O mundo permanece em silêncio

Este extenso artigo foi publicado na edição de sexta-feira passada (22/09/2006) do diário israelita Ma’ariv. O seu autor, Ben Dror Yemini, um comentador de centro-esquerda, é editor das páginas de opinião do jornal. O artigo original em hebraico pode ser lido aqui: והעולם שותק. Optei por traduzir o texto e publicá-lo aqui porque Dror Yemini levanta várias questões pertinentes e apresenta factos que merecem uma reflexão aprofundada. Para ler atentamente.


Foto de Enric Marti, Associated Press. 2 de Fevereiro de 2004

um artigo de Ben Dror Yemini

Facto número 1: Desde o estabelecimento do Estado de Israel, um genocídio cruel é perpetrado contra muçulmanos e árabes. Facto número 2: O conflito no Médio Oriente entre israelitas e árabes no seu todo, e contra os palestinianos em particular, é considerado o conflito central do mundo actual. Facto número 3: Segundo sondagens levadas a cabo na União Europeia, Israel é considerada “a maior ameaça à paz mundial”. Na Holanda, por exemplo, 74% da população defende este ponto de vista. Não o Irão. Não a Coreia do Norte. Israel.
A ligação entre estes factos criou a maior fraude dos nossos tempos: Israel é encarado como o país responsável por todas as calamidades, desgraças e sofrimentos. Representa um perigo à paz mundial, e não apenas para o mundo árabe ou islâmico.

Como funciona a fraude

O dedo é habilmente apontado. É difícil culpabilizar Israel pelo genocídio no Sudão ou pela guerra civil na Argélia. Como é que isto é feito?

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Feliz Ano Novo – שנה טובה

Esta noite e amanhã, no primeiro dia do mês hebraico de Tishri (תשרי), celebra-se o Ano Novo judaico, conhecido como Rosh Hashaná. Aqui ficam os votos tradicionais judaicos para este dia, que dedico aos leitores da Rua da Judiaria: Que possam ser inscritos no Livro da Vida e selados para um ano doce e cheio de paz. Feliz 5767!

שתהיה לך שנה מתוקה נפלאה ומלאה בדברים טובים
שנה טובה

A História das Palavras

É a primeira incursão de Inácio Steinhardt pela blogosfera. Chama-se História das Palavras e promete desenlear os novelos de história e histórias que se escondem por detrás de palavras comuns da língua portuguesa. Começou há menos de uma semana, mas já tem muito que ler atentamente.
Na língua hebraica, um dos termos utilizados para “palavras” é “devarim” (דברים) que, além de “palavra”, quer também dizer “coisa”, “objecto” ou “matéria”, fornecendo à “palavra” uma qualidade tangível e palpável. Segundo a tradição judaica, o próprio universo foi criado com palavras. Por tudo isto, e pelas deliciosas histórias que nos conta Inácio Steinhardt, aconselho uma visita regular ao seu História das Palavras.

7.º Centenário da antiga Sinagoga de Lisboa

“Como são belas as tuas tendas, Jacob, as tuas moradas, Israel”
“Números” 24:5, verso inicial da oração de “Má tobu”, que os judeus pronunciam ao entrar na sinagoga

Um texto de Inácio Steinhardt *

Faz agora dois anos – foi em Setembro de 2004 – que a Comunidade Israelita de Lisboa comemorou, com a devida solenidade, o primeiro centenário da inauguração da Sinagoga Portuguesa “Shaaré Tikvá”.
Talvez não venha a despropósito assinalar agora, ainda que apenas de forma simbólica, a outra efeméride – o sétimo centenário da inauguração da primeira grande sinagoga de Lisboa, em 10 de Setembro de 1306, que foi nesse ano o primeiro dia de Rosh Hashaná [o Ano Novo judaico, que este ano é assinalado ao cair da noite da próxima sexta-feira, dia 22 de Setembro], do ano de 5067.
Rosh Hashaná, ou primeiro de Tishri, foi também o dia em que, segundo a tradição, terminou a construção do Templo do rei Salomão.
Talvez que essa outra efeméride estivesse também na intenção do Arrabi-Mor Dom Judah Ben Yahia, neto do primeiro arrabi-mor do Reino, Yahia Ibn-Yaish, ao escolher esse dia para inaugurar a sua opulenta sinagoga.
A placa, já bastante danificada, dessa sinagoga, ainda hoje se conserva no Museu Abraham Zacuto em Tomar.

