A Guerra I

Quando se trata de Israel

uma crónica de Francisco José Viegas


Quando se trata de Médio Oriente, ou seja, quando se trata de atacar Israel, a tarefa está facilitada em larga escala. Um contingente de meninas idiotas e genericamente ignorantes, que assina peças de “internacional” nas nossas televisões, não se tem cansado de falar na “agressão israelita” e apenas por pudor, acredito, não tem valorizado os “heróis do Hezbollah”. Infelizmente, nem a ignorância paga imposto nem o seu atrevimento costuma ser punido.
Isolado desde 1947, quando as Nações Unidas decidiram pela criação de dois estados na região (um israelita, outro árabe) Israel não enfrenta apenas a provocação deliberada ou pontual do Hamas e do Hezbollah. Essa provocação tem sido permanente e é ela a razão de não existir na região um estado palestiniano livre e democrático – não o quiseram, primeiro, os estados árabes da região que invadiram Israel mal a sua independência foi pronunciada; não o quiseram, depois, os estados que tutelaram os actuais territórios da Faixa de Gaza e da Cisjordânia; não o quis, depois, todo o conjunto de organizações militares terroristas nascidas à sombra da OLP e da figura tutelar de Yasser Arafat, a quem cabem historicamente responsabilidades directas na falência dessa tentativa de criar um estado palestiniano.
Quando se trata de Médio Oriente, ou seja, quando se trata de atacar Israel, a tarefa não está apenas facilitada – os caminhos abrem-se para o lugar-comum, como se vê pelas declarações, tiradas a papel químico, de Chirac e de Zapatero, esses dois superlativos génios da política externa europeia. Não passou pelas suas cabeças, uma única vez, pedir responsabilidades ao Hezbollah e ao Hamas pelos motivos que levaram a esta reacção de Israel. Para ambos é, pois, normal que um governo do Hamas possa alimentar uma facção militar independente, que actua em guerra permanente com Israel; é também normal que um estado da região, o Líbano, possa albergar campos militares do Hezbollah, abastecidos pela Síria e pelo Irão, e destinados a atacar um estado soberano – que, além do mais, é o único estado democrático da região; e é para eles normal que Síria e Irão, além de abastecerem duas organizações militares terroristas, se regozijem abertamente com o rapto de soldados israelitas.
A preocupação destes diplomatas da recessão é, fundamentalmente, com a “reacção de Israel”; em seu entender, a reacção ideal de Israel seria o silêncio total; Israel devia conformar-se com o seu destino e permanecer como o alvo de todo o terrorismo da região, pacientemente alimentado, aliás, pelos europeus que continuam a manifestar “ampla compreensão” pela atitude dos bombistas suicidas e pelos que disparam rockets a partir de Gaza ou do Vale de Bekkah; Israel deveria, pura e simplesmente, acatar.
Evidentemente que nenhum desses cavalheiros pensou pedir ao Hamas, partido vencedor nas eleições dos territórios, eventuais responsabilidades na escalada de violência na região. É para eles natural que o governo do Hamas não reconheça o estado de Israel e esteja a alimentar, com toda a clareza, as facções militares que continuam, naquele folclore infantil de danças e gritos pelas ruas de Gaza, a pedir a eliminação de Israel e a vinda de mísseis iranianos para “destruir o estado sionista”. Esse folclore imbecil, sim, talvez os devesse preocupar ele é também pago com contribuições da União Europeia e do seu politicamente correcto.”

