Emma Lazarus

O Novo Colosso

O Novo Colosso

Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; Os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gémeas.
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela
Com lábios silenciosos “Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.

Gravado numa placa de bronze no pedestal da Estátua da Liberdade, na baía de Nova Iorque, este soneto escrito por Emma Lazarus, a maior poetisa americana do século XIX, era um hino à génese do “sonho americano” e simbolizava também a esperança de liberdade com que os seus antepassados chegaram ao novo mundo.
Filha de Moses e Esther Lazarus, nascida em 1859, Emma orgulhava-se de ser descendente directa de uma das famílias de judeus portugueses que em 1654 desembarcara em Nova Amsterdão, integrada no grupo de 23 refugiados de Pernambuco que fundaram a primeira comunidade judaica da América do Norte. Emma Lazarus era ainda prima direita de Benjamin Cardozo, igualmente descendente de judeus portugueses, juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, ainda hoje tido como um dos mais notáveis e influentes juristas da história do Direito norte-americano.
Educada na Nova Iorque dos meados do século XIX, Emma despertou cedo para a escrita, revelando uma grande sensibilidade e uma enorme aptidão para a poesia. Cedo provaria também que era muito mais do que “uma menina com jeito para fazer versos”, alcançando admiração e amizade entre a elite literária americana da época. Ralph Waldo Emerson foi seu mentor e Henry Wadsworth Longfellow um grande admirador. Mulher e profundamente judia, ao impor-se no panorama cultural americano do século XIX, Emma quebrava duas barreiras que até então pareciam inexpugnáveis.
Aproveitando o sucesso enquanto poeta e escritora, Emma Lazarus expôs os seus leitores às causas que apadrinhava – os Direitos Humanos e a ajuda aos emigrantes, necessitados e indigentes, que diariamente chegavam a Nova Iorque. Como activista de sociedades de beneficência – nomeadamente através da sinagoga dos judeus portugueses Shearith Israel –, ouviu em primeira mão os relatos das perseguições, massacres e pogroms que afligiam os judeus russos e que os empurravam em massa para o estrangeiro (estima-se que entre 1880 e 1920 cerca de 2 milhões de judeus russos tenham emigrado por causa das violentas manifestações de antisemitismo).
Uma década antes do sionismo se tornar um movimento político activo, Emma Lazarus, numa série de 15 artigos escritos para o semanário American Hebrew, intitulados Epistle to the Hebrews – nos quais apelava à unidade contra o antisemitismo –, defendeu a necessidade da criação de uma pátria judaica na terra ancestral de Israel como única forma de fazer face ao antisemitismo:

“(…) Até sermos todos livres, nenhum de nós será livre. Mas deveríamos justificar os insultos dos nossos oponentes, deveríamos tornar-nos “tribais” e judaicos em vez de cosmopolitas como os antisemitas alemães e os perseguidores de judeus da Rússia, ignoramos e repudiamos os nossos infelizes irmãos sem querer ter parte ou porção dos seus infortúnios – até que o cálice de angústia seja erguido também aos nossos lábios.”

Em 1882, no livro Songs of a Semite (Cânticos de um Semita), Emma escreve aquele que os críticos consideram ser o mais “sionista” dos seus poemas: The Banner of the Jew (O Estandarte do Judeu), um apelo épico ao retorno à glória da nação israelita. A sua intransigente defesa dos direitos dos mais desfavorecidos – judeus e não só – fazia dela uma presença constante nas páginas dos jornais da época, entre eles do New York Times (ver Progress and Poverty, NYT 2 de Outubro de 1881).
Inspirada pelos horrores do antisemitismo russo, Emma Lazarus escreveu O Novo Colosso em 1883 para um leilão de recolha de fundos para a construção do pedestal da Estátua da Liberdade (ver original aqui: The New Colossus, from Emma Lazarus’ Copy Book). O poema foi mais tarde gravado numa placa de bronze e colocado nas paredes desse mesmo pedestal. Emma Lazarus morreu em Nova Iorque, aos 38 anos, a 19 de Novembro de 1887, um ano após a inauguração da Estátua.

