O cabelo branco

Judá Halevi

Um cabelo branco um dia na minha cabeça vi crescer;
E, ao arrancá-lo bruscamente, disse-me ele:
“Podeis sorrir, se quiserdes, da forma como me tratais,
mas uma multidão de meus irmãos virá em breve
zombar de vós.”

Judá Halevi (1085-1140), poeta e filósofo, judeu de Toledo.

[tradução preliminar]

Saul Bellow (1915-2005)

::A LER:: He Was an American, Quebec-Born – Saul Bellow’s legacy. By Christopher Hitchens / Jerusalem Post – Saul Bellow dies at the age of 89 / Guardian Unlimited Books – Saul Bellow, giant of American literature, dies at 89 / The New York Times – Saul Bellow, Who Breathed Life Into American Novel, Dies at 89 / New York Times – Edward Rothstein talks about Saul Bellow’s Legacy (multimedia) / The New York Times – A Retrospective on Saul Bellow / The New York Times – An Appreciation: Saul Bellow, Poet of Urban America’s Dangling Men / Nobel – Saul Bellow / Saul Bellow – Wikipedia / Books & Writers – Saul Bellow / Guardian Unlimited Books – The joy of texts (entrevista) / Lesson Plans – Herzog, by Saul Bellow / MyJewishLearning.com – Culture: Saul Bellow / Literary Encyclopedia: Bellow, Saul / Britannica – Bellow, Saul / Quartzo, Feldspato & Mica: “Na corda bamba” / A Montanha Mágica: Saul Bellow

Saul Bellow fotografado por Christopher Felver.

Quando a publicidade fala mais fundo

A publicidade televisiva é talvez a melhor das ferramentas modernas da antropologia cultural. Quem viaja pelo estrangeiro sabe o fascínio que é surfar pelos canais nativos, de controlo remoto na mão, e ver o que interessa às gentes naquela terra. Muitas vezes são superficialidades: apelos mais ou menos encobertos ao sexo, à fama, à ostentação de sinais exteriores de riqueza e abundância ou simples apelos a necessidades mais básicas. Mas há casos que fogem de todo a este molde tradicional, revelando anseios bem mais profundos, mas mesmo assim também eles profundamente básicos. De alguma forma, a publicidade na TV consegue muitas vezes pôr a nu a alma dos povos a que se destina, ao revelar o que verdadeiramente os seduz – porque, afinal, a publicidade é um jogo de sedução. Um apelo aos instintos mais recônditos.
Serve tudo isto para escrever aqui sobre um novo anúncio da companhia telefónica estatal de Israel, a Bezeq, que procura agora cativar novos clientes para o seu serviço de Internet de banda larga. O anúncio da Bezeq (nome que quer dizer “relâmpago” em hebraico), simplesmente fascinante e demonstrativo, intitula-se “Internet: Mais Rápida que a Vida Real” e pode ser visto clicando aqui.
Para os meus leitores que não dominam o hebraico – ou para aqueles que não poderem ver o vídeo – aqui vai uma breve sinopse: um jovem israelita deambula pacatamente pelas ruas de Teerão; passa ao lado de polícias e comerciantes, de mulheres cobertas dos pés à cabeça e de crentes muçulmanos que oram numa mesquita. O jovem israelita – facilmente identificável como tal pela sua t-shirt – acaba por se sentar numa esplanada, olhando para o relógio sob o omnipresente cartaz de um ayatollah. Um muçulmano vem ter com ele. Reconhecem-se e, por entre sorrisos, abraçam-se longamente antes de se sentarem à mesma mesa para jogar uma partida de gamão. No final, à medida que a imagem se afasta dos dois amigos, aparece no ecrã uma frase em hebraico: “Na vida real isto é ainda impossível, mas na Internet ligações como esta acontecem todos os dias.” Uma voz-off acrescenta: “013Barak, a Internet mais rápida do que a vida real.”
Por tudo aquilo que revela, ao apelar ao anseio pela paz e pela tolerância, este é um dos mais tocantes anúncios televisivos que alguma vez vi. Vale mesmo a pena espreitar. É só clicar aqui.

Um imenso obrigado à Rinat e ao Gustavo Erlichman pela preciosa dica.

Karol Józef Wojtyła (1920 – 2005)

“Deus dos nossos pais, que escolheste Abraão e os seus descendentes para trazer o Teu nome às nações: estamos profundamente tristes com o comportamento daqueles que, ao longo do curso da história, causaram sofrimento a estes teus filhos e, pedindo o teu perdão, manifestamos o desejo de nos comprometermos a uma irmandade genuína com o povo do convénio.”