Crónica publicada no Jornal de Notícias

500 Anos: O massacre de Lisboa VIII

De luto por mim


A semana que vai entrar comemora data redonda e histórica. Comemorar não é sempre festejar. Mas é sempre ‘memorar’, lembrar, e o que há para lembrar de 19 de Abril de 1506, vai fazer 500 anos, é imensamente triste. Talvez alguém, de coração terno, vá falar pelo lado moral: o mal que foi feito a outros. Mas dessa data, para lá do mal que foi feito a outros – em Lisboa, em três dias, mataram-se muitas centenas, talvez quatro mil judeus – quero aqui recordar, muito interesseiramente, o grande mal que me fizeram a mim. Eu pertencia a um povo ao qual amputaram parte. E o que mais é: essa parte que levaram de mim era a mais brilhante.
El-rei D. Manuel, por imposição, ao que se diz, do casamento com princesa espanhola, já tinha obrigado os súbditos judeus a converterem-se. Por causa dessa obrigação, muitos partiram. Gente culta, como o astrónomo e matemático Abraão Zacuto, que foi para a Turquia. E os pais de Baruch Espinosa, tão portugueses que apesar de fugidos para a Holanda chamaram ao filho Bento, antes dele se tornar um dos maiores filósofos de toda a História da Humanidade. Fugiram médicos e matemáticos e artesãos sábios da mais próspera indústria de então, a lapidação de diamantes. A Holanda nunca agradecerá suficientemente termos-lhe oferecido a nossa elite.
Mas sendo Portugal pouco dado a medidas radicais, a maioria dos portugueses judeus sabia do que gastava a casa e foram-se deixando ficar. Tornaram-se cristãos-novos. Muitos judaizavam às escondidas e iam fazendo o que os portugueses sempre fizeram, iam-se misturando. Da arraia-miúda àqueles que faziam Portugal grande potência cultural de então: do matemático Pedro Nunes ao médico e naturalista Garcia de Orta – ambos, aliás, ligados pela ciência ou pela acção ao maior empreendimento de Portugal, os Descobrimentos.
A ruptura, o corte de Portugal com esses seus filhos aconteceu naquele domingo de Pascoela, 19 de Abril de 1506. Portugal tinha passado dois anos de seca nos campos e peste nas cidades. Como em todos os tempos de vacas magras, o País era percorrido por murmúrios e raivas. Na missa da Igreja de São Domingos, na Baixa de Lisboa, gritou-se ao milagre, porque uma imagem de Cristo resplandecia. Alguém, imprudente, disse em voz alta que aquilo lhe parecia mais um efeito de luz. Era um cristão-novo, que foi arrastado para o adro, despedaçado e queimado. A multidão, acicatada por dois frades dominicanos, partiu à caça de mais cristãos-novos.
Garcia de Resende, poeta da corte, conta: “Mais de quatro mil matarã / Mininos espedaçarão / Fizerão grandes cruezas / Grandes roubos & vilezas / Em todos quantos acharão”. Mulheres violadas, homens queimados, crianças atiradas contra as paredes. Cruezas como antes e depois se fizeram, em outras paragens, aos judeus. No que me diz respeito, e é isso que mais me interessa – com o cinismo que meio milénio me permite – é que hoje pertenço a um dos povos menos cultos da Europa. E já houve tempo que não foi assim.
Esta semana, estou de luto. Por mim.

(…)

Faz hoje 500 anos que uma multidão imbecil tornou Portugal mais pobre. A matança de muitas centenas de judeus em Lisboa (talvez quatro mil) fez o País perder, entre mortos e exilados, os mais cultos e modernos dos seus filhos.
O crime boçal prosseguiu durante séculos. Até ao Marquês de Pombal a ‘limpeza do sangue’ – a prova de ausência de judeus até aos bisavós – era condição para bons empregos. Ao seu ministro Pombal, o rei D. José pediu que decretasse um distintivo obrigatório para quem tivesse sangue judeu. No dia seguinte, ele apareceu com três distintivos ao peito. O rei perguntou a razão. Pombal: “Um por mim, outro pelo inquisidor-mor e outro por Vossa Majestade.” Judeus somos, os portugueses, todos um pouco. Ignorantes de nós somos todos muito.

Ferreira Fernandes
Correio da Manhã

A Memória e o esquecimento


Se existe um único tema que domina todos os meus escritos, todas as minhas obsessões, é a memória – porque tenho tanto medo do esquecimento quando do ódio ou da morte. Esquecer, para um judeu, é negar o seu povo – e tudo o que ele simboliza – e também negar-se a si próprio. Daí o meu desejo de não esquecer nem de onde venho nem o que influenciou as minhas opções: as paisagens assombradas da minha infância; a terra de maldição onde num instante as crianças se transformavam em velhos; as pessoas que conheci ao longo desse caminho.
Lembrar… lembra-te que foste escravo no Egipto. Lembra-te de santificar o Shabbat… Lembra-te de Amalek, que quis aniquilar-te… nenhum outro mandamento bíblico é mais persistente. O judeus vivem e crescem sob o signo da memória. (…) Ser judeu é lembrar – reclamar o nosso direito à memória bem como o dever de a manter viva.
Através do passado recente encontro-me com as minhas origens distantes, retornando a Moisés e Abraão. É também em seu nome que eu comunico a minha busca. Quando um judeu reza, as suas orações enlaçam-se às de David e do Besht. Quando um judeu desespera, é a tristeza de Jeremias que o faz chorar. A memória dos judeus ganha força na memória do seu povo e, para além dela, da humanidade.
Porque a memória é um bem: cria laços em vez de os destruir. Laços entre o presente e o passado, entre indivíduos e grupos. É por me lembrar do nosso princípio comum que me aproximo dos meus semelhantes, de todos os seres humanos. É por me recusar esquecer que o seu futuro é tão importante quanto o meu. Que seria o futuro da humanidade se fosse desprovido de memória?”

Elie Wiesel, prémio Nobel da Paz, retirado do prefácio do livro “From the Kingdom of Memory”, Summit Books, New York, 1990.

