Dois judeus… uma sinagoga! *


Francisco José Viegas e o autor da Judiaria, com Manhattan em fundo. Fez-me muito bem ver-te por estes lados.

* referência a um velho provérbio judaico cuja essência incontestável deita logo por terra a base de muitas teorias da conspiração: “Onde há dois judeus tem de haver três sinagogas: uma onde tu vais e eu não vou; outra onde eu vou e tu não vais; e uma terceira onde nenhum de nós vai”

Barros Basto

um artigo de Inácio Steinhardt *

“Tudo se ilumina para aquele que busca a Luz”

Não é uma máxima judaica, nem sequer cristã.
É um versículo do “SHAHAR”, o livro básico da doutrina “Oryam”, uma nova religião, que nasceu na cidade do Porto, na década de 1910.
Foi seu fundador e Mestre, um jovem cadete do Exército Português, chamado Arthur Carlos de BARROS BASTO.
Foi ele também o autor do “SHAHAR”, e de mais quatro livros sobre a doutrina do “Oryam”, parte dos quais escritos durante a sua estadia na Flandres, onde, já tenente, comandou um batalhão do Corpo Expedicionário Português, na Primeira Grande Guerra Mundial.
Arthur tinha a obsessão do Fogo e da Luz. Já em pequeno brincava com fósforos, imaginando-se a realizar sacrifícios de uma suposta religião pagã.
A chama eterna e a luz eram um tema constante do ritual do “Oryam”, cujo templo, em lugar improvisado para o efeito, tinha o nome simbólico de Mayan (fonte).
Como se vê, todos estes termos e muitos mais presentes na literatura do “Oryam”, tinham origem hebraica. O próprio nome “Or-Yam”, significa “A Luz do Ocidente”. “Yam” é o mar, e o lado do mar, em relação à Terra de Israel, é o ocidente. Portanto uma luz nascida não no oriente, mas no ocidente.
Uma consulta à imprensa da época, com muitas notícias e entrevistas sobre os actos do culto “Oryam”, faz pensar que, naquela época, o Mestre Barros Basto tinha angariado muitos adeptos. E um estudo da sua doutrina revela uma ideia religiosa sã e muito humana.
No entanto, Barros Basto ficou na história como o “Apóstolo dos Marranos”, denominação que lhe atribuiu o historiador Cecil Roth, no opúsculo em que descreveu os primórdios da sua “Obra do Resgate”.
E está certo: Barros Basto foi um verdadeiro apóstolo dos Marranos, aos quais dedicou a sua vida e padeceu por eles, morrendo na desgraça, quando todos à sua volta estavam convencidos de que a sua Obra tinha sido vencida pelos duros golpes infligidos pelos seus inimigos, de fora e de dentro.
Mas Barros Basto era um homem de fé inabalável. “Adonai li velo irá” (Tenho Deus comigo, por isso não temerei”). Foi sepultado, segundo o seu desejo, com a sua farda de valoroso capitão, e suas medalhas e condecorações obtidas numa brilhante carreira de militar, na implantação da República em 1910, e nas batalhas da Flandres.
“Se lá no assento etéreo onde subiu, memória desta vida se consente”, Barros Basto terá com certeza a prova de que, cá em baixo, a sua Obra não terminou com a sua morte.
Foi apóstolo dos Marranos, mas ele próprio não era um Marrano. Não tenhamos receio de usar esta palavra, que há muito que deixou de ser o termo pejorativo, que foi na sua origem, para se tornar, pelo esforço de Barros Basto, num distintivo de que se podem orgulhar os que a ele têm jus.
Barros Basto não era um Marrano, porque esse termo designa o judeu forçado a converter-se ao cristianismo, cuja família continuou a praticar a religião dos seus pais, em segredo, consciente do perigo de morte em que incorria.
Barros Basto era descendente desses judeus convertidos pela força – revelou-lhe muito em segredo, seu avô, na biblioteca da casa em Amarante, quando ele tinha apenas 8 anos. Era um segredo que, em cada geração, só um membro da família Barros Basto guardava. E o avô, antes de morrer, escolheu Arthur, e não o pai deste, para depositário desse segredo.
A família não guardava qualquer preceito judaico, e, pelo contrário, sua extremosa Mãe era católica muito praticante, que o levava à Igreja, e tinha grande desgosto pela aversão que a criança demonstrava, sem saber porquê, aos círios e às procissões.
Da existência de judeus em Portugal só soube em 1904, quando leu num jornal que havia sido inaugurada uma sinagoga em Lisboa.
Foi nessa sinagoga que ele tentou ser admitido, quando, anos mais tarde, o exército o mandou frequentar um curso na Escola Politécnica, em Lisboa.
Mas os dirigentes da sinagoga dissuadiram-no. Não só porque o judaísmo é adverso a aceitar prosélitos, como porque os judeus de Lisboa se sentiam ainda apenas “tolerados” e temiam ser acusados de missionarismo.
O jovem oficial português não foi às cegas para o judaísmo. Pelos seus próprios meios, como autodidacta, ele estudou profundamente e comparou as principais religiões: além do Judaísmo, o Cristianismo, o Islão, e as doutrinas teosóficas de Madame Blavatsky e de Steiner.
Vendo baldados todos os seus esforços para ser aceite pelos judeus, aos quais, segundo a revelação de seu avô, ele pertencia, Barros Basto entendeu que, para ser um homem digno não era necessário ser admitido na sinagoga.
Foi então que criou o “Oryam”, com elementos do judaísmo e da teosofia, que falavam à sua forma de pensar.
O “Oryam” terminou quando dois factos importantes o fizeram compreender que ser judeu era um estigma a que o mundo exterior o não deixaria escapar.
O primeiro, foi a noiva, que ele havia escolhido, e com quem tencionava casar, que lhe revelou que a família dela nunca a deixaria casar com um judeu.
O segundo foi um evento na Universidade de Coimbra em honra dos heróicos oficiais portugueses das batalhas da Flandres. Um orador salientou o facto de Barros Basto e um membro da nobreza, que também combatera com ele, deviam ser aparentados. O outro levantou-se indignado, para afirmar peremptoriamente que na família dele não havia judeus.
Arthur não hesitou mais. Foi a Tanger, apresentou-se perante um tribunal rabínico, prestou todas as provas de conhecimentos de judaísmo, com que procuram dificultar-lhe a conversão e garantiu-lhes que dali não sairia sem um certificado de conversão.
“Tudo se ilumina para aquele que busca a luz” – ou, por outras palavras nada resiste à vontade firme do Homem. “Querer é poder”.
De regresso a Lisboa, apresentou-se na sinagoga como judeu orgulhoso do seu certificado, ali casou com uma judia, e voltou com ela para o Porto.
Aí reuniu os 17 judeus russos, polacos e alemães, que viviam na cidade, que não tinham sinagoga e só pelas festas vinham a Lisboa. Com eles fundou a Comunidade Israelita do Porto, e alugou um andar para servir de sinagoga, onde logo a seguir celebrou o primeiro casamento de um casal russo.
São insondáveis os desígnios da Providência.
Até essa altura Barros Basto não sabia a missão que lhe estava destinada. Ele nunca tinha ouvido falar em Marranos. Os Marranos, que viviam no Porto, na sua maioria provenientes das aldeias de Trás-os-Montes, é que ouviram falar na sinagoga que abrira na cidade. E tal como ele se apresentara na sinagoga de Lisboa, eles começaram a apresentar-se na sinagoga “Mekor Haim” (Fonte da Vida) na Rua do Poço das Patas.
Foi assim que nasceu a “Obra do Resgate”.
Muito se poderia ainda escrever sobre a obra deste herói do judaísmo.
Mas o pano não chega para mais roupa.
“Tudo se ilumina para aquele que busca a Luz” – foi o lema que continuou da desaparecida religião oryamita para o cabeçalho do jornal que Barros Bastou publicou na sua comunidade judaica, e cujo nome, “Halapid”, O Facho, continua a lembrar a sua paixão pelo Fogo e pela Luz, que existem dentro de cada um de nós.