Nela se lê, pela leitura erudita de Samuel Schwarz:
“Esta é a porta do Senhor pela qual os justos entrarão. Entrai pelas suas portas com graças e em seus átrios com louvor.
Vós que ides no caminho do Senhor acorrei à casa do culto. Três vezes por dia vinde às suas portas em acção de graças.
E tomai nas vossas mãos cítaras e cantai um cântico de graças.
Edifício formoso e belo construiu o opulento rabi Iahuda filho de Guedaliah que tem o seu assento nas assembleias dos justos e da congregação.
Ao nome do Senhor levantou e construiu esta obra magnífica.
E acabou a obra do nosso Deus no primeiro dia do nosso famoso mês de Eitanim, no ano de cinco mil e sessenta e sete do nosso cômputo.
Deus que dispôs o coração do rabino para aformosear a casa do nosso Deus e o nosso Templo, Ele reunirá o Seu povo no Seu santuário [em Jerusalém], e nos fará ver a sua reconstrução em companhia dos nossos filhos.
Bem-aventurado o homem que me obedece, velando às minhas portas todos os dias, guardando as ombreiras das minhas dos meus pórticos.”

“Eitanim” (os firmes) é outro nome dado ao mês de Tishri, porque, segundo a tradição, foi nesse mês que nasceram os três patriarcas da nação de Israel.
Devia ser realmente sumptuosa, em termos da época em que foi construída, essa sinagoga, situada na então Judiaria Grande de Lisboa, no ponto mais próximo da igreja da Madalena, que ficava então frente à cerca da Judiaria.
E talvez tivesse sido intencional a presença de um templo cristão, dedicado à judia arrependida Miriam de Migdal, junto ao bairro dos “cafres” judeus.
A única descrição visual que temos da sinagoga grande de Lisboa foi deixada pelo médico alemão, Jeronimus Muenzer, que visitou a Espanha e Portugal em 1494, num itinerário em latim, de que possuo a tradução em espanhol, de Júlio Puyol (Boletim da Biblioteca da Real Academia de la Historia):
“El sábado, vigilia de San Andrés, visité su sinagoga. No había estado nunca en uno de estos templos. En un patio que hay delante de ella, crece una parra gigantesca, cuyo tronco mide cuatro palmos de circunferencia. El interior, arreglado con extremada pulcritud, tiene una cátedra o púlpito para predicar, por el estilo del de las mezquitas; ardían diez enormes candelabros con cincuenta o sesenta luces cada uno, además de otras muchas lámparas, y las mujeres colócanse en lugar separado del de los hombres, alumbrado, de igual modo, con profusión de luces.”
Que a sinagoga tinha, pelo menos, três naves sabemos pelo inventário dos bens apreendidos a Dom Isaac Abrabanel, quando este fugiu para Castela, por ter sido acusado de implicação na tentativa de subversão do Duque de Bragança:
“hum lugar de sseda [“cadeira” na interpretação de Elias Lipiner] na esnoga grande de Lisboa, na nave do meo em que see assentava Yuda Abrabanel seu padre”
Os judeus pagavam à Comuna uma pensão anual pelos lugares reservados, que mantinham na sinagoga. Mas tinham o direito de os transmitir por venda ou por herança. Assim se explica que D. João II se tenha apropriado dos três lugares pertencentes a Isaac Abrabanel, de um dos quais fez doação, em 1486, a Mousem Zarco, seu alfaiate.
Em 1497, quando da conversão forçada dos judeus de Portugal, todas as sinagogas do reino passaram para a posse do rei.
Mais tarde D. Manuel I fez doação do edifício da sinagoga grande de Lisboa aos frades da Ordem de Cristo, em troca do convento que estes mantinham no Restelo, onde viria a ser construído o Mosteiro dos Jerónimos.
O edifício da sinagoga foi transformado pelos frades, devidamente autorizados pelo Papa, na Igreja da Conceição (Velha), que o terramoto de 1755 destruiu totalmente.

