Uma homenagem no último dia de Páscoa


Este quadro, da autoria de Francisco Duarte Azevedo, apresentado aqui em estreia absoluta, intitula-se The Day After the Auto-da-Fé, uma homenagem do pintor aos mortos do massacre de Lisboa, de Abril de 1506. Com uma beleza de calma aparente e toda uma carga de violência subentendida, o quadro pode também ler-se como uma metáfora à vida daqueles que tiveram de viver sob um terror constante.
Obrigados a converter-se ao catolicismo sob pena de morte e sem outra opção possível, os judeus portugueses continuaram a ser judeus, não só no segredo das suas casas, mas também aos olhos dos vizinhos cristãos-velhos que, com intolerância, nunca lhes haveriam de fazer esquecer a sua diferença. Com o correr dos séculos, as tradições judaicas familiares de muitos diluíram-se nas poeiras da história. Outros preservaram esboços de liturgias ancestrais sem se aperceberem dos significados. Outros ainda, numa tradição oral passada de pais para filhos, de avós para netos, cinco séculos depois, sabem que são judeus — um facto teimoso que continua a deitar por terra as teorias daqueles que acreditavam que o judaísmo tinha sido expulso de Portugal. A estes, convencionou-se chamar-lhes marranos — uma palavra que para uns é insulto, mas para outros motivo de intenso orgulho.

Zog Maran (Diz-me Marrano)
(uma canção para a Páscoa Judaica)

Diz-me Marrano, meu irmão,
onde pões a mesa para o Seder?
— Numa caverna escura e funda,
a minha Páscoa irei fazer.

Diz-me Marrano, onde vais
buscar os brancos matzos?
— Na caverna, com a ajuda de Deus,
a minha mulher os lá amassa.

Diz-me Marrano, como consegues
encontrar uma Hagadá?
Na caverna, entre as fendas,
há muito que escondi os livros lá.

Diz-me Marrano, como te
defenderás quando te ouvirem cantar?
— Se me vierem prender, com uma
canção nos lábios irei morrer.

Avrom Reisen

.::PARA OUVIR::.

Zog Maran, Vocolot, poema de Avrom Reisen música de Shmuel Bugatch.

Marrano” é a designação tradicional dada aos judeus forçados a converterem-se ao catolicismo na península Ibérica, sob pena de morte e confiscação de bens, nos séculos XV e XVI. Durante séculos a expressão foi considerada depreciativa por se julgar que derivava de “porco” em castelhano, na verdade, ela é obtida pela contracção das palavras hebraicas márre (מר — amargo/amargurado) e anúze (אונס — forçado / violado) – refere-se também aos seus descendentes, muitos dos quais optam agora pelo processo de conversão para “regressar” à sua tradição ancestral. Em hebraico, os marranos são conhecidos simplesmente como “anussim” (אנוסים). Para diferenciar a palavra da sua homófona depreciativa, e evitar assim qualquer tipo de comparações, o capitão Barros Basto insistia que ela deveria ser escrita com apenas um “r”.

Memória & Justiça

O filósofo e poeta espano-americano George Santayana escreveu que “aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”. Depois de séculos de esquecimento — voluntário e involuntário —, a Câmara Municipal de Lisboa contribuiu para que as gerações futuras não esqueçam um dos mais tristes e terríveis páginas da história da cidade quando, há 502 anos, milhares de cidadãos da capital foram chacinados pelos seus vizinhos pelo simples facto de serem judeus.
Segundo a Câmara Municipal de Lisboa, inaugurado agora no Largo de São Domingos, onde o massacre teve início, o memorial é composto por duas esculturas “contributos da Comunidade Judaica (da autoria da arquitecta Graça Bachmann) e da Igreja Católica (da autoria do arquitecto Segismundo Pinto e do escultor Carlos Ramos) que coexistirão como símbolo da reconciliação e do respeito; por uma lápide inscrita no pavimento, tributo da cidade de Lisboa às vítimas do Massacre Judaico de Abril de 1506 e por um mural onde se lê a frase ‘Lisboa, Cidade da Tolerância’ (da autoria dos designers Susana Jesus e Paulo Cardoso) em 34 línguas diferentes”.

