Memorial às vítimas do massacre de 1506

A Câmara Municipal de Lisboa aprovou por unanimidade a proposta para a construção de um memorial às vítimas dos motins anti-judaicos de 1506, durante os quais foram vitimados entre 2 a 4 mil judeus portugueses. Segundo a proposta, aprovada por unanimidade, o memorial deverá ser inaugurado no próximo dia 19 de Abril, altura em que passam precisamente 502 anos sobre aquele terrível evento.
O texto da proposta final bem como um registo em áudio do debate podem ser encontrados no blog do professor Jorge Martins, um historiador que tem vindo a resgatar a História dos judeus portugueses do esquecimento crónico a que foi sendo votada.

Hanuká com Manhattan em fundo

Uma das primeiras grandes lições de Kabbalah que o rabino Solomon me deu em Los Angeles condensava-se numa simples frase composta por três palavras: “Não há coincidências.” O judaísmo é pródigo em frases destas; aparentemente simples, aparentemente banais, mas densas de significados – cada uma destas frases é um verdadeiro novelo hermenêutico –, tal como, para um olhar destreinado, um diamante pode aparentar não ser mais do que um simples pedaço de vidro.
Na primeira noite de Hanuká, o Francisco José Viegas, fez-me uma enorme surpresa mas, ao evocar o milagre do reencontro, o Francisco nem imaginava este milagre da coincidência: no exacto local onde, em Fevereiro, tirámos aquela foto, ergue-se hoje um imenso Hanukiá – o candelabro de nove braços acendido paulatinamente durante os oito dias de Hanuká. A foto acima, tirada ao fim da tarde gélida que marcou o início do terceiro dia de Hanuká, com Manhattan e o fantasma das Torres Gémeas do World Trade Center no outro lado do rio, prova o feliz acaso. Se é que as coincidências existem mesmo…

Monumento à memória das vítimas do massacre de 1506


A Câmara Municipal de Lisboa vai discutir na quarta-feira, dia 31 de Outubro, a criação de um monumento evocativo da memória dos milhares de judeus portugueses assassinados na capital durante os sangrentos motins de 19, 20 e 21 de Abril de 1506. A proposta parte do vereador José Sá Fernandes, do Bloco de Esquerda, e conta com o apoio dos vereadores do PS e da vereadora Helena Roseta.
Segundo a proposta de Sá Fernandes o monumento será instalado no Largo de São Domingos, ao Rossio, local onde há 500 anos começaram os motins.
Aqui segue na integra a nota que nos chegou do gabinete do vereador José Sá Fernandes:

Na próxima sessão pública da CML, dia 31 de Outubro, Quarta-feira, o Vereador José Sá Fernandes irá propor a criação em Lisboa de um Memorial às Vítimas da Intolerância, evocativo do massacre judaico ocorrido na Cidade, em 1506, e de todas as vítimas que sofreram a discriminação e o aviltamento pessoal pelas suas origens, convicções ou ideias.
A 19, 20 e 21 de Abril de 1506, Lisboa foi palco do mais dramático e sanguinário episódio antijudaico de todos os que são conhecidos no nosso território, quando, por mera suspeita de professarem o judaísmo, foram barbaramente assassinados e queimados cerca de dois mil lisboetas.
Os acontecimentos tiveram início junto ao Convento de São Domingos (actual Largo de São Domingos) e culminaram em duas enormes fogueiras, no Rossio e na Ribeira, onde os crimes foram perpetrados.
O Vereador José Sá Fernandes propõe que a CML assinale estes acontecimentos, fazendo justiça póstuma a todas as vítimas da intolerância, naquilo que considera que constituirá uma afirmação inequívoca de Lisboa como cidade cosmopolita, multiétnica e multicultural, através da instalação de um Memorial às Vítimas da Intolerância, no Largo de São Domingos.
O memorial deverá ter, como elemento central, uma oliveira de grande porte e contemplará ainda uma lápide evocativa do massacre de 1506.
O arranjo urbanístico da área envolvente, a sua concepção, execução e instalação serão assegurados pelos serviços municipais.
De acordo com a proposta, a inauguração do Memorial deverá ter lugar no dia 19 de Abril de 2008, numa cerimónia promovida pela Câmara Municipal de Lisboa, para a qual serão convidadas todas as comunidades étnicas e religiosas da Cidade.
O Vereador José Sá Fernandes congratula-se pelo facto dos Senhores Vereadores do PS e da Senhora Vereadora Helena Roseta se terem associado a esta proposta, subscrevendo-a em conjunto.

::A LER:: 500 Anos do Massacre de Lisboa: Salomão Ibn Verga / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Garcia de Resende / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Samuel Usque / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Damião de Góis / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Alexandre Herculano / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Camilo Castelo Branco / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Oliveira Martins / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Ferreira Fernandes / 500 Anos do Massacre de Lisboa IX: Memória e Esquecimento

O terrorismo dos “meninos nazis”

O país vai de carrinho
Vai de carrinho o país
Os falcões das avenidas
São os meninos nazis (…)

