Abraham Lopes Cardozo צ”ל


Rabino Abraham Lopes Cardozo (1914-2006), responsável pela preservação da tradição musical dos judeus portugueses, faleceu na terça-feira, em Nova Iorque, aos 91 anos.

Para Ouvir:

Abraham Lopes Cardozo: Mizmor le-David

O rabino Abraham Lopes Cardozo, hazzan emérito da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque e reconhecido pelos seus esforços na preservação da música tradicional dos judeus portugueses da Diáspora, morreu na passada terça-feira, dia 21 de Fevereiro, aos 91 anos de idade. Lopes Cardozo faleceu num hospital de Manhattan, em Nova Iorque. Abraham Lopes Cardoso foi responsável pela condução musical dos serviços litúrgicos da sinagoga portuguesa de Manhattan, Shearith Israel – a mais antiga sinagoga dos Estados Unidos, fundada em 1654 – entre 1946 e 1984, altura em que se reformou.
Nascido a 27 de Setembro de 1914, o rabino Abraham Lopes Cardozo era descendente de uma longa linha de rabinos e músicos da comunidade de judeus portugueses de Amsterdão. O seu bisavô, o lendário rabino David Lopes Cardozo (1808-1890), foi o último líder espiritual da comunidade de Amsterdão a fazer os sermões de Shabbat integralmente em português. O pai do rabino Abraham, Joseph Lopes Cardozo – morto no campo de concentração de Sobibor em 1943 -, era músico, foi maestro do coro de rapazes da Sinagoga Portuguesa de Amsterdão e cantor durante o Santo Serviço (o nome ainda hoje dado pelos judeus sefarditas holandeses à liturgia de Shabbat).
Abraham Lopes Cardozo prosseguiu a longa tradição rabínica e musical familiar, primeiro na Sinagoga Portuguesa de Amsterdão e posteriormente na Nederlandsch Portugeesch Israelietsch Gemeente Zedek Ve-Shalom, a congregação de judeus portugueses de Paramaribo, Suriname, nas Antilhas Holandesas, e em Nova Iorque, onde acabou por se fixar em 1946. Grande parte da sua família pereceu no Shoá. Em 1940, quando o exército nazi invadiu a Holanda, Abraham Lopes Cardozo estava já no Suriname. O seu irmão Arie Lopes Cardozo foi capturado em 1941, pouco tempo antes dos seus pais e do seu irmão mais novo, Ies, deportado no dia do seu casamento, a 26 de Maio de 1943. Nenhum deles sobreviveu aos campos de extermínio. Reformado oficialmente desde 1984 das suas funções de hazzan da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque, o rabino Abraham Lopes Cardoso continuou até ao fim da sua vida empenhado em perpetuar a tradição musical dos judeus sefarditas portugueses, compilando várias colecções de edição restrita. Em 2000 foi condecorado pela coroa holandesa com o título de Cavaleiro da Ordem de Oranje Nassau, pelo seu trabalho de preservação cultural. A mesma condecoração tinha sido em tempos conferida ao seu avô.
Em 2004, Abraham Lopes Cardozo gravou em Israel aquele que é considerado o maior registo da tradição musical dos judeus portugueses, num CD intitulado “The Western Sephardi Liturgical Tradition as Sung by Abraham Lopes Cardozo”, editado pelo Centro de Estudos de Música Judaica da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Abraham Lopes Cardozo foi enterrado ontem, dia 22 de Fevereiro, no cemitério da comunidade de judeus portugueses, em Manhattan.

Nova Iorque fora de horas


Nova Iorque – a baixa de Manhattan vista da minha janela.

