Joshua Benoliel em retrospectiva


Joshua Benoliel – Embarque do Corpo Expedicionário Português para a Flandres,
Cais de Santa Apolónia, Lisboa, 1917

A edição deste ano da bienal de fotografia LisboaPhoto integra uma notável retrospectiva – a primeira do género – dedicada ao trabalho de Joshua Benoliel, considerado o pai do foto-jornalismo português. Nascido em Lisboa, em 1873, Joshua Benoliel captou com a sua objectiva alguns dos momentos mais marcantes da história portuguesa do início do século XX: do assassinato do rei D. Carlos, em 1908, à participação portuguesa na Grande Guerra de 1914-18, passando pela implantação da república, em 1910, e pela “revolução” de Sidónio Pais, em 1917.
Judeu, membro activo da comunidade judaica de Lisboa e frequentador assíduo dos serviços religiosos da sinagoga Shaaré Tikvá (Portas da Esperança), Joshua Benoliel deixou transparecer na sua obra um fascínio indisfarçável por Lisboa. Sobre esta faceta de Benoliel conta José Pedro de Aboim Borges:

“Sente-se o amor que este homem tinha pela sua cidade e pelas suas gentes, a facilidade com que deambulava pelas ruas mais esconsas, testemunhando a precaridade das situações sociais, numa atitude próxima dos americanos Riis e Hine. É uma postura mais íntima, mais ‘fado’, mais humana.”

Quando o jornalismo português tentava colmatar o atraso que levava em relação à onda de modernização gráfica que varria o mundo – numa altura em que a própria arte da fotografia em Portugal era, ela própria, ainda embrionária – Joshua Benoliel transforma-se no primeiro repórter fotográfico português, produzindo milhares de “clichés” para inúmeras publicações nacionais e estrangeiras. De entre todas destaca-se a Ilustração Portuguesa, que chegou a atingir uma tiragem de 24 mil exemplares em 1908, um feito notável num país que na altura tinha cerca de 5 milhões de habitantes e uma taxa de analfabetismo na ordem dos 80%.
Sobre a copiosa produção de Joshua Benoliel escreve ainda José Pedro de Aboim Borges:

“Benoliel enviava semanalmente mais de 180 fotografias para a Ilustração Portuguesa (placas de vidro, de gelatino-brometo, de formato 9×12 cm). Se acrescentarmos mais umas 50 para as restantes publicações com quem colaborava, obteremos um número próximo das 260 fotografias semanais efectivamente transaccionadas.”

A exposição retrospectiva da obra de Joshua Benoliel, organizada por Emília Tavares, pode ser visitada até 21 de Agosto na Cordoaria Nacional, Torreão Nascente, em Lisboa.


Joshua Benoliel – Postal ilustrado. Sinagoga de Lisboa, inaugurada a 18 de Maio 1904.

::A VER:: Rui Tavares colocou online algumas excelentes fotografias de Joshua Banoliel (e também de Aurélio da Paz dos Reis, outro pioneiro) no Álbum do Barnabé. A merecer uma visita.

Luís e os Mouros

Devia ser leitura obrigatória. Acabadinho de chegar às livrarias, chama-se A Viragem Profética e foi escrito por Luís Carmelo na tentativa de desvendar o presente à luz das pegadas deixadas por um passado ibérico rico em literatura profética. No seu blog em inglês, o Luís oferece-nos ainda mais uma achega, para ler aqui: Minion: Prophetic literature and war in pre-modern times (The catastrophe of the Hispanic Moriscos or a Memory without Memory). Para complementar tudo isto, e na mesma linha, regressa-se ao Miniscente para ler um poema delicioso: Crescente poético luso – 1 – As laranjas II (Ibn Sâra de Santarém). Parabéns Luís pelo excelente trabalho!

Posta restante… um aviso à navegação

Por motivos infinitamente insondáveis, o meu endereço de email parece ter sido relegado para uma qualquer “lista negra” mantida por alguns ISP’s portugueses, que se recusam a encaminhar as minhas mensagens, o que me tem impedido de responder a uma longa lista de emails enviados para o Correio da Judiaria. Para os leitores que escreveram e ficaram sem resposta aqui fica o meu pedido de desculpas. Para contornar o problema, até ele ser resolvido de forma definitiva, sugiro que enviem mensagens a partir de outros servidores (Gmail, Hotmail, etc). As respostas seguirão na volta do correio…

Fadensonnen

Paul Celan

Acima dos dejectos cinza e negros.
Uma árvore –
elevado pensamento
capta os tons da luz: há ainda
canções para cantar além
da humanidade.

