Lamento

Ó, tudo é tão longe
e foi tudo há tanto tempo.
Creio que aquela estrela
está morta há mil anos,
apesar de ainda lhe ver a luz.
Creio que naquele barco
passando pela noite
algo terrível foi dito.
Em casa um relógio
bateu…
Onde bate ele?…
Gostaria de andar
fora do meu coração
sob o céu aberto.
Gostaria de rezar.
Uma destas estrelas
tem de existir ainda.
Creio que sei
qual delas
persiste
e se ergue como uma cidade, branca
no céu ao fim de um raio de luz…

Rainer Maria Rilke (1875-1926), poeta austríaco de ascendência judaica.

[NT – a partir da tradução do alemão para o inglês da autoria de C.F. MacIntyre]

Max Beckmann (1884-1959), A Sinagoga, 1919

Um Cemitério Judaico na Alemanha

Yehuda Amichai

Numa pequena colina entre campos férteis
há um pequeno cemitério,
um cemitério judeu atrás de um portão enferrujado,
escondido por arbustos,
abandonado e esquecido.
Nem o som de orações
nem a voz dos lamentos se ouvem aqui
porque os mortos não louvam a Deus.
Soam apenas as vozes das nossas crianças,
procurando campas e rindo
sempre que encontram uma – como cogumelos na floresta,
como morangos silvestres.
Aqui está outra campa! Esta tem o nome da mãe da minha mãe
e um nome do século passado.
Está aqui um nome, e ali outro!
E quando eu limpava o musgo sobre o nome
Olha! uma mão aberta gravada na sepultura, a campa de um kohen,
os seus dedos abertos num espasmo de santidade e benção,
e aqui há uma campa resguardada por um mato de amoras
que têm de ser penteadas para o lado, como madeixas
na face de uma bela mulher amada.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Sexta-feira 13: Azar ou Sorte?

A propósito das superstições ligadas a sexta-feira 13, o Filipe, autor do excelente blog Respublica, desafia-me a comentar a possível conotação aziaga do número na tradição hebraica. Mas, na verdade, ela não existe. Em hebraico, 13 é um número extraordinariamente positivo.
Na língua hebraica os numerais são escritos com as letras do alfabeto (ou alefbet), às quais é atribuído um valor numérico (ver Gematria Hebrew Letter Chart – Introduction to Hebrew Numerology) – um pouco à semelhança da numeração romana. Assim, o número 13 escreve-se com as letras י Yud (10) e ג Gimel (3). Para desvendar as leituras semióticas da numerologia hebraica (gematria), é necessário, antes de mais, analisar o simbolismo dado a cada letra.
O Yud (י) é a primeira letra da palavra yetzer (impulso), denotando a tendência humana tanto para o altruísmo (yetzer hatov, aspecto positivo) como para o egoísmo (yetzer hará, aspecto negativo). Os sábios cabalistas aconselham a meditação na letra Yud como forma de ultrapassar estagnação e inspirar mudança a nível espiritual.
O Gimel (ג), por outro lado, reflecte as qualidades de bondade e crescimento. A expressão gamilut hasidim (boas-obras) traduz a essência de Gimel, a primeira letra também das palavras gadol (grande), guibor (poderoso) e guevurá (coragem). A meditação na letra Gimel desperta a capacidade de crescimento espiritual.
Ao contrário do que acontece no cristianismo, a tradição hebraica reserva ao número 13 uma conotação bastante positiva. Segundo a gematria, 13 é o valor numérico das palavras “amor” e “unidade”, denotando uma ligação intrínseca entre elas. Outro aspecto positivo do número no judaísmo é demonstrado pelo facto de rapazes e raparigas efectuarem os rituais de passagem de bar e bat Mitzvá aos 13 anos de idade, entrando assim na “maturidade religiosa”. Treze são também os atributos de Deus inscritos pelo rabino medieval Moisés ben Maimon (Maimonides) no hino Yigdal.

“The Passionof Gibson” (Adenda)

Li hoje que Mel Gibson está a considerar a possibilidade de colocar uma frase no final do seu The Passion of the Christ. Uma pequena frase, dizem as notícias, recomendada por historiadores e clérigos cristãos preocupados com a possibilidade do filme reacender antigas chamas de antisemitismo. Aqui vai a frase:
Durante a ocupação romana, 250 mil judeus foram crucificados pelos romanos, mas apenas um se levantou de entre os mortos.”

PS – Obrigado a Vicent e David Bengelsdorff, a Fernando Macedo, ao José, ao Marcos Osório, ao Rui, ao Tiago de Oliveira Cavaco, ao Afonso Neves, ao M. Marujo, ao Filipe Alves, ao Manuel, ao Nuno Mota Pinto e ao Francisco José Viegas pelos excelentes contributos para este debate.

