Antes de 11 de Setembro de 2001. Nova Iorque.

"Quem é sábio? Aquele que aprende com todos!" Ben Zoma, Pirkei Avot
Antes de 11 de Setembro de 2001. Nova Iorque.

Os judeus portugueses nas Américas
[Este post integra-se num “blogburst” promovido por Jonathan Edelstein, destinado a celebrar Arrival Day, o Dia da Chegada, que assinala o aniversário do desembarque dos primeiros judeus em Nova Iorque, a 7 de Setembro de 1654]

Os nomes de família dos primeiros judeus americanos soam estranhamente familiares: Dias, Costa, Cardozo, Faro, Ferreira, Fonseca, Gomes, Lucena, Navarro, Nunes, Henriques, Machado, Maduro, Mendes, Mesquita, Pacheco, Peixotto, Pereira, Pinto, Penha, Seixas… Eram portugueses. Judeus portugueses do século XVII. Muitos deles “cristãos-novos”, que finalmente descartavam a capa que foram obrigados a envergar para escapar às fogueiras inquisitoriais; que ali procuravam abrigo, um refúgio da intolerância que mergulhava Portugal numa histeria de fanatismo sanguinário, que acabou por arrastar o país para um abismo do qual ainda hoje se sentem cicatrizes profundas. Os judeus portugueses chegaram a Nova Iorque a 7 de Setembro de 1654, quando a cidade era holandesa e ainda se chamava Nieuw Amsterdam. Faz hoje 351 anos.
Os primeiros vieram do Brasil, alguns depois de emigrarem primeiro de Lisboa para a Holanda. E tal como já acontecia na Holanda, estes emigrantes judeus de Nova Iorque eram conhecidos como “gente da Nação Portuguesa” (ver Hebrews of the Portuguese Nation). Mas para seguir a génese da comunidade judaica portuguesa em Nova Iorque é necessário primeiro viajar até ao Brasil colonial do século XVII, mais concretamente a Pernambuco, um território de extensão considerável capturado pelos holandeses em 1630.
Os judeus tinham desempenhado o seu papel na descoberta e colonização do Brasil. Desde 1500, quando Pedro Alvares Cabral desembarcou nas Terras de Vera Cruz acompanhado por Gaspar da Gama, um “cristão-novo”, até 1654, altura em que os portugueses expulsaram os holandeses, navegadores, pioneiros e colonos judeus ajudaram a moldar a história do Brasil. A Inquisição não tinha ainda atravessado o Atlântico e a distância emprestava uma ilusão de segurança. Muitos dos que ali chegavam eram deportados, condenados ao degredo por suspeita de judaísmo, transformando o território virtualmente numa colónia penal. Mesmo assim, o espectro inquisitorial pairava ainda na penumbra e sobre os judeus pesava o receio de poderem ser repatriados para Portugal a mando dos tribunais da Inquisição.
Num contraste extremo com o obscurantismo inquisitorial que dominava a península Ibérica, em Pernambuco a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais – responsável pela administração dos territórios da coroa dos Países Baixos nas Américas – proclamara logo de início, de forma inquestionável, a liberdade de consciência e de culto entre as populações das suas colónias:
“A liberdade dos espanhóis, portugueses e nativos, quer sejam [católicos] romanos ou judeus, será respeitada. A ninguém será permitido que os moleste ou os sujeite a inquirições em matéria de consciência ou nas suas casas privadas; e ninguém os ouse inquietar ou perturbar ou causar-lhes dano – sob pena de punição arbitrária ou, dependendo das circunstâncias, de severa e exemplar reprovação.”
in “Leis e Regimentos das Índias Ocidentais”, citada por Arnold Wiznitzer, “The Records of the Earliest Jewish Community in New York” (1957).
Apesar de algumas tentativas por parte de clérigos para restringir estas liberdades (especialmente contra os católicos, tidos como inimigos naturais dos calvinistas), a Companhia Holandesa das índias Ocidentais reafirmaria por várias vezes os princípios de tolerância. Perseguidos pela Inquisição em Portugal, este pedaço de “Brasil Holandês” aparecia aos olhos dos judeus portugueses como um oásis de tolerância, que lhes permitia praticar a sua religião livremente, libertando-os do receio, constante e real, das torturas inquisitoriais ou da morte nas fogueiras dos “autos-de-fé”. E assim foi durante 24 anos. No Pernambuco holandês, sob a administração de João Maurício de Nassau, a comunidade de emigrantes judeus de Portugal floresceu, fundando a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Tzur Israel (Comunidade Rochedo de Israel), em 1637.
A 26 de Janeiro de 1654 as tropas portuguesas reconquistam o Recife com um ataque de proporções épicas, comandadas pelo general luso-brasileiro Francisco Barreto de Menezes – que a partir de então ficaria conhecido como “o restaurador de Pernambuco” –, pondo fim ao domínio holandês naquela região do Brasil.

