónias oficiais em Israel. Hoje, no 27º dia do mês hebraico de Nisan, comemora-se o Yom HaShoah, o Dia Memorial do Holocausto. Porque não se pode esquecer a História.


Gueto de Varsóvia, 1943
Uma das mais conhecidas imagens do Holocausto. Soldados nazis forçam os judeus a abandonar o gueto de Varsóvia, durante a revolta da resistência, em Abril e Maio de 1943.

Crianças judias no campo de concentração Auschwitz II (Birkenau)
Crianças judias no campo de concentração Auschwitz II (Birkenau), momentos após a libertação do campo por tropas soviéticas.

Crianças judias no campo de concentração Auschwitz II (Birkenau)
Prisioneiros no campo de concentração de Buchenwald, libertados pelo exército americano em Abril de 1945. O escritor e prémio Nobel Elie Wiesel aparece na foto – Wiesel é o último rosto completo visível, no segundo beliche a contar de baixo. Anos mais tarde Elie Wiesel escreveria: “Ficar em silêncio e indiferente é o maior pecado de todos”.

Crianças sobreviventes no campo de concentração Dachau
Sobreviventes no campo de concentração de Dachau celebram a chegada das tropas americanas.


O oficial das SS Eichelsdoerfer, comandante de Kaufering IV, é fotografado entre os corpos de prisioneiros mortos no seu campo de concentração.

A visitar:
Yom HaShoah Movie / Yad Vashem The Holocaust Martyrs’and Heroes’ Remembrance Authority / Survivors of the Shoah Visual History Foundation / Simon Wiesenthal Center / A Cybrary of the Holocaust, Remember.org / United States Holocaust Memorial Museum/ Ha Shoah / Holocaust (Shoah) Research Resources / The Optimists (The Story of the Rescue of the Bulgarian Jews from the Holocaust) / AMCHA – National Israeli Center for Psychosocial Support of Survivors of the Holocaust and the Second Generation / Anne Frank Center / Yad Layeled France / Center for Jewish History / Gedenkstätten für NS-Opfer in Deutschland (Memorial Museums for Victims of National Socialism in Germay) / The Mechelen Museum of Deportation and the Resistance / Shoah Project Titelseite / Testimonies: David M. Moore, 6th Armored Division

*Em hebraico, a palavra “nome” (shem) possui um simbolismo impar, por ser utilizada no discurso corrente e litúrgico como referência directa a Deus – HaShem, literalmente “O Nome”.