Primeiro, devo uma explicação aos que por aqui passaram no último mês e se depararam com o primeiro grande interregno deste blog em mais de dois anos. As razões da ausência foram pessoais, geradas por um conjunto de circunstâncias que me deixaram simultaneamente sem tempo e sem disposição para continuar a escrever. Na mesma altura em que começava a encaixotar a minha casa em Los Angeles para mudar para Nova Iorque, no mês passado, a minha mãe foi internada de urgência no Hospital Garcia de Orta, diagnosticada com uma doença grave cujo nome ainda hoje me recuso pronunciar – foi isto que contei, em hebraico, no post de 19 de Janeiro. As semanas seguintes passaram-se com um sentimento de impotência ampliado pela distância, noites em branco de ansiedade e os dias feitos a empacotar livros e toda a vida acumulada durante uma década em LA.
A minha mãe começou a ser tratada com quimioterapia na semana passada e os médicos estão esperançosos que a recuperação venha a ser total. Contei-lhe há dias, ao telefone, que recebi centenas de mensagens de todo o mundo – de Portugal a Israel, do Brasil, dos EUA, da Alemanha, da Austrália… – de pessoas que leram o meu post e enviavam votos de melhoras e simpáticas palavras de encorajamento. Emocionada, ela pediu-me que vos agradecesse.
Cheguei a Nova Iorque há uma semana, depois de uma viagem de carro de cinco dias a atravessar os Estados Unidos. O camião da mudança ainda vem a caminho. Já passa das 10:00h da noite de sábado. Enquanto escrevo, no 15o andar, sentado no chão de um apartamento ainda sem móveis, cai dos céus um manto branco que vai cobrindo a cidade. Estão 10 graus negativos e neva em Nova Iorque. Para trás ficou o Verão eterno de Los Angeles e um punhado de certezas. Acabo o dia com uma oração. Enquanto olho através da janela da sala para os arranha-céus iluminados, vou meditando na minha mãe, desejando que em breve ela também os possa ver daqui e que tudo o resto não passe de uma má recordação.

Regresso…

Em breve virá um post a marcar o meu retorno à Judiaria. Até lá tentarei encontrar as palavras que agora me faltam para exprimir a imensa gratidão que sinto para com as centenas de mensagens que recebi durante estas semanas. Obrigado … e até logo!

Ausência…

Problemas familiares graves, aliados à preparação da minha mudança para Nova Iorque, não me têm permitido escrever aqui na Judiaria com a assiduidade que seria desejável. Falta o tempo e a cabeça. A intermitência deverá manter-se nas próximas semanas.

אמי חולה מאוד ונמצאת בבית החולים. אבקשכם להתפלל עמי עבור החלמתה המהירה.
שמה מריאנה נונש (בעברית, מרים בת יוסף ואלזירה).
אני מודה לכם ומקווה ומאמין שאלוהים ישמע לתפילותינו.

::ADENDA::
Obrigado (muito obrigado mesmo!) às largas dezenas de leitores que enviaram mensagens com simpáticas palavras de encorajamento. Um agradecimento especial também ao blog SimplyJews (תודה רבה) e a João Tunes, pelos posts e pela amizade.

Saudades

O Francisco escreveu hoje uma frase notável: “Vamos desaparecendo, aos poucos.” A aparente simplicidade destas quatro palavras esconde nas entrelinhas um abismo estratificado de emoções. Foi pelo blog do Francisco, e com esta frase, que fiquei a saber esta madrugada da morte do Cáceres. A minha primeira reacção foi de profundo choque. Mais do que um director, mais do que um chefe, o Cáceres era um amigo – é a ele que devo grande parte da minha carreira, desde que, em 1990, me foi buscar para trabalhar n’O Jornal.
A distância tem o condão de funcionar muitas vezes como uma lupa de emoções, ampliando o bom e o mau – geralmente o mau –, multiplicando a angústia da ausência, aguçando os sentidos. Já não via o Cáceres há mais de seis anos. Mas quando li as notícias que contavam a sua morte foi como se ainda ouvisse a sua inimitável voz ao meu lado, galgando tempo e espaço. A morte dos amigos traz-nos lágrimas e funciona como um espelho onde vemos invariavelmente reflectida a inevitabilidade do nosso próprio fim. Quando desaparecem os amigos, desaparecemos também nós. Aos poucos.
Cáceres, camarada, vou ter saudades tuas.


Carlos Cáceres Monteiro (Lisboa, 9 de Agosto de 1948 – Lisboa, 03 de Janeiro de 2006)

Feliz Ano Novo… e obrigado!