Fólio do manuscrito de “Regras Benéficas e Restrições” para o governo da Sinagoga Shearith Israel, escrito em português e inglês, lavrado em Nova Iorque, em 1728. (clique na imagem para ampliar)
Os termos da rendição, assinados em Taborda, perto do Recife, são generosos para com os derrotados, dando aos holandeses um prazo de três meses (que seria prorrogado por mais três) para se retirarem do território recém conquistado, período durante o qual, segundo os mesmos termos, “não serão molestados ou vexados e serão tratados com respeito e cortesia.” Surpreendentemente, o general Barreto de Menezes mostra uma tolerância muito pouco habitual ao permitir igualmente (ajudando até) a saída dos judeus portugueses, apesar destes terem passado a ficar sob a alçada da Inquisição, o que lhe teria à partida vedado qualquer possibilidade de clemência. A lei exigia a deportação imediata dos judeus para Portugal.
A 20 de Fevereiro de 1654 os funcionários do tesouro real efectuaram um inventário de todas as casas no Recife e Maurícia anotando os seguintes nomes como “judeus proprietários de casas e lojas”: Jacob Valverde, Moisés Netto, Moisés Zacutto, Jacob Fundão, Moisés Navarro, David Atias, Benjamin de Pina, Abraão de Azevedo, João de Lafaia; Gil Correa, Gabriel Castanha, Gaspar Francisco da Costa, Fernão Martins, Duarte Saraiva e David Brandão. Outras aparecem mencionadas no inventário como “casa de judeus”, mas o nome dos seus proprietários não consta do documento.
Devido à escassez de embarcações holandesas que possibilitassem uma evacuação total, o general Barreto de Menezes ofereceu navios portugueses para transportar os judeus e assim os ajudar a escapar à Inquisição. Este gesto não seria esquecido, e os anais da história judaica portuguesa registam ainda hoje o nome de Francisco Barreto de Menezes, católico e “cristão-velho”, como um homem de nobre carácter – um hassid umot ha’olam (gentio justo e íntegro do mundo.)
Ao todo, 16 navios portugueses foram colocados à disposição dos seus compatriotas judeus pelo general Barreto de Menezes e a esmagadora maioria das cerca de 150 famílias judias do Brasil Holandês partiu em direcção à Holanda. Alguns optaram por ficar nas colónias holandeses nas Caraíbas onde, ainda hoje, a predominância de nomes de família portugueses (e a linguagem litúrgica) entre os judeus sefarditas do Suriname e de Curaçao prova essa ligação ancestral (ver também bloGUSblog: A estrela oculta do sertão, sobre os descendentes dos judeus portugueses que ainda restam no sertão brasileiro.)
Corsários, piratas e a intolerância religiosa ibérica tornariam ainda mais complicada a já difícil viagem de alguns deste judeus. Em Amsterdão, o rabino português Saul Levi Morteira – professor de Baruch Spinoza e mais tarde seu “excomungador” – deu conta dos percalços sofridos por uma destas embarcações no livro Providência de Deus com Israel, um manuscrito não publicado do qual apenas restam seis cópias:
“O navio foi capturado pelos espanhóis, que queriam entregar os pobres judeus à Inquisição. Ainda assim, antes de poderem cumprir os seus ímpios desígnios, o Senhor fez aparecer um navio francês que libertou os judeus dos espanhóis, levando-os depois para África, posto o que chegaram salvos e em paz à Holanda.”
Um outro navio, atacado por piratas ao largo do cabo de Santo António, em Cuba, seria também resgatado por um barco francês – o Sainte Cetherine, comandado pelo capitão Jacques de la Motthe. A 7 de Setembro de 1654, com 23 judeus portugueses a bordo, o Sainte Cetherine aporta a Nieuw Amsterdam, na ilha holandesa de Manhattan, a cidade que mais tarde passaria a ser conhecida como Nova Iorque. Era o primeiro grupo de judeus a chegar a América do Norte. Faz hoje precisamente 351 anos.
Destas vinte e três pessoas – homens, mulheres e crianças – sabe-se hoje muito pouco. São seis famílias, encabeçadas por quatro homens e duas viúvas. Só os seus nomes são mencionados nos registos oficiais. Mesmo assim é fácil adivinhar-lhes a proveniência: Abraão Israel Dias, Moisés Lumbroso, David Israel Faro, Asher Levy, Enrica Nunes e Judite Mercado.
A princípio, reticente, o governador holandês Peter Stuyvesant opôs-se à permanência dos judeus, escrevendo aos seus superiores argumentando que “se deixamos vir os judeus não tardam a vir os papistas.” O desespero de Stuyvesant aumentaria ainda mais quando os judeus apresentaram uma petição à Companhia Holandesa das Índias Ocidentais para poder fazer na Nova Amsterdão o que faziam em Pernambuco – viver livremente. A resposta da companhia foi favorável :
“Após muita deliberação, resolvemos dar provimento à petição apresentada por certos mercadores [judeus] da Nação Portuguesa, julgando-a favorável, para que eles possam viajar e comerciar com e na Nova Holanda e viver dentro dos seus limites.”
Em 1664, Nieuw Amsterdam passa para a coroa britânica e muda de nome. Dai para a frente será New York. Por volta de 1695, apesar de algumas restrições, os judeus tinham a sua primeira sinagoga improvisada, e a 8 de Abril de 1730 era dedicada a primeira sinagoga de raiz da comunidade que, logo à chegada, em 1654, escolhera o nome de Shearith Israel (Remanescente de Israel). Até ao final do século XIX tiveram duas línguas “sagradas”, ditadas pelos genes, pela fé e pelo apelo da memória. Faziam-se as orações em hebraico. Em português escreviam-se os documentos.