.::A LER ::. 500 Anos do Massacre de Lisboa: Salomão Ibn Verga / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Garcia de Resende / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Samuel Usque / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Damião de Góis / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Alexandre Herculano / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Camilo Castelo Branco / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Oliveira Martins / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Ferreira Fernandes / 500 Anos do Massacre de Lisboa IX: Memória e Esquecimento

Os limites do internacionalismo

Um texto de Amitai Etzioni

Numa reacção à falência do unilateralismo da Administração Bush, o internacionalismo está novamente em voga. E para relembrar como funcionam as Nações Unidas, a organização internacional por excelência, basta ver a forma como recentemente abordou o chamado “discurso de ódio”.
O Conselho dos Direitos Humanos da ONU acabou de condenar de forma inequívoca um filme feito por Geert Wilders, um político holandês de extrema-direita, no qual ataca violentamente o Islão. O governo holandês fez tudo ao seu alcance para impedir o lançamento do filme. Nenhum canal de televisão da Holanda — ou de qualquer outro país — o quis transmitir. O que, por sinal, levanta sérias questões em relação à liberdade de expressão. Finalmente, o filme seria colocado online no site britânico liveleak.com. Como reacção, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução lamentando a utilização dos media “para incitar actos de violência, xenofobia ou intolerância e discriminação contra o Islão” ou outras religiões.
Entretanto, a Al-Aksa, uma estação de televisão do Hamas, continua as suas transmissões ininterruptas para as pessoas de Gaza. A programação desta estação glorifica frequentemente os bombistas suicidas, os responsáveis pelo lançamento de morteiros Qassam e apela à destruição do Estado de Israel. Nesta estação, até os programas para crianças promovem o ódio contra o povo judeu — incluindo repetidas acusações de que os judeus usam o sangue de outros nos seus rituais e que foram eles os responsáveis pelos atentados ao World Trade Center.
Repare-se que ao contrário do filme holandês, feito por um único indivíduo, a Al-Aksa é produto do esforço organizado de um movimento inteiro e do governo de Gaza, apostado em emitir tudo isto regularmente para milhares de crianças e jovens. Mas, mesmo assim, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU não encontra aqui nada que o preocupe.
Deixem-me primeiro dizer que o povo palestiniano têm bastante com que se preocupar, e que a situação em Gaza é horrível. No entanto, nenhuma destas preocupações — que devem ser atendidas o mais depressa possível — será servida se o Hamas continuar a exigir a destruição de Israel, ensinando aos seus jovens seguidores que odeiem cegamente os judeus.
Eu próprio apontei a importância crescente das Nações Unidas como uma força principal na determinação do que a comunidade internacional considera legítimo. A ONU desempenhou um papel importante na classificação de quando a invasão a um país é legítima (como no Kuwait) e quando não é (como no Iraque de Saddam). As suas agências sociais ajudam com frequência pessoas por todo o mundo.
No entanto, se a ONU quiser tornar-se uma parte ainda mais importante da nova arquitectura global, tem de se ofender mais por causa de actos de violência e menos com liberdade de expressão (quer pode chegar a ser ofensiva e revoltante) e ser, acima de tudo, muito mais imparcial. Ódio difundido contra os judeus não é melhor nem mais aceitável do que aquele dirigido contra os muçulmanos.

Este texto foi originalmente publicado em inglês, na semana passada, (ver The Limits of Internationalism) pelo professor Amitai Etzioni.

.::A VER::. Al-Aksa TV Child TV Host of Hamas Mickey Mouse Saraa Barhoum, Sings / Hamas Rabbit: Eat the Danes! / Hamas Bunny, Assud, Replaces His “Martyred” Brother Nahoul / Kindergarten Graduation Ceremony in Gaza on Hamas TV / Hamas Indoctrinating Toddlers / Hamas Cleric: We will Conquer Rome / Hamas: “We love Death More Then Life!”.
O Conselho de Direitos humanos da ONU: UN Human Rights Council: Defeating Freedom of Expression