Assim começava a canção de Zeca Afonso que me saltou à memória no exacto momento em que li a notícia de que o cemitério Judaico de Lisboa tinha sido profanado por dois neonazis. Pelo menos 17 túmulos foram destruídos, lápides gravadas com cruzes suásticas. No final, para cúmulo da violação, li que os dois defecaram e espalharam excrementos pelas campas. Os jornais contam ter-se provavelmente tratado de uma “cerimónia de iniciação” de um dos criminosos implicados. Honestamente, acredito que a profanação do cemitério judaico de Lisboa foi um acto de terrorismo.
A resolução 51/210 da Assembleia Geral das Nações Unidas define “terrorismo” como um “acto criminoso destinado ou calculado para provocar um estado de terror junto do público em general ou de um grupo específico de pessoas”. A mesma resolução afirma serem os actos terroristas “injustificáveis em qualquer circunstância, quaisquer que sejam as considerações políticas, filosóficas, ideológicas, raciais, étnicas, religiosas”.
A intenção primária e única deste acto de barbárie, racismo e antisemitismo é espalhar o terror, o receio e o medo por entre os judeus portugueses.
O historial de violência, assassínios, agressões, ameaças e destruição perpetrados por este grupo de gente contribuem para enquadrar as suas acções entre os parâmetros delineados pela definição de terrorismo pela Lei Internacional. Tudo isto seria mais do que suficientes para que a Justiça portuguesa funcione desta vez.
Um olhar transversal pela História faz-nos ver que o antisemitismo, e os ataques a judeus e símbolos judaicos pelo simples facto de serem judeus, são inevitavelmente um prelúdio para uma generalização da violência. Os judeus, neste caso, funcionam como “balões de ensaio” numa sociedade insensível ao seu sofrimento. São as primeiras vítimas. Foi assim na Idade Média (ver Rua da Judiaria: “Como elRei mandou degollar dous seus criados, porque roubarom huum judeu e o matarom”); foi assim com a Inquisição; foi assim na Segunda Guerra Mundial; foi assim com os atentados suicidas terroristas da intifada
Mas nem aqui os “meninos nazis” portugueses são originais. Numa pesquisa rápida, encontra-se um número considerável de notícias relacionadas com profanações de cemitérios judaicos ocorridas um pouco por todo o mundo nas últimas semanas: Jewish cemetery vandalized in Siberian city – International Herald Tribune / Jewish cemetery vandalism suspect free on personal recognizance – Boston.com / Neo-Nazi Activity Spreading Around the World – Arutz Sheva / French court hands down 30-month prison term to vandal of Jewish cemetery – International Herald Tribune / Hevron Cemetery Desecrated Over Sabbath – Arutz Sheva / 2 arrested in West Side cemetery vandalism.
No meio de todo este hediondo cenário, e navegando as hiperligações dos jornais online, confesso, sorri ao deparar com o nome de um dos “meninos nazis”, um tal Pedro Isaque. Sim, um neonazi chamado Isaque… um admirador do terceiro reich que tem o nome de um dos patriarcas do judaísmo – justiça poética, na sua melhor acepção (ver Correio da Manhã: Líder skin fica preso, de 21/09/2007; e, já agora, Wikipédia – Isaac / Isaque).
Tudo isto me fez de novo pensar na imensa ironia sobre a qual já antes aqui escrevera, a propósito da origem judaica do sobrenome Machado, ostentado pelo neonazi Mário (ver “ultimo parágrafo do texto Os media e o “crime” ).
Mas esta gente nada sabe da História do seu país e da “raça” que diz ser a sua… Quando foram forçados a converter-se ao Catolicismo sob pena de morte, em 1497, o número de judeus portugueses cifrava-se em cerca de 200 mil. Isto num total de pouco mais de um milhão de portugueses fazia com que os judeus constituíssem mais de 20 porcento da população nacional na época (ver The Virtual Jewish History Tour – Portugal).
A conversão forçada não só os impele para a “clandestinidade” como inicia um processo de miscigenação que viria a ser reforçado quando, a 25 de Maio de 1773, o Marquês de Pombal acaba com a “limpeza de sangue”, manda destruir os registos e cadastros dos “cristãos novos” e ordena que famílias nobres, até então orgulhosas da sua “pureza de raça”, organizem casamentos com os descendentes dos judeus convertidos à força nos finais do século XV.
Depois de todas estas “aventuras do sangue”, como lhes chamou Jorge Luis Borges – ele próprio um descendente desses judeus portugueses convertidos à força –, será que existe algum português, um único que seja, que continue a dizer-se livre do sangue da semente de Abraão? Será que existe algum que queira apostar tudo nessa “pureza”? Que aceitem então um desafio, esses “meninos nazis”: que façam um teste de ADN, sim, porque o ácido desoxirribonucleico não mente e a ciência faz com que o código genético seja hoje tão transparente quanto a água. E bastante acessível… (aqui, por exemplo: Family Tree DNA – we do genetic tests for your genealogy questions!)
E se porventura o teste lhes demonstrar que a sua “raça portuguesa” não é assim tão pura quanto pensavam; que, em vez de traços de Viriato Lusitano, são feitos de mesclas das gentes de África e do Médio Oriente; que, em vez de nórdico ou “ariano”, o sangue que lhes corre nas veias é idêntico ao dos judeus, que odeiam, ou dos negros, que desprezam; se for este o resultado do teste de ADN, que farão eles?
A resposta racional, obviamente, levaria ao repensar de ódios e preconceitos. Forçaria a humanização da besta. Mas de nada vale acalentar esperanças. Mesmo perante todas as provas cientificas e racionais, a irracionalidade do ódio prevaleceria. A verdade é que esta gente nada tem de racional. Como escreveu Jonathan Swift: “É inútil tentar fazer um homem abandonar pelo raciocínio algo que não adquiriu pela razão.”
Quanto a nós, judeus, resta-nos fazer aquilo que mais os irrita; o que sempre fizemos, desde os tempos remotos da escravidão no Egipto ou de Nabucodonosor: sobreviver.