Dois rabinos da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque: H. Pereira Mendes (séc. XIX) e David de Sola Pool (séc. XX).
::A LER NA JUDIARIA:: Os primeiros judeus nas Américas (o capítulo seguinte…) / Genealogia Judaica Portuguesa / Salomão Nunes Carvalho: Um Judeu Português no “Faroeste Selvagem” / Uriah Levy: O judeu português que salvou Monticello / Emma Lazarus / Sabato Morais: O rabino abolicionista
::PARA OUVIR:: Abraham Lopes Cardozo – Mizmor le-David (Um Salmo cantado pelo rabino emérito da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque).

Tal como o 11 de Setembro, a tragédia tem servido até agora principalmente para que as pessoas possam confirmar as suas próprias ideias preconcebidas. A esquerda proclama-a como prova da necessidade de um governo federal robusto… os conservadores encontram justificações para confirmar a sua crença na necessidade de impor vigorosamente a ordem; os liberais vêem no desastre e no seu rescaldo um exemplar falhanço do governo… os ambientalistas impressionam-se com a constatação que o Katrina prova a necessidade de carros mais económicos; e loucos fanáticos religiosos de todas as crenças encontram ali “a mão de Deus” destruindo os seus inimigos… Viva, hurra! Todos ganham! Outra vez!”
Jim Henley, Unqualified Offerings
::A LER:: Água Lisa: As Lágrimas do Urubu / Miniscente: A hipocrisia da rapina /El Diario de Cecilia B. : La hora de los mezquinos
Randy Newman – Louisiana 1927
Para ouvir:
Randy Newman – Louisiana 1927 *

Quanta água tem uma lágrima,
E quanto tempo leva a secar?
Todo o tempo que houver medo e mágoa
Naquele que a continua a chorar.
Quanta água tem uma enchente
E quanto tempo leva a recuar?
Todo o tempo que levar a restaurar a esperança
Naquele que desesperadamente dela precisar.
Quanta água tem uma tempestade
E quanto tempo leva a passar?
O tempo que levar a reconstruir a casa
E tudo o que é querido restaurar.
Quanta água tem uma cidade
Quando as paredes da barragem se quebram?
Tanta quantas as lágrimas choradas
Quando tantos corações se vergam.
Rabi Zoe Klein
Temple Isaiah, Los Angeles
[poema em homenagem às vítimas do furacão Katrina]
Foto de Ricky Carioli, The Washington Post
Foto M. Scott Mahaskey, Associated Press
Foto de Melissa Phillip, Associated Press
Ajuda às vítimas do furacão Katrina: Hurricane Katrina Recovery on FirstGov.gov / Network for Good :: Hurricane Relief Efforts and Preparedness / American Red Cross – Hurricane 2005 relief / The Salvation Army National Headquarters / Hurricane Katrina — MoveOn.org Housing Offers/Searches / New Orleans Volunteers Classifieds and Want Ads – Craigslist / Ajuda através de Organizações Humanitárias Judaicas: Hurricane Relief – Chabad-Lubavitch of Louisiana / Hurricane Katrina Fund – American Jewish Committee / MAZON – Hurricane Katrina / B’nai B’rith International Disaster Relief / United Jewish Communities- Hurricane Katrina Relief / Orthodox Union: Hurricane Katrina — How You Can Help / United Synagogue of Conserevative Judaism: Hurricane Relief-You Can Help/ Union for Reform Judaism – URJ Disaster Relief Fund / American Jewish World Service.
* Clique no link acima para ouvir a canção de Randy Newman sobre as trágicas inundações que assolaram a Louisiana e o Mississippi em 1927.