Paul Celan (1920-1970), pseudónimo de Paul Antsche. Poeta, ensaísta e tradutor. Judeu de origem romena.

Bloguices

O Bits & Bytes incluiu a Rua da Judiaria na rubrica os “10 blogues que adoramos” publicada no passado fim-de-semana. Aqui vão os outros nove blogs destacados:

Erotismo na Cidade / Blitzkrieg / O Século Prodigioso / Webcedário / O zombie comeu o meu blog / Ene Coisas / Jaquinzinhos / Alguidar Pneumático / Ao Mirante, Nelson

Um imenso obrigado a Marco Santos pela amável distinção e parabéns aos restantes nomeados. Além de editor do Bits & Bytes, o Marco é autor do Bitaites.

Com o embalo destes destaques, aproveito também para dar os meus sinceros parabéns a um blog notável, o Almocreve das Petas, uma verdadeira instituição da blogosfera, que hoje celebra o seu segundo aniversário. De parabéns está também The Rhine River, o blog do historiador Nathanael Robinson, que completou o seu primeiro ano de existência. Congrats and keep it up!

O Candelabro (um pequeno conto)

Era uma vez o jovem Moishe, que durante anos viajou por terras distantes à procura de um mestre artesão que lhe pudesse ensinar um ofício. Passado muito tempo, Moishe finalmente regressou a casa e cheio de orgulho contou à família que se tornara um ourives de talento. “A minha habilidade é tão grande que o meu trabalho é melhor do que o do meu mestre”, garantia ele perante o olhar incrédulo dos pais e irmãos. Vendo que a família não acreditava nas suas palavras nem nos seus dotes, Moishe pediu ao pai que chamasse os três ourives da cidade para ouvir o que pensavam eles de uma das suas peças – um candelabro de prata com três braços.
Dois dias depois os ourives foram ver a obra de Moishe. Para surpresa da família os três concordaram que nunca tinham visto tamanha monstruosidade. “Isto é uma vergonha para a nossa profissão. Mas este castiçal aqui está quase perfeito”, disse o primeiro, apontando para um dos braços do candelabro. “Absolutamente horrendo… tirando este outro pedaço, que é francamente bonito”, afirmou o segundo ourives. “Esta coisa devia ser enterrada para que mais ninguém lhe ponha a vista em cima. Mesmo assim, este braço aqui até está muito bem feito”, disse o último.
Depois dos ourives terem saído, Moishe olhou para o pai e exclamou radiante: “Eu não vos disse?! Estão a ver como não exagerei. Sou mesmo o mestre dos mestres!” Mas o pai nem queria acreditar: “Estás louco? Não os ouviste dizer que o teu candelabro era uma monstruosidade?”
Sorrindo, Moishe respondeu: “É verdade pai, ouvi. Mas repararam como cada um dos ourives admirou um dos braços do candelabro, mas nenhum deles gostou do mesmo braço? Pois quando eu era aprendiz estudei cautelosamente o trabalho destes três homens. Por isso decidi fazer um candelabro combinando todas as suas imperfeições. Hoje, cada um dos ourives reconheceu nele os defeitos dos colegas, mas ao olhar para os seus próprios erros nada viram de mal.”

Pequeno conto da tradição oral dos judeus da Europa Oriental, atribuído ao rabino Nachman de Bratslav, Lituânia (1772–1810).

::Ilustração:: O Velho Rabino (detalhe) 1642, Rembrandt van Rijn

Borges: A Israel no dia do seu aniversário

Jorge Luis Borges

Israel

Um homem encarcerado e enfeitiçado
um homem condenado a ser serpente
que guarda um ouro infame,
um homem condenado a ser Shylok,
um homem que se inclina sobre a terra
e sabe que esteve no Paraíso,
um homem velho e cego que há de destruir
as colunas do templo,
um rosto condenado a ser máscara,
um homem que apesar dos homens
é Spinoza e o Baal Shem e os Cabalistas,
um homem que é o Livro,
um homem que louva do abismo
a justiça do firmamento,
um advogado ou um dentista
que dialogou com Deus na montanha,
um homem condenado a ser o escárnio,
a abominação, o judeu,
um homem lapidado, incendiado
e atirado em câmaras letais,
um homem que se obstina em ser imortal
e que agora voltou à sua batalha,
à violenta luz da vitória,
formoso como um leão ao meio-dia.