Apesar de por estas bandas o Ano Novo (ראש השנה) já ter começado há quase três meses, o final do ano 2005 da Era Comum traz inevitavelmente um sentimento de final de ciclo que convida ao balanço. A encerrar o ano, quero agradecer em primeiro lugar a todos os leitores que por aqui vão passando diariamente. Um muito obrigado também aos blogs que insistiram em colocar a Rua da Judiaria nas respectivas lista de preferências para o ano que agora encerra, nomeadamente ao Portugalidades (Luís Miguel Rocha), ao Almocreve das Petas (Masson), Ma-Schamba (José Pimentel Teixeira), Contra-indicado (José Nunes), Forum Comunitário (Walter Rodrigues), Anjos e Demónios (Patrick Blese), A Peste (Jorge Vaz Nande), Sob a Estrela do Norte (Homem das Neves), A Barriga de um Arquitecto (Daniel Carrapa), Francisco del Mundo, Malaposta (Alvarinho Castro), Tugir (Luis Novaes Tito e Carlos Manuel Castro), Duelo ao Sol (Harry Madox) e New Zionist (Yoav). Para mim, e de uma forma estritamente pessoal, 2006 será um ano de profunda mudança – quanto mais não seja, de geografias. Depois de exactamente 10 anos a viver em Los Angeles, no final de Janeiro mudo-me para Nova Iorque, trocando definitivamente o sol eterno da Califórnia pela neve da Big Apple. “Start spreading the news, I’m leaving today…
Feliz Ano Novo!

(em actualização…)

Canção pela paz

Poema de Yaakov Rotblit

Para ouvir:
Shir La’Shalom (Canção pela Paz) – Miri Aloni

Shalom Haver (Adeus Companheiro) – Arik Einstein

Deixa o sol nascer
E a manhã oferecer a sua luz,
A força da mais pura oração
Não nos trará de volta.
Aquele cuja vela foi apagada,
E foi levado pelo vento,
Uma lágrima amarga não o acordará
E não o trará de volta.
Ninguém nos traz de volta
Da morte ou do sofrimento
Aqui, nem a vitória nos serve.
Nem cantos de salvação nem uma oração
Então cantem, cantem um canção pela paz
Não sussurrem uma oração
É melhor cantar uma canção pela paz
espalhada aos quatro ventos

Deixa o sol entranhar as flores,
Não olhes para trás,
Deixa os que partiram.
Enche os olhos de esperança
E não apenas de intenção
Canta uma canção de amor,
E não uma canção de guerras.
Não digas apenas que o dia virá
Traz esse dia,
Porque não é apenas um sonho.
E em todas as praças da cidade
Aclamem a paz.
Então cantem, cantem um canção pela paz
Não sussurrem uma oração
É melhor cantar uma canção pela paz
espalhada aos quatro ventos.

Poema de Yaakov Rotblit.

Na noite de 4 de Novembro de 1995, há exactamente 10 anos, minutos depois de cantar esta canção num comício pela paz na praça de Tel Aviv que hoje tem o seu nome, Yitzhak Rabin era assassinado. O papel com a letra da Canção pela Paz, que guardara no bolso do casaco, ficaria manchado com o seu sangue.

Rabino Abraham Assor זצ”ל

Em Saudosa Memória
(Tânger, 7 de Setembro de 1920 – Lisboa 15 de Outubro de 1993)


Rabino Abraham Assor זצ”ל, fotografado por Yale Strom.


De acordo com a Halakhá (a Lei Judaica), o arrependimento, a providência e a profecia expressam a missão de criar. No Talmude, está escrito que ser judeu é mais uma acção do que uma crença, é mais fazer pelos outros do que ter fé. Modelo de homem judeu, de bondade, de humanidade, de justiça e de tolerância, o rabino Abraham Assor, sempre dedicado à sua comunidade, construiu um exemplo.
Deus permita que o saibamos lembrar.”

Joshua Ruah, ex-presidente da comunidade judaica de Lisboa
Sivan 5760 (Junho de 2000)

A pergunta (um pequeno conto)


Quando morrer, e a minha alma for convocada diante de Deus, um turbilhão de apoquentações e dúvidas tomará conta de mim. Nessa altura, imaginando o encontro com o Criador, tentarei antecipar as suas interrogações: “Zusya, porque não foste Moisés? Porque não foste Salomão ou David?” Mas, quando Hashem1 aparecer à minha frente, a sua única pergunta será bem mais simples: “Porque não foste Zusya?”

Rabino Zusya de Anapol (Polónia, século XVIII)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

1Palavra hebraica, literalmente significa O Nome, sinónimo de Deus no judaísmo.