(…) Ainda assim, foi impossível conter o anjo de sonhos que, noite após noite, continua a aterrar os resgatados, foi impossível silenciar a persistente voz da consciência, que exige explicação para o mal diabólico e para os corações apáticos. Essas perguntas “Porquê, meu Deus, porquê? Porquê nós? Porquê eles? Porquê agora? Porquê desta maneira?” são deixadas em suspenso entre o céu e a terra, pairando sobre todos os actos humanos. E não há resposta.
O tempo dirá o que aprendemos; só o tempo poderá revelar se ouvimos verdadeiramente a voz do sangue dos massacrados gritando das entranhas da terra.
Não uses luto por tempo demais, mas não te afundes na apatia
do esquecimento. Não permitas que voltem dias de
trevas; chora, mas limpa as lágrimas.
Não absolvas nem desculpes,
não tentes compreender.
Aprende a viver sem
respostas.
Através do nosso sangue, vive!
מגילה השואה (Megillat Hashoah – “O Pergaminho do Shoá”, Assembleia Rabínica, Jerusalém, 2004), excerto de um poema da liturgia em memória das vítimas do Holocausto.
Laima Torchinova tem nove anos e gosta de desenhar. Mas em vez das habituais casas feitas de um quadrado com telhado em triângulo, desenhadas por outras crianças da sua idade, Laima faz retratos de homens de rosto tapado e armas nas mãos. Depois de muitos retoques, quando fica satisfeita com o resultado final, Laima rasga o desenho, acende um fósforo e queima-o. É um ritual que repete diariamente há quase um ano. Não é necessário ser psiquiatra para ler no gesto de Laima um exorcismo de fantasmas demasiado reais. Os olhos de Laima viram coisas terríveis.
Há exactamente um ano, começava o que havia de tornar-se um pesadelo inimaginável para os 33 mil habitantes da pequena cidade russa de Beslan – uma localidade sensivelmente do tamanho de Castelo Branco. Durante três dias, um grupo de 32 terroristas chechenos barricou-se numa escola primária, fazendo mais de mil reféns, na sua esmagadora maioria crianças que celebravam com familiares e professores o regresso às aulas. Após um cerco que durou três dias, entre o impasse e o desespero, 344 pessoas perderam a vida – 172 delas crianças com menos de 10 anos.
Laima sobreviveu às explosões e aos tiros. Mas o preço emocional que pagou é incalculável. “Desenho terroristas e queimo-os pelas crianças que morreram na escola. Quero vingar-me deles por terem morto as crianças”, disse ela à disse ela à BBC. “Porque eles? Porquê desta maneira?” – as interrogações do poema litúrgico judaico ressoam nos escombros de Beslan. Também aqui, sem que venham respostas. Porque a irracionalidade do terror não pode nunca ser explicada.

:: A LER:: Heavy hearts as Beslan anniversary draws near / BBC – Beslan boy recalls hostage horror / BBC School siege: Eyewitness accounts / Significant Terrorist Incidents 1961-2003: A Brief Chronology / Beslan – Wikipedia / Beslan school hostage crisis – Wikipedia / Трагедия в Беслане | 1 сентября 2004 г / Трагедия в Беслане | 1 сентября 2004 г (versão em inglês) / Hope for Beslan / BBC How the siege unfolded / Telegraph – ‘Innocent religion is now a message of hate’
:: A VER:: BBC – Children who survived the siege tell of their ordeal / “Georg is very lucky to have survived” / Beslan school attack… Photos (AVISO: este último site contém imagens de extrema violência.)
A blogosfera portuguesa, por entre os seus altos e baixos, as suas “mortes”, nascimentos e desvarios, vai mostrado trabalhos francamente notáveis. Num blog todo ele admirável e belo, como o Porto que ali é narrado (A Cidade Surpreendente), Carlos Romão mostra agora uma arte à beira do fim. Pela beleza das fotos e pelo que o Carlos nos conta, é imprescindível ver a Arquitectura do Rabelo.