Sagrada Violência

ou Jesus Segundo Mel Gibson

Foi com alguma antecipação (receio talvez seja a palavra mais apropriada) que assisti ontem à noite, aqui em Los Angeles, a um screening privado do polémico filme de Mel Gibson, The Passion of the Christ, ainda por estrear. Fiquei, confesso, bastante perturbado com o filme. Não pela mensagem. Nem sequer pelas razões que têm soprado as chamas da controvérsia – embora o alegado antisemitismo da narrativa mereça ser analisado. O que mais me chocou foi a extrema violência gráfica com que Mel Gibson resolveu pintar as últimas 12 horas da vida de Jesus.
Sangue a rodos, intermináveis grandes planos de feridas e uma violência brutal marcam todo o filme. Só a cena da flagelação de Jesus pelos soldados romanos dura mais de 15 minutos… é claro que isto não é nada quando comparado com o que de melhor se faz na “série B” de Hollywood. Mas também é verdade que o famoso Texas Chainsaw Massacre nunca foi usado para validar doutrinas religiosas. Na melhor das hipóteses, The Passion of the Christ é um cruzamento de teologia tridentina com Braveheart, com a crueza nua da violência extrema (ver um exemplo aqui) a ser usada aqui para sublinhar o papel sacrificial do messias cristão – uma opção doutrinária óbvia, escolhida em detrimento, por exemplo, da mensagem positiva dos evangelhos.
Mas porque razão estarei eu aqui a escrever sobre um filme de uma religião que não é a minha? A pergunta é perfeitamente legítima. Primeiro, porque a figura central do filme, Jesus, é, para todos os efeitos, um judeu – Yeshua ben Yosef, de seu nome hebraico original (para mais ver Jesus, o judeu). Segundo, porque o filme coloca o ónus da morte de Jesus exclusivamente nos judeus, não só nas autoridades do Templo, mas também colectivamente no povo de Jerusalém, livrando de responsabilidades aquele que os historiadores apontam como principal responsável pela execução do messias cristão: o governador romano, Poncio Pilatos.
Não tenho intenção de discutir aqui o carácter histórico dos evangelhos (textos sagrados de uma religião que não é a minha), mas quem já leu Mateus, Lucas e João sabe que existem contradições e inconsistências entre eles. Mas tudo isso é perfeitamente secundário, uma vez que a essência dos textos (escritos entre 80 a 150 anos após a crucificação) é doutrinária e não histórica.
No filme, seguindo quase à risca o relato evangélico de Mateus, o governador romano da Judeia, Poncio Pilatos, é mostrado como o relutante executor de Jesus, crucificando-o apenas “porque os judeus o queriam”. Esta bonomia apresenta-se em flagrante contraste com o que se sabe de Pilatos. Historiadores da época, como os judeus Flavius Josephus e Philo de Alexandria, descreveram de forma extensa e detalhada a brutalidade do governador romano da Judeia. “Inflexível, casmurro e cruel” foram adjectivos usados por Philo de Alexandria para descrever Pilatos, acusando-o ainda de “incomensuráveis actos de crueldade contra os judeus”, incluindo execuções de prisioneiros sem julgamento. A crucificação, aliás, era uma pena romana aplicada exclusivamente aos crimes de insubordinação política. Jesus é crucificado por alegadamente se intitular “o rei dos judeus” – o que Pilatos poderia ter recebido como um insulto à incontestável autoridade romana sobre a província.
Curiosamente, a carreira de Pilatos acabaria em desgraça precisamente por causa da sua brutalidade: no ano 36 é demitido e chamado a Roma pelo imperador Tibério, depois de ter ordenado o massacre de uma multidão de seguidores de um profeta samaritano.
Por tudo isto, os relatos evangélicos da sua relutância em condenar Jesus são lidos pelos historiadores como uma tentativa dos cristãos primitivos de tornar a narrativa da Paixão o menos censurável possível aos olhos romanos.
Quanto ao aparente antisemitismo, tanto dos textos evangélicos como do filme de Gibson, compreendo e aceito os primeiros, mas não consigo entender o segundo. Passo a explicar. Sempre que existiu uma cisão em qualquer religião, a identidade da nova facção é imposta primariamente por negação da anterior. Por isso é absolutamente compreensível que os evangelhos – sublinho textos doutrinários e não históricos – revelem algum ressentimento contra as autoridades religiosas da “estrutura mãe”. Séculos mais tarde, os escritos de Martinho Lutero ou Calvino viriam a revelar o mesmo sentimentos de revolta e negação voltados agora contra a Igreja Católica.
Agora, para ler as entrelinhas do filme de Gibson é necessário analisar a “fonte”. Mel Gibson é partidário de um grupo ultraconservador, os Servos da Sagrada Família, saído da Congregação São Pio X, fundada pelo cardeal Marcel Lefebvre – excomungado por João Paulo II em 1988, por desobediência, depois de consagrar quatro bispos sem autorização do Vaticano.
Para este movimento cismático (conhecido como “tradicionalista”), os aspectos doutrinários mais marcantes são a celebração da missa em latim (tridentina), o apelo à confissão diária dos crentes e a enfatização dos “tormentos do Inferno” para os que cometerem pecados mortais. Este “movimento tradicionalista” católico recusa aceitar as reformas decretadas pelo Concílio Vaticano II – entre elas a rejeição de que os judeus seriam de alguma forma responsáveis pela morte de Cristo, uma doutrina que a Igreja acalentou durante séculos, e que esteve na base de perseguições, chacinas, progroms e de um antisemitismo latente que se enraizou no mundo católico. Ao criar a Sociedade São Pio X, o cardeal Marcel Lefebvre propunha-se lutar contra as reforma ecuménicas do Vaticano II, por ele descritas como “marxistas” e “protestantes”.
É no seio desta “seita” católica ultraconservadora que surge a base doutrinária para o filme de Mel Gibson. “Eu vou a uma igreja onde e celebrada apenas missa em latim, segundo os ritos anteriores ao Vaticano II. Nos anos 60 muita gente dizia que tinha de se evoluir com os tempos, mas a verdade é que o criador instituiu coisas muito específicas, e nós não as podemos mudar só porque nos apetece”, disse Mel Gibson em 2001 em entrevista ao diário norte-americano USA Today. Mais recentemente, em declarações ao jornal italiano Il Gionale, Gibson foi mais longe atacando o Vaticano e o papa, chamando-lhe “um lobo disfarçado de ovelha”.
O pai do actor, Hutton Gibson, com 84 nos, é bem conhecido nos círculos tradicionalistas católicos. Autor de vários livros em que ataca abertamente a hierarquia máxima da Igreja, como “Is the Pope Catholic… Enough?”, o pai de Mel defende que a abertura desenhada com o Concílio Vaticano II foi desastrosa para a fé católica, advogando a necessidade de “voltar atrás”. Hutton Gibson é também um revisionista histórico, afirmando nos seus escritos que o Holocausto nunca existiu (ver nota biográfica Hutton Gibson – Wikipedia). Por isso, não me espantei quando comecei a ver esboços de uma campanha de promoção do filme de Mel Gibson em vários blogs portugueses de extrema-direita (para não dizer mesmo fascistas).
Agora, depois de ter visto o filme, há algumas conclusões a tirar. Como experiência cinematográfica pura e dura, é extremamente pobre e brutalmente violento. Já nem sequer vou mencionar o facto de ser integralmente falado em latim e num aramaico mal pronunciado. Salva-se apenas uma fotografia (cinematografia para os meus leitores brasileiros) razoável que consegue alguns momentos eficazes.
Mas, muito mais importante é perceber se os meus amigos cristãos se vão rever neste The Passion of the Christ, um filme inquestionavelmente enraizado em doutrinas cismáticas e marginais. Será que a mão cinematográfica de Mel Gibson fará vingar a visão ultraconservadora, e porque não revanchista, do cardeal Lefebvre? A pergunta fica no ar. Que me respondam os meus amigos cristãos. Sim, José, Fernando Macedo, Tiago de Oliveira Cavaco, David e Vincent Bengelsdorff, gostava de saber o que pensam.