Dedicado à memória de Simon Wiesenthal (1908-2005), um Homem que viveu além do seu próprio destino.

God Speed Mister Jennings

Diariamente, este senhor fez-me acreditar que a minha profissão de jornalista ainda valia a pena. Peter Jennings, pivot e editor do jornal da noite da ABC, morreu ontem, vítima de cancro do pulmão. Recomeçara a fumar há quatro anos, numa manhã triste de Setembro, no dia 11. Era o melhor pivot de televisão do mundo. Tinha 67 anos.

O Terror em Londres

A 7 de Julho de 2005, o Blitz regressou a Londres. É difícil acordar com notícias destas. Acordar com o telefone a tocar de madrugada, ouvindo uma voz, lá do outro lado do mundo, a contar coisas terríveis. Acordar para uma manhã que se anuncia negra. Mais difícil ainda é escrever sobre sentimentos desconexos, amalgamados sob a forma de um intenso nó no estômago. Já morei em Londres. Londres foi a minha cidade. Os lugares que hoje são notícia fizeram parte do meu quotidiano. Pisei aquele chão e respirei o mesmo ar que agora exala os odores pútridos de um terror sem explicação nem sentido. Mas o pior ainda é suspeitar que possa mesmo ter olhado os assassinos nos olhos – já aqui dei conta da minha experiência pessoal com os fundamentalistas islâmicos em Londres, enquanto preparava um trabalho para a Grande Reportagem (ver Tortura, Humilhação e Ódio). Com a impotência da distância, penso nos meus amigos que lá moram: a Ana e o Chaim, o James, o Eitan, o Oliver, o Tom e a Şebnem… Espero que estejam bem.
No ano passado, Paulo Moura, jornalista do Público, entrevistou Omar Bakri Mohammed, um sheik que se autoproclamava “líder do Londonistão” e “Teórico da Al-Qaeda na Europa”. Na entrevista, publicada a 18 de Abril de 2004, Omar Bakri falava da “inevitabilidade” de grandes atentados terroristas em Londres e dos grupos que os preparavam. Como é fácil ser profeta quando se controla os cordelinhos que precipitam o Apocalipse.

Aqui ficam, reveladores, alguns excertos dessa entrevista (PÚBLICA Domingo, 18 de Abril de 2004) :

“O terror é a linguagem do século XXI”

PÚBLICA: Acha que vai ocorrer algum grande atentado em Londres?
Omar Bakri Mohammed: É inevitável. Porque estão a ser preparados vários, por vários grupos.(…)

P. Há muitos desses grupos “free-lance” na Europa?
R. Cada vez mais. O que é perigoso, porque nem todos têm a preparação teórica adequada. Aqui em Londres há um grupo muito bem organizado, que se auto-intitula Al-Qaeda-Europa. Divulgam, pela internet e email, muito material de propaganda e têm um apelo muito grande sobre os jovens muçulmanos. Sei que estão prestes a lançar uma grande operação.(…)

P. Como sabemos que um atentado é realmente da Al-Qaeda?
R. É fácil. Em primeiro lugar são sempre operações em grande escala. O texto divino é claro quanto à necessidade de provocar “o máximo dano possível”. O operacional tem portanto de certificar-se de que mata o maior número de pessoas que pode matar. Se não o fizer, espera-o o fogo do Inferno. Em segundo lugar, a Al-Qaeda deixa sempre uma impressão digital: uma pista, como um carro com um Corão ou uma cassete, para ser encontrado pela Polícia. Terceiro, os ataques são feitos em dois ou três lugares ao mesmo tempo. Finalmente, a linguagem. Nos comunicados, basta ler uma frase para se reconhecer o seu rigor teórico: não há nenhum sinal de nacionalismo, não se dizem árabes, nem palestinianos, apenas muçulmanos. Falam sempre do martírio, da morte.(…)

P. Mas o que pode justificar matar deliberadamente milhares de civis inocentes?
R. Nós não fazemos a distinção entre civis e não civis, inocentes e não inocentes. Apenas entre muçulmanos e descrentes. E a vida de um descrente não tem qualquer valor. Não tem santidade.