João Paulo II, mensagem deixada entre as pedras do Muro das Lamentações (Kotel), em Jerusalém, a 26 de Março de 2000.

Baruch Spinoza

Jorge Luis Borges

Bruma de ouro, o ocidente ilumina
A janela. O manuscrito assíduo
Aguarda, carregado de infinito.
Alguém constrói Deus. É um judeu
De tristes olhos e pele citrina;
Leva-o o tempo como leva o rio
Uma folha na água que declina.
Não importa. O mago insiste e lavra
Deus com geometria delicada;
Da sua enfermidade, do seu nada,
Continua erigindo Deus com a palavra.
O mais prodigioso amor lhe foi outorgado,
O amor que não espera ser amado.

Jorge Luis Borges
in La Moneda de Hierro (1976)

[Tradução preliminar]

O regresso dos diálogos inter-religiosos…

O meu amigo José, autor do Guia dos Perplexos, faz uma excelente reflexão histórica, comentando um post meu sobre o livro Why the jews rejected Jesus, de David Klinghoffer (ver Rua da Judiaria – Jesus, o Judeu: Dois livros a não perder). O post do José intitula-se Reflexões pascais (1) – um exercício especulativo (publicado também na última edição do excelente blog colectivo catolico-ecuménico Terra da Alegria). O José desafia-me a comentar, no seguimento da nossa (minha e dele) tradição de diálogos inter-religiosos. O desafio fica desde já aceite com imenso prazer. Prometo responder-lhe assim que o tempo me permita.

Mourinho, Israel, Futebol & Karma

José Mourinho passou por Israel esta semana, convidado por Shimon Peres para promover uma iniciativa que põe o futebol ao serviço da paz, na qual crianças israelitas e palestinianas jogam juntas, em equipas mistas, e aprendem a olhar uns para o outros como iguais. Mourinho falou também com treinadores de futebol israelitas e palestinianos. Na capital, Jerusalém, visitou o Kotel (o Muro das Lamentações) e, envergando um kippá, colocou entre as pedras uma oração. Descrito por alguns como “arrogante” e “megalomaníaco”, o actual treinador do Chelsea confessou nunca se ter sentido “tão humilde”.
Por falar em arrogância, do outro lado do espectro, o guarda redes da selecção francesa de futebol, Fabien Barthez, ameaçara não jogar na partida com Israel em protesto contra as acções do exército israelita nos territórios ocupados (ver French goalie refuses to play in Israel), aparentemente sem se deixar influenciar pelos ventos de mudança e paz que começam a soprar na região. Um sentimento diametralmente oposto àquele que fez os israelitas – judeus e árabes – celebrarem sábado à noite o golo de Abbas Suwan, jogador israelita árabe da selecção de Israel, frente à Irlanda.
Dias depois, Barthez voltaria atrás, dizendo que as suas preocupações tinham a ver com a segurança da equipa. Por fim, acabou mesmo por jogar ontem no estádio nacional de Ramat Gan, nos arredores de Tel Aviv, e foi merecidamente vaiado cada vez que tocou na bola. Num golpe de “justiça cósmica” (também conhecida como karma ou תקון – tikun – no judaísmo), Israel empatou com a poderosa França e Barthez teve grandes culpas no golo do meio-campista israelita Walid Badier. A foto acima documenta o momento.
No próximo dia 1 de Junho, curiosamente, a França vai disputar uma partida amigável com a República Popular da China. Barthez irá jogar e, obviamente, nunca lhe terá sequer passado pela cabeça protestar contra as sistemáticas violações de direitos humanos cometidas por Pequim. Nada melhor para complementar a hipocrisia do que o “activismo” selectivo.