::A LER:: DN “Hoje somos todos judeus” / SOS Racismo denuncia terror nas escolas da margem sul do Tejo provocado por “skinheads”; – Lusa – SAPO Notícias / New York Times: In DNA, New Clues to Jewish Roots / Family Tree DNA – we do genetic tests for your genealogy questions! / Expresso: Skins vandalizam cemitério judeu / Juiz decidiu soltar os dois skinheads perigosos: ‘Lobo Nazi” em liberdade / Skinheads ameaçam magistrada do MP / Leis penais entram em vigor: 36 skinheads acusados / Investigação na Margem Sul: PS, PCP e BE na mira / Southern Poverty Law Center Report: Hammerskin Nation / ADL: Hammerskin Nation – Extremism in America

Um pintor “português” morto em Auschwitz

Considerado um dos mais representativos retratistas holandeses dos finais do século XIX e da primeira metade do século XX, Baruch Lopes Leão de Laguna nasceu em Amsterdão, a 16 de Fevereiro de 1864, no seio de uma família sefardita portuguesa.
A sua vida começa tal como haveria de acabar – marcada pelos mesmos tons de tragédia. Aos dez anos perdeu os pais – Salomão Lopes de Leão Laguna e Sara Kroese – dando entrada no orfanato da comunidade de judeus portugueses de Amsterdão. Apoiado pelos professores da comunidade, ganhou o gosto pela pintura, estudando primeiro na Escola Quellinus e depois na Academia Nacional de Belas Artes da Holanda.
Para sobreviver, Leão Laguna trabalhou para o pintor Jacob Meijer de Haan – primeiro na pastelaria da família, no bairro judeu de Amsterdão, e posteriormente no atelier, como seu assistente.
Aos poucos, a pintura de Leão de Laguna foi ganhando fama e reconhecimento suficientes para lhe permitirem dedicar-se por completo à sua paixão. Em 1885 faz a sua primeira exposição na Associação Arti et Amicitiae, uma mostra bastante bem recebida pela crítica e pelos colegas. Por essa altura Baruch Lopes de Leão Laguna casa com Rose Asscher, filha de um lapidador de diamantes.
Durante os primeiros anos da ocupação nazi, Leão Laguna refugiou-se na região de Laren, no norte da Holanda. Terá sido nessa altura que pintou o auto-retrato que figura em cima. Auxiliado por uma família que o esconde numa quinta remota, Leão Laguna fica-lhes imensamente grato, oferecendo-lhes vários dos seus quadros (entre os quais este auto-retrato).
Eventualmente, Baruch Lopes de Leão Laguna é capturado pelos nazis e levado para o campo de extermínio de Auschwitz, onde é assassinado a 19 de Novembro de 1943, com 79 anos de idade.

Ilustração: Auto-retrato, Leão Laguna, óleo sobre tela, cerca de 1940, 82 x 54 cm

::PARA VER:: Baruch Lopes de Leao Laguna on Artnet / De Valk Lexicon kunstenaars Laren-Blaricum: Laguna / Baruch Leao Laguna – Ask Art / Kunsthandlung Nitsche / Joods Historisch Museum | Museumcollectie: Laguna…

Imagens da nossa Diáspora

A réplica de uma lápide do cemitério de judeus portugueses de Curaçao, nas Antilhas Holandesas, exposta no museu da Sinagoga Mikvé Israel-Emanuel, conhecida oficialmente como United Netherlands Portuguese Congregation Mikvé Israel-Emanuel, testemunha a presença inequivoca dos nossos e da nossa língua naquelas paragens.
Datada da primeira metade do século XVIII, a lápide encontra-se quase integralmente escrita em português, com excepção da inscrição cimeira, em hebraico, que cita o Livro de Ester: “E Mordecai compareceu perante o Rei”

No resto da lápide pode ler-se:

Do bem-aventurado e insigne varão Mordecai Hisquiau Namias de Crasto benquisto do geral e procurador da paz. Faleceu em 13 de Yiar do ano 5476 [5 de Maio de 1716]. Sua alma goze da glória.”


Esta rara imagem mostra o interior da Sinagoga Portuguesa de Curaçao, palco de uma curiosa tradição sefardita que apenas se mantém ainda nas Caraíbas: o chão encontra-se coberto de areia – por um lado para abafar os passos, recordando os tempos da Inquisição, em que o judaísmo era praticado em segredo; por outro para fazer lembrar que aqueles que a frequentam estão ainda no exílio – que pisam as areias do deserto do seu “Egipto”.

Fotos gentilmente cedidas por Francisco Duarte Azevedo.

Os nossos fantasmas em Salónica

A Chave em Salónica

Abarbanel, Farias ou Pinedo
atirados de Espanha por ímpia
perseguição, conservam todavia
a chave de uma casa de Toledo.

Livres agora da esperança e do medo,
olham a chave ao declinar do dia;
no bronze há outroras, distância,
cansado brilho e sofrimento quedo.

Hoje que sua porta é poeira, o instrumento
é cifra da diáspora e do vento,
como essa outra chave do santuário

que alguém lançou ao azul quando o romano
com fogo temerário acometeu,
e que no céu uma mão recebeu.

