A guerra III

Ataques do Hezbollah unificam israelitas

artigo de Amos Oz


No passado, o movimento israelita pela paz tem criticado inúmeras vezes as operações militares de Israel. Desta vez não. Desta vez não se trata de expansão ou colonização israelitas. Não há território libanês ocupado por Israel. Não há disputas territoriais de qualquer dos lados.
O Hezbollah lançou um ataque, malicioso e não provocado, em território Israelita. Foi também um ataque à autoridade e integridade do governo libanês eleito porque, ao atacar Israel, o Hezbollah sequestrou a prerrogativa do governo libanês de controlar o seu território e de tomar decisões de guerra e paz.
O movimento israelita pela paz opõe-se à ocupação e colonização da Cisjordânia. Opôs-se à invasão israelita do Líbano em 1982 porque ela se destinou a distrair o mundo do problema palestiniano. Desta vez, Israel não está a invadir o Líbano. Está a defender-se de tormentos e bombardeamentos diários a dezenas das nossas cidades e vilas, tentando esmagar o Hezbollah onde quer que ele se esconda.
O movimento israelita pela paz deve apoiar a tentativa de autodefesa de Israel, pura e simplesmente, enquanto o alvo desta operação for o Hezbollah e ela poupar, o quanto for possível, a vida de civis libaneses (o que não é uma tarefa fácil, porque os lança mísseis do Hezbollah usam muitas vezes os civis como escudos de protecção).
Não pode haver uma equivalência moral entre o Hezbollah e Israel. Os alvos do Hezbollah são civis israelitas, onde quer que eles se encontrem, enquanto o alvo de Israel é o Hezbollah. Os mísseis do Hezbollah são fornecidos pelo Irão e pela Síria, inimigos jurados de todas as iniciativas de paz para o Médio Oriente.
A verdadeira batalha devastadora destes dias não é entre Beirute e Haifa, mas entre uma coligação de países que procuram a paz – Israel, Líbano, Egipto, Jordânia e até a Arábia Saudita – e um islamismo fanático alimentado pelo Irão e pela Síria.
Se, como todos nós esperamos – “falcões” e “pombas” israelitas da mesma forma – o Hezbollah for derrotado em breve, Israel e o Líbano serão os vencedores. Além do mais, a derrota de uma organização fundamentalista islâmica apostada no terror pode aumentar grandemente as possibilidades de paz para a região.

Amos Oz é um dos escritores israelitas mais reconhecidos internacionalmente e uma das mais influentes vozes do movimento israelita pela paz

A guerra II

Jogar o jogo do Hamas

Editorial do New York Times


Com o círculo de violência no Médio Oriente a expandir-se de forma alarmante, é importante que fique claro não só quem são os responsáveis pela recente erupção, mas quem também tem mais a ganhar com a sua escalada continuada.
Ambas as questões têm a mesma resposta: o Hamas e o Hezbollah. E Israel precisa de ter cuidado para que as suas respostas militares, moral e legalmente justificadas, não acabem por fazer avançar a agenda política que o Hamas e o Hezbollah tinham em mente quando executaram os raptos dos soldados israelitas que detonaram os combates.
A Autoridade Palestiniana, que o Hamas controla, e o governo libanês, no qual o Hezbollah tem uma participação minoritária, falharam de forma inescusável na prevenção destes incidentes. O Irão, que arma e financia o Hezbollah, e a Síria, que dá guarida à ala mais violenta do Hamas, também partilham responsabilidades.
Israel tem profundas justificações para tratar estes dois incidentes como inaceitáveis actos de guerra. Mas precisa adaptar os seus métodos de resposta às situações que agora enfrenta. O objectivo é enfraquecer e isolar o Hamas e o Hezbollah e, ao mesmo tempo, negar-lhes a oportunidade de congregarem um apoio árabe mais amplo.
Com este fim em vista, Israel tem de direccionar os seus objectivos militares aos líderes e aos guerrilheiros destes dois grupos, e fazer mais para minimizar os danos aos civis circunstantes.
A razão é esta: os caciques militares do Hamas e do Hezbollah sabem perfeitamente que as suas milícias primitivamente armadas com mísseis de alcance limitado não se podem comparar com as forças armadas israelitas. Quando desencadeiam acções de provocação, como os recentes raptos de soldados israelitas ou bombardeamento de cidades em Israel, eles não esperam ganhar nenhum tipo de vitória militar tradicional.
O que eles esperam de forma mais realista é que a inevitável devastadora resposta militar israelita lhes dê a oportunidade de radicalizar a política árabe e assim pressionar líderes árabes moderados a distanciarem-se de Israel e a apoiar a causa terrorista. Esta é a táctica que grupos palestinianos seculares como a Fatah iniciaram há décadas, e que grupos fundamentalistas islâmicos como o Hamas e o Hezbollah utilizam agora com os mesmos fins.
Esta dinâmica perversa está outra vez em jogo depois dos ataques de Israel em Gaza e no Líbano. A maioria dos árabes não culpa o Hamas e o Hezbollah por provocar estas respostas israelitas. Culpabilizam Israel por as executar.
Esta reacção não é justa. Mas é desta forma que as coisas funcionam, e os instigadores do Hamas e do Hezbollah e os seus aliados em Damasco e Teerão sabem como usar esta técnica para seu proveito a longo prazo. Os líderes políticos e militares israelitas precisam de perceber isso mesmo e não se deixarem enredar no jogo dos instigadores.”