Quando pedi aos meus leitores que fossem ao Rossio para lembrar simbolicamente as quatro mil vítimas do massacre de 19, 20 e 21 de Abril de 1506, nos dias em que passam 500 anos sobre o acontecimento – de forma absolutamente voluntária e desprovida de uma qualquer estrutura ou “organização” – nunca imaginei que poderia ser intimado a explicar-me e a expor as razões subjacentes a tal iniciativa.
Tal como Elie Wiesel, tenho medo do esquecimento. O apelo que fiz aos meus leitores foi desencadeado pela percepção de que a data iria passar completamente despercebida. Que os mortos de há 500 anos iam ser esquecidos. Não há comemorações oficiais; não há lançamento de livros, artigos de jornal ou reportagens de televisão. Confesso que – talvez por ingenuidade minha, talvez por teimar em acreditar na bondade humana – parti do princípio que o meu apelo nada tinha de polémico ou controverso: Exactamente 500 anos depois de 4 mil pessoas terem sido chacinadas em Lisboa, pedi aos meus leitores que as lembrassem acendendo uma vela no Rossio, um dos locais emblemáticos do massacre, onde durante três dias milhares de cadáveres arderam em fogueiras improvisadas. Escrevi: “que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.”
Reparo agora que até a questão das velas foi mal interpretada. Para mim, o significado das velas nunca foi nem o de romaria, cerimónia religiosa, expiação de pecados ou pedido de desculpas. Pode até ser uma questão cultural, reconheço, mas para mim, neste caso, o significado das velas é apenas um: lembrar os mortos. No judaísmo, o aniversário da morte de alguém é recordado anualmente acendendo uma vela em sua memória – em hebraico, a palavra ór (אור) significa simultaneamente luz e chama e, de forma metafórica, também conhecimento e memória. Ao pedir que fossem acesas velas em memória dos mortos de 1506 nunca tive em mente uma cerimónia religiosa – que religiosidade terá o gesto equivalente de colocar flores na campa de alguém? Por isso mesmo, por não considerar as velas como parte de uma celebração religiosa, pedi depois aos meus leitores religiosos (judeus) que recitassem Kaddish, a oração judaica em memória dos mortos.
Para mim, acima de tudo, o importante era não esquecer. O importante era lembrar os três dias que há 500 anos encheram de sangue as ruas de Lisboa. O importante era lembrar as vítimas. Afinal, a habitual leitura “hagiográfica” da História de Portugal tende a simpatizar com os números redondos e gordos que marcam a passagem dos séculos sobre eventos que lhe ditaram o rumo. Ainda assim, os 500 anos do massacre de Lisboa corriam o risco de ser esquecidos. Uma vez mais.
Não tenho ilusões quanto à dimensão do blog. Apesar dos cerca de 1500 leitores diários, este blog não deixa de ser apenas um recanto ínfimo do ciberespaço. Mas também é tendência inata da blogosfera a capacidade de transbordar para fora de si própria – e por isso não me admirei quando comecei a receber emails de jornais, portugueses e estrangeiros, que me pediam comentários sobre a iniciativa e sobre o aniversário do massacre. Nunca foi minha intenção arvorar-me em porta-voz das comunidades judaicas de Lisboa, dos judeus em geral, dos marranos descendentes das vítimas. Nunca reclamei para mim a exclusividade da tentativa de perpetuação da memória. A iniciativa que propus aos meus leitores, pelo menos para mim, sempre foi simples e translúcida: um gesto simbólico e individual, desprovido de qualquer carácter oficial ou de estrutura (religiosa ou política), propositadamente sem uma organização definida. Ninguém é obrigado a acender uma vela, tal como ninguém é obrigado a ler o blog. O desafio, para mim, era um desafio à memória.
No Quase em Português, Lutz Brückelmann propôs um debate sobre a comemoração do massacre e, mais especificamente, sobre a minha proposta. O resultado, a meu ver, foi imensamente triste. Como um pescador sentado à beira de um lago aparentemente calmo, Lutz lançou o isco que provocou um feeding frenzy, um frenesi que trouxe à tona o que se ocultava sob as águas.
Choveram comentários extemporâneos, os odiozinhos do costume, as acusações gratuitas – “eles só se preocupam com os judeus” (não são organizações judaicas que estão hoje à cabeça da tentativa de fazer com que o mundo não esqueça o genocídio em Darfur? Não foram os judeus o único grupo étnico que participou activamente ao lado dos negros durante a luta pelos direitos cívicos nos EUA da década na 60?); “se há coisa que os judeu não têm é autocrítica” (não são judeus Hannah Arendt, Susan Sontag, Norman Mailer, Philip Roth, Benny Morris, e até Noam Chomsky ou mesmo o execrável Norman Finkelstein, cuja obra é leitura obrigatória para qualquer neo-nazi que se preze?)…
Por tudo o que este “debate” encerra, por todo o ódio que pôs a nu, por todas as “teorias de conspiração”, por toda a ignorância, maldade e sobranceria, o maior mérito que teve foi o de mostrar – provar mesmo – a necessidade absoluta e irredutível da memória.
O assinalar do 250o aniversário do terremoto de Lisboa de 1755, em Novembro passado, não levantou em ninguém este tipo de questões (nem devia ter levantado, obviamente). Ninguém correu para os teclados a debitar prosa rancorosa nos comentários dos blogs; ninguém clamou “mas isso foi há tanto tempo, precisamos é esquecer” ou “… e então os terremotos do Irão e da Turquia, o ‘tsunami’ do Sudoeste Asiático ou as vítimas do Katrina?”; ou sequer “é preciso recordar também todas as vítimas de todas as catástrofes naturais ocorridas na história desde os tempos do Dilúvio até à desastrosa resposta da Administração Bush à tragédia do Katrina.” Ninguém se sentiu manipulado. De cabeça, lembro-me que houve extensos artigos na Imprensa, livros, reportagens de televisão, cerimónias oficiais, missas e procissões em memória das vítimas de 1755. Tudo isto sem que o relembrar desta fracção de memória fosse vista como uma qualquer maquiavélica maquinação. Mas uma tentativa semelhante para lembrar os mortos do massacre de 1506, aparentemente e para muitos, terá sempre “outra carga” – mesmo quando a data não é assinalada oficialmente; mesmo que a esmagadora maioria dos portugueses a desconheça; mesmo quando muitos apenas a descobriram recentemente, através da leitura de um notável romance histórico escrito por Richard Zimler, um judeu americano que mora em Portugal.
Em relação ao “debate”, subscrevo inteiramente o que escreveu Francisco José Viegas:

“Não estou na disposição de discutir com ninguém a ideia de eu acender uma vela em homenagem às vítimas do Pogrom de 1506 e da Inquisição portuguesa. Eu vou. Não obrigo ninguém a ir. Não exijo que ninguém vá. Pedi a alguns amigos que me acompanhassem. A minha decisão é puramente individual, e quando escrevo «nós vamos» refiro-me aos que vão e querem ir. Portanto, não estou disposto a discutir aquilo que a minha liberdade individual e as minhas opções e crenças me levam a fazer.
Aliás, não entendo nem a natureza da discussão nem o seu objectivo.”

O meu amigo Lutz Brückelmann tem razão e a sua conclusão certeira deixa-me francamente desgostoso (algo que ele também antecipou): nada disto teria acontecido se os mortos não fossem judeus portugueses; se este desafio à lembrança e à preservação da memória não tivesse sido feito por um judeu; caso não tivesse partido de um blog marcadamente judaico escrito por um judeu. Esta “questão” não existiria (nunca!) se eu não fosse quem sou…

::A LER:: posts sobre o tema e a “polémica”: Miniscente (Luís Carmelo) / A Origem das Espécies (Francisco José Viegas) / Adufe (Rui Cerdeira Branco) / Povo de Bahá (Marco Oliveira) / A Memória Inventada (Vasco) / Os Tempos que Correm (Miguel Vale de Almeida) / Renas e Veados (Boss) / O Amigo do Povo (Bruno Cardoso Reis) / O Amigo do Povo (João Miguel Almeida) / O Amigo do Povo (Ana Cláudia Vicente) / Bombyx Mori (Afonso Bivar) / Ma-Schamba (José Pimentel Teixeira) / Água Lisa (João Tunes) / Local & Blogal (António Baeta Oliveira) / Planície Heróica (Francisco Nunes) / Almocreve das Petas (Masson)

…lista ainda em actualização.

Poemas Dinamarqueses

Emmanuel Moses

Gostava de ser dinamarquês
viver na luz dinamarquesa
ver da minha janela um prado dinamarquês
onde vacas dinamarquesas pastam
um rio dinamarquês
e ao longe um moinho dinamarquês.

No inverno, a filosófica neve dinamarquesa
crepitaria sob as minhas solas
e no verão, moscas dinamarquesas
poriam um gordo ponto final
aos meus poemas dinamarqueses.

Emmanuel Moses, poeta israelita.
Poema do livro Le Present (1999).