A Sinagoga Mekor Haim, no Porto, fotografada por Carlos Romão

* Este texto de Inácio Steinhardt, escrito propositadamente e em exclusivo para a Rua da Judiaria, revela uma faceta praticamente desconhecida do Capitão Barros Bastos. Biógrafo de Barros Basto, Inácio Steinhardt é co-autor, com Elvira Azevedo Mea, do livro Ben-Rosh: Biografia do Capitão Barros Basto, o apóstolo dos marranos, publicado em 1997 com chancela das Edições Afrontamento.

Feliz Ano Novo – שנה טובה

Esta noite e amanhã, no primeiro dia do mês hebraico de Tishri (תשרי), celebra-se o Ano Novo judaico, conhecido como Rosh Hashaná. Aqui ficam os votos tradicionais judaicos para este dia, que dedico aos leitores da Rua da Judiaria: Que possam ser inscritos no Livro da Vida e selados para um ano doce e cheio de paz. Feliz 5767!

שתהיה לך שנה מתוקה נפלאה ומלאה בדברים טובים
שנה טובה

7.º Centenário da antiga Sinagoga de Lisboa

“Como são belas as tuas tendas, Jacob, as tuas moradas, Israel”
“Números” 24:5, verso inicial da oração de “Má tobu”, que os judeus pronunciam ao entrar na sinagoga

Um texto de Inácio Steinhardt *

Faz agora dois anos – foi em Setembro de 2004 – que a Comunidade Israelita de Lisboa comemorou, com a devida solenidade, o primeiro centenário da inauguração da Sinagoga Portuguesa “Shaaré Tikvá”.
Talvez não venha a despropósito assinalar agora, ainda que apenas de forma simbólica, a outra efeméride – o sétimo centenário da inauguração da primeira grande sinagoga de Lisboa, em 10 de Setembro de 1306, que foi nesse ano o primeiro dia de Rosh Hashaná [o Ano Novo judaico, que este ano é assinalado ao cair da noite da próxima sexta-feira, dia 22 de Setembro], do ano de 5067.
Rosh Hashaná, ou primeiro de Tishri, foi também o dia em que, segundo a tradição, terminou a construção do Templo do rei Salomão.
Talvez que essa outra efeméride estivesse também na intenção do Arrabi-Mor Dom Judah Ben Yahia, neto do primeiro arrabi-mor do Reino, Yahia Ibn-Yaish, ao escolher esse dia para inaugurar a sua opulenta sinagoga.
A placa, já bastante danificada, dessa sinagoga, ainda hoje se conserva no Museu Abraham Zacuto em Tomar.

Nela se lê, pela leitura erudita de Samuel Schwarz:
“Esta é a porta do Senhor pela qual os justos entrarão. Entrai pelas suas portas com graças e em seus átrios com louvor.
Vós que ides no caminho do Senhor acorrei à casa do culto. Três vezes por dia vinde às suas portas em acção de graças.
E tomai nas vossas mãos cítaras e cantai um cântico de graças.
Edifício formoso e belo construiu o opulento rabi Iahuda filho de Guedaliah que tem o seu assento nas assembleias dos justos e da congregação.
Ao nome do Senhor levantou e construiu esta obra magnífica.
E acabou a obra do nosso Deus no primeiro dia do nosso famoso mês de Eitanim, no ano de cinco mil e sessenta e sete do nosso cômputo.
Deus que dispôs o coração do rabino para aformosear a casa do nosso Deus e o nosso Templo, Ele reunirá o Seu povo no Seu santuário [em Jerusalém], e nos fará ver a sua reconstrução em companhia dos nossos filhos.
Bem-aventurado o homem que me obedece, velando às minhas portas todos os dias, guardando as ombreiras das minhas dos meus pórticos.”