:: A LER:: Orthodox Anarchist – אנרכיסט אורתודוקסי – When Nationalism Isn’t A Dirty Word / Povo de Bahá – “Não sou de esquerda, nem de direita; sou do 4-3-3” / Jose never felt so humble / Jerusalem Post – Mourinho lends a helping hand for peace / Haaretz – Under fire at home, Mourinho comes to make peace in Israel / Haaretz – Chelsea coach in Israel to promote peace through sport / Mourinho happy to bridge divide – Times Online / Jerusalem Post – Mourinho impresses local coaches / Ynet – ז’וזה מוריניו: אולי אצרף שחקן ישראלי לצ’לסי – ספורט / Ynet – מוריניו בישראל: אעשה הכל כדי לתרום לשלום – ספורט / התרומה של מוריניו למרכז פרס לשלום – הארץ – מאמר / וואלה! חדשות – ז’וזה המדינה / יצא גדול: על ביקור מוריניו בישראל / התוצאות של ישראל פותחות את העיניים / אני לא עובד יותר מחמש שעות ביום

O “perigoso” ensino da tolerância

Professores primários do Dubai protestaram junto das autoridades locais contra o facto de uma escola privada estar a usar nas aulas um livro com desenhos de crianças árabes e judias a brincarem juntas. O “polémico” livro, intitulado “Amigos para Sempre”, faz parte do currículo da International School dos Emirados Árabes Unidos e corre agora o risco de ser banido pelas autoridades educativas locais. A notícia integral pode ser lida aqui: Al-Bawaba – Dubai: School book featuring Jewish kids stirs uproar e Khaleej Times – Teachers object to book showing Jewish children (o Khaleej Times é o principal diário de língua inglesa dos Emirados Árabes Unidos). Como contraponto, ler também: Saudi textbooks denounce Jews as wicked.

Direitos Humanos?


Na véspera da divulgação do relatório da comissão Volcker sobre o escândalo Oil-for-Food na ONU (ver Roger L. Simon: Special Report – Oil-for-Food Investigation), para os que continuam a acreditar que a Organização das Nações Unidas pode ainda ser levada a sério, vale a pena ler este artigo de opinião assinado Frida Ghitis, colunista do Boston Globe, intitulado The UN charade on human rights. Curiosamente, um tribunal de Tripoli condenou à morte cinco freiras búlgaras. Esta é a mesma Líbia que até há pouco tempo presidia à Comissão de Direitos Humanos da ONU (ver BBC NEWS – Libya ‘right for human rights job’).

Ilustração e sugestão de leitura roubadas ao The Wandering Jew

Miliário blogosférico

A CNN doméstica, reconhecendo a importância crescente dos blogs enquanto veículos de informação e comentário, acabou de criar a posição de “blog reporter” ocupada por duas jornalistas cuja missão única é ler e falar sobre blogs num segmento diário de 4 minutos intitulado Inside the Blogs (vídeo disponível aqui).
Entretanto, num quadrante da blogolândia mais próximo, os últimos dias foram marcados pelos aniversários de excelentes blogs que merecem ser assinalados. Fizeram dois anos o Contra a Corrente, o Fumaças, A Montanha Mágica, O País Relativo (que tristemente decidiu também encerrar as portas) e (o vento lá fora)*, de Paulo Querido, o decano e impulsionador-mor da blogosfera lusa. Mais jovem, o Fora do Mundo, de Pedro Lomba, Pedro Mexia e Francisco José Viegas, cumpriu o seu primeiro aniversário. Tentando escapar à tradição de assinalar tardiamente os aniversários dos blogs que visito com regularidade, gostava de dar já os parabéns antecipados à Charlotte: a Bomba Inteligente faz dois anos no dia 2 de Abril.

Breve nota sobre a data da Páscoa Judaica

Aos meus caros leitores católicos (e cristãos em geral):
Não, a Páscoa Judaica (Pesach, פסח) não se celebra hoje, domingo da Páscoa Cristã. A Páscoa Judaica é celebrada de acordo com o calendário hebraico, ocorrendo este ano nos dias 23 e 24 de Abril (dias 14 e 15 do mês hebraico de Nisan do ano 5765). Mesmo assim, agradeço os desejos de חג פסח שמח (páscoa feliz) antecipados que muito gentilmente me enviaram.

ShaBot6000: Purim


(clique na imagem para ampliar)

Glossário:
Purim – Festival religioso judaico que se inicia hoje e termina amanhã à noite, também conhecido como “Festa das Sortes”, que celebra a sobrevivência da comunidade judaica na Pérsia, durante o reinado do rei Xerxes (entre 485 e 464 antes da Era Comum), após uma ordem que decretara o seu extermínio, ordenado por Haman, grão-vizir do reino. Dois judeus, a rainha Ester e o seu tio, Mordecai, são os heróis da história deste festival. O Purim, habitualmente descrito como “o carnaval judaico”, é uma festa alegre durante a qual não é permitido jejuar ou estar de luto. Segundo o Talmude, neste dia os judeus devem beber “até que não se destingam as vivas a Mordecai e as maldições a Haman”.
Mas lembrem-se, se beberem não conduzam… especialmente se for shabbat.