Perder um líder: uma perspectiva israelita


(…) E de repente tudo mudou. A mudança podia ouvir-se no tom de voz dos jornalistas, podia ver-se nos seus rostos, podia ler-se nos jornais em hebraico e nas suas actualizações na Internet. Algo estava errado. Muito errado. E ainda se pode ver, esta manhã, nos rostos de estranhos quando se caminha nas ruas.
Quer ele viva ou morra, nós estamos já de luto. Todos nós – os que sempre gostaram de Sharon, aqueles que nunca gostaram dele e o vasto número de israelitas que em tempos o vilipendiaram, mas que nos últimos anos olharam com espanto à medida que ele personificava a palavra “líder”.
Sim, ele tinha defeitos, sim, houve escândalos, ele estava longe de ser perfeito. Mas era um líder. Nós tínhamos um líder. E não temos mais.
Estes são ecos dos sentimentos que tivemos há dez anos, quando perdemos Yitzhak Rabin. É claro, desta vez não se trata de um assassinato, de violência interna, da mesma intensa perplexidade, ou do mesmo sentido de tragédia nacional.
Mas algo muito semelhante está a acontecer a nível emocional, do sentimento de estar num buraco de insegurança que resulta do facto do país não ter ninguém à frente neste momento. E nós não sabemos quem será o próximo líder verdadeiro. Se quisermos ser freudianos, pode dizer-se que estamos a perder uma figura paterna.
De esquerda ou de direita, mesmo se acreditarmos que homens como Yitzhak Rabin ou Ariel Sharon foram maravilhosos – ou se acharmos que eles estiveram completamente errados, completamente enganados, foram demasiado violentos ou completamente corruptos, nunca se pode duvidar nem por um minuto que a sua principal prioridade foi a segurança e o bem-estar do Estado de Israel e dos seus cidadãos. Cada sucesso e cada erro seu vinha da sua determinação de ver o país sobreviver, prosperar e ter sucesso. Com figuras destas como primeiro-ministro, nós sentíamos que havia alguém a olhar por nós. E quando eles subitamente desaparecem, pela mão de um assassino ou pela mão caprichosa do destino, ficamos devastados, profundamente inseguros e preocupados com o futuro.
E por isso nos preocupamos, vemos e esperamos, incapazes de deixar passar uma hora sem ver televisão, sem ouvir rádio ou ir à Internet.
Ele ainda está vivo; é uma boa notícia. Mas isso não altera o facto de, na maneira em que precisamos de Ariel Sharon, nós já o perdemos. Aqueles que acreditam em milagres rezam agora por um. Aqueles que não acreditam em milagres gostariam agora de acreditar.”

Um texto da jornalista israelita Allison Kaplan Sommer, autora do blog An Unsealed Room.

Katrina II


Tal como o 11 de Setembro, a tragédia tem servido até agora principalmente para que as pessoas possam confirmar as suas próprias ideias preconcebidas. A esquerda proclama-a como prova da necessidade de um governo federal robusto… os conservadores encontram justificações para confirmar a sua crença na necessidade de impor vigorosamente a ordem; os liberais vêem no desastre e no seu rescaldo um exemplar falhanço do governo… os ambientalistas impressionam-se com a constatação que o Katrina prova a necessidade de carros mais económicos; e loucos fanáticos religiosos de todas as crenças encontram ali “a mão de Deus” destruindo os seus inimigos… Viva, hurra! Todos ganham! Outra vez!”

Jim Henley, Unqualified Offerings

::A LER:: Água Lisa: As Lágrimas do Urubu / Miniscente: A hipocrisia da rapina /El Diario de Cecilia B. : La hora de los mezquinos

Quanta água tem uma lágrima?

Randy Newman – Louisiana 1927

Para ouvir:
Randy Newman – Louisiana 1927 *

Foto de Eric Gay, Associated Press

Quanta água tem uma lágrima,
E quanto tempo leva a secar?
Todo o tempo que houver medo e mágoa
Naquele que a continua a chorar.

Quanta água tem uma enchente
E quanto tempo leva a recuar?
Todo o tempo que levar a restaurar a esperança
Naquele que desesperadamente dela precisar.

Quanta água tem uma tempestade
E quanto tempo leva a passar?
O tempo que levar a reconstruir a casa
E tudo o que é querido restaurar.

Quanta água tem uma cidade
Quando as paredes da barragem se quebram?
Tanta quantas as lágrimas choradas
Quando tantos corações se vergam.

Rabi Zoe Klein
Temple Isaiah, Los Angeles
[poema em homenagem às vítimas do furacão Katrina]

Foto de Ricky Carioli, The Washington Post

Foto M. Scott Mahaskey, Associated Press

Foto de Melissa Phillip, Associated Press

Ajuda às vítimas do furacão Katrina: Hurricane Katrina Recovery on FirstGov.gov / Network for Good :: Hurricane Relief Efforts and Preparedness / American Red Cross – Hurricane 2005 relief / The Salvation Army National Headquarters / Hurricane Katrina — MoveOn.org Housing Offers/Searches / New Orleans Volunteers Classifieds and Want Ads – Craigslist / Ajuda através de Organizações Humanitárias Judaicas: Hurricane Relief – Chabad-Lubavitch of Louisiana / Hurricane Katrina Fund – American Jewish Committee / MAZON – Hurricane Katrina / B’nai B’rith International Disaster Relief / United Jewish Communities- Hurricane Katrina Relief / Orthodox Union: Hurricane Katrina — How You Can Help / United Synagogue of Conserevative Judaism: Hurricane Relief-You Can Help/ Union for Reform Judaism – URJ Disaster Relief Fund / American Jewish World Service.

* Clique no link acima para ouvir a canção de Randy Newman sobre as trágicas inundações que assolaram a Louisiana e o Mississippi em 1927.

O massacre de Beslan, um ano depois

(…) Ainda assim, foi impossível conter o anjo de sonhos que, noite após noite, continua a aterrar os resgatados, foi impossível silenciar a persistente voz da consciência, que exige explicação para o mal diabólico e para os corações apáticos. Essas perguntas “Porquê, meu Deus, porquê? Porquê nós? Porquê eles? Porquê agora? Porquê desta maneira?” são deixadas em suspenso entre o céu e a terra, pairando sobre todos os actos humanos. E não há resposta.
O tempo dirá o que aprendemos; só o tempo poderá revelar se ouvimos verdadeiramente a voz do sangue dos massacrados gritando das entranhas da terra.