“Eitanim” (os firmes) é outro nome dado ao mês de Tishri, porque, segundo a tradição, foi nesse mês que nasceram os três patriarcas da nação de Israel.
Devia ser realmente sumptuosa, em termos da época em que foi construída, essa sinagoga, situada na então Judiaria Grande de Lisboa, no ponto mais próximo da igreja da Madalena, que ficava então frente à cerca da Judiaria.
E talvez tivesse sido intencional a presença de um templo cristão, dedicado à judia arrependida Miriam de Migdal, junto ao bairro dos “cafres” judeus.
A única descrição visual que temos da sinagoga grande de Lisboa foi deixada pelo médico alemão, Jeronimus Muenzer, que visitou a Espanha e Portugal em 1494, num itinerário em latim, de que possuo a tradução em espanhol, de Júlio Puyol (Boletim da Biblioteca da Real Academia de la Historia):
“El sábado, vigilia de San Andrés, visité su sinagoga. No había estado nunca en uno de estos templos. En un patio que hay delante de ella, crece una parra gigantesca, cuyo tronco mide cuatro palmos de circunferencia. El interior, arreglado con extremada pulcritud, tiene una cátedra o púlpito para predicar, por el estilo del de las mezquitas; ardían diez enormes candelabros con cincuenta o sesenta luces cada uno, además de otras muchas lámparas, y las mujeres colócanse en lugar separado del de los hombres, alumbrado, de igual modo, con profusión de luces.”
Que a sinagoga tinha, pelo menos, três naves sabemos pelo inventário dos bens apreendidos a Dom Isaac Abrabanel, quando este fugiu para Castela, por ter sido acusado de implicação na tentativa de subversão do Duque de Bragança:
“hum lugar de sseda [“cadeira” na interpretação de Elias Lipiner] na esnoga grande de Lisboa, na nave do meo em que see assentava Yuda Abrabanel seu padre”
Os judeus pagavam à Comuna uma pensão anual pelos lugares reservados, que mantinham na sinagoga. Mas tinham o direito de os transmitir por venda ou por herança. Assim se explica que D. João II se tenha apropriado dos três lugares pertencentes a Isaac Abrabanel, de um dos quais fez doação, em 1486, a Mousem Zarco, seu alfaiate.
Em 1497, quando da conversão forçada dos judeus de Portugal, todas as sinagogas do reino passaram para a posse do rei.
Mais tarde D. Manuel I fez doação do edifício da sinagoga grande de Lisboa aos frades da Ordem de Cristo, em troca do convento que estes mantinham no Restelo, onde viria a ser construído o Mosteiro dos Jerónimos.
O edifício da sinagoga foi transformado pelos frades, devidamente autorizados pelo Papa, na Igreja da Conceição (Velha), que o terramoto de 1755 destruiu totalmente.

* Inácio Steinhardt, jornalista português, tradutor e historiador residente em Israel. Este texto é publicado aqui na Rua da Judiaria com a sua autorização. Conto publicar proximamente outras colaborações exclusivas suas para este blog

Regressos

Judeus Portugueses em Eretz Israel no século XVI
O relato de Frei Pantaleão D’Aveiro (1563)


(…) Passamos ali um pedaço da noite em conversação, até serem horas de nos recolher, como avisamos o Turco, que ao dia seguinte havíamos de ter mui pequena jornada. Em amanhecendo vieram dois Judeus Portugueses visitar a Turca por parte dos Judeus, que moravam em Safed, uma povoação grande, que estava dali a pouco mais de légua, a qual em o Livro de Tobias se chama Sapheth: e trouxeram-lhe duas cargas de cevada, e quatro carneiros muito grandes e gordos, como os há naquela terra: e em pago da visita, e serviço, tomaram aos pobres as cavalgaduras, e porque se queixavam, ameaçavam-nos com pancadas. Começaram-se os pobres Judeus de lamentar, culpando um ao outro, vendo-se tão agravados, e lastimados, dizendo um ao outro, se vós não fôreis, eu não viera, o outro pelo contrário dizia, vós tendes a culpa: e com este agastamento, como homens magoados soltaram muitas palavras desconcertadas contra os Turcos e Mouros, em língua Portuguesa, chamando-lhes perros e cães e semelhantes nomes. Vendo eu que eram Portugueses, cheguei-me a eles, compadecendo-me da sua miséria, e trabalho, e disse-lhes, que olhassem como falavam, porque não faltaria quem os entendesse, como a mim me acontecera com um negrinho: deram-me os agradecimentos do bom conselho, e folgaram de eu os entender para desabafarem, e pediram-me novas de Portugal, porque a natureza não se pode negar. Disseram-nos, que em Safed moravam mais de quatrocentos judeus, a maior parte deles nascidos em Portugal, rogando-me muito que quisesse lá dar uma chegada, porque era muito perto, e não me havia de pesar. Dei-lhe os agradecimentos da sua boa vontade, prometendo-lhes de ir, se o tempo me desse lugar. (…)

(…) Chegamos a Safed, aonde os Judeus nos fizeram uma grande festa, e me levaram à sua Sinagoga, que tinham mui bem concertada, e depois nos recreamos comprando a bom preço o vinho, que me pareceu necessário, nos partimos a Nazareth, que está dali a menos de uma légua. (…)

(…) Despedidos daquele lugar, nos tornámos a Safed, aonde chegámos em se pondo o sol, e por ser tarde, e irmos cansados, e nos importunaram muito os Judeus, que nos ficássemos, dizendo, que bastaria irmos um pouco de madrugada, se temíamos, que se iria a Turca, ficámos ali aquela noite, e nos agasalharam muito bem em casa de um Judeu meu natural, que sendo moços andámos ambos na escola de outro Judeu, que lá naquelas partes morreu, segundo meu hóspede me afirmou, honrou-se muito o Judeu de eu aceitar sua pousada, e tratou-me nela com muitos mimos e muita cortesia. Vieram aquela noite ter connosco muitos Judeus, dos quais alguns começaram logo a altercar, e porfiar comigo cousas da sua Lei cansada, e sobre nossa bendita, que este é o seu comum costume, mas eu como já algumas vezes me tinha achado com Judeus em semelhantes porfias, e sabia mui bem, que nenhum deles pretende saber a verdade, atalhei-lhe com lhe dizer, que tinha necessidade de me agasalharem, e recrearem, e não de me cansarem com porfias e contendas sem proveito, pois nenhum deles tinha propósito de se fazer Cristão, se o eu vencesse, porque tinha para mim serem todos Judeus de opinião, sem quererem admitir razão, ainda que a palavra para eles foi um pouco dura, deram-me muito louvor, e disseram, que ainda não tinham negado o ser Português, pois falava tão claro, e não me respondiam, pois desejavam mais me servir, que me agravar. Vieram-me também naquela noite agasalhar duas Judias minhas naturais, que com lágrimas me fizeram a festa, lamentando-se, e dizendo, que seus pecados as haviam tirado de Portugal, não para a terra de Promissão, como elas cuidavam, mas para a terra de desesperação, como com seus olhos viam, e com suas misérias experimentavam. Muito ante manhã nos partimos de Safed, e nos tornámos aos nossos, que à ponte de Jacob nos estavam esperando (…)”