A Guerra I

Quando se trata de Israel

uma crónica de Francisco José Viegas


Quando se trata de Médio Oriente, ou seja, quando se trata de atacar Israel, a tarefa está facilitada em larga escala. Um contingente de meninas idiotas e genericamente ignorantes, que assina peças de “internacional” nas nossas televisões, não se tem cansado de falar na “agressão israelita” e apenas por pudor, acredito, não tem valorizado os “heróis do Hezbollah”. Infelizmente, nem a ignorância paga imposto nem o seu atrevimento costuma ser punido.
Isolado desde 1947, quando as Nações Unidas decidiram pela criação de dois estados na região (um israelita, outro árabe) Israel não enfrenta apenas a provocação deliberada ou pontual do Hamas e do Hezbollah. Essa provocação tem sido permanente e é ela a razão de não existir na região um estado palestiniano livre e democrático – não o quiseram, primeiro, os estados árabes da região que invadiram Israel mal a sua independência foi pronunciada; não o quiseram, depois, os estados que tutelaram os actuais territórios da Faixa de Gaza e da Cisjordânia; não o quis, depois, todo o conjunto de organizações militares terroristas nascidas à sombra da OLP e da figura tutelar de Yasser Arafat, a quem cabem historicamente responsabilidades directas na falência dessa tentativa de criar um estado palestiniano.
Quando se trata de Médio Oriente, ou seja, quando se trata de atacar Israel, a tarefa não está apenas facilitada – os caminhos abrem-se para o lugar-comum, como se vê pelas declarações, tiradas a papel químico, de Chirac e de Zapatero, esses dois superlativos génios da política externa europeia. Não passou pelas suas cabeças, uma única vez, pedir responsabilidades ao Hezbollah e ao Hamas pelos motivos que levaram a esta reacção de Israel. Para ambos é, pois, normal que um governo do Hamas possa alimentar uma facção militar independente, que actua em guerra permanente com Israel; é também normal que um estado da região, o Líbano, possa albergar campos militares do Hezbollah, abastecidos pela Síria e pelo Irão, e destinados a atacar um estado soberano – que, além do mais, é o único estado democrático da região; e é para eles normal que Síria e Irão, além de abastecerem duas organizações militares terroristas, se regozijem abertamente com o rapto de soldados israelitas.
A preocupação destes diplomatas da recessão é, fundamentalmente, com a “reacção de Israel”; em seu entender, a reacção ideal de Israel seria o silêncio total; Israel devia conformar-se com o seu destino e permanecer como o alvo de todo o terrorismo da região, pacientemente alimentado, aliás, pelos europeus que continuam a manifestar “ampla compreensão” pela atitude dos bombistas suicidas e pelos que disparam rockets a partir de Gaza ou do Vale de Bekkah; Israel deveria, pura e simplesmente, acatar.
Evidentemente que nenhum desses cavalheiros pensou pedir ao Hamas, partido vencedor nas eleições dos territórios, eventuais responsabilidades na escalada de violência na região. É para eles natural que o governo do Hamas não reconheça o estado de Israel e esteja a alimentar, com toda a clareza, as facções militares que continuam, naquele folclore infantil de danças e gritos pelas ruas de Gaza, a pedir a eliminação de Israel e a vinda de mísseis iranianos para “destruir o estado sionista”. Esse folclore imbecil, sim, talvez os devesse preocupar ele é também pago com contribuições da União Europeia e do seu politicamente correcto.”