Os Irmãos Coen e os judeus do Alasca

Acabados de arrebanhar quatro Oscares com No Country for Old Man, os Irmãos Joel e Ethan Coen estão a preparar dois filmes com temas judaicos. O primeiro projecto chama-se A Serious Man, mas o que me prendeu a atenção foi o segundo: uma adaptação cinematográfica do romance The Yiddish Policemen’s Union, de Michael Chabon.
Lembram-se de Fargo? Da omnipresença da neve, da claustrofobia das imensidões infinitamente brancas? Sim?! Agora polvilhem por lá uns milhões de judeus e terão o início de The Yiddish Policemen’s Union — um livro que mistura a ficção histórica com o que de melhor se pode desejar num romance policial. Chabon escreve aqui como se Sholem Aleichem ou Isaac Bashevis Singer se tivessem fundido com Raymond Chandler. Phillip Roth que me perdoe, mas The Yiddish Policemen’s Union é o melhor romance que li nos últimos meses. E o detective Meyer Landsman é o melhor personagem de um policial desde Phillip Marlowe, Sam Spade e Jaime Ramos.
A premissa conta-se em poucas linhas: depois do Holocausto, os judeus perdem a guerra da Independência de Israel, em 1948, e são forçados a aceitar o asilo temporário concedido no Alasca pelo presidente americano Franklin Roosevelt. Por incrível que possa parecer à primeira vista, esta proposta do Departamento do Interior dos EUA existiu de facto (ver Slattery Report), mas a sua votação no plenário do Congresso nunca chegou a acontecer por veemente oposição do congressista do Alasca Anthony Dimond.
Neste universo gelado Chabon inventa todos os pormenores de um quotidiano alternativo, chegando ao detalhe de engendrar, por exemplo, um calão que, de uma forma natural como o ar que ali se respira, mistura palavras hebraicas com sonoridades do iídiche e do inglês — piece (literalmente pedaço ou peça em inglês), no jargão noir quer dizer arma, mas a palavra lembra também a sua homófona peace (que quer dizer paz), logo, naquela imaginária colónia judaica do Alasca, que poderiam polícias, ladrões e gangsters chamar às suas armas senão… shalom. Pois. Se a adaptação cinematográfica não vai ser uma tarefa fácil, não menos complexa será a tradução do livro para português. O penúltimo livro de Michael Chabon, As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay teve já edição portuguesa, dada à estampa pela Gradiva, mas The Yiddish Policemen’s Union é um verdadeiro grau 9 na Escala de Richter para qualquer tradutor menos preparado.
Enquanto me deliciava com o romance, parei muitas vezes a meio de uma página, coçando o queixo e tentando antever como iria o tradutor português desvencilhar-se do primoroso nó cego que Michael Chabon acabava de dar numa frase brilhante. Não invejo o tradutor português de The Yiddish Policemen’s Union que, para além de um inglês americano com arcaboiço significativo, terá de ter conhecimentos de hebraico e iídiche — tudo isto misturado com uma necessária fluência de cultura e costumes judaicos.
Não invejo? Se calhar, o problema é que invejo mesmo… sim, porque há gente com muita sorte!

.:: A LER ::. Coens speak ‘Yiddish’ for Columbia – Variety / Meshuga Alaska – The New York Review of Books /Michael Chabon Q&A / Michael Chabon – The Yiddish Policemen’s Union – Book – New York Times — The frozen Chosen / Stuart Jeffries talks to Michael Chabon: The language of exile / Coen Brothers: Masters of the film universe / The Yiddish Policemen’s Union – Michael Chabon – Review – New York Times

Há 40 anos — Martin Luther King Jr. e os judeus


Rabino Abraham Joshua Heschel, Martin Luther King Jr., Ralph Abernathy e o rabino Maurice Eisendrath carregando os rolos da Torá.

Passaram este fim-de-semana exactamente 40 anos sobre o assassinato do reverendo Martin Luther King Jr., líder da luta pelos direitos cívicos da comunidade negra norte-americana. Recordado principalmente pela força dos discursos, pela capacidade de inspirar outros a irem além de si próprios e além das barreiras impostas pela injustiça, Martin Luther King encontrou nos judeus, desde o início, verdadeiros compagnons de route.
Ao longo de toda a sua campanha pela igualdade entre pessoas de diferentes raças, Martin Luther King contou sempre com o apoio incondicional da esmagadora maioria da comunidade judaica americana e dos seus líderes. Há 40 anos, em comícios, marchas e acções cívicas, os judeus juntaram a sua voz aos desejos de justiça expressos nos discursos e nos gestos de King. O rabino Abraham Joshua Heschel, seu amigo pessoal, participou com ele em inúmeras manifestações e caminhadas. Heschel chamava-lhes “rezar com os pés”.

.:: A OUVIR ::.

Sermão de Martin Luther King na congregação judaica de Temple Israel, em Hollywood, na Califórnia, a 26 de Fevereiro de 1965, apresentado pelo rabino Max Nussbaum.