! חג פורים שמח

A História e a Páscoa


O saque de Jerusalém pelos soldados romanos (ano 70), Arco de Tito, Roma.

Aos 33 anos de idade, Yeshua ben Yosef, um pregador da Galileia, cumpriu um ritual que mantinha desde criança – uma tradição, aliás, seguida à risca pela sua família e pela maioria dos habitantes do reino – e deslocou-se a Jerusalém para celebrar a Páscoa, o festival que coincidia com a chegada da Primavera. Se as contas do calendário gregoriano estivessem correctas, na noite de 3 de Abril do ano 34, uma sexta-feira (dia 14 do mês de Nisan do ano 3793 do calendário hebraico), acompanhado por 12 outros judeus seus seguidores, Yeshua participou no que provavelmente terá sido uma refeição ritual – o Seder –, comemorando a libertação do seu povo da escravidão no Egipto. Dias depois, acusado de ser um agitador, o pregador seria morto por ordem do governador romano da Judeia. Esbatidos pelas poeiras da história, alguns destes detalhes foram sendo gradualmente esquecidos. A posteridade recorda apenas Yeshua. O mundo haveria de conhecer este judeu da Galileia através da corruptela grega da tradução do seu nome: Ιησούς – Jesus.
Celebrada pelos cristãos para assinalar a morte de Jesus, a Páscoa cristã – a principal festividade do calendário litúrgico católico –, foi instituída por decisão do Concílio de Niceia, convocado pelo imperador Constantino, no ano 325, quase três séculos após a crucificação. O nome em si vem do grego pascha, que por sua vez é uma adaptação do termo hebraico para as festividades judaicas que assinalam a libertação do cativeiro do Egipto: pessach.
Apesar da Páscoa cristã não ter hoje nada a ver com a sua ancestral judaica, a oração de proclamação “de glória e ressurreição” contida no hino pascal católico Exsultet orbis gaudiis faz a ligação às raízes judaicas do cristianismo ao evocar nos seus versos “a libertação do povo de Israel da escravidão”. Curiosamente, a Páscoa é a única festividade cristã cuja data não é fixa – uma característica que partilha com algumas festas religiosas do judaísmo –, ocorrendo no primeiro domingo após “a primeira lua nova eclesiástica depois do equinócio de 21 de Março”. Assim, dependendo dos anos, a data da Páscoa cai entre 22 de Março e 25 de Abril.
Os próprios símbolos que nas missas católicas pretendem recordar a última refeição de Jesus e o chamado sacrifício pascal – o pão e o vinho – são retirados directamente do Seder da Páscoa judaica. Ainda hoje, numa tradição que dura há milénios, os judeus celebram a sua Páscoa cumprindo mandamentos estritos que ordenam que se beba vinho e coma pão ázimo em memória da libertação dos israelitas, liderados por Moisés, da escravidão no Egipto (ver vinho e matzá). Estes dois elementos profundamente judaicos estão na origem da utilização da hóstia e do vinho nas missas católicas, introduzidos nos primeiros séculos, quando ainda todos os seguidores de Jesus eram judeus e o cristianismo era apenas uma denominação sectária do judaísmo.
O relato cristão da história pascal é bem conhecido de todos, no entanto, as narrativas tradicionais da Paixão de Cristo e da Páscoa cristã – descritas pelos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João – são hoje postos em causa por historiadores e académicos, que descrevem os textos sagrados cristãos primariamente como doutrinários e não históricos, contendo entre si inúmeras contradições e inconsistências. Mesmo assim, eles são muitas vezes a única fonte directa de informação. Na verdade, os evangelhos, canonizados como parte integrante da Bíblia cristã no século IV, seriam escritos apenas no século II, cerca de 100 anos decorridos sobre a morte de Jesus – numa altura em que o cristianismo primitivo se debatia com intensas discussões doutrinárias e uma vontade crescente de emancipação em relação ao judaísmo.
Confrontando os escritos da tradição cristã com outras fontes da época, os historiadores rejeitam hoje de forma consensual alguns dos factos narrados nos primeiros livros do Novo Testamento em relação à morte do messias cristão. Um deles, por exemplo, é a libertação de Barrabás em vez de Jesus, a pedido da multidão (descrito em Mateus 27:15 a 21).
Autor do livro The Homeric Epics and the Gospel of Mark, o historiador americano Dennis R. MacDonald, um especialista no Novo Testamento, defende que, para além dos evangelhos, não existe qualquer prova histórica para o alegado costume romano de libertar um prisioneiro a pedido dos judeus. Para mais, acrescenta MacDonald, esta prática seria “simplesmente absurda”, uma vez que os romanos nunca libertariam alguém, por exemplo, acusado de matar soldados seus, como acontece com Barrabás. O historiador argumenta que, um século após os acontecimentos, os evangelistas teriam “criado” o alegado costume como forma de estabelecer termos comparativos entre o Bem (representado por Jesus) e o Mal (Barrabás), demonstrando de forma alegórica a tendência do povo para escolher o mal.
O emblemático “lavar de mãos” de Pilatos em relação a Jesus, na opinião dos historiadores, é também bastante improvável. “As realidades do poder de Roma, bem como o próprio temperamento de Pilatos, fazem com que a teoria da culpa dos judeus pela morte de Jesus seja completamente implausível em termos históricos”, escreve o padre e historiador americano Bruce Chilton no livro Rabbi Jesus – An Intimate Biography, um aprofundado trabalho sobre o Jesus Histórico integrado nas suas raízes judaicas.
Por tudo isto, os relatos evangélicos da relutância de Pilatos em condenar Jesus são lidos pelos historiadores como uma tentativa dos cristãos primitivos de tornar a narrativa da Paixão o menos censurável possível aos olhos dos romanos, no seio dos quais se pretendiam integrar – assumindo-se ao mesmo tempo como uma ruptura com a sinagoga judaica, da qual se queriam agora afastar definitivamente.
Historiadores judeus da época, como Flavius Josephus e Philo de Alexandria, descreveram de forma extensa e detalhada a brutalidade do governador romano da Judeia. Philo chamou-lhe “inflexível, casmurro e cruel”, acusando Pilatos de “incomensuráveis actos de crueldade contra os judeus”, incluindo execuções de prisioneiros sem julgamento. A crucificação, aliás, era uma pena romana aplicada exclusivamente àqueles que não eram cidadãos romanos e aos autores de crimes de insubordinação política. Jesus é crucificado por alegadamente se intitular “o rei dos judeus” – o que Pilatos terá recebido como um insulto à incontestável autoridade romana sobre a província.
Curiosamente, a carreira de Pilatos acabaria em desgraça precisamente por causa da sua brutalidade: no ano 36 é chamado a Roma e demitido pelo imperador Tibério, depois de ter ordenado o massacre de uma multidão de mais de quatro mil seguidores de um profeta samaritano.
Como testemunho histórico da sua violência, só no ano em que Yeshua ben Yosef – Jesus – foi morto (34 da Era Comum), pelo menos 3 mil judeus foram igualmente crucificados em redor de Jerusalém. Durante a ocupação romana da Judeia, recorrendo a relatos da época, os historiadores estimam que os romanos terão ao todo crucificado mais de 250 mil judeus.