(clique na imagem para ampliar)
Glossário:
Lashon Hará – Expressão hebraica que literalmente quer dizer “má língua”; o mesmo que “mexerico”, “fofoca” ou “bisbilhotice”. As regras éticas do judaísmo estabelecem no Talmude fortes restrições contra a má língua: não se podem proferir afirmações depreciativas ou difamatórias sobre quem quer que seja, quer estas sejam verdadeiras ou falsas; não se pode dar a entender afirmações depreciativas ou difamatórias; não se pode nunca dar ouvidos a afirmações depreciativas ou difamatórias contra terceiros. Segundo algumas interpretações rabínicas, estas regras derivam da importância dada às palavras como forças criadoras e percursoras da acção. Assim como palavras positivas geram acções positivas, também as palavras negativas darão origem a actos negativos.
Jorge Luis Borges

As translúcidas mãos do judeu
Lavram na penumbra os cristais
E a tarde que morre é medo e frio.
(As tardes à tarde são todas iguais.)
As mãos e o espaço de jacinto
Que empalidece no confim do Gueto
Quase não existem para o homem quieto
Que está sonhando um claro labirinto.
Não o perturba a fama, esse reflexo
De sonhos no sonho de outro espelho,
Nem o temeroso amor das donzelas.
Livre da metáfora e do mito
Lavra um árduo cristal: o infinito
Mapa d’ Aquele que é todas as Suas estrelas.
Jorge Luis Borges
in El Outro, el Mismo (1964)

Hollywood Hills: John Kilduff, Los Angeles vista de Mullholand Drive
Nas conversas telefónicas diárias para Portugal é impossível não falar de incêndios. E prevenção, que raio será isso? Lembrei-me de um exemplo vivido na primeira pessoa, quando morei em Hollywood Hills, uma área de Los Angeles fortemente arborizada, quase “selvagem”, onde diariamente se dá de caras com veados, coiotes, esquilos e doninhas a caminhar calmamente nas ruas. No final da Primavera, todos os anos, passava por lá um fiscal dos bombeiros que metia uma carta nos correios, dando aos moradores um prazo de três semanas para limpar a mata em redor das suas casas. Terminado o prazo, o fiscal fazia uma nova ronda e o incumprimento do aviso dava direito a uma multa entre €500,00 e €2500,00, ou pena de prisão até um ano. Numa região onde as casas são construídas totalmente em madeira, as autoridades aprenderam há muito que levar a sério a prevenção de incêndios é a única solução aceitável. Nos anos que ali morei nunca conheci ninguém que não limpasse a mata. E tenho até algumas saudades das tardes que passei de enxada na mão, com o gigantesco contorno branco e desnivelado do letreiro de Hollywood empoleirado nas montanhas ao fundo da paisagem.
::A LER:: Los Angeles Fire Departmant – HOMEOWNERS BRUSH SAFETY AWARENESS TIPS / Office of the State Fire Marshal – Fire Safe Planning – Property Inspection Guide / Quick Response Report – The 2003 Southern California Wildfires: Constructing Their Cause(s) / Fire Season 2005: Protect Your Clients from Wildfire Dangers / The Santa Monica Mountains North Area Plan / Fire Report Newsletter / Metro: Park service pays $25,000 fine to Valley air district / NBC 4 – News – Fire Prevention Goats Spark Neighborhood War
Yehuda Amichai