.:: A LER ::. Two Prophets, One Soul: Rev. Martin Luther King, Jr. and Rabbi Abraham Joshua Heschel / Jews & Civil Rights / An Irvine rabbi remembers marching with Martin Luther King Jr. / Martin Luther King’s Hollywood dream

Teresa Salgueiro: uma voz Sefardita


::PARA OUVIR::

La Serena, Teresa Salgueiro & Lusitânia Emsemble, 2007

La Serena é a canção que dá o título ao último álbum de Teresa Salgueiro. Discretamente, sem pompa nem circunstância, mas com uma qualidade imensa, esta canção marca o regresso a Portugal — pela primeira vez em cinco séculos — do Ladino, a língua sefardita dos judeus ibéricos, feita de mesclas de castelhano e português medievais com hebraico. Na prática, La Serena é o resultado da junção de pelo menos duas canções distintas; uma delas, Mar de Leche, já passara pelas Músicas da Judiaria, há quatro anos, na voz igualmente notável de Suzy (que pode ser ouvida aqui: Mar de Leche, Suzy).

Yael Naim: New Soul


Sefardita franco-israelita de ascendência tunisina, Yael Naim tem uma voz notável e um talento da mesma medida. Quando Steve Jobs escolheu esta canção para o anúncio televisivo do MacBook Air, a popularidade da bela cantora israelita disparou em flecha nos EUA. Merecidamente.

A coragem de Mona

Mona Eltahawy é uma mulher de imensa coragem. Jornalista muçulmana, nascida no Egipto, Mona vive actualmente em Nova Iorque, de onde escreve com uma lucidez irrepreensível. Um dos seus últimos artigos, Our Own Worst Enemy, defende a necessidade absoluta dos líderes islâmicos olharem para si próprios em vez culparem Israel e o Ocidente por todas as suas desgraças. O bombismo suicida durante décadas floresceu como táctica preferencial do terror palestiniano contra civis israelitas, com a complacência do mundo islâmico — que além de nunca ter condenado o terror suicida, o incentivou elevando-o à categoria de “martírio”. Agora, numa imensa ironia pregada pelo destino, como nota Mona Eltahawy, os bombistas suicidas transformaram-se na “arma preferida para ajustar contas entre muçulmanos, em países muçulmanos”, no Afeganistão, no Paquistão e no Iraque.
Neste seu artigo (e noutros) Mona Eltahawy dá voz a uma reflexão introspectiva absolutamente fundamental que tem de acontecer na sociedade muçulmana. Para seu próprio benefício. E para o bem de todos nós.

::A LER:: Our Own Worst Enemy — by Mona Eltahawy / O Mundo Permanece em Silêncio, uma notável análise sobre o genocídio dos árabes praticado pelos árabes assinado por Ben-Dror Yemini.

Clave de Sol


Seios soltos
Desejo envolto
Ensejo.
Percurso de
Solfejo sôfrego —
O teu corpo.

Este é um poema antigo, envergonhadamente meu, escrito em Lisboa há quase duas décadas. Tem exactamente 12 palavras, tantas quantas me foram amavelmente pedidas pelo Ricardo António Alves e pelo Luís Simões.
Com um abraço a ambos.

Ilustração: três nus de Anna Akhmatova desenhados pelo lápis de Amadeo Modigliani, judeu italiano, em 1911

A origem do conceito de “licença de parto”