[::NOTA:: Este post é uma versão integral e “interactiva” de um trabalho deste vosso escriba publicado na edição desta semana da revista FOCUS, cumprindo a promessa feita aqui.]

Passeios históricos pela Blogolândia

Mais dois blogs a acompanhar assiduamente por todos aqueles que se interessam pelas estórias da História: o primeiro é o Curiosities of Literature, dedicado exclusivamente à publicação fascicular do livro homónimo de Isaac D’Israeli (pai do notável Benjamin Disraeli); o outro chama-se Giornale Nuovo, da autoria do mesmo blogger, descrito como “uma acumulação de notícias inconsequentes em forma de web-log”. Já agora, acrescente-se mais um site à lista de favoritos: a página do Centre de Recherche sur la Littérature des Voyages, onde se pode ouvir, entre outras, a gravação de uma conferência (em francês… évidemment) intitulada Civilisations et cités perdues dans la littérature des voyages: Jérusalem des tropiques, l’utopie de l’Eglise primitive dans les écrits missionnaires d’Amérique au XVIe et XVIIe siècles, sobre os missionários jesuítas no Brasil. (via The Rhine River, o blog obrigatório de Nathanael Robinson.)

Ainda o Dia Mundial da Poesia


Micrografia: imagem de uma pomba desenhada com as palavras hebraicas da Oração dos Viajantes.

Para mais sobre a complexa arte da micrografia hebraica ver: Micrography: The Hebrew Word as Art / Hebrew Letters – Micrography / The Word Became An Image / An Introduction to Hebrew Manuscripts.