* Inácio Steinhardt, jornalista português, tradutor e historiador residente em Israel. Este texto é publicado aqui na Rua da Judiaria com a sua autorização. Conto publicar proximamente outras colaborações exclusivas suas para este blog

A benção

O rabino Mekhel, o pregador de Zlotschov, disse um dia aos seus filhos: “Uma das grandes bênçãos da minha vida foi nunca ter necessitado de nada que já não possuísse.”

Rabino Yehiel Mekhel, conhecido como o pregador (maguid) de Zlotschov (Ucrânia, século XVIII)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

“Torres irão desmoronar… e cair nesse dia”


“E queimará torres (…) torres irão desmoronar… e cair nesse dia.”


“(…) Qual é o seu nome? B’ladan é o seu nome, e ele não é um ser humano (…)”

ספר הזוהר, Sefer Ha’Zohar (O Livro do Esplendor), Rabino Shimon Bar Yohai, Jerusalém, século II E.C. (volumes I e XV, Parshat Shemot)

Judaísmo Pop

Madonna Isaac
Ofra HazaIm nin’alu

::PARA OUVIR::
Madonna Isaac

Ofra HazaIm nin’alu

Im nin’alu é um dos muitos poemas religiosos judaicos (piyyutim) escritos no século XVII por Shalom Shabazi, um tecelão poeta natural do Yémen. O poema serve de base para Isaac, uma canção do último álbum de Madonna, Confessions on a Dance Floor, lançado em Novembro do ano passado e que, só na primeira semana, vendeu mais de quatro milhões de cópias.
O mesmo piyyut fora já gravado numa outra versão, lançada em 1985, pela voz da cantora israelita Ofra Haza, ela própria descendente de judeus yemanitas.

Se as Portas Cerrarem (Im nin’alu)

Se as portas dos generosos se cerrarem
As portas das Alturas nunca se trancam.
O Criador reina supremo sobre querubins
No seu espírito, todos serão elevados.

Shalom Shabazi (1619-1689), poeta, judeu yemanita.

No Jardim Zoológico

O céu está cinzento com chuva que não cairá,
Nos carreiros de argila há poças de fantasmagórica neblina.
Empestada com imemorial tristeza,
A terra cinzenta drena a coragem de existir.

Pobres criaturas dos trópicos, encurraladas em terras do norte,
Eu também desejo o sol e sou escravo.
O meu coração está convosco,
Compreendo o leão que se volta vivo na sua sepultura.

Israel Zangwill (1864-1926), escritor, dramaturgo e poeta.
Judeu britânico nascido em Londres.

Regressos

Judeus Portugueses em Eretz Israel no século XVI
O relato de Frei Pantaleão D’Aveiro (1563)


(…) Passamos ali um pedaço da noite em conversação, até serem horas de nos recolher, como avisamos o Turco, que ao dia seguinte havíamos de ter mui pequena jornada. Em amanhecendo vieram dois Judeus Portugueses visitar a Turca por parte dos Judeus, que moravam em Safed, uma povoação grande, que estava dali a pouco mais de légua, a qual em o Livro de Tobias se chama Sapheth: e trouxeram-lhe duas cargas de cevada, e quatro carneiros muito grandes e gordos, como os há naquela terra: e em pago da visita, e serviço, tomaram aos pobres as cavalgaduras, e porque se queixavam, ameaçavam-nos com pancadas. Começaram-se os pobres Judeus de lamentar, culpando um ao outro, vendo-se tão agravados, e lastimados, dizendo um ao outro, se vós não fôreis, eu não viera, o outro pelo contrário dizia, vós tendes a culpa: e com este agastamento, como homens magoados soltaram muitas palavras desconcertadas contra os Turcos e Mouros, em língua Portuguesa, chamando-lhes perros e cães e semelhantes nomes. Vendo eu que eram Portugueses, cheguei-me a eles, compadecendo-me da sua miséria, e trabalho, e disse-lhes, que olhassem como falavam, porque não faltaria quem os entendesse, como a mim me acontecera com um negrinho: deram-me os agradecimentos do bom conselho, e folgaram de eu os entender para desabafarem, e pediram-me novas de Portugal, porque a natureza não se pode negar. Disseram-nos, que em Safed moravam mais de quatrocentos judeus, a maior parte deles nascidos em Portugal, rogando-me muito que quisesse lá dar uma chegada, porque era muito perto, e não me havia de pesar. Dei-lhe os agradecimentos da sua boa vontade, prometendo-lhes de ir, se o tempo me desse lugar. (…)