Num período de dois anos, entre 1913 e 1915, a América seguiu atentamente uma dura batalha judicial que haveria de mudar radicalmente a forma como as mulheres eram encaradas nos locais de trabalho.
Uma professora de Nova Iorque fora despedida a 22 de Abril de 1913 por estar grávida, com as autoridades escolares a defenderem o despedimento com base em “negligência do dever com o propósito de dar à luz”.
Numa atitude rara para a época, a professora não aceitou a decisão dos seus superiores e levou o caso para tribunal. Dois anos depois, o processo acabaria por instituir as bases de um direito que alastraria por todo o globo: a licença de parto. Esta professora, pioneira na luta pelos direitos laborais das mulheres chamava-se Bridget Peixotto e era membro da comunidade de judeus nova-iorquinos de ascendência portuguesa.
Bridget casara a 12 de Fevereiro de 1912 com Francis Raphael Maduro Peixotto, um corretor de seguros — que, nascido em 1860, era 20 anos mais velho que ela. Quando casou, Bridget Peixotto trabalhava já há 18 anos no sistema de ensino primário nova-iorquino, tendo passado com distinção os exames de promoção aos escalões mais elevados do magistério primário.
No ano lectivo de 1912/1913, Bridget e Francis Maduro Peixoto moravam no número 41 de St. Nichols Terrace, em Manhattan, ela era professora principal da Escola Pública 14, em Thongs Neck, Bronx, auferindo um salário anual de 2400 dólares (o que daria hoje qualquer coisa como 4500 dólares mensais ajustados pela inflação).
Em Fevereiro de 1913, Bridget Peixotto adoece gravemente enquanto estava grávida e notifica de imediato as autoridades escolares, tal como obrigava a lei. Na altura, no entanto, as professoras não podiam continuar na profissão depois de darem à luz, uma vez que a sociedade não via com bons olhos que uma mulher casada, e mãe de filhos, trabalhasse fora de casa.
Bridget Peixotto acabou por ser suspensa e seguidamente despedida — enquanto estava ainda no hospital depois de ter sido mãe de Helen Esther Peixotto — por “negligência do dever com o propósito de dar à luz”.
Não se dando por vencida, Bridget Peixotto desafia a acusação e a própria ideia de que uma mulher não poderia continuar a ensinar depois de ser mãe. Citada na página 7 da edição de 29 de Maio de 1913 do New York Times, ela afirma:

Contestarei o caso até ao fim. O Conselho Educativo, ao permitir que mulheres casadas ensinem ao mesmo tempo que as proíbe de cumprirem uma função fundamental do casamento, está a agir de forma ilegal. É absolutamente imoral e não será apoiado por nenhum tribunal. Em nenhum lado se pode proclamar a maternidade como uma negligência do dever. É permitido às mulheres casadas ensinarem nas escolas públicas, mas negasse-lhes tempo para que tenham filhos.

Em primeira instância, a verdade é que o Conselho Educativo manteve a decisão, votando 27 contra 5 em favor do despedimento de Bridget Peixotto. É então que ela avança para os tribunais. Depois de ver o processo arrastar-se infinitamente, com várias decisões judiciais em seu favor, por ordem do Supremo Tribunal, em 1914 Bridget Peixotto faz uma exposição ao Comissário Estadual para a Educação, John Huston Finley, que anos mais tarde seria director do New York Times. Em resposta, Finley dá-lhe razão e escreve: “A Senhora Peixotto foi acusada de negligência do dever, mas não foi declarada culpada de negligência — foi sim declarada culpada de ter dado à luz.”
Finalmente, em Janeiro de 1915, numa decisão histórica, John Finley dá ordens para que Bridget Peixotto seja reabilitada nas suas funções prévias com salário pago por completo. Três anos depois, em 1918, ela tornar-se directora da escola, mantendo-se no magistério primário em Nova Iorque até se reformar, em 1948, quando atingiu a idade limite de 70 anos.
Bridget Peixotto faleceu a 10 de Abril de 1972, em Nova Iorque, aos 92 anos de idade, deixando um legado invejável. No obituário que lhe dedicou dois dias após o seu falecimento, o New York Times afirmava que ela era “responsável pela institucionalização da licença de parto por todo o país” e pelo mundo: “O seu caso permitiu que largos milhares de mulheres pudessem tirar uma licença para dar à luz. A decisão motivou também alterações no sistema do sector privado, fazendo com que hoje seja perfeitamente normal que uma mulher possa manter o emprego quando fica grávida.”

Referências a Bridget Peixotto e ao seu caso: The Public Papers of Margaret Sanger / Her Works Praise Her: A History of Jewish Women in America from Colonial Times to the Present / JSTOR: The Elementary School Journal: Vol. 25, No. 9 (May, 1925), pp. 692-695 / Everybody’s Paid But the Teacher … / DISMISSAL OF TEACHER BECAUSE OF PREGNANCY

Bibliografia: New York Times, 29 de Maio de 1913, pág.7; NYT 11de Junho de 1913; NYT 23 Junho de 1913; NYT 26 Julho de 1913; NYT 11 de Janeiro de 1914; NYT 2 de Novembro de 1914; NYT 15 de Dezembro de 1914; NYT 12 de Janeiro de 1915; NYT 12 de Abril de 1972.
The Grandees of New Jersey (2006), Dr. Neil Rosenstein