P. Mas havia muçulmanos entre as vítimas.
R. Isso está previsto. Segundo o Islão, os muçulmanos que morrerem num ataque serão aceites imediatamente no paraíso como mártires. Quanto aos outros, o problema é deles. Deus mandou-lhes mensagens, os muçulmanos levaram-lhes mensagens, eles não acreditaram. Deus disse: “Quando os descrentes estão vivos, guia-os, persuade-os, faz o teu melhor. Mas quando morrem, não tenhas pena deles, nem que seja o teu pai ou mãe, porque o fogo do Inferno é o único lugar para eles”.(…)

P. O Corão diz isso?
R. Sim. As pessoas não percebem, porque a televisão e os jornais só entrevistam os seculares. Não falam com quem sabe. Os seculares dizem que “o Islão é a religião do amor”. É verdade. Mas o Islão também é a religião da guerra. Da paz, mas também do terrorismo. Maomé disse: “eu sou o profeta da misericórdia”. Mas também disse: “Eu sou o profeta do massacre”. A palavra “terrorismo” não é nova entre os muçulmanos. Maomé disse mais: “Eu sou o profeta que ri quando mata o seu inimigo”. Não é portanto apenas uma questão de matar. É rir quando se está a matar.

P. Isso quer dizer que o terrorismo é natural e legítimo?
R. Só é legítimo o terrorismo divino.(…)

P. O que pretende a Al-Qaeda?
R. O terror. Estão empenhados numa jihad defensiva, contra os que atacaram o Islão. E a longo prazo querem restabelecer o estado islâmico, o califado. E converter o mundo inteiro.(…)

P. Os EUA podem negociar com a Al-Qaeda?
R. A Al-Qaeda é por natureza uma entidade invisível, não é um Estado, por isso não pode dialogar com um Estado. O seu projecto é derrubar os governos corruptos dos países muçulmanos, substitui-los por governos islâmicos e reconstituir o califado. Nessa altura, como Estado, poderão negociar com os EUA, de igual para igual. Primeiro, tentarão um pacto de segurança com eles. Dirão: nós fornecemos o petróleo e viveremos em paz, mas na condição de podermos divulgar livremente o Islão no Ocidente. Se os americanos não permitirem isto, então o califado terá de lhes declarar guerra.(…)

::A LER:: BBC NEWS – Front Page (com actualizações frequentes) / The Command Post – Global War On Terror / CNN – Minute-by-minute account – Jul 7, 2005 / Guardian Unlimited | Special reports | Terror blasts rock London / Guardian Unlimited | Special reports | London explosions ‘mirror Madrid bombings’ / Times Online – London hit by multiple terror blasts at rush hour / Times Online – London: a new and bloody chapter for al-Qaeda? / Times Online – London blast: survivors’ tales / Militant cleric says attack on London ‘inevitable’ (notícia agregada de agencies internacionais baseada na entrevista de Omar Bakri à Pública em Abril de 2004) / BBC NEWS – Cleric warns of ‘UK terror threat’ (14 de Agosto de 2002) / BBC NEWS – Dozens attend radical Muslim rally (25 de Agosto de 2002) / BBC NEWS – Waiting for the fatwa (15 de Agosto de 2002) / BBC News – UK ‘terror target’ claim dismissed (7 de Janeiro de 2002) / Telegraph – Cleric supports targeting children (5 de Setembro de 2004) / As Causas dos Atentados Suicidas (um artigo de Alan Dershowitz, 6 de Agosto de 2004).

Emídio Guerreiro

Dignidade

Chegou a meia-noite.
As palavras nunca foram meras palavras
para quem, com as próprias mãos, lutou ao meio-dia
contra carmona,
contra franco,
contra hitler,
contra salazar.
Pela Dignidade.
Nas palmas das mãos
do homem de quem o meu pai tem o nome
ficaram gravadas as linhas de um mapa –
a geografia da margem justa da História.