Para mais sobre duas figuras centrais na Paixão de Jesus num contexto histórico aconselho uma passagem por Profiles of Joseph Caiaphas and Pontius Pilate, key figures in the arrest, trial and crucifixion of Jesus. (University of Missouri). Um excelente livro sobre o governador romano da Judeia é Pontius Pilate by Ann Wroe, editado nos EUA pela Random House. Uma recensão do livro de Ann Wroe pode ser lida aqui,
FT August/September 2000: Player in a Cosmic Drama

A minha antisemitazinha

Ao que parece, tenho uma antisemita de estimação. Ou melhor: ela tem em mim o alvo de estimação das suas raivinhas e odiozinhos. Não me apoquenta muito, confesso. Estou longe. Os rancorzinhos da minha antisemitazinha de estimação chegam-me por e-mail, um meio electronicamente esterilizado por excelência. De início, ainda tentei perceber o que estaria por detrás das palavras. Entretive, imaginem, a possibilidade de responder. Mas racionalizar o irracional é uma tarefa idiota em si mesma. Desisti. Agora, cada vez que a minha inbox anuncia a chegada de mais uma das cíclicas mensagens da minha antisemitazinha, os pêlos dos meus braços, e da nuca, já não eriçam como dantes faziam. Refastelo-me na minha poltrona de secretária, dou os dois cliques costumeiros, leio, encolho os ombros e apago. Assim, por esta ordem. Invariavelmente, a minha antisemitazinha odeia judeus e odeia que se escreva sobre judeus num blog escrito por um judeu.
Tirando o caso único da minha antisemitazinha, as mensagens que recebo alegram-me sempre e animam a vontade de continuar aqui a escrever. Pronto. Desabafei. Os meus leitores habituais que me perdoem esta breve interrupção. O blog segue dentro de momentos.

Estilo

Herberto Helder

– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é o modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para um plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos , do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos. (…)

Herberto Helder>, in Os Passos em Volta, 1963

Herberto HelderHerberto Helder nasceu no Funchal, na ilha da Madeira, em 1930, no seio de uma família de origem judaica. Em 1946, foi para Lisboa, onde terminou o liceu. Depois de uma rápida passagem pelo curso de Direito, em Coimbra, frequentou durante três anos a Faculdade de Letras de Lisboa. Em 1955, após um breve regresso à Madeira, Herberto Helder volta de novo a Lisboa, frequentando o Café Gelo, ao lado de Mário Cesariny, Luiz Pacheco, António José Forte, João Vieira e Hélder Macedo. Colabora em várias publicações literárias e publica o seu primeiro livro, O Amor em Visita, em 1958. Ao longo dos anos, Herberto Helder desempenhou várias profissões e viajou para vários países. Personagem discretíssima, foi distinguido em 1983 com o Prémio de Poesia do Pen Club Português, pelo livro A Colher na Boca. Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pelo conjunto da sua obra, distinção que recusou. (Nota biográfica via Herberto Helder – Biografia, Instituto Camões)

Imagens da diáspora dos Judeus Portugueses I

Lápide tumular de Clara Ferreira, cemitério judaico da ilha de Rodes, Grécia

“Abençoado seja o Juiz da Verdade. Entoai uma ode de lamento com voz amarga. Como Sara, a sua luz extinguiu-se. Lugar de enterro da honrada e nobre mulher, Clara, o pilar de Abraão Ferreira. Ela foi retirada deste mundo no 12º dia de Elul do ano de 5566 [1806]. Que a sua alma seja eterna.”

Lápide do túmulo de Clara Ferreira, 1806, ilha de Rodes, Grécia.

(Agradecimentos à Rhodes Jewish Historical Foundation)

O Caso Esquecido do Tenor Ladino

Aqui na Judiaria já se escreveu sobre o Ladino, já se postaram poemas, recomendaram links para ouvir cantigas e mesmo orações, tudo na língua mesclada dos judeus portugueses e espanhóis medievais. Mas a isto faltava uma outra coisa, algo de recorrente, que perpassa um pouco o todo deste blog: o esquecimento a que nós, portugueses, votamos parte da nossa alma colectiva.
E não se esquece só o passado distante, o dos mortos centenários. Esquecem-se também os vivos.
Serve esta entrada para dizer que um dos mais conceituados tenores “americanos” é um judeu português. Nascido em Lisboa, em 1931, descendente de uma longa linha de rabinos sefarditas, Nico Castel é neto de Abraão Castel – que durante mais de três décadas foi o rabino da comunidade judaica de Lisboa, imediatamente antes do saudoso rabino Abraão Assor. Tido como um dos maiores estudiosos da tradição musical dos judeus portugueses e espanhóis, Nico Castel é residente da Metropolitan Opera de Nova Iorque há 34 anos, leccionado ainda nas prestigiadas Juilliard School of Music, Mannes College of Music e Manhattan School of Music, de Nova Iorque; e no Instituto Israelita de Artes Vocais, em Tel Aviv. Apesar de já ter actuado no São Carlos, Castel é um virtual desconhecido em Portugal.

Para ouvir uma cantiga em Ladino (Cuando el rei Nimrod) na voz de Nico Castel é só clicar acima.