O deserto de Arava, Israel. Foto de Dan “Mobius” Sieradski, via Orthodox Anarchist.
Uma viagem nocturna de carro até Ein Yahav, no deserto de Arava,
Uma viagem à chuva. Sim, à chuva.
Ali conheci gente que cultiva tamareiras,
ali vi arbustos de tamarisco e arbustos de risco,
ali vi esperança farpada como arame farpado.
E disse a mim mesmo: É verdade, a esperança precisa ser
como arame farpado para afastar o desespero,
a esperança tem de ser um campo minado.
Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Foto de Oded Balilty para a Associated Press
Na última edição da revista judaica norte-americana Tikkun, Aaron Tapper escreve sobre o rabino ortodoxo Menahem Froman, um colono apaixonado pelos árabes e pelo Islão que vive na Samaria (Cisjordânia), e o Sheikh Imad Al-Falouji, antigo fundador das brigadas Izz Al-Din Al-Qassam do Hamas, que entretanto se converteu à causa do pacifismo. (Ler Tikkun – Hamas Pacifists and Settler Islamophiles: Defining Nonviolence in the Holy Land.) Para baralhar ainda mais as cabeças dos que demonstram sempre ter “certezas absolutas” quando se fala do conflito israelo-palestiniano, aconselho a leitura das notícias que dão conta de uma doação de 14 milhões de dólares, feita por empresários judeus norte-americanos, para ajudar os palestinianos e o futuro de Gaza. O dinheiro destina-se a manter os sistemas de rega e as infra-estruturas das estufas nos complexos agrícolas dos colonatos agora evacuados. (Ler New York Times – How Old Friends of Israel Gave $14 Million to Help the Palestinians; American Jewish Donors Save Gaza Greenhouse.) Já agora, convém também esclarecer que, após concluída a retirada, as casa abandonadas pelos colonos serão destruídas pelo exército israelita a pedido da Autoridade Palestiniana – através do seu ministro dos Assuntos Civis, Mohamad Dahlan –, para que os palestinianos possam construir prédios de apartamentos em lugar das casas e vivendas actualmente existentes, de maneira a albergar um maior número de pessoas. O exército israelita, no entanto, deixará intactas todas as estruturas de apoio – escolas, hospitais, etc. – e áreas industriais.

Alguns de nós, judeus de Esquerda, sentimo-nos impedidos de abraçar de forma mais completa a causa palestiniana em virtude dos inegáveis contornos antisemitas dos discursos e escritos pró-palestinianos.”
Pierre Goldman, Libération, 31 de Outubro de 1978.
Judeu francês, jornalista e activista de esquerda (extrema-esquerda, dirão alguns), Goldman foi assassinado por brigadas terroristas de extrema-direita a 20 de Setembro de 1979, meses depois de ter sido ilibado num processo judicial kafkiano que inicialmente o condenara a prisão perpétua. Os seus assassinos nunca foram julgados. (Ver Pierre Goldman : Le dossier.)
David Abenatar Melo
No inferno metido,
Da Inquisição dura,
Entre os cruéis leões do capricho,
De ali me redimiste,
Dando a meus males cura,
Só porque arrependido me viste.
David Abenatar Melo (século XVI), poeta, filósofo e teólogo.
Judeu “marrano” português, nascido no Alentejo, em Fronteira, distrito de Portalegre, com o nome de baptismo de Fernão Álvaro Melo. Preso e torturado por diversas vezes pela Inquisição de Évora, foge para a Holanda em 1613, onde anos mais tarde se torna rabino da Sinagoga Portuguesa de Amsterdão.

Em hebraico escreve-se התנתקות (hitnatcut). Literalmente quer dizer desligamento. Agora, é com essas mesmas letras hebraicas que se vai escrevendo História. E esperança. O desmantelamento dos colonatos israelitas de Gaza e do norte da Samaria (Cisjordânia) – e a retirada militar –, é um momento histórico inegável. Nos próximos meses deverão ser lançadas as bases para um futuro no qual coexistirão Israel e Palestina, dois Estados livres e independentes.
As irreversíveis engrenagens da História, habitualmente pesadas e lentas, movimentam-se agora a uma velocidade vertiginosa, materializando os primeiros esboços dos anseios de um povo cansado da guerra. Em Maio do ano passado, centenas de milhares de pessoas manifestaram-se em Tel Aviv, na mesma praça onde Yitzhak Rabin foi assassinado, exigindo o fim da ocupação, a retirada dos territórios e o reatar das negociações de paz. As sondagens mostram que a esmagadora maioria dos israelitas apoiava essas pretensões. Mas há um ano, poucos se atreveriam a prevêr as notícias de hoje.
Sempre guardei, confesso, algum ressentimento para com os colonatos – uma antipatia por aquilo que aqueles enclaves representavam e pelos entraves intransponíveis que colocavam no caminho da paz. Ao ver agora as imagens das reportagens dos despejos em Gaza, ao ver as lágrimas e o genuíno desespero, lembrei-me deste poema de Yehuda Amichai, e de como é fácil desumanizar gente com quem se discorda, transformando indivíduos em blocos compartimentados e estanques, cuidadosamente arrumados do lado de fora da nossa esfera de emoções. Ainda que discordando profundamente da ideologia e das opções daqueles que escolheram viver nos colonatos, sou obrigado a reconhecer que estas imagens me tocam.
O peso das palavras volta aqui a ter uma importância desmedida. Chamar simplesmente “colonos” àqueles que agora abandonam as suas casas, como se fogo as tragasse, é uma forma “esterilizada” e mentalmente higiénica de nos alhearmos do facto de milhares de famílias estarem a ser desalojadas; que pessoas deixam agora para trás as casas que construíram, os cemitérios onde enterraram os seus mortos, as sinagogas onde casaram. Chamar-lhes “colonos” alivia o peso de ver gente – velhos, mulheres, crianças, homens – a abandonar tudo sem poder olhar para trás. Eles são agora para Israel o que os “retornados” de 1974 e 75 foram para Portugal: vítimas colaterais do curso – tortuoso mas, no fim de contas, justo – da História.