Em memória de Emídio Guerreiro (1899-2005)

Obituário distribuído pela Agência Lusa:

Uma vida em três séculos

Ao longo da sua longa vida, que atravessou três séculos, Emídio Guerreiro assistiu à implantação da República, viu nascer e morrer a ditadura, de que foi um dos mais destacados combatentes, atravessou duas guerras mundiais e participou na construção do regime democrático em Portugal.
Emídio Guerreiro nasceu a 6 de Setembro de 1899, em Guimarães, numa família de ideais republicanos, que acolheria como seus durante toda a vida.
Frequentou a Universidade do Porto, onde cursou Matemática, depois de ter lutado como voluntário na I Guerra Mundial – o seu primeiro encontro com a conturbada história do século XX.
Em 1926, um golpe de Estado impõe a ditadura em Portugal, mas a 3 de Fevereiro do ano seguinte Emídio Guerreiro junta-se aos revoltosos que, em vão, tentaram derrubar os golpistas. Em 1928, funda no Porto a loja maçónica “A Comuna”, do Grande Oriente Lusitano Unido.
Em 1932, escreve um panfleto contra o então presidente Óscar Carmona, acabando por ser detido, mas um ano depois conseguiria evadir-se, iniciando um exílio que se prolongaria por mais de 40 anos. A primeira paragem é em Espanha, onde dá aulas, mas o início da guerra civil leva-o a combater ao lado das forças republicanas.
Em 1939, com a vitória dos franquistas, fixa-se em França, passando à clandestinidade quando os nazis invadem o país, durante a II Guerra Mundial, tendo sido membro activo da resistência à ocupação alemã. Findo o conflito, Emídio Guerreiro voltou ao ensino de Matemática, desta vez na Academia de Paris.
Na capital francesa, funda em 1967, juntamente com outros exilados políticos, a LUAR, Liga Unificada de Acção Revolucionária, para combater o regime salazarista.
De regresso a Portugal, depois do 25 de Abril, foi um dos fundadores do PPD. Em 1975 foi eleito secretário-geral, tendo liderando o partido durante o período de ausência de Sá Carneiro no estrangeiro, por doença. Deputado à Assembleia Constituinte, viria a afastar-se do PPD, descontente com o rumo que o partido estava a seguir, e nos últimos anos aproximou-se do PS.
Em entrevista ao “Expresso”, por ocasião do centenário do seu nascimento, Emídio Guerreiro elegeu a dignidade humana como o ideal que norteou a sua vida. “Como não pode haver dignidade se não houver liberdade, naturalmente que eu lutei pela liberdade. Lutei contra todos os regimes prepotentes, lutei contra todas as ditaduras”, afirmou.

קדיש אבלים

יתגדל ויתקדש שמה רבא בעלמא די ברא כרעותה וימלך מלכותה, בחייכון וביומיכון ובחיי דכל בית ישראל, בעגלא ובזמן קריב. ואמרו אמן. יהא שמה רבא מברך לעלם ולעלמי עלמיא. יתברך וישתבח ויתפאר ויתרומם ויתנשא ויתהדר ויתעלה ויתהלל שמא דקדשא בריך הוא לעלא מן כל ברכתא ושירתא תשבחתא ונחמתא, דאמירן בעלמא ואמרו אמן .יהא שלמא רבא מן שמיא, וחיים טובים עלינו ועל כל ישראל ואמרו אמן .עשה שלום במרומיו, הוא יעשה שלום עלינו, ועל כל ישראל ואמרו אמן

O fim do homem é a morte

Moisés ben Jacob Ha-Sallah ibn Ezra

Olho para o mundo – e ele
assemelha-se a um jardim
com as suas crianças de permeio,
como erva.
Alguns, cuja memória é como a fragrância
do bálsamo,
e outros, cujos rebentos são como feno.
Mas sobre todos a Morte empunha
a sua foice,
e a sepultura guardará esta colheita.

Contemplo os túmulos de outras eras, de
dias antigos,
onde pessoas dormem o eterno sono.
Não há inimizade entre estas gentes
– não há inveja;
Não há amor nem há ódio;
E o meu pensamento, vislumbrando-os,
falha em discernir o mestre do escravo.

Onde estão todos os túmulos de todos os homens
que morreram na terra desde os dias de outrora?
Uma sepultura é cavada sobre outra,
e corpos são enterrados sobre corpos;
em buracos na terra eles jazem juntos –
os pedaços de cal e as pedras preciosas.

Moisés ben Jacob Ha-Sallah ibn Ezra (conhecido em árabe como Abu Harun Musa) (1070-1138), judeu de Granada. Filósofo, linguista e poeta medieval.

Em memória de Eugénio de Andrade e Álvaro Cunhal.