Nico CastelCuando el rei Nimrod

Cuando el rei Nimrod al Campo salia,
Mirava en el cielo i en la estreyeria,
Vido una luz santa en la Juderia,
que havia de naser Avraham Avinu,
Avraham Avinu, padre querido
padre bendicho, luz de Israel.
La mujer de Terah quedo prenhada
E dia en dia ele preguntava:
De que teneij la cara tan demudada,
eya ya savia, el bien que tenia(…)

De origem incerta, datada dos séculos XIV ou XV, esta canção conta a história do nascimento do patriarca Abraão. A Midrash conta que quando o rei Nimrod, famoso pelas suas previsões astrológicas, antecipou o nascimento de Abraão, viu também que ele estaria predestinado a negar a sua auto-proclamada divindade dinástica. Em desesperado, o rei ordena a matança de todos os recém nascidos do sexo masculino, mas Abraão sobrevive miraculosamente. Esta homenagem ao patriarca era cantada pelos judeus ibéricos na noite de shabbat, depois do jantar, e após as cerimónias da circuncisão (Brit Milá).

(Nico Castel com Plácido Domingo, revista Opera News, May 1981)
Nico Castel aparece aqui (à direita na foto) ao lado de
Plácido Domingo, numa fotografia publicada na edição
de Maio de 1981 da revista Opera News

Versos Ladinos

Três versos em Ladino retirados do CD “Sephardic Songs in the Hispano-Arabic Tradition of Medieval Spain” (Sarband, 1994)

“Ea Judios”
(Fancisco de Salinas- Salamanca-1577)
Ea Judios a enfardelar
Que mandan los Reyes
que passeys la mar.

“Yo en estando”
(Marrocos)
Yo en estando en la mi camà, ananá,
durmiendo como solía.
Tomí viguelita en manò, ononó,
temblíla como solía.

Dónde me fuera temblalá, ananá,
en casa de mi amiga.
Abre, la dije, mi almà, ananá,
abre, la dije, mi vida.

El nino tengo en los brazòs, ononó,
si abro despertaria.
Pónle un higuito en la manò, ononó,
de suyo se venceria.

Las puertas tengo i de pinò, ononó,
si abro rechinaría.
Echa vinagre en los quicìos, ononó,
de suyo se abriría.

El mal viejo está durmiendo, ononó,
si abro despertaría.
Échale trapos al viejò, ononó,
el sueno le venceria.

Ellos en estas palabras, ononó,
el viejo despertaria.
Que tienes tu, la mi mujer, ononó,
que te veo y sofocada.

Con el hijo de la vecina, nononó,
ke me trujo el pan quemado.
Te vea yo, la mi mujer, ononó,
en un patin ladrillado.

Te veas tu, el mal viejo, ononó,
con las cien hozmas de lena.
Con las cien hozmas de lena, ononó,
al forno vayas quemado.

“Yo m’estava reposando”
(Juan del Encina-1529)
Yo m’estava reposando
dormiendo como solía.
Acordé, triste, llorando,
con gran pena que sentia.

Três versos em Ladino retirados do disco “Sephardic Songs in the Hispano-Arabic Tradition of Medieval Spain” (Sarband, 1994), enviados por Ana Santos (obrigado!). A Ana sugere estas cantigas ouvidas na voz de Françoise Atlan. Para mais poemas em Ladino e informação sobre aquela que foi a língua franca dos judeus portugueses e espanhóis até ao século XV, aconselho este post. Para mais sobre música em Ladino, é imprescindível uma visita ao site The Ladino Music Hall.

Jacques Derrida

Retratos I – Judeus na Primeira Pessoa:

Jacques Derrida, 1997


Bon, alors on commence par l’affectif : j’étais un enfant, un petit élève très malheureux, c’est-à-dire que je souffrais beaucoup à l’école… Il faut dire que c’était en Algérie. Je suis entré en maternelle en 34-35 et très vite, c’était la guerre. Une école où les problèmes raciaux étaient déjà très sensibles : il y avait beaucoup de brutalités entre les élèves déjà, des bagarres entre les petits arabes et les petits français… donc une expérience de violence. Je me sentais enfant très exposé qui avait plutôt envie de rentrer chez lui et se protéger contre un univers qui paraissait extrêmement violent. J’étais à l’école primaire ce qu’on appelle un très bon élève, avec un rapport très apeuré devant la machine et dans le milieu des élèves que je sentais comme extrêmement violents. Et très vite, ça s’associe en moi, dans ma mémoire, à la guerre. Le régime vichyste était très marqué en Algérie ; il n’y avait pas d’allemands mais le pétainisme était très pesant, très sensible. Le souvenir des lettres qu’on devait envoyer au maréchal Pétain, et l’antisémitisme… Je suis juif. Et la violence prenait la forme non seulement des bagarres entre élèves, des propos antisémites, mais aussi de ceci : le pétainisme partout, les photos du maréchal partout… Une anecdote est restée gravée dans mon esprit : j’étais le premier de la classe. Cela accordait quelques privilèges. Tous les matins, il y avait une levée du drapeau avec le Maréchal, nous voilà ! Et je me suis aperçu un jour que, bien que premier, parce que juif, on ne me faisait pas lever le drapeau ! Alors que c’était les premiers de la classe qui devaient hisser le drapeau. Et d’un coup, je comprends… sans comprendre ! pourquoi on ne me laissait pas lever le drapeau… Donc bon élève… mais écriture impossible. J’avais une graphie illisible, et qui l’est restée depuis, toujours. Et déjà à ce moment-là, il y avait cette image que je sentais que je donnais de moi à ces bons maîtres : garçon doué mais dont l’écriture est impossible. J’avais un instituteur qui était déjà un ancien prisonnier de guerre libéré, ce devait donc être en 40, et qui était en même temps le chef des scouts de la petite ville de banlieue d’Alger où j’habitais. J’étais louveteau ; il pratiquait le scoutisme dans la classe et la classe était divisée en trois équipes : les hirondelles, les fourmis et les abeilles, et ça, c’était des équipes de scouts ! Avec des compétitions, les notes, dans cette atmosphère, cette idéologie pétainiste, ces équipes structuraient la classe ! Et moi j’étais, en tant que bon élève, le chef des abeilles. Et j’ai très mal supporté, pour les mêmes raisons de difficultés à me socialiser, mon expérience scoute. Je suis resté six mois scout et j’ai été très malheureux ; j’ai donc abandonné. Cet univers me paraissait très oppressif et j’y sentais l’idéologie pétainiste, l’antisémitisme. Je me souviens, pour en revenir à mon écriture, que ce même instituteur, pendant les récréations, me disait : ” Toi, tu remontes dans la classe me refaire ton exercice “, qui était trop mal écrit.