Memória

A Câmara Municipal de Trancoso colocou recentemente online as Actas das Primeiras Jornadas do Património Judaico da Beira Interior — uma organização conjunta dos municípios de Trancoso e Belmonte que contou com a participação de dezenas de estudiosos e especialistas portugueses e espanhóis.
Nas actas, com um total de 198 páginas, encontram-se verdadeiros tesouros do património judaico bem como algumas deliciosas curiosidades — como o trabalho do engenheiro Manuel da Silva Castelo Branco, que abre a resenha, sobre a comunidade judaica de Castelo Branco e os laços ancestrais de Fernando Pessoa. Pode ainda ser lido um brilhante e aprofundado ensaio assinado pelo arquitecto José da Conceição Afonso, director da delegação do IPPAR de Castelo Branco, intitulado Judaísmo e Arquitectura Vernácula Civil na Beira Interior Quinhentista.
As actas encerram com uma resenha minuciosa do bem documentado estudo Inquisição e Independência, Um motim no Fundão -1580, da autoria da professora Maria Antonieta Garcia.
Aqui vai a lista completa dos trabalhos publicados:
A COMUNA JUDAICA DA VILA DE CASTELO BRANCO [1381-1496] / EL PROYECTO MUSEOGRÁFICO DEL MUSEO SEFARDÍ DE TOLEDO / JUDAÍSMO E ARQUITECTURA VERNÁCULA CIVIL NA BEIRA INTERIOR QUINHENTISTA / JUDIARIA DE BELMONTE – AVALIAÇÃO E REFLEXÃO SOBRE PROCESSOS DE REABILITAÇÃO / MARCAS CRUCIFORMES DE AGUIAR DA BEIRA MEDELIM – A RUA DA JUDIARIA / MEMÓRIAS GRAVADAS NA PEDRA – UM PATRIMÓNIO A CONHECER NO CONCELHO DE TRANCOSO / OS JUDEUS DE TRANCOSO: ENTRE A LEI DE MOISÉS E O BAPTISMO / UMA LÓGICA PERIFÉRICA PARA OS CENTROS: OS MENDES/BENVENISTE ENTRE A BEIRA INTERIOR E ISTAMBUL / UM MOTIM NO FUNDÃO EM 1580

O download do documento integral pode ser feito aqui: Actas das Primeiras Jornadas do Património Judaico da Beira Interior (formato pdf)

Memorial às vítimas do massacre de 1506

A Câmara Municipal de Lisboa aprovou por unanimidade a proposta para a construção de um memorial às vítimas dos motins anti-judaicos de 1506, durante os quais foram vitimados entre 2 a 4 mil judeus portugueses. Segundo a proposta, aprovada por unanimidade, o memorial deverá ser inaugurado no próximo dia 19 de Abril, altura em que passam precisamente 502 anos sobre aquele terrível evento.
O texto da proposta final bem como um registo em áudio do debate podem ser encontrados no blog do professor Jorge Martins, um historiador que tem vindo a resgatar a História dos judeus portugueses do esquecimento crónico a que foi sendo votada.

Sousa Mendes em Jerusalém

Foi inaugurada esta semana no Parlamento israelita uma exposição intitulada Aristides de Sousa Mendes – O Cônsul Português que Salvou Milhares de Refugiados Judeus durante o Holocausto. A abertura da mostra contou com a presença do Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, embaixador Fernando Neves, e do presidente do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Israel, o deputado João Rebelo, designado em representação da Assembleia da República. Da parte israelita, estiveram presentes na inauguração a vice-presidente da Knesset e presidente do Grupo Parlamentar de Amizade Israel-Portugal, Colette Avital, e a directora do Departamento dos Justos Entre as Nações do Yad Vashem, Irena Steinfeld, em representação do presidente daquela instituição, Avner Shalev.
Durante a cerimónia na capital israelita, Jerusalém, os presentes salientaram a importância e a magnitude da acção humanitária de Aristides de Sousa Mendes e a necessidade de levar o nome do diplomata português, um dos mais destacados Justos entre as Nações, ao conhecimento dos israelitas.
Para quem lê hebraico, vale a pena ver com atenção este excelente artigo saído no Ha’aretz sobre Sousa Mendes e a exposição: המלאך מבורדו