in Itinerario da Terra Sancta, e suas particularidades, escrito por Frei Pantaleão D’Aveiro, impresso na casa de Simão Lopes, 1593
Capítulos LXXXIII e LXXXIV, págs. 452 a 457


A cidade de Safed (Tzfat), na Galileia. Foto de Richard Nowitz

Mazel Tov Francisco!


A vida escondida. Há gente surpreendente, não damos nada por ela e um dia surpreendem-nos, viveram em lugares estranhos, caçaram leões, perderam-se a voltar para casa e nunca mais voltaram, conseguiram ler Saramago ou ganharam um prémio de literatura. Há sempre uma surpresa à nossa espera.”

Longe de Manaus, palavras de Jaime Ramos escritas por Francisco José Viegas (pág. 201)

Dos jornais: “O Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2005 foi ontem atribuído ao livro “Longe de Manaus”, de Francisco José Viegas. Trata-se de um dos mais importantes prémios literários portugueses.” Confesso que esta foi a melhor notícia que li nos últimos tempos. Não é todos os dias que um amigo (por quem sempre “dei muito”, ao contrário da citação…) ganha um prémio. Não é todos os dias que um amigo ganha um prémio literário. O maior prémio da literatura portuguesa. Parabéns Francisco!


Tive um namorado que era da direção do Círculo de Cultura Judaica e que começou me ensinando hebraico em iluminuras portuguesas, letra a letra, ele em tronco nu (tinha uma tatuagem, eu lembro), numa cama de um hotel eu de calcinha e camiseta, pronunciando os erres com agá aspirado à mistura, lendo da direita para a esquerda, e então ele ia para junto da janela, São Paulo ao fundo, recortado como numa fotografia de Nova Iorque, e então ele recitava, recitava em hebraico e traduzia. Vestia camisas de flanela e era bom de cama, me levava a restaurantes para comer camarão e frutos do mar, que lhe estavam proibidos, e eu gostava disso. Ele pecava comigo e eu era toda pecado. Mas depois acabou, não me lembro o mês do ano, lembro só que acabou. Ele me dizia que eu tinha o perfume do mel. Era mentira. Devia ser. Perfume de mel é enjoativo. Eu não sou enjoativa, eu sei. A gente se prometeu que nunca terminaria por telefone, pelo menos isso. A gente se promete sempre isso, a gente vê sempre isso nos filmes e diz isso em quartos de hotéis e mesmo na véspera das despedidas. Mas ele telefonou num primeiro domingo cancelando o encontro. Depois telefonou noutros dias cancelando outros encontros. Foda. Vida é foda mesmo. Homens não assim tão interessantes. Não são assim tão inteligentes. Meu nome é Daniela. Sou uma garota urbana, trinta e dois anos, e acho que homens maravilhosos só existem mesmo na literatura, onde não há desperdício de amor. Mas se desperdiça bastante, na vida real. Muito, bastante, de mais.”

Longe de Manaus, Francisco José Viegas (págs. 334 e 335)

Yeroushalaim (ירושלים)

Ofra HazaYerushalayim Shel Zahav (Jerusalém de Ouro)

Junto aos rios da Babilónia
Nos sentámos e chorámos
Lembrando Sião.
Lá nos salgueiros
Pendurámos nossas liras.

Se de ti me esquecer, ó Jerusalém,
Que mirre a minha mão direita,
Que a minha língua se quebre,
Se de ti me não lembrar,
Se não preferir Jerusalém
À minha maior alegria.

Salmo 137

::PARA OUVIR::
Ofra HazaYerushalayim Shel Zahav (Jerusalém de Ouro)

Exercícios de memória

“Yo m’enamori d’un aire”, Parvarim

Já não escrevo, decoro. Construo o livro todo na cabeça.”

As palavras são de Antonio Tabucchi, numa conversa deliciosa com Carlos Vaz Marques. Uma entrevista que irá para o ar na TSF de hoje a uma semana, às 19:00h de quinta-feira, dia 18.
Na entrevista, do programa “Pessoal e… transmissível”, Tabucchi relata que o seu último conto foi recentemente remetido à memória no Alentejo. São cinco páginas, ainda inéditas, recitadas para o papel sem apontamentos, sem notas escritas. É um conto sefardita: “Chama-se Yo m’enamori d’un aire e começa com uma canção sefardita, meia portuguesa e meio espanhola, que fala de um homem que está apaixonado por uma rapariga que se desvanece no ar. Isto refere-se às perseguições dos judeus na península Ibérica no princípio do século XVI”, diz Tabucchi. Nele é contada a história de um regresso. Um descendente de judeus portugueses volta a Lisboa, caminha pelo Jardim Botânico e pelo Príncipe Real. Vem de um “sitio muito longínquo” buscando os lugares dos seus antepassados. “Ele não fala a língua dos seus antepassados, nem espanhol nem português, mas lembra-se de uma canção que ouvia cantar quando era criança.” O resto da história pode ser ouvido neste excerto da entrevista gentilmente cedido por Carlos Vaz Marques: Pessoal e… transmissível: Antonio Tabucchi.