Conversation avec Jacques Derrida, Bernard Defrance

Diálogos Inter-Religiosos, Parte II – Os Conceitos de Julgamento e Vida Depois da Morte

Reposta ao Guia dos Perplexos

Nesta segunda parte (a primeira [O Conceito de Messias no Judaísmo] pode ser encontrada aqui), vou tentar estabelecer as diferenças fundamentais que separam as visões cristã e judaica em relação às noções de julgamento e vida após a morte. Mais uma vez, peço desculpa aos meus leitores menos dados a estas coisas das religiões comparadas, e questões doutrinárias, pela dimensão deste post – neste caso a expressão correcta nem será post, mas provavelmente estopada . Para os outros, aqui vai a tentativa de resposta às excelentes questões colocadas pelo post do Guia dos Perplexos.
No cristianismo em geral, e no catolicismo em particular, (peço ao José que me corrija caso esteja errado) as doutrinas do “pecado original” e da “corrupção da carne” concluem que o homem é incapaz de se livrar sozinho da sua inexorável bagagem de culpa. Esta desconfiança em relação ao que no judaísmo é descrito como “esforço ético” induz inevitavelmente os cristãos a duvidarem da eficácia do arrependimento enquanto forma única de reconciliação do “pecador” com Deus. Na exegese cristã, o homem está de tal forma imerso em culpa, na sua e na transmitida pelos pecados hereditários da Humanidade, que não existe para ele esperança de poder escapar à perdição sem a assistência da “graça”. No cristianismo essa “graça” é fornecida pelo sacrifício de Jesus, que “expiou os pecados da Humanidade”, segundo o dogma cristão, funcionando tecnicamente como uma “expiação a terceiros”.
A noção de “expiação indirecta”, isto é, o pagamento da punição não por aquele que transgride mas por um substituto, não existe no judaísmo – onde o sentido de justiça é tido como pedra basilar da harmonia do Universo. Na visão judaica, é perfeitamente injusto o sacrifício de uma pessoa inocente em nome das transgressões de outros. É injusto porque a justiça implica que sejam os transgressores a sofrer as consequências da transgressão.
A Torá (os cinco livros de Moisés que abrem o chamado Antigo Testamento) está recheada de exemplos disso mesmo. Quando o Criador ameaça punir aqueles que adoraram o bezerro de ouro, Moisés pede a Deus para ser ele a sofrer o castigo em nome do povo:

E aconteceu que, no dia seguinte, Moisés disse ao povo: Vós pecastes grande pecado; agora, porém, subirei ao Senhor; porventura farei propiciação pelo vosso pecado. Assim, tornou Moisés ao Senhor e disse: Ora, este povo pecou pecado grande, fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito.” (Shemót, Êxodo 32:30 a 32)

A este pedido de “expiação indirecta” de Moisés, a resposta de Deus não podia ser mais clara:

Então disse o Senhor a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei eu do meu livro.” (Shemót, Êxodo 32:30 a 32)

Na prática, esta resposta assenta num princípio simples – Moisés não pode pagar pelas transgressões do povo de Israel porque apenas aqueles que transgridem têm o dever (e obrigação) de acarretar as consequências. A justiça requer que “aquele que pecar” pague o preço justo das suas próprias acções. Convém aqui salvaguardar que esta punição, no judaísmo, é o resultado lógico de princípios de causa e efeito idênticos aos da física newtoniana, não implicando por isso uma acção directa de Deus. Isto pode ser traduzido numa analogia básica: quem coloca os dedos numa tomada eléctrica sofre um choque, não porque foi “castigado”, mas porque esse é o efeito correspondente à sua acção; os actos praticados no quotidiano obedecem às mesmas regras, traduzidas para um nível espiritual individualizado.
O carácter de responsabilização ética pelos actos individuais (causa e efeito) é um conceito fundamental do judaísmo. O processo de Tikkun (literalmente “correcção”), a que já fiz referência anteriormente aqui na Judiaria, assenta essencialmente nesta necessidade de gradualmente “emendar” e “corrigir” os defeitos da alma para assim se poder evoluir espiritualmente. Esta correcção passa por um processo genuíno de Tchuvá – admissão dos erros, arrependimento honesto, restituição sempre que tal seja viável.
Esta noção é reforçada, entre muitos outros exemplos, nos escritos do profeta Ezequiel:

“Porque razão as pessoas usam esse dito a propósito da terra de Israel: ‘Os pais comeram uvas ácidas e os filhos ficaram com os dentes embotados’? Tão certo como eu viver, diz o Senhor Deus, não hão-de dizer mais tal coisa em Israel, porque todas as almas me pertencem e hão-de ser julgadas – tanto pais como filhos, da mesma forma – e a minha regra é esta: É unicamente por causa dos seus pecados que uma pessoa morrerá.” Nevi’im, Yechezqel; Ezequiel 18:2 e seguintes)

Por tudo isto, o conceito de “expiação indirecta” é incompatível com o judaísmo. Agora, aqui entronca a outra questão colocada pelo José no seu post do Guia dos Perplexos: como pode ser esta leitura conciliada com escrituras em que pessoas parecem ser castigadas pelas transgressões dos seus antepassados? Um exemplo concreto deste último caso pode ser encontrado em Shemót; Êxodo 20:5:

“(…) eu, o Senhor, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos país nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem.”

É com base nesta contradição aparente que partimos para a fase seguinte deste post: a vida depois da morte.
Como conciliar esta citação do Livro de Êxodo com esta outra, contida em II Melachim – II Reis 14:6?