Jorge Luís Borges,
in El Otro, El Mismo, 1964

Este belo poema de Borges – que se considerava a si próprio um descendente de judeus portugueses fugidos da Inquisição –, vem a propósito de um interessante post no Abrupto sobre Salónica e sobre os fantasmas de uma cidade que, durante séculos, serviu de refúgio e morada a uma florescente comunidade de judeus portugueses e espanhóis que acabaria por ser aniquilada quase na totalidade pelos nazis entre 1941 e 1944. Hoje, dos sefarditas de Salónica pouco ou nada resta. Aconselho vivamente a leitura do texto de José Pacheco Pereira: Nunca é tarde para aprender: “Las mocicas de agora / todas vistem de tango”.
Leiam o que por lá se escreve e, depois, regressem à Judiaria para ouvir uma melodia cantada em Salónica, nessa língua mesclada de português e castelhano que os judeus ibéricos levaram para os lados do Levante. Chama-se “Morenica”, cantada por Savina Yannatou, do álbum “Primavera en Salonico”.
Escutem.


Savina YannatouMorenica
in Primavera en Salonico

Um pintor português em Nova Iorque


O Barco, Francisco Duarte Azevedo, 2005.


Quando acabo um quadro seguro ao seu lado um qualquer objecto feito por Deus – uma pedra, uma flor, o ramo de uma árvore ou a minha mão – como se fora um teste final. Se o quadro se aguentar ao lado de algo que o homem não pode produzir, o quadro é autêntico. Se houver um choque entre os dois, a arte é má.”
Marc Chagal, pintor, judeu russo naturalizado francês, em entrevista ao Saturday Evening Post, de Nova Iorque, a 2 de Dezembro de 1962.

Não é todos os dias que um pintor português expõe o seu trabalho em Nova Iorque. Não é também todos os dias que sinto orgulho em poder chamar amigo a alguém cujo talento admiro profundamente. Esta bela citação de Chagal é pretexto perfeito para convidar os meus leitores de Nova Iorque – e arredores –a conhecerem a pintura de Francisco Duarte Azevedo, actualmente em exposição a escassos três quarteirões de Times Square. Diplomata de carreira, cônsul geral de Portugal em Newark, poeta e escritor, Francisco Duarte Azevedo tem na pintura o veículo perfeito. Para o seu indiscutível talento e para a sua imensa generosidade.
Francisco expõe em conjunto com a fotógrafa nova-iorquina Dorothy Krakauer, que mostra um conjunto de excelentes fotografias do sul de Espanha. “The painter constructs, the photographer discloses”, escreveu Susan Sontag.
A exposição tem lugar no restaurante Pomaire, (o único restaurante chileno de Nova Iorque), 371 W 46th St, entre as avenidas 8 e 9, no coração da Broadway. Vejam os belos quadros de Francisco Duarte Azevedo, as fotos de Dorothy Krakauer e, já agora, aproveitem para provar a sopa – o caldillo de congrio chileno é também uma obra de arte.

Dois judeus… uma sinagoga! *


Francisco José Viegas e o autor da Judiaria, com Manhattan em fundo. Fez-me muito bem ver-te por estes lados.

* referência a um velho provérbio judaico cuja essência incontestável deita logo por terra a base de muitas teorias da conspiração: “Onde há dois judeus tem de haver três sinagogas: uma onde tu vais e eu não vou; outra onde eu vou e tu não vais; e uma terceira onde nenhum de nós vai”

Barros Basto

um artigo de Inácio Steinhardt *

“Tudo se ilumina para aquele que busca a Luz”