:: A LER:: Haaretz – Editorial – And now, determination / Haaretz – Disengagement from Gaza – Day Three Diary / Something to mourn, by David Grossmann / Haaretz – Forcible evacuation begins this morning / IDF: Gaza evacuation may last less than a week / Haaretz – How the IDF plans to evacuate the Gaza settlements (infografia) / PM to settlers: Don’t hurt troops over disengagement, hurt me / Jerusalem Post – Editorial – A test of our society / Ynetnews – Mubarak: I understand evacuees’ pain / Ynetnews – Pullout Special / Jerusalem Post – Disengagement Special / Israel’s Disengagement Plan: Renewing the Peace Process (página oficial do Governo) / Zeek | Postcards from Gaza / ‘Time for me to close my computer and finish packing’ from Guardian Unlimited: Newsblog / Haaretz – Metamorphosis of Ariel Sharon
::NOS BLOGS ISRAELITAS:: Balagan in Jerusalem – Living in a Roller Coaster! / Not a Fish » Not happy days. No. / Sha!: Day 1 / An Unsealed Room: It’s Not a Reality Show, It’s Reality / An Unsealed Room: How It’s Going / Jewlicious » “We Fell in Love With Ourselves.” Mea culpa by a religious Zionist / on the face: A day in the life/ JeW*SCHooL – The Human Tragedy / Treppenwitz: It couldn’t possibly hurt / Jewlicious » On the eve of disengagement
::A VER:: IBA Channel 33 (noticiário em inglês) / IBA (noticiário em hebraico) / Three Days in Gaza (documentário)
ADENDA: poucas horas após ter escrito este post, as agências noticiosas deram conta da morte de três palestinianos, civis inocentes, assassinados por um terrorista israelita nas proximidades da zona industrial do colonato de Shilo. O assassino foi prontamente detido pela polícia. Entretanto, os terroristas fundamentalistas do Hamas prometeram já “vingar” o ataque – exactamente o tipo de resposta pavloviana que o terrorista israelita parece ter pretendido desencadear. (Ver ainda Ynetnews – Sharon condemns Shilo shooting attack; Haaretz – Sharon slams grave Jewish terror attack on Palestinians; Ynetnews – Hamas: We will avenge Shilo attack.)
They Ain’t Making Jews Like Jesus Anymore
Ride ’em Jewboy
Ride ’em Jewboy (versão de Willie Nelson)
Músicas da Judiaria X

Em seis dias Deus criou os céus e a terra e todas as maravilhas do universo. Honestamente, acredito que ele devia ter levado um bocadinho mais tempo…”

Para ouvir
They Ain’t Making Jews Like Jesus Anymore
Ride ’em Jewboy (versão de Willie Nelson)