“Porque os filhos dos matadores não matou, como está escrito no livro da Lei de Moisés, no qual o Senhor deu ordem dizendo: Não matarão os pais, por causa dos filhos, e os filhos não matarão, por causa dos pais; mas cada um será morto pelo seu pecado.”

Os rabinos interpretam a passagem de Êxodo citada acima como uma alusão clara a uma das menos conhecidas doutrinas do judaísmo – a reencarnação.
Explicando Shemót (Êxodos 20:5), o rabino Shimon Bar Yochai escreve no Zohar (Sefer Ha’Zohar, o Livro do Esplendor, o maior tratado místico do judaísmo):

“Está escrito: ‘visito a maldade dos país nos filhos até à terceira e quarta geração’. Estes são a mesma árvore, a mesma alma voltando uma, duas, três e quatro vezes, querendo dizer que encarnou e veio em quatro corpos, sendo punido pelos primeiros pecados na quarta encarnação. Porque o pai, o filho, a terceira e quarta geração (estas quatro encarnações) são um; uma alma que não fez as suas correcções nem atendeu a elas. É por isso punida pelos pecados nas primeiras encarnações. O inverso é também verdade. Uma árvore bem estabelecida pelas encarnações permanece firme, e está escrito: ‘mas mostrando clemência’…”

Sefer Ha’Zohar; Parshat Yitro 30:518

(Sefer Ha’Zohar; Parshat Yitro 30:518 tradução do aramaico original para o hebraico efectuada e comentada pelo rabino Yehudah Ashlag.)

Antes de prosseguir, convém aqui sublinhar que a doutrina da reencarnação, também conhecida como “transmigração das almas” ou Gilgul Neshamot, é uma parte integrante e bastante bem documentada do judaísmo. A doutrina é amplamente explicada no Zohar e posteriormente pelo rabino Isaac Luria no livro Shaar Ha’Gilgulim (Os Portais das Reencarnações), escrito em meados do século XVI.
Rav Avraham Brandwein, um rabino contemporâneo, reitor da Yeshiva (academia religiosa) Kol Yehuda Zvi, de Jerusalém, escreve que em Shaar Ha’Gilgulim, Isaac Luria “explica que Adão possuía uma alma universal (neshamah klalit) que incluía aspectos de toda a criação. A sua alma incluía também a unidade de todas as almas da Humanidade. É por isso que uma única acção sua pôde ter um impacto tão poderoso. Depois de ‘ter comido da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal’, a sua alma fragmentou-se em milhares e milhares de pedaços [faíscas] – fragmentos e fragmentos de fragmentos – que subsequentemente viriam a encarnar em cada ser humano que nasceu até hoje e que ainda nascerá. O objectivo destes fragmentos/almas é realizar juntos o tikkun (rectificação) que Adão deveria ter alcançado sozinho.”
Assim, a questão colocada pelo José no seu post do Guia dos Perplexos, quanto à visão judaica da vida após a morte, fica parcialmente respondida.
Quando no postEm que Acreditam os Judeus” escrevi que “no judaísmo não existem os conceitos de Céu, Inferno ou Salvação” e que, por isso mesmo, as preocupações teológicas e éticas do judaísmo se centram “unicamente nesta vida”, o sentido tinha como ponto de partida uma comparação com as doutrinas cristãs. No judaísmo não existe o conceito de “punição eterna” contido na definição cristã de Inferno. Após a morte, parte da alma é “reciclada” e volta a encarnar, de forma a efectuar as correcções (Tikkun) necessárias para que possa cumprir o seu destino final de reunificação ao Criador.
Para perceber isso é necessário compreender a visão judaica da estrutura da alma. Os tratados rabínicos do Talmude e as escrituras místicas do Zohar dividem a alma em cinco partes distintas:

1.Nefesh– o estrato mais básico, ligada à componente animal, sede dos instintos e das reacções do corpo.
2.Ruach – o espírito, ou a “alma intermédia”, ligada à compreensão moral das distinções entre o bem e o mal.
3.Neshama – a “alma alta”, ligada ao intelecto, separa a humanidade das restantes criaturas vivas; permite ao indivíduo reconhecer a existência de Deus e participar na vida eterna.
4.Chayyah – segmento da alma permanentemente consciente da força da Luz Divina.
5.Yehidah – A mais elevada parte da alma, com capacidade de alcançar unidade perfeita com o Criador.

O objectivo da evolução espiritual é ao mesmo tempo individual (porque tem de ser assumido por cada ser humano) e colectivo (no caminho da reunificação total da “alma primordial” adâmica). Uma vez alcançado o objectivo final, a evolução espiritual de toda a humanidade, escrevem ainda os rabinos do Talmude, então virá a era messiânica e a ressurreição. “O Messias filho de David [Ha’Moshiach ben David] não virá até que todas as almas no Guph cheguem ao fim”, lê-se no Talmude (Tratado Jebamoth 62a).
Sem querer entrar aqui em detalhes demasiado obscuros, convém sublinhar que os rabinos cabalistas – uma tradição que marca hoje o todo do judaísmo ortodoxo, especialmente o sefardita – encaram as almas individuais como estilhaços literais (ou “faíscas”) de um “corpo comum” existente antes da Criação. O rabino quinhentista Isaac Luria (cognominado Ari Ha’Kadosh, o “Leão Sagrado”), com a sua doutrina do Tzimtzum, é responsável por aquilo que muitos encaram como a primeira formalização conceptual da teoria do Big Bang, ao descrever pormenorizadamente, no século XVI, a contracção e explosão primordiais que teriam dado origem ao Cosmos. E aqui convém sublinhar que Isaac Luria, o mestre rabino de Safed, viveu quase 500 anos antes do belga Georges Lemaître ter efectuado, em 1927, os primeiros esboços científicos do que seria a teoria do Big Bang. Para uma interessante comparação entre as duas aconselho a leitura de “Isaac Luria and the Big Bang Theory”.
[Os pontos de intersecção entre a ciência moderna e a Cabalá judaica são um universo fascinante que, desde já, prometo voltar a abordar aqui em breve. Formulações científicas, como os modelos matemáticos de Simon Yeger, as “Dez Dimensões”, a “Superstring Theory” e a “Teoria de Tudo”, fazem agora eco de fórmulas descritas por rabinos cabalistas há mais de dois milénios. É também fascinante o facto de Isaac Newton, no século XVII, por exemplo, ter deixado mais escritos sobre Cabalá do que sobre física e matemática. Mas isso são temas para posts futuros…]
Assim, segundo Luria, as almas individuais não são mais do que pedaços de uma alma colectiva primordial indicando, na prática, que as diferenças perceptíveis existentes entre os homens (etnia, sexo, nacionalidade, idade, opiniões, etc.) não passam de meras ilusões fornecidas pelos cinco sentidos [outro conceito que prometo aprofundar mais tarde]. Numa interessante alegoria, os rabinos referem-se às almas individuais como pequenas pedras fragmentadas de uma imensa montanha – apesar de serem aparentemente únicas e individuais, nunca deixam de ser sempre pedaços da montanha. As diferenças aparentes entre os homens mascaram assim o facto do conjunto da humanidade ser, em essência, uno: somos UM – um grito cabalista ainda hoje recitado diariamente nas sinagogas do mundo.