Não uses luto por tempo demais, mas não te afundes na apatia
do esquecimento. Não permitas que voltem dias de
trevas; chora, mas limpa as lágrimas.
Não absolvas nem desculpes,
não tentes compreender.
Aprende a viver sem
respostas.
Através do nosso sangue, vive!

מגילה השואה (Megillat Hashoah – “O Pergaminho do Shoá”, Assembleia Rabínica, Jerusalém, 2004), excerto de um poema da liturgia em memória das vítimas do Holocausto.

Laima Torchinova tem nove anos e gosta de desenhar. Mas em vez das habituais casas feitas de um quadrado com telhado em triângulo, desenhadas por outras crianças da sua idade, Laima faz retratos de homens de rosto tapado e armas nas mãos. Depois de muitos retoques, quando fica satisfeita com o resultado final, Laima rasga o desenho, acende um fósforo e queima-o. É um ritual que repete diariamente há quase um ano. Não é necessário ser psiquiatra para ler no gesto de Laima um exorcismo de fantasmas demasiado reais. Os olhos de Laima viram coisas terríveis.
Há exactamente um ano, começava o que havia de tornar-se um pesadelo inimaginável para os 33 mil habitantes da pequena cidade russa de Beslan – uma localidade sensivelmente do tamanho de Castelo Branco. Durante três dias, um grupo de 32 terroristas chechenos barricou-se numa escola primária, fazendo mais de mil reféns, na sua esmagadora maioria crianças que celebravam com familiares e professores o regresso às aulas. Após um cerco que durou três dias, entre o impasse e o desespero, 344 pessoas perderam a vida – 172 delas crianças com menos de 10 anos.
Laima sobreviveu às explosões e aos tiros. Mas o preço emocional que pagou é incalculável. “Desenho terroristas e queimo-os pelas crianças que morreram na escola. Quero vingar-me deles por terem morto as crianças”, disse ela à disse ela à BBC. “Porque eles? Porquê desta maneira?” – as interrogações do poema litúrgico judaico ressoam nos escombros de Beslan. Também aqui, sem que venham respostas. Porque a irracionalidade do terror não pode nunca ser explicada.

:: A LER:: Heavy hearts as Beslan anniversary draws near / BBC – Beslan boy recalls hostage horror / BBC School siege: Eyewitness accounts / Significant Terrorist Incidents 1961-2003: A Brief Chronology / Beslan – Wikipedia / Beslan school hostage crisis – Wikipedia / Трагедия в Беслане | 1 сентября 2004 г / Трагедия в Беслане | 1 сентября 2004 г (versão em inglês) / Hope for Beslan / BBC How the siege unfolded / Telegraph – ‘Innocent religion is now a message of hate’

:: A VER:: BBC – Children who survived the siege tell of their ordeal / “Georg is very lucky to have survived” / Beslan school attack… Photos (AVISO: este último site contém imagens de extrema violência.)

Incêndios


Hollywood Hills: John Kilduff, Los Angeles vista de Mullholand Drive

Nas conversas telefónicas diárias para Portugal é impossível não falar de incêndios. E prevenção, que raio será isso? Lembrei-me de um exemplo vivido na primeira pessoa, quando morei em Hollywood Hills, uma área de Los Angeles fortemente arborizada, quase “selvagem”, onde diariamente se dá de caras com veados, coiotes, esquilos e doninhas a caminhar calmamente nas ruas. No final da Primavera, todos os anos, passava por lá um fiscal dos bombeiros que metia uma carta nos correios, dando aos moradores um prazo de três semanas para limpar a mata em redor das suas casas. Terminado o prazo, o fiscal fazia uma nova ronda e o incumprimento do aviso dava direito a uma multa entre €500,00 e €2500,00, ou pena de prisão até um ano. Numa região onde as casas são construídas totalmente em madeira, as autoridades aprenderam há muito que levar a sério a prevenção de incêndios é a única solução aceitável. Nos anos que ali morei nunca conheci ninguém que não limpasse a mata. E tenho até algumas saudades das tardes que passei de enxada na mão, com o gigantesco contorno branco e desnivelado do letreiro de Hollywood empoleirado nas montanhas ao fundo da paisagem.