Não é uma máxima judaica, nem sequer cristã.
É um versículo do “SHAHAR”, o livro básico da doutrina “Oryam”, uma nova religião, que nasceu na cidade do Porto, na década de 1910.
Foi seu fundador e Mestre, um jovem cadete do Exército Português, chamado Arthur Carlos de BARROS BASTO.
Foi ele também o autor do “SHAHAR”, e de mais quatro livros sobre a doutrina do “Oryam”, parte dos quais escritos durante a sua estadia na Flandres, onde, já tenente, comandou um batalhão do Corpo Expedicionário Português, na Primeira Grande Guerra Mundial.
Arthur tinha a obsessão do Fogo e da Luz. Já em pequeno brincava com fósforos, imaginando-se a realizar sacrifícios de uma suposta religião pagã.
A chama eterna e a luz eram um tema constante do ritual do “Oryam”, cujo templo, em lugar improvisado para o efeito, tinha o nome simbólico de Mayan (fonte).
Como se vê, todos estes termos e muitos mais presentes na literatura do “Oryam”, tinham origem hebraica. O próprio nome “Or-Yam”, significa “A Luz do Ocidente”. “Yam” é o mar, e o lado do mar, em relação à Terra de Israel, é o ocidente. Portanto uma luz nascida não no oriente, mas no ocidente.
Uma consulta à imprensa da época, com muitas notícias e entrevistas sobre os actos do culto “Oryam”, faz pensar que, naquela época, o Mestre Barros Basto tinha angariado muitos adeptos. E um estudo da sua doutrina revela uma ideia religiosa sã e muito humana.
No entanto, Barros Basto ficou na história como o “Apóstolo dos Marranos”, denominação que lhe atribuiu o historiador Cecil Roth, no opúsculo em que descreveu os primórdios da sua “Obra do Resgate”.
E está certo: Barros Basto foi um verdadeiro apóstolo dos Marranos, aos quais dedicou a sua vida e padeceu por eles, morrendo na desgraça, quando todos à sua volta estavam convencidos de que a sua Obra tinha sido vencida pelos duros golpes infligidos pelos seus inimigos, de fora e de dentro.
Mas Barros Basto era um homem de fé inabalável. “Adonai li velo irá” (Tenho Deus comigo, por isso não temerei”). Foi sepultado, segundo o seu desejo, com a sua farda de valoroso capitão, e suas medalhas e condecorações obtidas numa brilhante carreira de militar, na implantação da República em 1910, e nas batalhas da Flandres.
“Se lá no assento etéreo onde subiu, memória desta vida se consente”, Barros Basto terá com certeza a prova de que, cá em baixo, a sua Obra não terminou com a sua morte.
Foi apóstolo dos Marranos, mas ele próprio não era um Marrano. Não tenhamos receio de usar esta palavra, que há muito que deixou de ser o termo pejorativo, que foi na sua origem, para se tornar, pelo esforço de Barros Basto, num distintivo de que se podem orgulhar os que a ele têm jus.
Barros Basto não era um Marrano, porque esse termo designa o judeu forçado a converter-se ao cristianismo, cuja família continuou a praticar a religião dos seus pais, em segredo, consciente do perigo de morte em que incorria.
Barros Basto era descendente desses judeus convertidos pela força – revelou-lhe muito em segredo, seu avô, na biblioteca da casa em Amarante, quando ele tinha apenas 8 anos. Era um segredo que, em cada geração, só um membro da família Barros Basto guardava. E o avô, antes de morrer, escolheu Arthur, e não o pai deste, para depositário desse segredo.
A família não guardava qualquer preceito judaico, e, pelo contrário, sua extremosa Mãe era católica muito praticante, que o levava à Igreja, e tinha grande desgosto pela aversão que a criança demonstrava, sem saber porquê, aos círios e às procissões.
Da existência de judeus em Portugal só soube em 1904, quando leu num jornal que havia sido inaugurada uma sinagoga em Lisboa.
Foi nessa sinagoga que ele tentou ser admitido, quando, anos mais tarde, o exército o mandou frequentar um curso na Escola Politécnica, em Lisboa.
Mas os dirigentes da sinagoga dissuadiram-no. Não só porque o judaísmo é adverso a aceitar prosélitos, como porque os judeus de Lisboa se sentiam ainda apenas “tolerados” e temiam ser acusados de missionarismo.
O jovem oficial português não foi às cegas para o judaísmo. Pelos seus próprios meios, como autodidacta, ele estudou profundamente e comparou as principais religiões: além do Judaísmo, o Cristianismo, o Islão, e as doutrinas teosóficas de Madame Blavatsky e de Steiner.
Vendo baldados todos os seus esforços para ser aceite pelos judeus, aos quais, segundo a revelação de seu avô, ele pertencia, Barros Basto entendeu que, para ser um homem digno não era necessário ser admitido na sinagoga.
Foi então que criou o “Oryam”, com elementos do judaísmo e da teosofia, que falavam à sua forma de pensar.
O “Oryam” terminou quando dois factos importantes o fizeram compreender que ser judeu era um estigma a que o mundo exterior o não deixaria escapar.
O primeiro, foi a noiva, que ele havia escolhido, e com quem tencionava casar, que lhe revelou que a família dela nunca a deixaria casar com um judeu.
O segundo foi um evento na Universidade de Coimbra em honra dos heróicos oficiais portugueses das batalhas da Flandres. Um orador salientou o facto de Barros Basto e um membro da nobreza, que também combatera com ele, deviam ser aparentados. O outro levantou-se indignado, para afirmar peremptoriamente que na família dele não havia judeus.
Arthur não hesitou mais. Foi a Tanger, apresentou-se perante um tribunal rabínico, prestou todas as provas de conhecimentos de judaísmo, com que procuram dificultar-lhe a conversão e garantiu-lhes que dali não sairia sem um certificado de conversão.
“Tudo se ilumina para aquele que busca a luz” – ou, por outras palavras nada resiste à vontade firme do Homem. “Querer é poder”.
De regresso a Lisboa, apresentou-se na sinagoga como judeu orgulhoso do seu certificado, ali casou com uma judia, e voltou com ela para o Porto.
Aí reuniu os 17 judeus russos, polacos e alemães, que viviam na cidade, que não tinham sinagoga e só pelas festas vinham a Lisboa. Com eles fundou a Comunidade Israelita do Porto, e alugou um andar para servir de sinagoga, onde logo a seguir celebrou o primeiro casamento de um casal russo.
São insondáveis os desígnios da Providência.
Até essa altura Barros Basto não sabia a missão que lhe estava destinada. Ele nunca tinha ouvido falar em Marranos. Os Marranos, que viviam no Porto, na sua maioria provenientes das aldeias de Trás-os-Montes, é que ouviram falar na sinagoga que abrira na cidade. E tal como ele se apresentara na sinagoga de Lisboa, eles começaram a apresentar-se na sinagoga “Mekor Haim” (Fonte da Vida) na Rua do Poço das Patas.
Foi assim que nasceu a “Obra do Resgate”.
Muito se poderia ainda escrever sobre a obra deste herói do judaísmo.
Mas o pano não chega para mais roupa.
“Tudo se ilumina para aquele que busca a Luz” – foi o lema que continuou da desaparecida religião oryamita para o cabeçalho do jornal que Barros Bastou publicou na sua comunidade judaica, e cujo nome, “Halapid”, O Facho, continua a lembrar a sua paixão pelo Fogo e pela Luz, que existem dentro de cada um de nós.


A Sinagoga Mekor Haim, no Porto, fotografada por Carlos Romão

* Este texto de Inácio Steinhardt, escrito propositadamente e em exclusivo para a Rua da Judiaria, revela uma faceta praticamente desconhecida do Capitão Barros Bastos. Biógrafo de Barros Basto, Inácio Steinhardt é co-autor, com Elvira Azevedo Mea, do livro Ben-Rosh: Biografia do Capitão Barros Basto, o apóstolo dos marranos, publicado em 1997 com chancela das Edições Afrontamento.