::PARA OUVIR::
“Yo m’enamori d’un aire”, Parvarim


A canção em ladino que inspira o conto de Tabucchi

A ENTREVISTA:

::NOTA:: A entrevista completa por ser ouvida também em formato podcasting em TSF Pessoal e… transmissível (feed xml).
Obrigado Carlos por teres permitido aos leitores da Rua da Judiaria a audição antecipada deste excerto da entrevista.

Catarina Dias, a Purgatória

Ruy Ventura

cantava, nesse tempo,
a oração dos mortos,
ligando no tear
os fios da memória –

devolvia a água
à raiz da oliveira
para que o sangue
pudesse alimentar
a luz (e as sombras)
dessa terra –

lançava sobre o lume
o sabor e a sabedoria
para que o fermento
envolvesse a solidão –

bebia na fonte
o brilho da pedra,
guardando no cântaro
a angústia das palavras –

guardava no peito
o fogo e a fuga,
o leito que um dia
fechara a garganta –

– quando vieram, sem sombra,
impor sobre o corpo esse peso
sem vida

e a vestiram de noite,
embora fosse branco
o hábito perpétuo.

Ruy Ventura

Este poema foi-me enviado pelo autor, escrito em memória de uma antepassada judia, condenada pelo tribunal da Inquisição de Évora.

Nota – Catarina Dias, a Purgatória foi uma judia do século XVIII residente em Castelo de Vide. Foi condenada pela Inquisição de Évora a usar o chamado “sambenito”. Outros familiares seus foram queimados em auto-de-fé no Rossio de São Brás, na capital da então província de Entre-Tejo-e-Odiana.
Ruy Ventura acrescenta no seu blog, Estrada do Alicerce:
“Ao construir a minha árvore genealógica, deparei-me com um nome estranho: Catarina Dias, a Purgatória. Tentei investigar de onde viria essa designação. Achei Catarina membro da família Narigão (de Castelo de Vide) que, em conjunto com os Tirados, fora severamente atormentada pelos sequazes da Inquisição. Catarina estava incluída no número dos sofredores: embora não tivesse visto as suas cinzas misturadas à terra do Rossio de São Brás de Évora, local de autos-de-fé, fora obrigada a usar durante toda a vida o odioso “sambenito “. Daí o alcunha.”

500 Anos: O massacre de Lisboa IX


Um dia, o rei D. Manuel tomou para si o papel de Herodes, e como um satrapa mandou arrancar aos pais e baptizar todos os filhos menores de quatorze anos, “a qual obra tão-somente foi de grão terror misturado com muitas lágrimas, dor e tristeza dos judeus, mas ainda de muito espanto e admiração dos christãos.” Ao mesmo tempo, num prazo breve, os judeus haviam de receber o baptismo, ou embarcar em navios que se lhes não davam.
(…)Por outro lado, em Lisboa, onde, para embarcar, os judeus tinham vindo de todo o reino, os Estáos da Ribeira , apresentavam o aspecto de um acampamento antigo. Albergadas em barracas as famílias – vinte mil judeus esperavam as naus de embarque, contando hora a hora o prazo da redenção. Esse prazo correu, sem virem as naus: por isso foram todos convertidos à força, porque os teimosos ficaram cativos. Este baptismo forçado, causa de tantas desgraças posteriores, revela a política dúbia e falsa de um governo que não tinha a coragem purista do castelhano, depois de ter perdido o bom senso e a humanidade dos tempos anteriores. Desumanos, os actos eram ao mesmo tempo cobardes, pois o cronista diz com franqueza que se procedia assim com os judeus por serem párias, sem rei nem terra, não se podendo já fazer outro tanto com os mouros, com medo das represálias dos soberanos maometanos.
De tal modo se originou a crise que teve na era de 1506 o seu primeiro episódio trágico.
As fomes dos anos precedentes, a peste que lavrara no Outono anterior e vitimara já na Primavera mais de cem pessoas por dia, enchiam de aflição o povo da capital, que buscava uma causa a tamanhas desgraças. D. Manuel tinha fugido da peste, para Évora. O castigo tremendo, que a cólera divina impunha sem piedade, não podia ter outro motivo senão a criminosa protecção concedida aos judeus. Baptizados, mas não convertidos, eram uma viva e impune blasfémia; e todos os seus actos religiosos outros tantos sacrilégios. Deus estava, de certo, ofendido; e por isso castigava sem dó. E o pobre povo sofria tamanhas misérias por causa destes malditos que insultavam Deus dentro do seu templo sagrado, fingindo orar e comungando!