Crónica publicada no Jornal de Notícias

Portugal apaga Irão do mapa… do Mundial

O cantinho do hooligan

Portugal 2 – Irão 0


Nas bancadas, ao mesmo tempo que Deco e Cristiano Ronaldo selavam o destino da selecção iraniana, adeptos portugueses erguiam a bandeira de Israel.

Horas depois…

Num dos jogos mais emotivos deste Mundial, o Gana vence a República Checa por 2 a 0. No final, festejando a vitória, John Pentsil, jogador do Gana, tira das meias uma bandeira que ali escondera durante todo o jogo: a azul e branca de Israel. Pentsil, que joga no Hapoel Tel Aviv, é um de três jogadores da selecção do Gana a jogar em Israel.

Mazel Tov Francisco!


A vida escondida. Há gente surpreendente, não damos nada por ela e um dia surpreendem-nos, viveram em lugares estranhos, caçaram leões, perderam-se a voltar para casa e nunca mais voltaram, conseguiram ler Saramago ou ganharam um prémio de literatura. Há sempre uma surpresa à nossa espera.”

Longe de Manaus, palavras de Jaime Ramos escritas por Francisco José Viegas (pág. 201)

Dos jornais: “O Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2005 foi ontem atribuído ao livro “Longe de Manaus”, de Francisco José Viegas. Trata-se de um dos mais importantes prémios literários portugueses.” Confesso que esta foi a melhor notícia que li nos últimos tempos. Não é todos os dias que um amigo (por quem sempre “dei muito”, ao contrário da citação…) ganha um prémio. Não é todos os dias que um amigo ganha um prémio literário. O maior prémio da literatura portuguesa. Parabéns Francisco!


Tive um namorado que era da direção do Círculo de Cultura Judaica e que começou me ensinando hebraico em iluminuras portuguesas, letra a letra, ele em tronco nu (tinha uma tatuagem, eu lembro), numa cama de um hotel eu de calcinha e camiseta, pronunciando os erres com agá aspirado à mistura, lendo da direita para a esquerda, e então ele ia para junto da janela, São Paulo ao fundo, recortado como numa fotografia de Nova Iorque, e então ele recitava, recitava em hebraico e traduzia. Vestia camisas de flanela e era bom de cama, me levava a restaurantes para comer camarão e frutos do mar, que lhe estavam proibidos, e eu gostava disso. Ele pecava comigo e eu era toda pecado. Mas depois acabou, não me lembro o mês do ano, lembro só que acabou. Ele me dizia que eu tinha o perfume do mel. Era mentira. Devia ser. Perfume de mel é enjoativo. Eu não sou enjoativa, eu sei. A gente se prometeu que nunca terminaria por telefone, pelo menos isso. A gente se promete sempre isso, a gente vê sempre isso nos filmes e diz isso em quartos de hotéis e mesmo na véspera das despedidas. Mas ele telefonou num primeiro domingo cancelando o encontro. Depois telefonou noutros dias cancelando outros encontros. Foda. Vida é foda mesmo. Homens não assim tão interessantes. Não são assim tão inteligentes. Meu nome é Daniela. Sou uma garota urbana, trinta e dois anos, e acho que homens maravilhosos só existem mesmo na literatura, onde não há desperdício de amor. Mas se desperdiça bastante, na vida real. Muito, bastante, de mais.”