(…) Chegamos a Safed, aonde os Judeus nos fizeram uma grande festa, e me levaram à sua Sinagoga, que tinham mui bem concertada, e depois nos recreamos comprando a bom preço o vinho, que me pareceu necessário, nos partimos a Nazareth, que está dali a menos de uma légua. (…)

(…) Despedidos daquele lugar, nos tornámos a Safed, aonde chegámos em se pondo o sol, e por ser tarde, e irmos cansados, e nos importunaram muito os Judeus, que nos ficássemos, dizendo, que bastaria irmos um pouco de madrugada, se temíamos, que se iria a Turca, ficámos ali aquela noite, e nos agasalharam muito bem em casa de um Judeu meu natural, que sendo moços andámos ambos na escola de outro Judeu, que lá naquelas partes morreu, segundo meu hóspede me afirmou, honrou-se muito o Judeu de eu aceitar sua pousada, e tratou-me nela com muitos mimos e muita cortesia. Vieram aquela noite ter connosco muitos Judeus, dos quais alguns começaram logo a altercar, e porfiar comigo cousas da sua Lei cansada, e sobre nossa bendita, que este é o seu comum costume, mas eu como já algumas vezes me tinha achado com Judeus em semelhantes porfias, e sabia mui bem, que nenhum deles pretende saber a verdade, atalhei-lhe com lhe dizer, que tinha necessidade de me agasalharem, e recrearem, e não de me cansarem com porfias e contendas sem proveito, pois nenhum deles tinha propósito de se fazer Cristão, se o eu vencesse, porque tinha para mim serem todos Judeus de opinião, sem quererem admitir razão, ainda que a palavra para eles foi um pouco dura, deram-me muito louvor, e disseram, que ainda não tinham negado o ser Português, pois falava tão claro, e não me respondiam, pois desejavam mais me servir, que me agravar. Vieram-me também naquela noite agasalhar duas Judias minhas naturais, que com lágrimas me fizeram a festa, lamentando-se, e dizendo, que seus pecados as haviam tirado de Portugal, não para a terra de Promissão, como elas cuidavam, mas para a terra de desesperação, como com seus olhos viam, e com suas misérias experimentavam. Muito ante manhã nos partimos de Safed, e nos tornámos aos nossos, que à ponte de Jacob nos estavam esperando (…)”

in Itinerario da Terra Sancta, e suas particularidades, escrito por Frei Pantaleão D’Aveiro, impresso na casa de Simão Lopes, 1593
Capítulos LXXXIII e LXXXIV, págs. 452 a 457


A cidade de Safed (Tzfat), na Galileia. Foto de Richard Nowitz

Neighborhood Bully

Bob Dylan Neighborhood Bully

Escrita por Bob Dylan pouco depois do bombardeamento do reactor nuclear iraquiano de Osirak, em 1981, Neighborhood Bully é um manifesto irónico no qual a guerra das últimas semanas instila uma actualidade incontornável. Vale a pena ouvir Bob Dylan, o sionista. Com atenção.