::A LER:: Jewish Virtual Library – Emma Lazarus / The Century Illustrated Monthly Magazine The Century Co. New York Vol. 36 (14 New Series), Number 6, October 1888 / The New Colossus (1883) / Poem Hunter – Poems of Emma Lazarus / Emma Lazarus Fund – Who is Emma Lazarus? / Jewish Woman’s Archives – Emma Lazarus Exibit

Paul Auster em Lisboa

Percebo agora que devo ter sido um mau filho. Ou se não fui exactamente mau fui uma desilusão, uma fonte de confusão e tristeza. Não fazia qualquer sentido para ele [meu pai] ter produzido um filho poeta. Nem ele percebia porque razão um jovem com dois diplomas da Universidade de Columbia tinha arranjado um emprego de marinheiro num petroleiro no Golfo do México e depois, também sem razão nenhuma, se escapara para Paris onde passou quatro anos a viver miseravelmente.
A mais frequente descrição que ele fazia de mim era que eu tinha “a cabeça nas nuvens”, ou que não tinha “os pés na terra”. De qualquer forma, para ele não devo ter parecido nada substancial, como se fosse uma espécie de vapor ou uma pessoa não totalmente deste mundo. Aos seus olhos, fazia-se parte do mundo trabalhando. Por definição trabalho era qualquer coisa com a qual se ganhava dinheiro. Se não se ganhasse dinheiro não era trabalho. Escrever, por isso, não era trabalho, especialmente a escrita de poesia. Na melhor das hipóteses era uma actividade de recreio, uma forma agradável de passar o tempo entre coisas que realmente tivessem importância. O meu pai pensava que eu estava a desperdiçar os meu dotes, que recusava crescer.
Mesmo assim, uma espécie de ligação persistiu entre nós. Não éramos chegados, mas mantivemos o contacto. Um telefonema por mês, talvez três ou quatro visitas por ano. Cada vez que um livro de poemas meu era publicado eu mandava-lhe diligentemente um exemplar, e ele telefonava sempre a agradecer. Sempre que escrevia um artigo para uma revista eu guardava um exemplar para lhe dar da próxima vez que o visse. The New York Review of Books não lhe dizia nada, mas as minhas peças na Commentary impressionaram-no. Ele sentia que se os judeus publicavam o que eu escrevia era porque eu deveria valer alguma coisa.

Paul Auster, in “The Invention of Solitude” (p.61)

Paul Auster, poeta e escritor americano, judeu magnífico, está em Lisboa. O Leonel Vicente promete relatar as suas conversas com os leitores portugueses. A primeira parte já está aqui: Memória Virtual: Paul Auster na Culturgest

Receita para um poema

Tristan Tzara

Para fazer um poema dadá
Pega num jornal.
Pega numa tesoura.
Escolhe um artigo do tamanho pretendido para o poema.
Recorta o artigo.
Recorta depois cada uma das palavras do artigo e coloca-as num saco.
Sacode suavemente.
Retira então os recortes um atrás do outro.
Copia escrupulosamente na ordem em que saíram do saco.
O poema será como tu.

Tristan Tzara, pseudónimo de Samuel Rosenstock (1896-1963), judeu francês de origem romena, fundador do Dadaísmo.

Leituras: um inquérito

Desafiado por Vit Webb e Bruno Sena Martins, autores de dois dos meus blogs favoritos, aqui vai a minha resposta ao questionário que ameaça transformar-se num dos memes mais interessantes e persistentes da blogosfera.

1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Sem pestanejar: A edição dos 23 volumes de Sefer Ha’Zohar (ספר הזהרO Livro do Esplendor), em aramaico, do rabino Shimon bar Yochai, com tradução e comentário hebraico de Rav Yehuda Ashlag (Baal Ha’Sulam). Os cabalistas acreditam que o estudo deste tratado pode precipitar a “era messiânica” – a redenção da humanidade – e trazer a paz universal.

2- Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
Quando tinha 12 anos li All Creatures Great and Small (já não me lembro do título em português…), de James Harriot, e por causa dele durante anos tive o inconfessado sonho de ser veterinário.

3- O último livro que compraste?
Longe de Manaus, de Francisco José Viegas (porque tenho imensas saudades de Jaime Ramos). Ainda vem a caminho…

4- Os últimos livros que leste?
A Journey to the End of the Millennium – A Novel of the Middle Ages, de A.B. Yehoshua; The Future of Freedom, de Fareed Zacaria; The Case For Democracy: The Power of Freedom to Overcome Tyranny and Terror, de Natan Sharansky; The Plot Against America, de Philip Roth; e Rembrandt’s Jews, de Steven Nadler (um retrato extraordinário da comunidade de judeus portugueses emigrados na Amsterdão do século XVII).