Bibliografia consultada: “Disputation and Dialogue: Readings in the Jewish-Christian Encounter”lmage; “Wheels of a Soul – Reincarnation – Your Life Today and Tomorrow”, Rabino Philip Berg; “The Power of One”, Rabino Philip Berg; “Safed Spirituality: Rules of Mystical Piety, the Beginning of Wisdom”, Lawrence Fine; “Judaism in Practice – From the Middle Ages through the Early Modern Period”, Lawrence Fine; “Physician of the Soul, Healer of the Cosmos: Isaac Luria and His Kabbalistic Fellowship”, Lawrence Fine; “Everyman’s Talmud”, Rabino A. Cohen.

Morrer em Diferido

Ninguém escreveu sobre os seus sorrisos. Ninguém lhes apontou as qualidades ou os defeitos. Não se reclamou contra a mediatização das suas mortes. Faltaram as câmaras em directo. Vítimas da banalização do sofrimento, no país que chorou Miklós Fehér, os dez mortos de Jerusalém recebem um encolher de ombros, como se o destino de morrer no autocarro 19, ontem antes das nove da manhã, na esquina das ruas Gaza e Arlozorov, lhes tivesse sido ditado justamente. Como se o ódio podesse alguma vez ser razão alguma. Como se a causa justa de um povo se podesse construir com alicerces assentes em eviscerados corpos inocentes.

Kadish
Avraham (Albert) Balhasan, 28 anos; Rose Boneh, 39; Chana Bunder, 38; Anat Darom, 23; Octavian Floresco, 42; Natalia Gamril, 53; Baruch Hondiashvili, 38; Dana Itach, 24; Eli Zfira, 48; e Yehezkel Goldberg, 41.

Para que a memória não apague estas imagens.

NOTA: o vídeo a que este link se refere (gravado momentos após o atentado) contém imagens verdadeiramente chocantes, não aconselháveis a pessoas mais sensíveis.

Um Pastor Árabe Procura a sua Cabra

Yehuda Amichai

Um pastor árabe procura a sua cabra no Monte Sião
e na colina oposta eu procuro o meu filho pequeno.
Um pastor árabe e um pai judeu
ambos envoltos em falhanços temporários.
As nossas vozes encontram-se, acima
da lagoa do Sultão, no vale que nos separa.
Nenhum de nós quer o rapaz ou a cabra
presos nas rodas
da máquina de Had Gadya.*
Encontramos os dois entre os arbustos,
e a nossa voz regressa dentro de nós
rindo e chorando.
Procurar uma cabra ou uma criança sempre foi
o princípio de uma nova religião nestas montanhas.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

* Had Gadya quer dizer literalmente “pequena cabra”. É também o nome de uma canção da Páscoa judaica cantada em aramaico, uma lengalenga, que conta a história de uma pequena cabra comida por um gato; o gato é mordido por um cão; o cão leva com um pau; o pau é queimado pelo fogo; o fogo é apagado com água; a água é bebida por um boi; o boi é morto por um talhante; o talhante é morto pelo Anjo da Morte; e o Anjo da Morte é morto por Deus.