7.º Centenário da antiga Sinagoga de Lisboa

“Como são belas as tuas tendas, Jacob, as tuas moradas, Israel”
“Números” 24:5, verso inicial da oração de “Má tobu”, que os judeus pronunciam ao entrar na sinagoga

Um texto de Inácio Steinhardt *

Faz agora dois anos – foi em Setembro de 2004 – que a Comunidade Israelita de Lisboa comemorou, com a devida solenidade, o primeiro centenário da inauguração da Sinagoga Portuguesa “Shaaré Tikvá”.
Talvez não venha a despropósito assinalar agora, ainda que apenas de forma simbólica, a outra efeméride – o sétimo centenário da inauguração da primeira grande sinagoga de Lisboa, em 10 de Setembro de 1306, que foi nesse ano o primeiro dia de Rosh Hashaná [o Ano Novo judaico, que este ano é assinalado ao cair da noite da próxima sexta-feira, dia 22 de Setembro], do ano de 5067.
Rosh Hashaná, ou primeiro de Tishri, foi também o dia em que, segundo a tradição, terminou a construção do Templo do rei Salomão.
Talvez que essa outra efeméride estivesse também na intenção do Arrabi-Mor Dom Judah Ben Yahia, neto do primeiro arrabi-mor do Reino, Yahia Ibn-Yaish, ao escolher esse dia para inaugurar a sua opulenta sinagoga.
A placa, já bastante danificada, dessa sinagoga, ainda hoje se conserva no Museu Abraham Zacuto em Tomar.

Nela se lê, pela leitura erudita de Samuel Schwarz:
“Esta é a porta do Senhor pela qual os justos entrarão. Entrai pelas suas portas com graças e em seus átrios com louvor.
Vós que ides no caminho do Senhor acorrei à casa do culto. Três vezes por dia vinde às suas portas em acção de graças.
E tomai nas vossas mãos cítaras e cantai um cântico de graças.
Edifício formoso e belo construiu o opulento rabi Iahuda filho de Guedaliah que tem o seu assento nas assembleias dos justos e da congregação.
Ao nome do Senhor levantou e construiu esta obra magnífica.
E acabou a obra do nosso Deus no primeiro dia do nosso famoso mês de Eitanim, no ano de cinco mil e sessenta e sete do nosso cômputo.
Deus que dispôs o coração do rabino para aformosear a casa do nosso Deus e o nosso Templo, Ele reunirá o Seu povo no Seu santuário [em Jerusalém], e nos fará ver a sua reconstrução em companhia dos nossos filhos.
Bem-aventurado o homem que me obedece, velando às minhas portas todos os dias, guardando as ombreiras das minhas dos meus pórticos.”

“Eitanim” (os firmes) é outro nome dado ao mês de Tishri, porque, segundo a tradição, foi nesse mês que nasceram os três patriarcas da nação de Israel.
Devia ser realmente sumptuosa, em termos da época em que foi construída, essa sinagoga, situada na então Judiaria Grande de Lisboa, no ponto mais próximo da igreja da Madalena, que ficava então frente à cerca da Judiaria.
E talvez tivesse sido intencional a presença de um templo cristão, dedicado à judia arrependida Miriam de Migdal, junto ao bairro dos “cafres” judeus.
A única descrição visual que temos da sinagoga grande de Lisboa foi deixada pelo médico alemão, Jeronimus Muenzer, que visitou a Espanha e Portugal em 1494, num itinerário em latim, de que possuo a tradução em espanhol, de Júlio Puyol (Boletim da Biblioteca da Real Academia de la Historia):
“El sábado, vigilia de San Andrés, visité su sinagoga. No había estado nunca en uno de estos templos. En un patio que hay delante de ella, crece una parra gigantesca, cuyo tronco mide cuatro palmos de circunferencia. El interior, arreglado con extremada pulcritud, tiene una cátedra o púlpito para predicar, por el estilo del de las mezquitas; ardían diez enormes candelabros con cincuenta o sesenta luces cada uno, además de otras muchas lámparas, y las mujeres colócanse en lugar separado del de los hombres, alumbrado, de igual modo, con profusión de luces.”
Que a sinagoga tinha, pelo menos, três naves sabemos pelo inventário dos bens apreendidos a Dom Isaac Abrabanel, quando este fugiu para Castela, por ter sido acusado de implicação na tentativa de subversão do Duque de Bragança:
“hum lugar de sseda [“cadeira” na interpretação de Elias Lipiner] na esnoga grande de Lisboa, na nave do meo em que see assentava Yuda Abrabanel seu padre”
Os judeus pagavam à Comuna uma pensão anual pelos lugares reservados, que mantinham na sinagoga. Mas tinham o direito de os transmitir por venda ou por herança. Assim se explica que D. João II se tenha apropriado dos três lugares pertencentes a Isaac Abrabanel, de um dos quais fez doação, em 1486, a Mousem Zarco, seu alfaiate.
Em 1497, quando da conversão forçada dos judeus de Portugal, todas as sinagogas do reino passaram para a posse do rei.
Mais tarde D. Manuel I fez doação do edifício da sinagoga grande de Lisboa aos frades da Ordem de Cristo, em troca do convento que estes mantinham no Restelo, onde viria a ser construído o Mosteiro dos Jerónimos.
O edifício da sinagoga foi transformado pelos frades, devidamente autorizados pelo Papa, na Igreja da Conceição (Velha), que o terramoto de 1755 destruiu totalmente.