Longe de Manaus, Francisco José Viegas (págs. 334 e 335)

O Pedido

Um Pequeno Conto


“O Cerco de Sebastopol”, 1854, William Simpson, Greenwich Hospital Collection


Contou o rabino Naftali de Ropschitz:
“Durante o cerco de Sebastopol, trotava o czar Nicolau no seu cavalo quando um arqueiro inimigo fez pontaria sobre ele. Um soldado russo, que observava de longe, gritou para assustar o cavalo do czar, que se voltou de repente no exacto momento em que a flecha disparava em sua direcção. Percebendo que fora salvo de morte certa pelo seu soldado, o czar agradeceu ao homem e disse que lhe concederia o desejo que ele quisesse. O soldado não pensou duas vezes: “O nosso sargento é uma besta e bate-me constantemente. Majestade, gostaria de poder ser transferido para uma nova companhia sob as ordens de outro sargento!”
“Idiota!”, respondeu-lhe o czar, “porque não me pedes antes que te faça sargento?”
Nós também somos assim: preocupamo-nos com coisas pequenas, rezamos para suprir as necessidades do momento e esquecemo-nos de ver para além delas.

Rabino Naftali de Ropschitz, Ucrânia, séc. XIX

Yeroushalaim (ירושלים)

Ofra HazaYerushalayim Shel Zahav (Jerusalém de Ouro)

Junto aos rios da Babilónia
Nos sentámos e chorámos
Lembrando Sião.
Lá nos salgueiros
Pendurámos nossas liras.

Se de ti me esquecer, ó Jerusalém,
Que mirre a minha mão direita,
Que a minha língua se quebre,
Se de ti me não lembrar,
Se não preferir Jerusalém
À minha maior alegria.

Salmo 137

::PARA OUVIR::
Ofra HazaYerushalayim Shel Zahav (Jerusalém de Ouro)

Stanley Kunitz 1905-2006

Era um dos mais brilhantes e constantes poetas americanos do último século. Stanley Jasspon Kunitz, nascido a 29 de Julho de 1905 na cidade de Worcester, Massachusetts, o terceiro filho do alfaiate Solomon Kunitz e de Yetta Jasspon Kunitz, morreu no domingo passado em Nova Iorque com 100 anos de idade. Contam os obituários que começou a escrever poesia a sério por volta de 1926, altura em que iniciava em Harvard um doutoramento que não havia de concluir. Um ano depois, disseram-lhe que nunca lhe ofereceriam uma posição de professor na universidade porque os estudantes anglo-saxonicos ficariam ofendidos por terem um judeu a ensinar-lhes literatura inglesa.

A Aproximação a Tebas

Filhos, netos, a minha longa posteridade,
A quem lego as aranhas da minha poeira,
Acreditem-me, por mais histórias que vos contem,
Ditas por médicos ou mendazes escribas,
De loucuras imberbes, de consanguínea luxúria,
Instigando pestilência, rebelião, guerra,
Eu vim preparado, presente no que vejo,
Mas amarrado à vida. Na estrada para Tebas
Tive a minha sorte, conheci um monstro encantador,
E a história é esta: do monstro fiz-me a mim.

Kunitz escrevia devagar. Fazia-o habitualmente numa velha máquina de escrever portátil, muitas vezes agarrando-se a um poema durante anos a fio até o dar como terminado. Preferia trabalhar à noite; o dia reservava-o para outras paixões, a maior das quais a jardinagem. Em entrevista à revista People, Kunitz insistia que o segredo da sua longevidade estava na sua atitude perante a vida: “Sou curioso. Sou activo. Faço jardinagem, escrevo e bebo martinis.”
No ano passado, por ocasião do seu 100o aniversário, Kunitz confessava ao New York Times que se reconciliara com a morte e que pouco se preocupava com o seu legado: “Imortalidade? Não é nada que me faça perder o sono. A minha mais profunda certeza é que estou a viver e a morrer ao mesmo tempo, e a minha convicção é relatar este diálogo.”

O Longo Barco (excerto)

(…)
Paz! Paz!
Ser embalado pelo Infinito!
Como se não importasse
qual fosse o caminho para casa;
como se ele não soubesse
amava tanto a terra
queria ficar para sempre.