::A LER:: Los Angeles Fire Departmant – HOMEOWNERS BRUSH SAFETY AWARENESS TIPS / Office of the State Fire Marshal – Fire Safe Planning – Property Inspection Guide / Quick Response Report – The 2003 Southern California Wildfires: Constructing Their Cause(s) / Fire Season 2005: Protect Your Clients from Wildfire Dangers / The Santa Monica Mountains North Area Plan / Fire Report Newsletter / Metro: Park service pays $25,000 fine to Valley air district / NBC 4 – News – Fire Prevention Goats Spark Neighborhood War

A Capital – memórias de um cadáver esquisito

À medida que se envelhece, a vida faz questão de nos semear cadáveres pelo caminho. Nem sempre são os mais óbvios. Às vezes – na maior parte das vezes, talvez –, são “coisas”, ou simplesmente lugares que nos marcam, para o bem e para o mal. Coisas com alma, porque “morte” só faz verdadeiramente sentido quando ela se evapora.
No início desta semana morreu A Capital, o jornal onde estagiei. O fantasma deixa memórias. Cheguei ao jornalismo escrito “a sério” no final dos anos 80, na velha redacção do Bairro Alto, numa época em que o matraquear constante das máquinas de escrever ainda dominava o ritmo da vida dos jornalistas. Tenho guardada uma folha de lauda desses tempos, uma página timbrada com o logotipo d’ A Capital, marginada a 60 espaços, pronta a receber prosa de letra martelada a tinta que sujava os dedos e, às vezes, a própria consciência. Encontrei-a hoje, numa caixa cheia de papéis velhos que insisto em guardar sem saber muito bem porquê. Amarelada, velha de quase 20 anos, a folha de lauda d’ A Capital bem podia ser uma metáfora para um jornal que não conseguiu acompanhar os tempos – apesar de consecutivas mudanças e esforços vários.
A Capital nunca foi um “grande jornal”. Nunca foi uma referência no sentido que em tempos o foram o Diário de Lisboa, O Século ou A República, todos eles também desaparecidos. Podia nem ser um jornal influente, pelo menos no meu tempo, mas para um jornalista, um estágio n’ A Capital era o equivalente a uma pós-graduação nos bastidores do jornalismo. Era a “tarimba” no sentido mais completo da palavra e, durante décadas, A Capital formou gerações de jornalistas portugueses que hoje estão espalhados por uma miríade de publicações, do Diário de Notícias ao Público, passando pelo Expresso, pela Visão e pela Sábado, entre muitos outros.
A faceta de “jornal-escola” em que A Capital se convertera era uma espada de dois gumes: por um lado, por causa do violento ritmo de trabalho de um vespertino, aprendia-se a escrever depressa, a arrumar ideias e apontamentos antes de chegar à redacção, porque a prosa tinha de estar pronta num quarto de hora. Por outro, esse mesmo ritmo, aliado a condições de trabalho nem sempre favoráveis – longas horas de trabalho, falta de reconhecimento, baixos salários, etc. –, fazia com que os jornalistas debandassem à primeira oportunidade. Era um ciclo tornado vicioso que enchia a redacção de jornalistas estagiários inexperientes, que a A Capital formava para ver sair um ou dois anos depois.
É certo que muita coisa terá mudado desde 1992, altura em que sai d’ A Capital. De vespertino – talvez o último jornal europeu que ainda saía à tarde – passou a matutino, diluindo-se no meio de um mercado apinhado de títulos. As vendas foram caindo a pique, reflectindo mudanças bruscas que descaracterizavam o jornal e alienavam o seu público habitual sem se manterem o tempo suficiente para conquistar novos leitores.
Em Setembro do ano passado, Luís Osório e Rogério Rodrigues, dois excelentes jornalistas, assumiram a direcção do jornal e embarcaram na tarefa de o transformar radicalmente. Do incaracterístico produto populista que A Capital se tornara, quiseram fazer um jornal a sério. Honestamente, mesmo sem nunca ter visto o jornal impresso, acompanhando-o apenas pela Internet, acredito que o conseguiram. Agora, seis meses depois, A Capital morre de pé, inquestionavelmente melhor do que era antes, vítima de uma administração com vistas curtas – um mal bastante frequente na Imprensa portuguesa –, sem paciência para esperar que as mudanças conquistassem um novo mercado.
Pela parte que me toca, o fim d’ A Capital vem acentuar uma crescente desilusão pessoal para com o mundo do jornalismo português e, num sentido mais íntimo, com a própria profissão, um sentimento que vem fermentado há já algum tempo. Independentemente de tudo o resto, nas memórias dos anos em que lá trabalhei, fica a inevitável nostalgia; uma imensa saudade dos camaradas com quem partilhei a redacção. E o muito que com eles aprendi.

As “razões” do terrorismo


Foto de Ahmad Khateib, em Gaza, para o New York Times

Aparentemente, os rockets Qassam usados pelos terroristas do Hamas têm um prazo de validade de seis meses a partir do momento que são fabricados. Para não os “desperdiçar”, o Hamas resolveu agora lançá-los para matar civis israelitas

Um jornalista palestiniano perguntou ontem a um militante armado do Hamas porque razão tinha o grupo subitamente começado a lançar novamente rockets Qassam após dois meses de calma. A resposta dele: “Sabe quantos Qassam temos? O que é que vamos fazer com eles no mês que vem, depois dos israelitas retirarem?”
Diz-se que seis meses após serem manufacturados, os Qassam explodem por si próprios. Se isso é verdade, pode estar explicada a urgência que o Hamas subitamente sentiu em livrar-se deles.