* Inácio Steinhardt, jornalista português, tradutor e historiador residente em Israel. Este texto é publicado aqui na Rua da Judiaria com a sua autorização. Conto publicar proximamente outras colaborações exclusivas suas para este blog

Regressos

Judeus Portugueses em Eretz Israel no século XVI
O relato de Frei Pantaleão D’Aveiro (1563)


(…) Passamos ali um pedaço da noite em conversação, até serem horas de nos recolher, como avisamos o Turco, que ao dia seguinte havíamos de ter mui pequena jornada. Em amanhecendo vieram dois Judeus Portugueses visitar a Turca por parte dos Judeus, que moravam em Safed, uma povoação grande, que estava dali a pouco mais de légua, a qual em o Livro de Tobias se chama Sapheth: e trouxeram-lhe duas cargas de cevada, e quatro carneiros muito grandes e gordos, como os há naquela terra: e em pago da visita, e serviço, tomaram aos pobres as cavalgaduras, e porque se queixavam, ameaçavam-nos com pancadas. Começaram-se os pobres Judeus de lamentar, culpando um ao outro, vendo-se tão agravados, e lastimados, dizendo um ao outro, se vós não fôreis, eu não viera, o outro pelo contrário dizia, vós tendes a culpa: e com este agastamento, como homens magoados soltaram muitas palavras desconcertadas contra os Turcos e Mouros, em língua Portuguesa, chamando-lhes perros e cães e semelhantes nomes. Vendo eu que eram Portugueses, cheguei-me a eles, compadecendo-me da sua miséria, e trabalho, e disse-lhes, que olhassem como falavam, porque não faltaria quem os entendesse, como a mim me acontecera com um negrinho: deram-me os agradecimentos do bom conselho, e folgaram de eu os entender para desabafarem, e pediram-me novas de Portugal, porque a natureza não se pode negar. Disseram-nos, que em Safed moravam mais de quatrocentos judeus, a maior parte deles nascidos em Portugal, rogando-me muito que quisesse lá dar uma chegada, porque era muito perto, e não me havia de pesar. Dei-lhe os agradecimentos da sua boa vontade, prometendo-lhes de ir, se o tempo me desse lugar. (…)

(…) Chegamos a Safed, aonde os Judeus nos fizeram uma grande festa, e me levaram à sua Sinagoga, que tinham mui bem concertada, e depois nos recreamos comprando a bom preço o vinho, que me pareceu necessário, nos partimos a Nazareth, que está dali a menos de uma légua. (…)

(…) Despedidos daquele lugar, nos tornámos a Safed, aonde chegámos em se pondo o sol, e por ser tarde, e irmos cansados, e nos importunaram muito os Judeus, que nos ficássemos, dizendo, que bastaria irmos um pouco de madrugada, se temíamos, que se iria a Turca, ficámos ali aquela noite, e nos agasalharam muito bem em casa de um Judeu meu natural, que sendo moços andámos ambos na escola de outro Judeu, que lá naquelas partes morreu, segundo meu hóspede me afirmou, honrou-se muito o Judeu de eu aceitar sua pousada, e tratou-me nela com muitos mimos e muita cortesia. Vieram aquela noite ter connosco muitos Judeus, dos quais alguns começaram logo a altercar, e porfiar comigo cousas da sua Lei cansada, e sobre nossa bendita, que este é o seu comum costume, mas eu como já algumas vezes me tinha achado com Judeus em semelhantes porfias, e sabia mui bem, que nenhum deles pretende saber a verdade, atalhei-lhe com lhe dizer, que tinha necessidade de me agasalharem, e recrearem, e não de me cansarem com porfias e contendas sem proveito, pois nenhum deles tinha propósito de se fazer Cristão, se o eu vencesse, porque tinha para mim serem todos Judeus de opinião, sem quererem admitir razão, ainda que a palavra para eles foi um pouco dura, deram-me muito louvor, e disseram, que ainda não tinham negado o ser Português, pois falava tão claro, e não me respondiam, pois desejavam mais me servir, que me agravar. Vieram-me também naquela noite agasalhar duas Judias minhas naturais, que com lágrimas me fizeram a festa, lamentando-se, e dizendo, que seus pecados as haviam tirado de Portugal, não para a terra de Promissão, como elas cuidavam, mas para a terra de desesperação, como com seus olhos viam, e com suas misérias experimentavam. Muito ante manhã nos partimos de Safed, e nos tornámos aos nossos, que à ponte de Jacob nos estavam esperando (…)”

in Itinerario da Terra Sancta, e suas particularidades, escrito por Frei Pantaleão D’Aveiro, impresso na casa de Simão Lopes, 1593
Capítulos LXXXIII e LXXXIV, págs. 452 a 457


A cidade de Safed (Tzfat), na Galileia. Foto de Richard Nowitz

Mazel Tov Francisco!


A vida escondida. Há gente surpreendente, não damos nada por ela e um dia surpreendem-nos, viveram em lugares estranhos, caçaram leões, perderam-se a voltar para casa e nunca mais voltaram, conseguiram ler Saramago ou ganharam um prémio de literatura. Há sempre uma surpresa à nossa espera.”

Longe de Manaus, palavras de Jaime Ramos escritas por Francisco José Viegas (pág. 201)

Dos jornais: “O Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2005 foi ontem atribuído ao livro “Longe de Manaus”, de Francisco José Viegas. Trata-se de um dos mais importantes prémios literários portugueses.” Confesso que esta foi a melhor notícia que li nos últimos tempos. Não é todos os dias que um amigo (por quem sempre “dei muito”, ao contrário da citação…) ganha um prémio. Não é todos os dias que um amigo ganha um prémio literário. O maior prémio da literatura portuguesa. Parabéns Francisco!