::PARA OUVIR::
Bob Dylan Neighborhood Bully

Neighborhood Bully
Bob Dylan

Well, the neighborhood bully, he’s just one man,
His enemies say he’s on their land.
They got him outnumbered about a million to one,
He got no place to escape to, no place to run.
He’s the neighborhood bully.

The neighborhood bully just lives to survive,
He’s criticized and condemned for being alive.
He’s not supposed to fight back, he’s supposed to have thick skin,
He’s supposed to lay down and die when his door is kicked in.
He’s the neighborhood bully.

The neighborhood bully been driven out of every land,
He’s wandered the earth an exiled man.
Seen his family scattered, his people hounded and torn,
He’s always on trial for just being born.
He’s the neighborhood bully.

Well, he knocked out a lynch mob, he was criticized,
Old women condemned him, said he should apologize.
Then he destroyed a bomb factory, nobody was glad.
The bombs were meant for him.
He was supposed to feel bad.
He’s the neighborhood bully.

Well, the chances are against it and the odds are slim
That he’ll live by the rules that the world makes for him,
‘Cause there’s a noose at his neck and a gun at his back
And a license to kill him is given out to every maniac.
He’s the neighborhood bully.

He got no allies to really speak of.
What he gets he must pay for, he don’t get it out of love.
He buys obsolete weapons and he won’t be denied
But no one sends flesh and blood to fight by his side.
He’s the neighborhood bully.

Well, he’s surrounded by pacifists who all want peace,
They pray for it nightly that the bloodshed must cease.
Now, they wouldn’t hurt a fly.
To hurt one they would weep.
They lay and they wait for this bully to fall asleep.
He’s the neighborhood bully.

Every empire that’s enslaved him is gone,
Egypt and Rome, even the great Babylon.
He’s made a garden of paradise in the desert sand,
In bed with nobody, under no one’s command.
He’s the neighborhood bully.

Now his holiest books have been trampled upon,
No contract he signed was worth what it was written on.
He took the crumbs of the world and he turned it into wealth,
Took sickness and disease and he turned it into health.
He’s the neighborhood bully.

What’s anybody indebted to him for?
Nothin’, they say.
He just likes to cause war.
Pride and prejudice and superstition indeed,
They wait for this bully like a dog waits to feed.
He’s the neighborhood bully.

What has he done to wear so many scars?
Does he change the course of rivers?
Does he pollute the moon and stars?
Neighborhood bully, standing on the hill,
Running out the clock, time standing still,
Neighborhood bully.

In Bob Dylan: Infidels, 1983

A guerra VIII

Uri Grossman

Um dos 25 soldados israelitas mortos ontem em combate no sul do Líbano – naquela que poderá muito bem ter sido a última batalha desta guerra – chamava-se Uri Grossman. Era filho de David Grossman, um dos mais notáveis escritores israelitas.
Na quinta-feira passada, ladeado pelos escritores Amos Oz e A.B. Yehoshua , David Grossman apelara ao fim da guerra. Antes, os três tinham defendido a ofensiva militar israelita, argumentando que esta se tratava de um acto legítimo de autodefesa, mas agora apelavam a que o governo de Jerusalém aceitasse a proposta de cessar-fogo avançada pelo primeiro-ministro libanês Fuad Saniora (que acabaria por estar na origem da resolução aprovada posteriormente pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas). “Esta solução é a vitória que Israel pretendia”, afirmou Grossman, reiterando que o intensificar dos ataques acabaria por provocar o colapso do governo de Fuad Saniora levando, ao mesmo tempo, a um fortalecimento dos terroristas do Hezbollah.
No domingo, Grossman recebeu um telefonema que o informava da morte do filho. Uri Grossman tinha 20 anos. Acabava o serviço militar em Novembro e planeava a seguir viajar pelo mundo antes de entrar na universidade para estudar teatro.
O filho de David Grossman tinha o mesmo nome que o personagem principal do seu romance O Sorriso do Cordeiro (חיוך הגדי), escrito em 1983: Uri. No livro Uri é um jovem e idealista soldado israelita, a cumprir o serviço militar na pequena aldeia palestiniana de Andal, nos territórios ocupados, que trava amizade com Khilmi, um velho palestiniano contador de histórias.