Jorge Luis Borges, Elogio de la sombra (1969)

57 anos da Independência de Israel*

יום העצמאות

::A LER:: The Avalon Project Yale Law School : Declaration of Israel’s Independence 1948 / Declaração de Independência de Israel (resumo em Português) / The Signatories of the Declaration of the Establishment of the State of Israel (breve história do período da independência com notas biográficas dos signatários da declaração) / Jerusalem Post – 57 Years of Independence – Supplement / Haaretz – Independence Day in focus (Supplement) / História de Israel – Destaques / Facts About Israel- History / HISTORY- Biblical Times / HISTORY- The Second Temple / HISTORY- Foreign Domination / HISTORY- The State of Israel / Theodor Herzl, The Jewish State (1896) / The Declaration of the Establishment of the State of Israel – Fascimile

::A VER & OUVIR:: David Ben Gurion lê a Declaração de Independência (áudio, Windows Media) / Israel – 57 anos em 3 minutos (vídeo do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel)

*Segundo a data do calendário hebraico: 5 de Iyar de 5708 (14 de Maio de 1948)

António José da Silva, o Judeu – 300 anos

António José da Silva

Que delito fiz eu para que sinta
o peso desta aspérrima cadeia
nos horrores de um cárcere penoso
em cuja triste, lôbrega morada
habita a confusão e o susto mora?
Mas se acaso, tirana, estrela ímpia,
é culpa o não ter culpa, eu culpa tenho.
Mas se a culpa que tenho não é culpa,
para que me usurpais com impiedade
o crédito, a esposa e a liberdade?

António José da Silva, o Judeu, nascido a 8 de Maio de 1705, há precisamente 300 anos. Poeta escritor e dramaturgo, é considerado o principal responsável pela renovação do teatro português no século XVIII. Preso pela Inquisição a 5 de Outubro de 1737, acusado de praticar o judaísmo, foi executado na fogueira em Lisboa a 18 Outubro de 1739, aos 34 anos, num “auto-de-fé” presidido pelo rei D. João V, “O Magnânimo”. No mesmo dia foram queimados mais dez “judaizantes”.

Ilustração: Tribunal Inquisitorial (pormenor), Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828)

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António José da Silva dá o sinal

Há recompensa a servir de bálsamo
À ira do teu espírito –
Eles podem ter-te morto, mas foram eles
quem ardeu!
Lestos no cadafalso e no garrote,
Para carne judia e corações judeus
castigar na fé e satisfazer o fogo dos fanáticos.
Que esqueçam as histórias incendiadas,
Que baixe a cortina no tenebroso enredo.

Eles riem agora em Lisboa e em Madrid
Em galas ressuscitadas da tua cómica musa ;
Onde piras carnais se ergueram,
Eles titilam a golpes do florete de teu talento.
Saudações Judeu António, acredito que te sentas
À boca de cena, com irónica expressão, no lugar do ponto.

Poema dedicado à memória de António José da Silva, escrito por Walter Hart Blumenthal, antropólogo e historiador norte-americano, nascido nos finais do século XIX.

::A LER:: Wikipédia – António José da Silva / António José da Silva, o Judeu / Casa de Sarmento – António José da Silva, o Judeu / Jewish Virtual Library – Antonio Jose da Silva

מכבי ת”א אלופת אירופה

O Macabi de Tel Aviv é campeão europeu (é o que diz em hebraico o título deste post ) de basquetebol, depois de ter vencido hoje na final, em Moscovo, os espanhóis do TAU Cerámica por um conclusivo 90-78. Este é o segundo título consecutivo alcançado pelo Macabi e a quarta vez que vence a Euroliga de basquetebol desde 1978.

::A LER:: AP – Maccabi Tel Aviv Wins Euroleague Title / El Mundo – Jasikevicius destroza los sueños del Tau / Jerusalem Post Maccabi TA wins back-to-back European Championship titles / Haaretz – Mac TA beats Tau for 2nd Euroleague title in 2 years / Ynetnews – Maccabi Tel Aviv wins Euroleague.