A Inquisição e o Declínio
do Império Português

“Quando os Portugueses conquistaram o Atlântico sul, estavam na vanguarda da técnica de navegação. Um empenho em aprender com cientistas, muitos deles judeus, fizera que os conhecimentos adquiridos fossem directamente traduzidos em aplicações práticas; e, quando, em 1492, os Espanhóis decidiram compelir os seus judeus a professar o cristianismo ou abandonar o país, muitos encontraram refúgio em Portugal, nessa época mais complacente quanto aos seus sentimentos antijudaicos. Mas em 1497, pressões da igreja católica e de Espanha levaram a coroa portuguesa a abandonar essa tolerância. Cerca de 70 mil judeus (1) foram forçados a um baptismo espúrio, embora válido como sacramento. Em 1506, Lisboa viu o seu primeiro “progrom”, que deixou um saldo de 2000 “cristão-novos” mortos (2) (a Espanha já adoptava essa prática há duzentos anos). Desde então, a vida intelectual e científica de Portugal desceu a um abismo de intolerância, fanatismo e pureza de sangue.
O declínio foi gradual. A Inquisição Portuguesa só foi instalada na década de 1540 e o seu primeiro auto-de-fé três anos depois; mas só se tornou sombriamente implacável na década de 1580, depois da união das coroas portuguesa e espanhola. Muitos estrangeiros, comerciantes e homens de ciência, acharam entretanto que a vida em Portugal estava a ficar demasiado perigosa para justificar a saída do país em massa. Levaram com eles dinheiro, experiência comercial, ligações, conhecimentos e – ainda mais importante – aquelas qualidades imensuráveis de curiosidade e inconformismo que constituem o fermento do pensamento.
Foi uma perda, mas em questões de intolerância a maior perda é a que o perseguidor inflige a si próprio. É esse processo de autodiminuição que confere à perseguição a sua durabilidade e a torna, não o acontecimento de um dado momento, ou de um reinado, mas de vidas inteiras, de gerações e de séculos. Em 1513, Portugal precisava de astrónomos; na década de 1520, a liderança científica tinha acabado. O país tentou criar uma nova tradição astronómica e matemática cristã, mas fracassou, até porque os bons astrónomos foram alvo da suspeita de judaísmo.
Tal como em Espanha, os Portugueses esforçaram-se ao máximo em fechar-se a influências estrangeiras e heréticas. A educação formal era controlada pela Igreja, que mantinha um currículo medieval centrado na gramática, retórica e argumentação escolástica. Característicos eram o exibicionismo e o bizantinismo (247 regras rimadas e decoradas da sintaxe de substantivos latinos). A única ciência de nível superior seria encontrada na faculdade de medicina de Coimbra. Mesmo aí, porém, poucos professores estavam dispostos a trocar Galeno por Harvey, ou a ensinar as ideias ainda mais perigosas de Copérnico, Galileu e Newton, todos banidos pelos Jesuítas ainda em 1746.
Deixou de haver mais jovens portugueses a estudar no estrangeiro e a importação de livros era rigorosamente controlada por fiscais enviados pelo Santo Ofício para inspeccionar os navios que chegavam e visitar livrarias e bibliotecas. Um índice de obras proibidas foi preparado pela primeira vez em 1547; sucessivas ampliações culminaram na gigantesca lista de 1624- a mais recomendada para salvar as almas portuguesas.
(…)
Claro que era impossível isolar um país envolvido no concerto da Europa e na disputa por um império. Os diplomatas e agentes portugueses no estrangeiro regressavam ao país com a mensagem de que o resto do mundo estava a avançar, enquanto Portugal ficava parado no tempo. Esses “estrangeirados” – uma alcunha pejorativa – atraíram profundas suspeitas, pois estavam “contaminados”. A sua rejeição estava implícita no orgulho português. Profundamente desastroso. Eles perceberam o que pouco portugueses podiam ou queriam ver: que a busca da pureza cristã era estúpida, que o Santo Ofício da Inquisição era um desastre nacional; que a Igreja devorava a riqueza do país; que o fracasso do governo em promover a agricultura e a indústria tinha reduzido Portugal ao papel de ‘melhor e mais lucrativa colónia da Inglaterra’. Através desse isolamento auto-imposto, os Portugueses perderam a competência até mesmo nas áreas que anteriormente tinham dominado. ‘De líderes na vanguarda da teoria e prática de navegação passaram a andar sem rumo muito atrás dos outros’, como afirmou D. Luís da Cunha, por altura da assinatura do Tratado de Methuen.”

in A Riqueza e a Pobreza das Nações: Porque são algumas tão ricas e outras tão pobres, David S. Landes, Gradiva 2002.

 Index et Catalogus Librorum prohibitorum, mandato Illustriss. ac Reverendis (Department of Special Collections da University of Notre Dame – The Inquisition Collection)

::Notas da Rua da Judiaria::
1) Os historiadores debatem ainda o número de judeus portugueses convertidos à força ao catolicismo, mas estima-se que este ascenda a mais de 150 mil pessoas. É, mesmo assim, consensual que existiam no reino de Portugal por alturas de 1497 cerca de 200 mil judeus – numa população total sensivelmente superior a um milhão de portugueses. Apenas uma pequena percentagem terá conseguido emigrar. Os que ficaram, tornaram-se “cristãos-novos” forçados (cripto-judeus na maior parte dos casos) – obrigados a uma existência de medos e dualidades, aos poucos os judeus secretos foram abandonando as actividades intelectuais (astronomia, medicina, física, matemática, filosofia) que até então tinham marcado o judaísmo português e ibérico. A dimensão da comunidade judaica portuguesa dos finais do século XV e princípios do século XVI era tal que fora de Portugal havia uma confusão recorrente entre “português” e “judeu”: “Um professor de grego da França, convidado a ensinar a sua disciplina em Portugal, aceitou o convite, mas tratou antes de aprender ele próprio a língua hebraica, que supunha fosse a língua oficial dos habitantes do reino, seus futuros discípulos.” (Elias Lipner, “O Sapateiro de Trancoso e o Alfaiate de Setúbal”, p.19). “Certo padre português, cristão-velho, interpelando um cardeal romano a respeito de um benefício eclesiástico que este dera a um português cristão-novo, ouviu do interpelado a seguinte resposta: ‘Andai, que vós portugueses sois judeus, e o vosso rei é o rei dos judeus’.” (Mendes dos Remédios, “Os Judeus em Portugal”, Vol. II, p.417)

2) O número de mortos resultantes do progrom de Lisboa, ocorrido em Abril de 1506, também não é certo, embora a maior parte das fontes e testemunhos da época apontem para cerca de quatro mil pessoas (cripto-judeus / cristãos-novos) chacinadas na sequência de motins antijudaicos incitados por frades dominicanos. No Rossio, contam Samuel Usque e Damião de Góis, o chão ficou “tapado com montanhas de corpos mutilados”. “Mais de quatro mil almas morreram(…)”, escreveu Samuel Usque em “Consolação às Tribulações de Israel” (1553).

“Von dem Christeliche / Streyt, kürtzlich geschehe / jm. M.CCCCC.vj Jar zu Lissbona / ein haubt stat in Portigal zwischen en christen und newen chri / sten oder juden , von wegen des gecreutzigisten [sic] got.”

Panfleto anónimo, impresso na Alemanha (presumivelmente poucos meses depois do massacre de Lisboa). O “progrom” de 1506 contra os judeus de Lisboa é descrito em detalhe e as matanças contadas ao pormenor. A gravura do frontispício mostra os corpos mutilados e envoltos em chamas de dois judeus portugueses, dois irmãos, os primeiros a morrer num massacre que vitimou mais de 4 mil pessoas.

(Esta gravura é reproduzida aqui na Judiaria a partir de uma cópia publicada pelo Hebrew Union College, Cincinnati, OH. O original, bastante raro, encontra-se na Houghton Library, Harvard University)