Os críticos chamam-lhe “o Frank Zappa da música country”, mas Kinky Friedman prefere ser conhecido como o cowboy judeu do Texas. Iconoclasta, mordaz, irreverente e “politicamente incorrecto” quando nem sequer havia ainda “politicamente correcto”, Kinky Friedman é, por mérito próprio, um ícone incontestado da música country. Nos seus álbuns, nas décadas de 60, 70 e 80, participaram músicos como Bob Dylan, Tom Waits, Willie Nelson e Ringo Starr (que fez a voz de Jesus Cristo na canção Men’s Room in LA, do álbum Lasso from El Passo de 1976)
A sua mais conhecida canção – uma das duas escolhidas para esta edição das Músicas da Judiaria –, escrita na melhor tradição de “canções-história” cómicas como A Boy Named Sue, de Johnny Cash, chama-se They Ain’t Making Jews Like Jesus Anymore. Na letra, Kinky Friedman relata um episódio da sua vida real, quando num bar do Texas confrontou (… à pancada) um racista antisemita. Kinky é ainda o autor daquela que é a única canção de country western dedicada às vítimas do holocausto nazi: Ride ’em Jewboy, considerada pelos críticos uma das suas mais belas composições (apresentada aqui nas Músicas da Judiaria em duas versões, uma das quais cantada por Willie Nelson).
Richard “Kinky” Friedman nasceu em Chicago, a 31 de Outubro de 1944, mas tinha ainda poucos meses de idade quando a família se mudou para o racho Rio Duckworth, próximo da pequena localidade de Palestine, no Texas. Durante toda a sua carreira, Kinky Friedman fará questão de se apresentar como “o judeu de Palestine”.
Filho de um professor de psicologia da Universidade do Texas, Kinky inicialmente pensou seguir a carreira do pai, mas abandonou a ideia pouco tempo depois de se ter formado. Em 1966, entrou para o Peace Corps e passou dois anos de voluntariado a prestar ajuda humanitária no Borneo onde, segundo ele próprio conta, a sua maior proeza foi a introdução do frisbee junto dos nativos.
Regressado ao Texas, junta-se a um bando de músicos renegados para paradiar a surf music, então em voga, com um conjunto chamado King Arthur & the Carrots, mas sem grande sucesso. Em 1971, Kinky Friedman funda a banda que o acompanha até hoje e que acabaria por tornar-se a sua imagem de marca: Kinky Friedman and the Texas Jewboys, que depressa atingiu um estatuto de culto nas franjas da música country. A sua actuação em Nashville na mítica Grand Ole Opry – a “catedral” da música country –, ficaria lendária depois de Kinky saudar a audiência com um sonoro Shalom!

Com o seu amigo Bob Dylan, Kinky e os Texas Jewboys participaram, em 1975 e 76, na mítica digressão pelos EUA que ficaria para a história como The Rolling Thunder Revue, actuando ao lado de Joan Baez, Roger McGuinn, Rambling Jack Elliott, Joni Mitchell, Bob Neuwirth, Allen Ginsberg e, claro, do próprio Dylan (ver On the Road With Bob Dylan).
Musicalmente, Kinky influenciou toda uma nova geração de músicos da chamada zona indy country, de entre os quais se destaca Fred Eaglesmith.
Em 1986 Kinky Friedman escreveu o primeiro do que viria a ser uma série de 20 livros policiais, tornando-se um escritor de enorme sucesso dentro e fora dos EUA. Com títulos como Elvis, Jesus & Coca-Cola (1993), God Bless John Wayne (1995) e Love Song of J. Edgar Hoover (1996), os romances policiais de Kinky Friedman, tal como antes acontecera com os seus poemas e canções, oscilam entre um humor desbragado e uma seriedade capaz de obrigar o leitor a reflectir. O seu último livro, Ten Little New Yorkers, acabou de ser lançado nos EUA.
Hoje, para além da música e da escrita, Kinky Friedman embarcou numa carreira política semi-séria, candidatando-se ao lugar que em tempos pertenceu a George W. Bush, empenhado em tornar-se “o primeiro governador judeu do Texas”. Com o slogan “Why the Hell Not”, a sua candidatura não foi inicialmente levada a sério pelo establishment político texano, mas Kinky provou as suas intenções ao conseguir recolher mais fundos do que o seu opositor directo, o congressista democrata Chris Bell.
Apesar da campanha eleitoral ser a sério, Kinky Friedman não se deixa levar totalmente pela seriedade da política. Numa entrevista recente, um jornalista perguntou-lhe qual será o seu primeiro acto oficial quando for eleito governador. Kinky responde sem hesitar: “A primeira coisa será exigir uma recontagem dos votos.”
::A LER:: Kinky Friedman Official Site / Kinky Friedman’s Blog / The New Yorker: Lone Star / Texas Monthly: Kinky Friedman (colecção de artigos) / Kinky Friedman: a success against all odds (entrevista) / Azeite Farouk-Friedman
::A OUVIR:: Kinky Friedman Speaks Out (entrevista com Ann Devlin sobre o livro The Love Song of J. Edgar Hoover)