(…)A 15 de Abril tinha havido uma procissão, com votos e lágrimas, pedindo a cessação do flagelo; e todas as noites, em São Domingos, se faziam preces públicas. Houvera um milagre, a 19, dia de Pascoela: a custódia do lado do Senhor aparecera iluminada; mas um herege ousou rir, dizendo que um pau seco não podia fazer milagres. Isto fez transbordar a ira de todos, e o tumulto começou fulminante. O ímpio foi tirado pelos cabelos de rastos, para fora da igreja, e logo ali morto e lançado a uma fogueira.
Os mercadores dos arcos do Rossio, desde a Betesga até S. Domingos, fecharam as lojas – onde vendiam as cassas de Holanda, os panos de linho cadequim da Índia, rendas, tranças, franjas e passamanarias – vindo em pessoa, com os seus escravos pretos e mouros, engrossar o tropel. A multidão corria por debaixo d’essa arcada, que limitava por oriente o Rossio, abrangendo o Hospital e o dormitório do convento de S. Domingos, amontoando-se às portas da igreja, onde o burburinho era grande, e um frade, de crucifixo em punho, pregava, exaltando o furor religioso da turba.
As mulheres agitavam-se coléricas pronunciando ditos obscenos, palavras descompostas, à mistura com as expressões de refinada devoção e de um fervente beaterio. Incitavam os homens à matança; e, do púlpito, o frade, oráculo do céu, definia com palavras o sentimento da multidão. Os judeus eram a causa da fome, eram a causa da peste! De cruz alçada, saindo da igreja, os frades vinham clamando, heresia! Heresia! Concitando o povo à matança.
Já houvera sangue, já crepitava o lume; e a cor rubra e os primeiros ais dos moribundos exacerbavam, como um touro, a fúria da plebe, açulada pelos sermões dos frades energúmenos. Desencadeou-se a tempestade, rebentando numa hora a cólera reunida em muitos séculos. Cresceram as fogueiras no Rossio e na Ribeira; e os bandos iam caçar pela cidade os judeus escondidos, invadindo as casas. Traziam-nos às manadas de quinze e vinte, amarrados, feridos, cuspidos, semimortos; e lançavam-nos, aos montes, nas fogueiras. As chamas crepitavam, e os gritos dos moribundos conseguiam ouvir-se por entre o vozear da plebe. Os sinos dobravam a rebate, chamando os fiéis à matança. Viam-se homens despirem-se, para mostrarem que, não sendo circuncisados, não podiam ser judeus; porque o furor da plebe já arrastava a queimar tudo, numa fogueira que purificasse os ares pestilentos. Além disso, as vinganças pessoais e o roubo soltavam-se à vontade no meio da desordem. Queimavam-se os infelizes, porque tinham sido assassinados; e assassinavam-se, porque se não deixavam roubar. Ao saque de Lisboa tinham corrido as tripulações dos navios do Tejo: eram mais de quinhentos marinheiros flamengos e outros; e na faina do roubo e da matança andavam gentes de todas as nações e cores, invadindo as casas, violando as mulheres, e incendiando. No primeiro dia, domingo, não faltou gente: matou-se meio milhar. Na segunda-feira eram já mil e quinhentos os que andavam na faina da matança. As justiças tinham fugido, o povo escondera-se, os judeus aferrolhavam as portas, enquanto os escravos acarreavam lenha para as fogueiras, os bandidos assaltavam as casas com vaivéns e escadas. Arrancavam as crianças do colo das mães desesperadas, e, tomando-as pelos pés, esmagavam-lhes os crânios tenros contra os muros. As casas escorriam sangue, que se precipitava pelas escadas vindo reunir-se em poças nas ruas. Havia um cheiro nauseabundo de carne queimada, risadas ferozes nos rostos dos pretos, os olhares terríveis na face macilenta dos frades, que pregavam à esquina das ruas. Os desgraçados corriam às igrejas perseguidos, rojavam-se nos altares abraçados aos santos e aos sacrários, e dali eram levados à fogueira arrastados pelos sicários. Na segunda feira mataram-se mais de mil. Na terça acalmou a fúria porque “já não achavam quem matar.” Três dias e duas noites durou a orgia; e no fim contavam-se mais de trezentas pessoas queimadas, mais de duas mil mortas, e não se sabe quantas mulheres, chorando com amargura a sua viuvez, a sua orfandade, a sua miséria, a sua desonra.
O rei acudiu com tropas, abriu devassa e enforcou muita gente; entre essa, frades. Os marinheiros de bordo velejaram barra em fora com os roubos nas mãos tintas de sangue; nas esquinas das ruas havia forcas; na fogueira acabaram os dois frades concitadores, e Lisboa pela sua fraqueza foi desautorada dos seus foros. O rei puniu o que não soubera prevenir; e insistindo na sua indiferença, ou na sua fraqueza, fez com que as cenas de Lisboa se reproduzissem periodicamente por todo o reino.”