::A VER E OUVIR:: The Academy of American Poets – The Portrait (poema dito por Stanley Kunitz) / Online NewsHour: Stanley Kunitz speaks with Elizabeth Farnsworth.- October 26, 2000 (vídeo) / NPR – All Things Considered: The Layers (entrevista com Kunitz. A página contém ainda um dos seus mais célebres e notáveis poemas, The Layers)

::A LER:: A Zanga (tradução minha de um poema de Stanley Kunitz, publicado na Rua da Judiaria por ocasião dos seus 100 anos) / The Academy of American Poets – Stanley Kunitz / Books & Writers: Stanley Kunitz / Poet: Stanley Kunitz – All poems of Stanley Kunitz / Stanley Kunitz – Wikipedia, / New York State Writers Institute – Stanley Kunitz


Stanley Kunitz, fotografado por Marnie Samuelson, em 2003, no jardim da sua casa de férias, em Provincetown. Poeta e professor, Kunitz era um dos mais consagrados poetas americanos. Faleceu a 14 de Maio de 2006, dois meses antes de completar 101 anos de vida.

Castelos

Castelos –
Castelos de ferro e granito,
Castelos de mármore e malaquita,
Castelos de bronze e aço e ouro,
Castelos e castelos incontáveis.

Castelos –
Bibliotecas e museus,
Monumentos e mausoléus,
Templos, igrejas, catedrais,
Todos os castelos
Desmoronam!

Mas os meus castelos,
Construídos de nostalgia,
Buscando de dia, ardendo de noite,
De desejo, de esperança
De espera, de busca,
Tecido, fiado
De longínqua lua, de sol distante,
Dos meus desejos
Sem fraquejar,
Todos os meus castelos, todos, todos, todos,
Não podem nunca desmoronar!

Aaron Glanz-Leyeless (1889 – 1966). Pedagogo, linguista e poeta. Judeu polaco.

Traduzido para português a partir da tradução do yiddish original para o inglês da autoria de Benjamin and Barbara Harshav.

Exercícios de memória

“Yo m’enamori d’un aire”, Parvarim

Já não escrevo, decoro. Construo o livro todo na cabeça.”

As palavras são de Antonio Tabucchi, numa conversa deliciosa com Carlos Vaz Marques. Uma entrevista que irá para o ar na TSF de hoje a uma semana, às 19:00h de quinta-feira, dia 18.
Na entrevista, do programa “Pessoal e… transmissível”, Tabucchi relata que o seu último conto foi recentemente remetido à memória no Alentejo. São cinco páginas, ainda inéditas, recitadas para o papel sem apontamentos, sem notas escritas. É um conto sefardita: “Chama-se Yo m’enamori d’un aire e começa com uma canção sefardita, meia portuguesa e meio espanhola, que fala de um homem que está apaixonado por uma rapariga que se desvanece no ar. Isto refere-se às perseguições dos judeus na península Ibérica no princípio do século XVI”, diz Tabucchi. Nele é contada a história de um regresso. Um descendente de judeus portugueses volta a Lisboa, caminha pelo Jardim Botânico e pelo Príncipe Real. Vem de um “sitio muito longínquo” buscando os lugares dos seus antepassados. “Ele não fala a língua dos seus antepassados, nem espanhol nem português, mas lembra-se de uma canção que ouvia cantar quando era criança.” O resto da história pode ser ouvido neste excerto da entrevista gentilmente cedido por Carlos Vaz Marques: Pessoal e… transmissível: Antonio Tabucchi.

::PARA OUVIR::
“Yo m’enamori d’un aire”, Parvarim


A canção em ladino que inspira o conto de Tabucchi

A ENTREVISTA:

::NOTA:: A entrevista completa por ser ouvida também em formato podcasting em TSF Pessoal e… transmissível (feed xml).
Obrigado Carlos por teres permitido aos leitores da Rua da Judiaria a audição antecipada deste excerto da entrevista.

Catarina Dias, a Purgatória

Ruy Ventura

cantava, nesse tempo,
a oração dos mortos,
ligando no tear
os fios da memória –

devolvia a água
à raiz da oliveira
para que o sangue
pudesse alimentar
a luz (e as sombras)
dessa terra –

lançava sobre o lume
o sabor e a sabedoria
para que o fermento
envolvesse a solidão –

bebia na fonte
o brilho da pedra,
guardando no cântaro
a angústia das palavras –

guardava no peito
o fogo e a fuga,
o leito que um dia
fechara a garganta –

– quando vieram, sem sombra,
impor sobre o corpo esse peso
sem vida

e a vestiram de noite,
embora fosse branco
o hábito perpétuo.