5- Que livros estás a ler?
Sigmund Freud and the Jewish Mystical Tradition, de David Bakan; Selected Writings of Philo of Alexandria, editado por Hans Lewy; The God of Small Things, um romance absolutamente brilhante de Arundhati Roy.

6- Que livros que levarias para uma ilha deserta?
Os seis volumes de À la Recherche du Temps Perdu, de Marcel Proust; Brave New World, de Aldous Huxley; Sybil, de Benjamin Disraeli; A trilogia U.S.A., de John Dos Passos; Herzog, de Saul Bellow; Musa Irregular, de Fernando Assis Pacheco; Os Passos em Volta, de Herberto Helder; e No Reino da Dinamarca, de Alexandre O’Neill

7 – Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?

A Francisco José Viegas (porque o quero ver a blogar novamente), a José Mário Silva (porque se a escrita dele inspira, as leituras não devem ficar atrás), a Alexandre Soares Silva (porque me delicio sempre com o seu humor iconoclasta) e Nathanael Robinson (porque sei que ele lê livros interessantes – by the way Nathanael, if you have trouble with the Portuguese you can find an English version of this questionnaire here: vitriolica webb’s ite: a gentle, interesting way to network… BOOKS!).

A solidão do meu vizinho Vladimir


“Casal sob a Huppá” (1930), Aurel Richter, pintor judeu de origem húngara.

Vladimir praticamente não fala inglês. Professor de Física na extinta União Soviética, reformado e emigrado sob o sol de Los Angeles, o meu vizinho da frente é um velho judeu simpático que sorri sempre que nos cruzamos no corredor. “Pesach… when?” Perguntou-me ele esta tarde, querendo saber o dia da Páscoa judaica. “Saturday”, disse-lhe eu. “You… Seder… with your son?”, perguntei tentando perceber se ele ia passar a Páscoa com o filho. Vladimir abanou a cabeça negativamente, explicando a seguir, num misto de russo, inglês e yiddish que o filho estava fora de Los Angeles.
Pesach… gefilte fish…”, ao pronunciar estas palavras – evocando a memória de um prato de peixe recheado tradicional da páscoa dos judeus da Europa oriental – o seu sorriso esvai-se. Vladimir volta a cara abanando a cabeça. Olha para mim e pede desculpa. Os seus olhos estão agora vermelhos, jorrando lágrimas. É a primeira Páscoa que Vladimir passa sem a mulher, falecida há duas semanas vítima de um cancro irreversível. Vladimir é um homem profundamente só. Desde que os conhecera, via-os vezes sem conta passear até ao parque ao cair da tarde. Ele empurrando a cadeira de rodas dela, conversando e rindo como se namorassem.
Vê-lo assim provocou em mim um sentimento de tristeza e profunda impotência. Que se pode dizer a um homem quando ele perde o amor da sua vida? Como se consola alguém que tem um vazio imenso dentro de si e dentro da sua própria vida? Os dias de festa – e a lembrança do que esses dias foram no passado – só aumentam mais a dor, como sal numa ferida aberta. A Páscoa é para os judeus o que o Natal é para os cristãos –um dia para passar em família, celebrando com um imenso jantar.
Come to our house for Seder”, convidei eu. “but… me… no English…”, respondeu Vladimir. Tentei sossegá-lo, dizendo que a minha sogra vai lá estar e que ela fala yiddish. Por breves instantes, o sorriso voltou-lhe. Ficou combinado. O meu velho vizinho acenou com a cabeça, abriu a porta de casa e olhando para mim apontou para o retrato da mulher, pendurado por cima do sofá, logo à entrada. É o retrato de uma mulher jovem e bela, provavelmente tal como ela era há 55 anos, quando se casaram. Uma mulher de quem ele sente agora uma falta impossível de exprimir no curto vocabulário da língua que temos em comum. Vladimir vira-se para a foto e depois para mim. Abana a cabeça com os olhos humedecidos e raiados de um vermelho vivo. “Sorry… sorry… shalom”, despede-se ele pedindo desculpa.
Fechei a porta. Tentando imaginar a inimaginável solidão de Vladimir, fiquei irremediavelmente contagiado pelas suas lágrimas.