A Resposta (um pequeno conto)

Dois estudantes do Maggid de Mezheritz foram ter com o mestre: “Rabi, temos um problema. Está escrito no Talmude que devemos agradecer tanto pelos dias bons como pelos maus. Como pode ser isto possível? Que significado terá a nossa gratidão se ela for igualmente repartida entre o bom e o mau?”
Ao ouvir a interrogação dos seus discípulos, o Maggid respondeu: “Vão até Anapol e procurem o rabino Zusya. Ele terá a resposta que procuram.”
Os estudantes puseram-se a caminho e depois de dois dias de viagem chegaram finalmente a Anapol. Na mais pobre rua da vila, entre duas pequenas casas, encontraram uma modesta cabana praticamente em ruínas. Lá dentro, o rabino Zusya estava sentado à mesa, a ler um livro iluminado por uma nesga de luz que vinha da única janela da habitação. À sua volta não havia praticamente nada além da mesa, três cadeiras e uma estante carregada de livros. Ao ver que tinha visitas, o velho rabino ergueu os olhos: “Sejam bem-vindos! Desculpem eu não me levantar, mas tenho umas dores terríveis nas pernas. Querem comer alguma coisa? Só tenho algum pão… mas também há água…”
“Não. Viemos somente para lhe fazer uma pergunta. O Maggid de Mezheritz disse-nos que o rabi Zusya nos poderia explicar porque razão o Talmude diz que devemos agradecer tanto os dias bons como os maus?”
O velho rabino sorriu e abanou a cabeça com ar intrigado: “Eu? Não faço a mínima ideia porque é que o Maggid de Mezheritz vos mandou vir ter comigo. É que eu nunca tive um dia mau na minha vida. Todos os meus dias são sempre cheios de milagres.”

Baal-Shem-Tov, nome pelo qual ficou conhecido o rabino Israel ben Eliezer (1700-1760), fundador do Hassidismo.

Ilustração: “Oração Matinal”, Kazimierz, o bairro judaico de Cracóvia, Polónia, 1937. Fotografia de Roman Vishniac (1897-1990).

Esta pequena história inaugura uma nova rubrica fixa da Rua da Judiaria dedicada aos contos antigos da tradição judaica. Este primeiro conto, formulado segundo os padrões de uma sensibilidade antiga, escrito pelo seguidor de um homem chamado Baal-Shem-Tov (que quer literalmente dizer Mestre do Bom Nome), sem dúvida um grande nome, é dedicado a José Pacheco Pereira, pelo segundo aniversário do seu Abrupto. Muitos parabéns!

Depois de Auschwitz

Yehuda Amichai

Depois de Auschwitz, não há teologia:
Das chaminés do Vaticano levanta-se fumo branco –
sinal que os cardeais escolheram um Papa.
Dos crematórios de Auschwitz, levanta-se fumo negro –
sinal que o conclave dos Deuses não escolheu ainda
o seu povo.
Depois de Auschwitz, não há teologia:
os prisioneiros do extermínio têm nos braços
os números de telefone de Deus,
números que não respondem
e que se desligam, um a um.

Depois de Auschwitz, uma nova teologia:
os judeus que morreram no Shoá
são agora semelhantes ao seu Deus,
que não tem imagem ou semelhança e não tem corpo.
Eles não têm imagem ou semelhança e não têm corpo.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.


Imagem: Tatuagem de Auschwitz. Número B-11291, de Henry Oertelt, sobrevivente do Shoá e autor da autobiografia An Unbroken Chain: My Journey Through the Nazi Holocaust. Os números tatuados nos prisioneiros eram também conhecidos como “números de cremação”.
No blog Israelity – Life beyond the conflit, Ari Miller conta a história de um jovem que pediu autorização à avó para tatuar os números dela no seu próprio braço. Para ler aqui.
Hoje 5 de Maio de 2005 (26 de Nisan de 5765 do calendário hebraico), celebra-se o Dia de Lembrança dos Mártires e Heróis do Holocausto. Para que não se esqueça o que aconteceu há 60 anos. Para que o sofrimento inimaginável de tantos milhões não tenha sido em vão. Uma oportunidade também para recordar que o genocídio não é uma coisa do passado: Povo de Bahá – Infância perdida.