Ruy Ventura

Este poema foi-me enviado pelo autor, escrito em memória de uma antepassada judia, condenada pelo tribunal da Inquisição de Évora.

Nota – Catarina Dias, a Purgatória foi uma judia do século XVIII residente em Castelo de Vide. Foi condenada pela Inquisição de Évora a usar o chamado “sambenito”. Outros familiares seus foram queimados em auto-de-fé no Rossio de São Brás, na capital da então província de Entre-Tejo-e-Odiana.
Ruy Ventura acrescenta no seu blog, Estrada do Alicerce:
“Ao construir a minha árvore genealógica, deparei-me com um nome estranho: Catarina Dias, a Purgatória. Tentei investigar de onde viria essa designação. Achei Catarina membro da família Narigão (de Castelo de Vide) que, em conjunto com os Tirados, fora severamente atormentada pelos sequazes da Inquisição. Catarina estava incluída no número dos sofredores: embora não tivesse visto as suas cinzas misturadas à terra do Rossio de São Brás de Évora, local de autos-de-fé, fora obrigada a usar durante toda a vida o odioso “sambenito “. Daí o alcunha.”

500 Anos: O massacre de Lisboa IX


Um dia, o rei D. Manuel tomou para si o papel de Herodes, e como um satrapa mandou arrancar aos pais e baptizar todos os filhos menores de quatorze anos, “a qual obra tão-somente foi de grão terror misturado com muitas lágrimas, dor e tristeza dos judeus, mas ainda de muito espanto e admiração dos christãos.” Ao mesmo tempo, num prazo breve, os judeus haviam de receber o baptismo, ou embarcar em navios que se lhes não davam.
(…)Por outro lado, em Lisboa, onde, para embarcar, os judeus tinham vindo de todo o reino, os Estáos da Ribeira , apresentavam o aspecto de um acampamento antigo. Albergadas em barracas as famílias – vinte mil judeus esperavam as naus de embarque, contando hora a hora o prazo da redenção. Esse prazo correu, sem virem as naus: por isso foram todos convertidos à força, porque os teimosos ficaram cativos. Este baptismo forçado, causa de tantas desgraças posteriores, revela a política dúbia e falsa de um governo que não tinha a coragem purista do castelhano, depois de ter perdido o bom senso e a humanidade dos tempos anteriores. Desumanos, os actos eram ao mesmo tempo cobardes, pois o cronista diz com franqueza que se procedia assim com os judeus por serem párias, sem rei nem terra, não se podendo já fazer outro tanto com os mouros, com medo das represálias dos soberanos maometanos.
De tal modo se originou a crise que teve na era de 1506 o seu primeiro episódio trágico.
As fomes dos anos precedentes, a peste que lavrara no Outono anterior e vitimara já na Primavera mais de cem pessoas por dia, enchiam de aflição o povo da capital, que buscava uma causa a tamanhas desgraças. D. Manuel tinha fugido da peste, para Évora. O castigo tremendo, que a cólera divina impunha sem piedade, não podia ter outro motivo senão a criminosa protecção concedida aos judeus. Baptizados, mas não convertidos, eram uma viva e impune blasfémia; e todos os seus actos religiosos outros tantos sacrilégios. Deus estava, de certo, ofendido; e por isso castigava sem dó. E o pobre povo sofria tamanhas misérias por causa destes malditos que insultavam Deus dentro do seu templo sagrado, fingindo orar e comungando!
(…)A 15 de Abril tinha havido uma procissão, com votos e lágrimas, pedindo a cessação do flagelo; e todas as noites, em São Domingos, se faziam preces públicas. Houvera um milagre, a 19, dia de Pascoela: a custódia do lado do Senhor aparecera iluminada; mas um herege ousou rir, dizendo que um pau seco não podia fazer milagres. Isto fez transbordar a ira de todos, e o tumulto começou fulminante. O ímpio foi tirado pelos cabelos de rastos, para fora da igreja, e logo ali morto e lançado a uma fogueira.