J.P. Oliveira Martins (1845-1894), in História de Portugal (Tomo II), Livraria Bertrand, Lisboa, 1882.

500 Anos: O massacre de Lisboa VII

Testemunhos


A perseguição e matança dos hebreus não permite que hesitemos nas fórmulas do carácter fero de D. Manuel, que nem ao menos era fanático: sacrificava à sua luxúria por uma princesa de Castela as vidas dos hebreus, a melhor artéria da riqueza nacional; e, para contemporizar o erário com piedade, deixava matar sumariamente os judeus depois que ele os espoliava.”

Camilo Castelo Branco (1825-1890), in “D. Luiz de Portugal, Neto do Prior do Crato (quadro histórico)”, Porto 1883.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é um dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia que coincide também com o do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

500 Anos: O massacre de Lisboa VI

Testemunhos


Era na Primavera de 1506. A irregularidade das estações nos dois anos antecedentes, irregularidade que se protraiu até ao ano seguinte, deu em resultado a fome. Ainda naquela época a falta de subsistências trazia, em regra, por companheiro um flagelo, então trivial, não só por esta, mas também por outras causas. Era a peste.
Desde Janeiro que a peste redobrava de intensidade em Lisboa, e nos princípios de Abril era tal o progresso da epidemia que a mortalidade subia em alguns dias ao número de cento e trinta indivíduos. Faziam-se preces públicas, a 15 do mês ordenou-se uma procissão de penitência, que, saindo da Igreja de S. Estevão, se recolheu na de S. Domingos, seguindo-se a celebração de preces solenes. Durante elas o povo implorava em gritos a misericórdia divina. No altar da capela chamada de Jesus havia naquele tempo um crucifixo, e no lado da imagem do Salvador um pequeno receptáculo, que servia de custódia a uma hóstia consagrada. No excesso da exaltação religiosa houve quem cresse ver aí, e talvez visse, uma luz estranha. Espalhou-se logo voz de milagre. Ou que os dominicanos, aproveitando a ilusão, realizassem artificialmente a suposta maravilha ou que a credulidade, fortalecida pelos terrores da peste, predispusesse cada vez mais a imaginação do vulgo para ver aquele singular clarão, é certo que ainda nos dias seguintes havia quem afirmasse divisá-lo perfeitamente. Todavia, o voto mais comum era que essa maravilha não passava de uma fraude, e ainda muitos dos mais crentes suspeitavam que o facto existira apenas nas imaginações encandecidas. Durante quatro dias a crença no prodígio foi ganhando vigor. No domingo seguinte ao meio-dia, celebrados os ofícios divinos, examinava o povo a suposta maravilha, contra cuja autenticidade recresciam suspeitas no espírito de muitos dos espectadores. Achava-se entre estes um cristão-novo, ao qual escaparam da boca manifestações imprudentes de incredulidade acerca do milagre. A indignação dos crentes, excitada, provavelmente, pelos autores da burla, comunicou-se à multidão. O miserável blasfemo foi arrastado para o adro, assassinado e queimado o seu cadáver. O tumulto atraíra maior concurso de povo, cujo fanatismo um frade excitava com violentas declamações. Dois outros frades, um com uma cruz, outro com um crucifixo arvorado, saíram então do mosteiro, bradando heresia, heresia! O rugido do tigre popular não tardou a ressoar por toda a cidade. As marinhagens de muitos navios estrangeiros fundeados no rio vieram em breve associar-se à plebe amotinada. Seguiu-se um longo drama de anarquia. Os cristãos-novos que giravam pelas ruas desprevenidos eram mortos ou malferidos e arrastados, às vezes semivivos, para as fogueiras que rapidamente se tinham armado, tanto no Rossio como nas ribeiras do Tejo. O juiz do crime, que com os seus oficiais pretendera conter o motim, apedrejado e perseguido, teria sido queimado com a própria habitação, se um raio de piedade não houvera momentaneamente tocado o coração do tropel furioso que o perseguia, ao verem as lágrimas da sua esposa, que desgrenhada, implorava piedade. Os dois frades enfureciam as turbas com os seus brados, e guiavam-nas com actividade infernal naquele tremendo lavor. O grito de revolta era: Queimai-os! Quantos cristãos-novos encontravam arrastavam-nos pelas ruas e iam lançá-los nas fogueiras da Ribeira e do Rossio. Nesta praça foram queimadas nessa tarde trezentas pessoas, e às vezes, num e noutro lugar, ardiam a um tempo grupos de quinze ou vinte indivíduos. A ebreidade daquele bando de canibais não se desvaneceu com o repouso da noite. Na segunda-feira as cenas da véspera repetiram-se com maior violência, e a crueldade da plebe, incitada pelos frades, revestiu-se de formas ainda mais hediondas. Acima de quinhentas pessoas haviam perecido na véspera: neste dia passaram de mil. Segundo o costume, ao fanatismo tinham vindo associar-se todas as ruins paixões, o ódio, a vingança covarde, a calúnia, a luxúria, o roubo. As inimizades profundas achavam no motim popular ensejo favorável para atrozes vinganças, e cristãos-velhos foram levados às fogueiras com os neófitos judeus. Alguns só obtinham salvar-se mostrando publicamente diante dos assassinos que não eram circuncidados. As casas dos cristãos-novos foram acometidas e entradas. Metiam a ferro homens, mulheres e velhos: as crianças arrancavam-nas dos peitos das mães e, pegando-lhes pelos pés esmagavam-lhes o crânio nas paredes dos aposentos. Depois saqueavam tudo. Aqui e acolá, viam-se nas ruas alagadas de sangue pilhas de quarenta ou cinquenta cadáveres que esperavam a sua vez nas fogueiras. Os templos e os altares não serviam de refúgio aos que tinham ido acoitar-se à sombra deles e abraçar-se com os sacrários e as imagens dos santos. Donzelas e mulheres casadas, expelidas do santuário, eram prostituídas e depois atiradas às chamas. Os oficiais públicos que por qualquer modo buscavam pôr diques a esta torrente de atrocidades e infâmias escapavam a custo, pela fuga, ao ímpeto irresistível das turbas concitadas; porque além da gente dos navios estrangeiros, mais de mil homens da plebe andavam embebidos naquela carnificina. A noite, que descia, veio, afinal, cobrir com o seu manto este espectáculo medonho, que se renovou no dia seguinte. Mas já as hecatombes eram menos frequentes, porque escasseavam as vítimas. Os cristãos-velhos que ainda acreditavam em Deus e na humanidade tinham aproveitado o cansaço dos algozes para salvar grande número daqueles desgraçados, escondendo-os ou facilitando-lhes a fuga, inútil até certo ponto, porque ainda vários deles foram assassinados nas aldeias circunvizinhas. (…) À medida que faltavam alfaias que roubar, mulheres que prostituir, sangue que verter, a multidão asserenava, e os filhos de S. Domingos, recolhendo-se ao seu antro, iam repousar das fadigas daquele dia.”

Alexandre Herculano (1810-1877), historiador, escritor e poeta português, in História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1855).
Com um agradecimento especial a Luís Pedro Schleibinger.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é um dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia 21, sexta-feira (ou quinta-feira à noite), o dia que assinala o fim do massacre, que coincide também com o dia do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