Shabot6000: Seda’ Club, o filme

Para a Páscoa judaica (פסח), que se celebra já no próximo fim-de-semana, Ben Baruch, o autor da série Shabot6000, resolveu dar cor, voz e movimento aos nossos dois conhecidos personagens, realizando um pequeno filme animado absolutamente hilariante. Shabot traz um amigo para o Seder, a ceia da Páscoa judaica… o resultado é imperdível. Para ver o filme basta clicar na imagem.

Einstein morreu há meio século

Albert Einstein, uma das figuras mais marcantes do século XX, morreu a 18 de Abril de 1955, faz hoje exactamente 50 anos.


Einstein conversa, numa esquina de Bolonha, com o matemático italiano Federigo Enriques, descendente de uma família judaica de origem portuguesa.

::A LER:: Arquivos da Judiaria: Existirá uma mundivisão judaica? Por Albert Einstein

(um imenso obrigado a Rui Curado Silva pela lembrança da data)

Notas de fim-de-semana

Com o trabalho, por um lado, e os preparativos para a Páscoa (פסח) – que se celebra nos próximos dias 23 e 24 –, por outro, não consegui ainda arranjar o tempo que queria para reatar o diálogo inter-religioso com o meu bom amigo José, autor do excelente Guia dos Perplexos. Conto poder publicar depois da Páscoa uma primeira resposta às questões que o José levantou (coisa que já prometera aqui). Espero que ele me perdoe o atraso. Até lá, tenho uma semana para descobrir como vou conseguir pôr 30 pessoas a jantar cá em casa, no que promete ser um Seder de proporções épicas…

Post Scriptum – Não queria acabar a semana sem recomendar aqui Longe de Manaus, o último romance de Francisco José Viegas. Ainda não li, mas já ouvi dizer que o Mestre d’Aviz continua em excelente forma (apesar de, infelizmente, blogar cada vez menos). Entretanto, e ainda dentro da temática do diálogo inter-religioso, chamo também a atenção para um bom post/reportagem fotográfica de Marco Oliveira no Povo de Bahá.

Ehud Manor, o bardo de Israel

Ofra Haza – Chai

Ehud Manor, um dos mais prolíficos poetas israelitas, morreu subitamente na terça-feira, aos 64 anos, vítima de um ataque cardíaco. O seu funeral foi realizado ontem à tarde na pequena cidade de Binyamina, a sua terra natal. Ehud Manor era reconhecido especialmente pelas inúmeras letras que escreveu para canções que se tornariam inesperados êxitos internacionais – entre elas “Aba Ni Bi” e “Chai”, que representaram Israel no Festival Eurovisão da Canção, onde alcançaram o primeiro e segundo lugar, respectivamente.


(clique na imagem para ouvir a canção)

Vivo (חי)

Oiçam irmãos, estou ainda vivo
E os meus olhos ainda se erguem para a luz
Muitos são os meus espinhos, mas também as minhas flores
E à minha frente estão anos numerosos demais para contar
Eu peço e rezo
É bom que a esperança não se perdeu ainda

Um salmo passa de geração em geração
Como uma Primavera antiga, rumando à eternidade
Eu peço e rezo
É bom que a esperança não se perdeu ainda

Refrão:
Vivo, vivo, vivo – Sim, estou ainda vivo!
Esta é a canção que o meu avô
Cantou ontem ao meu pai
E hoje eu canto.
Estou vivo, vivo, vivo
O povo de Israel vive
Esta é a canção que o meu avô
Cantou ontem ao meu pai
E hoje eu canto.

Os meus dias e noites estão cheios de vida
E no meu céu o pilar de fogo ainda se ergue
Cantarei eternamente
Abro os meus braços
Aos meus amigos do outro lado do mar
Eu peço e rezo
É bom que a esperança não se perdeu ainda

(Refrão)

Vivo, vivo, vivo (2x)
Vivo, estou ainda vivo!