Os mercadores dos arcos do Rossio, desde a Betesga até S. Domingos, fecharam as lojas – onde vendiam as cassas de Holanda, os panos de linho cadequim da Índia, rendas, tranças, franjas e passamanarias – vindo em pessoa, com os seus escravos pretos e mouros, engrossar o tropel. A multidão corria por debaixo d’essa arcada, que limitava por oriente o Rossio, abrangendo o Hospital e o dormitório do convento de S. Domingos, amontoando-se às portas da igreja, onde o burburinho era grande, e um frade, de crucifixo em punho, pregava, exaltando o furor religioso da turba.
As mulheres agitavam-se coléricas pronunciando ditos obscenos, palavras descompostas, à mistura com as expressões de refinada devoção e de um fervente beaterio. Incitavam os homens à matança; e, do púlpito, o frade, oráculo do céu, definia com palavras o sentimento da multidão. Os judeus eram a causa da fome, eram a causa da peste! De cruz alçada, saindo da igreja, os frades vinham clamando, heresia! Heresia! Concitando o povo à matança.
Já houvera sangue, já crepitava o lume; e a cor rubra e os primeiros ais dos moribundos exacerbavam, como um touro, a fúria da plebe, açulada pelos sermões dos frades energúmenos. Desencadeou-se a tempestade, rebentando numa hora a cólera reunida em muitos séculos. Cresceram as fogueiras no Rossio e na Ribeira; e os bandos iam caçar pela cidade os judeus escondidos, invadindo as casas. Traziam-nos às manadas de quinze e vinte, amarrados, feridos, cuspidos, semimortos; e lançavam-nos, aos montes, nas fogueiras. As chamas crepitavam, e os gritos dos moribundos conseguiam ouvir-se por entre o vozear da plebe. Os sinos dobravam a rebate, chamando os fiéis à matança. Viam-se homens despirem-se, para mostrarem que, não sendo circuncisados, não podiam ser judeus; porque o furor da plebe já arrastava a queimar tudo, numa fogueira que purificasse os ares pestilentos. Além disso, as vinganças pessoais e o roubo soltavam-se à vontade no meio da desordem. Queimavam-se os infelizes, porque tinham sido assassinados; e assassinavam-se, porque se não deixavam roubar. Ao saque de Lisboa tinham corrido as tripulações dos navios do Tejo: eram mais de quinhentos marinheiros flamengos e outros; e na faina do roubo e da matança andavam gentes de todas as nações e cores, invadindo as casas, violando as mulheres, e incendiando. No primeiro dia, domingo, não faltou gente: matou-se meio milhar. Na segunda-feira eram já mil e quinhentos os que andavam na faina da matança. As justiças tinham fugido, o povo escondera-se, os judeus aferrolhavam as portas, enquanto os escravos acarreavam lenha para as fogueiras, os bandidos assaltavam as casas com vaivéns e escadas. Arrancavam as crianças do colo das mães desesperadas, e, tomando-as pelos pés, esmagavam-lhes os crânios tenros contra os muros. As casas escorriam sangue, que se precipitava pelas escadas vindo reunir-se em poças nas ruas. Havia um cheiro nauseabundo de carne queimada, risadas ferozes nos rostos dos pretos, os olhares terríveis na face macilenta dos frades, que pregavam à esquina das ruas. Os desgraçados corriam às igrejas perseguidos, rojavam-se nos altares abraçados aos santos e aos sacrários, e dali eram levados à fogueira arrastados pelos sicários. Na segunda feira mataram-se mais de mil. Na terça acalmou a fúria porque “já não achavam quem matar.” Três dias e duas noites durou a orgia; e no fim contavam-se mais de trezentas pessoas queimadas, mais de duas mil mortas, e não se sabe quantas mulheres, chorando com amargura a sua viuvez, a sua orfandade, a sua miséria, a sua desonra.
O rei acudiu com tropas, abriu devassa e enforcou muita gente; entre essa, frades. Os marinheiros de bordo velejaram barra em fora com os roubos nas mãos tintas de sangue; nas esquinas das ruas havia forcas; na fogueira acabaram os dois frades concitadores, e Lisboa pela sua fraqueza foi desautorada dos seus foros. O rei puniu o que não soubera prevenir; e insistindo na sua indiferença, ou na sua fraqueza, fez com que as cenas de Lisboa se reproduzissem periodicamente por todo o reino.”

J.P. Oliveira Martins (1845-1894), in História de Portugal (Tomo II), Livraria Bertrand, Lisboa, 1882.