500 Anos: O massacre de Lisboa V

Testemunhos


Antes que el Rei fosse de Lisboa para Almeirim, ordenou Tristão da Cunha à Índia por capitão de uma armada, da qual, e do que nesta viagem se fez se dirá adiante, no ano de mil quinhentos e oito, em que tornou. Pelo que nestes dois capítulos, que são já derradeiros desta primeira parte tratarei de um tumulto, e levantamento, que aos dezanove dias de Abril, deste ano de mil quinhentos e seis, em Domingo de Pascoela fez em Lisboa contra os cristãos-novos, que foi pela maneira seguinte. No mosteiro de São Domingos da dita cidade estava uma capela a que chamava de Jesus, e nela um crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que davam cor de milagre, com quanto os que na igreja se acharam julgavam ser o contrário dos quais um cristão-novo disse que lhe parecia uma candeia acesa que estava posta no lado da imagem de Jesus, o que ouvindo alguns homens baixos o tiraram pelos cabelos de arrasto para fora da igreja, e o mataram, e queimaram logo o corpo no Rossio. Ao qual alvoroço acudiu muito povo, a quem um frade fez uma pregação convocando-os contra os cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro, com um crucifixo nas mãos bradando, heresia, heresia, o que imprimiu tanto em muita gente estrangeira, popular, marinheiros de naus, que então vieram da Holanda, Zelândia, e outras partes, ali homens da terra, da mesma condição, e pouca qualidade, que juntos mais de quinhentos, começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas ruas, e os corpos mortos, e os meio vivos lançavam e queimavam em fogueiras que tinham feitas na Ribeira e no Rossio a qual negócio lhes serviam escravos e moços que com muita diligência acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo, no qual Domingo de Pascoela mataram mais de quinhentas pessoas. A esta turma de maus homens, e dos frades, que sem temor de Deus andavam pelas ruas concitando o povo a esta tamanha crueldade, se ajuntaram mais de mil homens da terra, da qualidade dos outros, que todos juntos segunda-feira continuaram nesta maldade com maior crueza, e por já nas ruas não acharem cristãos-novos, foram cometer com vaivéns e escadas as casas em que viviam, ou onde sabiam que estavam, e tirando-os delas de arrasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres, e filhas, os lançavam de mistura vivos e mortos nas fogueiras, sem nenhuma piedade, e era tamanha a crueza que até nos meninos, e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas fendendo-os em pedaços, e esborrachando-os de arremesso nas paredes. Nas quais cruezas não se esqueceram de meter a saque as casas, e roubar todo o ouro, prata, e enxovais que nelas acharam, vindo o negócio a tanta dissolução que das igrejas tiraram muitos homens, mulheres, moços, moças, destes inocentes, despegando-os dos Sacrários, e das imagens de nosso Senhor, e de nossa Senhora, e outros Santos, com que o medo da morte os tinha abraçado, e dali os tiraram, matando e queimando sem nenhum temor a Deus assim a elas como a eles. Neste dia pereceram mais de mil almas, sem que na cidade alguém ousasse de resistir, pela pouca gente de sorte que nela havia por estarem os mais dos honrados fora, por causa da peste. E se os alcaides, e outras justiças, queriam acudir a tamanho mal, achavam tanta resistência, que eram forçados a se recolher a parte onde estivessem seguros, de não acontecer o mesmo que aos cristãos-novos. (…) Passado este dia, que era o segundo desta perseguição, tornaram terça-feira este danados homens a prosseguir a sua crueza, mas não tanto quanto nos outros dias porque já não achavam quem matar, pois todos os cristãos-novos que escaparam desta tamanha fúria, serem postos a salvo por pessoas honradas, e piedosas que nisto trabalharam tudo o que neles foi.”

Damião de Góis (1502-1574), in “Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória”, escrito em Lisboa entre 1566 e 1567. Historiador e humanista, Guarda-Mor dos Arquivos Reais da Torre do Tombo, figura central do Renascimento em Portugal – ele próprio acusado mais tarde de “heresia” pela Inquisição por causa das suas simpatias luteranas e da amizade com Erasmo –, Damião de Góis relata com sentida e genuína indignação o massacre de 1506, ao contrário de outros cronistas “cristãos-velhos” que se limitaram posteriormente a fazer um relato desapaixonado e quase burocrático da matança, optando por “branquear” os detalhes mais macabros testemunhados nos escritos de Góis.

500 Anos: O massacre de Lisboa IV

Testemunhos


A Matança de Portugal. Ano 5266 1. Não bastou have-los trazido com tanta sem razão e injustiça à sua fé afastando-os da Lei com que nasceram, mas ainda assim não os deixavam viver quietamente, denostando-os, injuriando-os, abatendo-os, e tratando-os com baixeza e desprezo, e isto não o levaram em paciência, e lhes levantavam aleives e falsos testemunhos para os destruir e arrancar do mundo, pregando os pregadores nos púlpitos, e dizendo os senhores em lugares públicos, e os cidadãos e vilãos nas praças, que qualquer fome, peste ou terremoto que vinha à terra era por não serem bons cristãos: e que secretamente judaizavam; Assim que alcançando alguns intrínsecos amigos a vontade do povo quanto inclinada estava em seu dano, acharam aparelho para meterem em efeito seus maus ânimos, entre os quais ouve dois frades dominicanos que saíram pela cidade de Lisboa com crucifixos às costas amotinando o povo e clamando que viessem todos em sua companhia vingar a morte do seu deus, e com muitos perversos ociosos e briguenta gente que a eles se recolheram, com lanças e espadas nuas em suas mãos arremetendo contra o fraco e desprovido povo dos mal baptizados e novos cristãos mataram quatro mil almas deles, roubando e viando todas aquelas crueldades que em um saque de uma cidade se fazem, atassalhando os homens arremessando as criaturas às paredes e desmembrando-as, desflorando as mulheres e corrompendo as virgens, e sobre isto tirando-lhes a vida. Houve muitas que prenhes as lançaram das janelas sobre as pontas das lanças que já embaixo as estavam esperando, e ali atalhavam o caminho às inocentes criaturas antes que arribassem ao mundo onde o céu piedoso as mandava: entre elas se achou uma que esforçando a muita ira e sua honra a um frade que a queria forçar matou com uma faca que o mesmo frade trazia. Se este assim terrível mal durara daquele ímpeto acabavam todos os novos cristãos que na cidade de Lisboa habitavam, mas provendo a misericórdia divina, com as justiças da terra acudiram, e trás isso el rei que com grande diligência veio a socorro da vila de Abrantes onde então se achava cessou aquela matança tenebrosa.”

Samuel Usque (1492-?), in Consolação às Tribulações de Israel. Historiador e escritor, judeu nascido em Lisboa, Usque era primo do pintor e tipógrafo lisboeta Abraão Usque. Fruto das perseguições de que foram vítimas em Portugal, ambos emigraram com as famílias para Ferrara, em Itália, onde Samuel publica “Consolação…”, em 1533, dedicando-o a Dona Gracia Mendes, a Senhora (a obra seria mais tarde reeditada em Amsterdão, por volta de 1600). Samuel Usque acaba por emigrar definitivamente para Safed, na Galileia, onde vem a morrer em data incerta.


Samuel Usque, Consolação às Tribulações de Israel, Ferrara, Itália, 07/09/1553

1 O ano dado por Samuel Usque, 5266, refere-se ao calendário hebraico – 1506 da Era Comum.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.