::PARA OUVIR:: Uma excelente entrevista a David Grossman conduzida por Carlos Vaz Marques para o programa Pessoal e Transmissível, da TSF (em três partes): Parte I / Parte II / Parte III

::PARA LER:: Ynet בנו של הסופר דויד גרוסמן נהרג בלבנון – חדשות / David Grossman (bio-biblio) / Books & Writers – David Grossman (bio) / PBS – NOW. Bill Moyers Interviews David Grossman / Fora do Mundo: O ÚNICO SÍTIO DA TERRA, Pedro Mexia / Guardian Where death is a way of life, David Grossman / Israel Culture & Arts.

A guerra VII

Outras Guerras


Grozny, na Chechnya, cidade virtualmente arrasada pelos bombardeamentos russos

Desde o colapso do processo de paz de Oslo e do desencadear da intifada de Al-Aqsa, em Setembro de 2000 que o conflito israelo-palestiniano tem gerado opiniões gradualmente mais hostis em relação a Israel. Muitas das criticas centram-se no facto de Israel ser um país desenvolvido, relativamente forte, que usa o seu poderio militar para manter uma ocupação sobre um largo segmento da população palestiniana, politicamente e economicamente desfavorecida. À medida que a violência se torna cada vez mais brutal de ambos os lados, com as assimetrias entre israelitas e palestinianos, registou-se uma degradação gradual tanto do apoio a Israel na Europa como da própria imagem de Israel no mundo.
Sob este prisma, as críticas a Israel são moralmente justificáveis, perfeitamente aceitáveis e legítimas. No entanto, há sérias razões para duvidar que a oposição a Israel se deva exclusivamente às políticas do seu governo face aos palestinianos. A atenção que se volta sobre Israel contrasta de forma gritante com a indiferença passada e presente face a atrocidades cometidas por outros países. A oposição da opinião pública europeia face a Israel deve ser contrastada com o seu silêncio perante continuadas violações dos direitos humanos numa escala significativamente mais elevada praticados, por exemplo, pelas campanhas militares de Slobodan Milosevic no Kosovo e antes na Bósnia. O massacre de mais de seis mil muçulmanos bósnios em Srebrenica, apesar de ter chocado alguns, não motivou manifestações de massas nem levou à “demonização” da Sérvia nem apelos ao boicote de universidades sérvias. Milosevic sentou-se no banco dos réus em Haia, acusado de crimes de guerra, ao mesmo tempo que a opinião pública europeia, e especialmente a esquerda, permaneceu maioritariamente indiferente.
Outro exemplo pode ser encontrado no brutal esmagamento da revolta dos separatistas muçulmanos na Chechnya por parte da Rússia, que apenas ocasionalmente tem sido mencionada por grupos de defesa dos Direitos Humanos. A Imprensa europeia dedica um espaço mínimo à Chechnya e a opinião pública dá também mostras de pouco interesse.
Tanto no caso dos Balcãs como no da Chechnya, o nível da violência e as graves violações dos Direitos Humanos têm sido muito maiores do que aquelas geradas pelo conflito israelo-palestiniano. Mas há mais exemplos.
Entre 1999 e 2005 a guerra na Chechnya provocou a morte de 250 mil civis e 50 mil soldados russos. Das vítimas civis, segundo as estimativas de organizações humanitárias, 40% eram crianças. Em Darfur, no Sudão, milícias árabes apoiadas pelo governo, conhecidas como Janjaweed, massacraram mais de 400 mil pessoas em acções de limpeza étnica e genocídio desde Fevereiro de 2003.
Então porquê só Israel e não também a Rússia, a Sérvia, o Sudão ou mesmo a China, a Índia e o Paquistão?

Excerto do meu ensaio Novo Antisemitismo? As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo, publicado na Rua da Judiaria a 8 de Março de 2004.