500 Anos: O massacre de Lisboa VIII

De luto por mim


A semana que vai entrar comemora data redonda e histórica. Comemorar não é sempre festejar. Mas é sempre ‘memorar’, lembrar, e o que há para lembrar de 19 de Abril de 1506, vai fazer 500 anos, é imensamente triste. Talvez alguém, de coração terno, vá falar pelo lado moral: o mal que foi feito a outros. Mas dessa data, para lá do mal que foi feito a outros – em Lisboa, em três dias, mataram-se muitas centenas, talvez quatro mil judeus – quero aqui recordar, muito interesseiramente, o grande mal que me fizeram a mim. Eu pertencia a um povo ao qual amputaram parte. E o que mais é: essa parte que levaram de mim era a mais brilhante.
El-rei D. Manuel, por imposição, ao que se diz, do casamento com princesa espanhola, já tinha obrigado os súbditos judeus a converterem-se. Por causa dessa obrigação, muitos partiram. Gente culta, como o astrónomo e matemático Abraão Zacuto, que foi para a Turquia. E os pais de Baruch Espinosa, tão portugueses que apesar de fugidos para a Holanda chamaram ao filho Bento, antes dele se tornar um dos maiores filósofos de toda a História da Humanidade. Fugiram médicos e matemáticos e artesãos sábios da mais próspera indústria de então, a lapidação de diamantes. A Holanda nunca agradecerá suficientemente termos-lhe oferecido a nossa elite.
Mas sendo Portugal pouco dado a medidas radicais, a maioria dos portugueses judeus sabia do que gastava a casa e foram-se deixando ficar. Tornaram-se cristãos-novos. Muitos judaizavam às escondidas e iam fazendo o que os portugueses sempre fizeram, iam-se misturando. Da arraia-miúda àqueles que faziam Portugal grande potência cultural de então: do matemático Pedro Nunes ao médico e naturalista Garcia de Orta – ambos, aliás, ligados pela ciência ou pela acção ao maior empreendimento de Portugal, os Descobrimentos.
A ruptura, o corte de Portugal com esses seus filhos aconteceu naquele domingo de Pascoela, 19 de Abril de 1506. Portugal tinha passado dois anos de seca nos campos e peste nas cidades. Como em todos os tempos de vacas magras, o País era percorrido por murmúrios e raivas. Na missa da Igreja de São Domingos, na Baixa de Lisboa, gritou-se ao milagre, porque uma imagem de Cristo resplandecia. Alguém, imprudente, disse em voz alta que aquilo lhe parecia mais um efeito de luz. Era um cristão-novo, que foi arrastado para o adro, despedaçado e queimado. A multidão, acicatada por dois frades dominicanos, partiu à caça de mais cristãos-novos.
Garcia de Resende, poeta da corte, conta: “Mais de quatro mil matarã / Mininos espedaçarão / Fizerão grandes cruezas / Grandes roubos & vilezas / Em todos quantos acharão”. Mulheres violadas, homens queimados, crianças atiradas contra as paredes. Cruezas como antes e depois se fizeram, em outras paragens, aos judeus. No que me diz respeito, e é isso que mais me interessa – com o cinismo que meio milénio me permite – é que hoje pertenço a um dos povos menos cultos da Europa. E já houve tempo que não foi assim.
Esta semana, estou de luto. Por mim.

(…)

Faz hoje 500 anos que uma multidão imbecil tornou Portugal mais pobre. A matança de muitas centenas de judeus em Lisboa (talvez quatro mil) fez o País perder, entre mortos e exilados, os mais cultos e modernos dos seus filhos.
O crime boçal prosseguiu durante séculos. Até ao Marquês de Pombal a ‘limpeza do sangue’ – a prova de ausência de judeus até aos bisavós – era condição para bons empregos. Ao seu ministro Pombal, o rei D. José pediu que decretasse um distintivo obrigatório para quem tivesse sangue judeu. No dia seguinte, ele apareceu com três distintivos ao peito. O rei perguntou a razão. Pombal: “Um por mim, outro pelo inquisidor-mor e outro por Vossa Majestade.” Judeus somos, os portugueses, todos um pouco. Ignorantes de nós somos todos muito.

Ferreira Fernandes
Correio da Manhã