Tive um namorado que era da direção do Círculo de Cultura Judaica e que começou me ensinando hebraico em iluminuras portuguesas, letra a letra, ele em tronco nu (tinha uma tatuagem, eu lembro), numa cama de um hotel eu de calcinha e camiseta, pronunciando os erres com agá aspirado à mistura, lendo da direita para a esquerda, e então ele ia para junto da janela, São Paulo ao fundo, recortado como numa fotografia de Nova Iorque, e então ele recitava, recitava em hebraico e traduzia. Vestia camisas de flanela e era bom de cama, me levava a restaurantes para comer camarão e frutos do mar, que lhe estavam proibidos, e eu gostava disso. Ele pecava comigo e eu era toda pecado. Mas depois acabou, não me lembro o mês do ano, lembro só que acabou. Ele me dizia que eu tinha o perfume do mel. Era mentira. Devia ser. Perfume de mel é enjoativo. Eu não sou enjoativa, eu sei. A gente se prometeu que nunca terminaria por telefone, pelo menos isso. A gente se promete sempre isso, a gente vê sempre isso nos filmes e diz isso em quartos de hotéis e mesmo na véspera das despedidas. Mas ele telefonou num primeiro domingo cancelando o encontro. Depois telefonou noutros dias cancelando outros encontros. Foda. Vida é foda mesmo. Homens não assim tão interessantes. Não são assim tão inteligentes. Meu nome é Daniela. Sou uma garota urbana, trinta e dois anos, e acho que homens maravilhosos só existem mesmo na literatura, onde não há desperdício de amor. Mas se desperdiça bastante, na vida real. Muito, bastante, de mais.”

Longe de Manaus, Francisco José Viegas (págs. 334 e 335)

Exercícios de memória

“Yo m’enamori d’un aire”, Parvarim

Já não escrevo, decoro. Construo o livro todo na cabeça.”

As palavras são de Antonio Tabucchi, numa conversa deliciosa com Carlos Vaz Marques. Uma entrevista que irá para o ar na TSF de hoje a uma semana, às 19:00h de quinta-feira, dia 18.
Na entrevista, do programa “Pessoal e… transmissível”, Tabucchi relata que o seu último conto foi recentemente remetido à memória no Alentejo. São cinco páginas, ainda inéditas, recitadas para o papel sem apontamentos, sem notas escritas. É um conto sefardita: “Chama-se Yo m’enamori d’un aire e começa com uma canção sefardita, meia portuguesa e meio espanhola, que fala de um homem que está apaixonado por uma rapariga que se desvanece no ar. Isto refere-se às perseguições dos judeus na península Ibérica no princípio do século XVI”, diz Tabucchi. Nele é contada a história de um regresso. Um descendente de judeus portugueses volta a Lisboa, caminha pelo Jardim Botânico e pelo Príncipe Real. Vem de um “sitio muito longínquo” buscando os lugares dos seus antepassados. “Ele não fala a língua dos seus antepassados, nem espanhol nem português, mas lembra-se de uma canção que ouvia cantar quando era criança.” O resto da história pode ser ouvido neste excerto da entrevista gentilmente cedido por Carlos Vaz Marques: Pessoal e… transmissível: Antonio Tabucchi.

::PARA OUVIR::
“Yo m’enamori d’un aire”, Parvarim


A canção em ladino que inspira o conto de Tabucchi

A ENTREVISTA:

::NOTA:: A entrevista completa por ser ouvida também em formato podcasting em TSF Pessoal e… transmissível (feed xml).
Obrigado Carlos por teres permitido aos leitores da Rua da Judiaria a audição antecipada deste excerto da entrevista.

Catarina Dias, a Purgatória

Ruy Ventura

cantava, nesse tempo,
a oração dos mortos,
ligando no tear
os fios da memória –

devolvia a água
à raiz da oliveira
para que o sangue
pudesse alimentar
a luz (e as sombras)
dessa terra –

lançava sobre o lume
o sabor e a sabedoria
para que o fermento
envolvesse a solidão –

bebia na fonte
o brilho da pedra,
guardando no cântaro
a angústia das palavras –

guardava no peito
o fogo e a fuga,
o leito que um dia
fechara a garganta –

– quando vieram, sem sombra,
impor sobre o corpo esse peso
sem vida

e a vestiram de noite,
embora fosse branco
o hábito perpétuo.

Ruy Ventura

Este poema foi-me enviado pelo autor, escrito em memória de uma antepassada judia, condenada pelo tribunal da Inquisição de Évora.

Nota – Catarina Dias, a Purgatória foi uma judia do século XVIII residente em Castelo de Vide. Foi condenada pela Inquisição de Évora a usar o chamado “sambenito”. Outros familiares seus foram queimados em auto-de-fé no Rossio de São Brás, na capital da então província de Entre-Tejo-e-Odiana.
Ruy Ventura acrescenta no seu blog, Estrada do Alicerce:
“Ao construir a minha árvore genealógica, deparei-me com um nome estranho: Catarina Dias, a Purgatória. Tentei investigar de onde viria essa designação. Achei Catarina membro da família Narigão (de Castelo de Vide) que, em conjunto com os Tirados, fora severamente atormentada pelos sequazes da Inquisição. Catarina estava incluída no número dos sofredores: embora não tivesse visto as suas cinzas misturadas à terra do Rossio de São Brás de Évora, local de autos-de-fé, fora obrigada a usar durante toda a vida o odioso “sambenito “. Daí o alcunha.”