::A LER:: Kontratempos: O anti-semitismo depois do anti-semitismo (um excelente texto de Tiago Barbosa Ribeiro) / O Jansenista: O anti-semitismo e a direita / Blasfémias: A Permanente Encenação / Água Lisa: As Costas LArgas do Anti-Sionismo (João Tunes)

A guerra VI

As Causas

um post de Luís Januário


(…) A selvajaria do ataque, a barbaridade do morticínio, não invalidam que na Segunda Guerra Mundial, os valores da democracia, da liberdade de expressão, do convívio entre povos e nações, da igualdade das raças e etnias, estivesse do lado dos britânicos. Condenamos os crimes cometidos pelos Aliados mas saudamos a sua vitória. Ora o que alguma esquerda faz é acumular os relatos parciais da guerra do Líbano para não discutir a natureza da guerra, as suas causas e objectivos. Israel é o agressor. Um bombardeamento é um bombardeamento. A razão está sempre do lado dos bombardeados, mesmo que seja uma rampa de lançamentos de mísseis, um campo de treino de suicidas, uma estação de espionagem. Identificado o agressor, o resto vem por si. A opinião pública europeia, sensível às causas, exigirá a paz, o desarmamento, a reposição do estado anterior à guerra.”

Para ler na íntegra: A Natureza do Mal: Isabel do Carmo e a guerra

A guerra V

Crimes de Guerra

artigo de Mounir Herzallah, médico libanês emigrado na Alemanha


Até 2002 vivi numa pequena cidade no sul do Líbano, perto de Mardshajun, cujos habitantes eram na maioria xiitas, tal como eu. Depois de Israel ter abandonado o Líbano, não demorou muito para que o Hezbollah controlasse a nossa cidade, tal como todas as outras. Recebidos como lutadores vitoriosos da resistência, apareceram armados até aos dentes e, também na nossa cidade, escavaram bunkers para armazenar os seus arsenais de mísseis. A “obra social” do Hezbollah resumiu-se a construir uma escola e um prédio de habitação sobre esses bunkers! Um sheikh local explicou-me sorrindo que os judeus ficavam a perder de qualquer maneira, porque os mísseis ou seriam disparados contra eles ou, se eles atacassem os arsenais, seriam condenados pela opinião pública mundial por causa dos mortos civis. Esta gente não quer saber da população do Líbano, eles usam-na primeiro como escudos e, depois de mortos, como propaganda. Enquanto eles continuarem a existir, não haverá paz nem tranquilidade.”

Carta publicada na edição de 30 de Julho de 2006 do jornal alemão Der Tagesspiegel

A guerra IV

Israel e a Lei Internacional

artigo de Matthew Omolesky , especialista em Direito Internacional


(…) É decididamente irónico que o Presidente francês Jacques Chirac condene Israel por uma resposta desproporcionada face aos acontecimentos de há menos de dois anos ocorridos na Costa do Marfim. A 5 de Novembro de 2004, helicópteros do governo da Costa do Marfim bombardearam uma aldeia rebelde, matando acidentalmente nove soldados francesas das tropas de manutenção de paz. Aderiu a França ao princípio de Naulilaa [ver The Naulilaa Case ] e efectuou exigências que, sem resposta, resultariam numa resposta proporcional? Não. A França retaliou destruindo por inteiro a Força Aérea da Costa do Marfim, gerando extensos protestos e violência popular nas ruas de Abidjan. Não me recordo neste caso de uma única declaração dos membros da comunidade internacional em relação ao uso desproporcionado da força pelas Forças Armadas franceses, mas as acções de Israel, provocadas por enormidades cometidas por poderosos organismos terroristas não governamentais no seu território, e justificadas pela Regra de Grotius, pela Regra da Caroline, pela Regra de Naulilaa e pela corrente Lei Internacional, é condenada da forma mais áspera. Os comentários recentes feitos por vários governos nacionais e por organizações internacionais em relação à “forma desproporcionada” da resposta militar de Israel representam um exemplo perturbante de falsas invocações da Lei Internacional para apoiar tendências políticas e preconceitos, e devem ser rejeitados como tal.”