Com letra de Ehud Manor e música de Avi Toledano, “Chai” foi cantada por Ofra Haza, representando Israel no Festival Eurovisão da Canção de 1983, realizado na Alemanha. O poema original em hebraico pode ser lido aqui: חי

::A LER:: Haaretz – His strength was his simplicity / Haaretz – Happiness in the simple landscapes of childhood / Arutz Sheva – Deputy PM Shimon Peres: Manor Was the Most Beloved of Israel / Jerusalem Post – Thousands mourn at Manor’s funeral / Murió el poeta israelí, Ehud Manor / È morto Ehud Manor / Entrevista a Ehud Manor: Made in Binyamina / המוסיקה של ישראל – אהוד מנור / אהוד מנור – ויקיפדיה / Ynet – אהוד מנור – תרבות ובידור

Yosef Caro: um rabino português no exílio

Dentro de poucos dias, segundo o calendário hebraico, comemora-se o 430° aniversário da morte do rabino quinhentista Yosef Caro (1488–1575), considerado o maior codificador da Lei Judaica. O rabino Yosef ben Ephraim Caro (יוסף בן אפריים קארו), muitas vezes erroneamente identificado como espanhol, nasceu em Portugal em 1488, mas ainda criança foi obrigado a emigrar com a sua família para a Turquia na sequência do Decreto de Expulsão dos Judeus assinado por D. Manuel I em 1497 e das consequentes perseguições inquisitorais. Já adulto, Yosef Caro passaria ainda pela Bulgária e pela Grécia, fixando-se finalmente em Safed, a cidade dos cabalistas, na Galileia, onde faleceria, a 24 de Março de 1575 (13 de Nissan do ano de 5335 no calendário hebraico).
Em Istambul conheceu e ficou amigo de Diogo Pires, um secretário da corte portuguesa, “cristão-novo”, que regressara ao judaísmo adoptando o nome de Salomão Molko (שלמה מולכו). Após o retorno ao judaísmo, Diogo Pires tornou-se um rabino místico com inegáveis poderes de oratória que influenciaria os escritos de sábios cabalistas como os rabinos Isaac Luria e o seu sucessor Hayim Vital. O contacto com Diogo Pires – que acabaria por morrer nas fogueiras da Inquisição em Mantua, em 1532 – teve um profundo impacto na obra de Yosef Caro, que nos últimos anos da sua vida se dedicaria exclusivamente a escrever tratados cabalísticos, entre os quais se destaca o diário místico “Maggid Mesharim” (Pregação de Retidão), publicado em Veneza após a sua morte.
Filho de um eminente talmudista, Yosef Caro começou a estudar as escrituras sagradas judaicas ainda criança, desenvolvendo conceitos interpretativos revolucionários. Através da análise metódica das discussões talmúdicas – no Talmude, os rabinos dissecam até à exaustão cada palavra ou frase da Mishná, em busca do seu sentido primordial – Yosef Caro escreve “Shulhan Arukh” (“Mesa Posta”), aquela que ainda hoje é considerada a obra codificadora de referência da Lei Religiosa judaica, a Halakhá (הלכה).
Durante a sua vida Yosef Caro publicou ainda: “Bet Yosef” (Casa de Yosef), em quatro partes (I, II) Veneza, 1550-1551; (III, IV) Sabbionetta, 1553-59; “Shulhan Aruk” (Mesa Posta), em quarto partes, Veneza, 1565; “Kesef Mishneh”, Veneza, 1574-75. Após a sua morte foram ainda publicados: “Bedek ha-Bayit” (Reparar a Casa), suplementos e correcções a “Bet Yosef,” Salónica, 1605; “Kelale ha-Talmud” (Metodologia do Talmude), Salónica, 1598; “Abkat Rokel” (Pó do Mercador), responsa, Salónica, 1597 e 1791; “Maggid Mesharim” (Pregação de Retidão), Veneza, 1654; “Derashot”, Salonica, 1799, na colecção “Oz Tzaddikim” (O Poder dos Justos). O rabino Yosef Caro deixou ainda um vasto lote de comentários da Mishná, bem como outros comentários a escritos de Rashi e Nahmanides ao Pentateuco.

ShaBot6000: Estudo


(clique na imagem para ampliar)

Glossário:
Torá – Em sentido lato, a substância da revelação divina (תורה). Também utilizada como sinónimo de “Lei”. O significado da palavra Torá é habitualmente usado na linguagem corrente apenas para designar o Pentateuco, os primeiros cinco livros da Bíblia Hebraica. Também grafado como torah, seguindo a transliteração inglesa, com o “h” a denotar acentuação na última sílaba.