O resto está aqui.

A perda da virgindade

Um artigo de Pilar Rahola

Parecemos adolescentes à moda antiga, quando chegávamos inexperientes, inocentes e vulneráveis à perda da virgindade. Acumulávamos quatro lições de sexo aprendidas clandestinamente à boca pequena, algum apalpão de esquina e umas quantas verdades absolutas que só serviam para inchar o peito e parecer que estávamos preparados. Depois daquilo, nada do aprendido servia e tudo tinha que voltar a ser perguntado. A perda da virgindade era, sobretudo, uma queda do hímen mental, a porta de entrada da maturidade. Se me permitem a exótica metáfora, começa a ser hora de deixar para trás esta adolescência colectiva que vivemos com santa ingenuidade, abandonar os quatro tópicos simples que nos serviram para obter cómodas respostas a incómodas perguntas, e brindar pela queda da inocência.
Já nos mataram muito, tanto que algumas sandices que ainda se ouvem nos microfones da correcção política resultam algo mais que grotescas: são um inequívoco exercício de irresponsabilidade.
A perda da virgindade. Comecemos pelo paternalismo que ainda explica o fenómeno do terrorismo islâmico como se fosse uma rebelião desesperada dos párias do mundo. Quantas vezes pudemos ler ou ouvir, em sisudas e prestigiosas tribunas, que os homens-bomba que despedaçam pessoas nos restaurantes de Haifa ou nos autocarros de Jerusalém são heróicos resistentes que não têm nada a perder? Não falamos ainda de “resistência” quando nos referimos à estratégia terrorista de Al-Zarqawi no Iraque? Não projectamos uma visão compreensiva da “luta armada” dos grupos islamitas chechenos? Não mostramos uma velada justificativa, pela via da culpabilização americana, de alguns ataques terroristas? Este paternalismo, sem dúvida consequência da nossa já gasta má consciência, decorado com umas gotinhas de estética revolucionária e reforçado pela óptica antiamericana que contamina a visão europeia, este paternalismo, dizia, é, depois do 11 de Setembro, do 11 de Março e da matança de Londres, o obstáculo que mais pateticamente distorce a nossa capacidade de análise. Por trás do atentado terrorista, por trás do suicida não há um desesperado, mas uma densa rede logística, económica e ideológica que vampiriza as causas legítimas, fanatiza até ao puro niilismo os seus seguidores e usa as suas mentes anuladas para o objectivo superior da revolução islâmica. Os verdadeiros resistentes palestinianos não são os integristas do Hamas, que capturam crianças de oito anos para convertê-las em terroristas-suicidas e cujas milionárias fontes de financiamento estão em algumas fortunas que se valorizam em Kuala Lumpur e nos escritórios opacos de algumas ditaduras do petrodólar. Os resistentes palestinianos são os que lutam democraticamente pela sua causa, enfrentando, inclusive, o fanatismo integrista. Os verdadeiros resistentes iraquianos não são os degoladores de pessoas, mas os que foram massivamente votar apesar da ameaça de morte. Não são desesperados, não são pobres, não são libertadores, não são resistentes. São militantes de uma ideologia totalitária, profusamente regada pela economia, perfeitamente instalada nos conflitos do mundo e cujo objectivo último é a destruição dos valores que garantem a convivência e a liberdade. Deixemos, pois, de fazer de imbecis olhando-os como se fossem os substitutos do nosso Che Guevara adolescente. Sem nenhuma dúvida, como fez em tempos o nazismo, declararam-nos guerra.
E antes que alguém procure algum vislumbre de incorrecção moral no que afirmo, recordarei o que tanto escrevi:
Não nos declarou a guerra o islão, nem é um choque de civilizações ou religiões. É a declaração de guerra de uma ideologia que utiliza o islão, sequestra-o e tenta apropriar-se dele. De facto, o integrismo islâmico é tão inimigo do Ocidente como é inimigo do direito dos cidadãos islâmicos de viver em liberdade.
A perda virgindade também implica a superação do discurso doméstico, como se a al-Qaeda fosse o resultado de políticas externas concretas e sua solução tivesse a ver com a bondade ou maldade das ditas políticas. Se lhes preocupa a causa palestiniana, porque começa o 11 de Setembro a gestar-se em plenos acordos de Oslo? Se lhes preocupava a participação espanhola no Iraque, porque acabam de prender 16 muçulmanos, cinco dos quais já haviam feito o juramento do martírio? Por que filmaram as torres de Barcelona, se já éramos bons? E por que foi preparado o 11 de Março dois anos antes da guerra do Iraque? Crer, ao estilo do chauvinismo francês, que “portar-se bem” implica “sair dessa” é não entender nada e constatar algo: que somos muito débeis e que conhecem as nossas fraquezas, entre elas a reiterada e doentia visão do próprio umbigo.
Começou há muito, nos anos 20 do século passado, com os fundadores da Fraternidade Muçulmana do Egipto, cuja ramificação chegaria à criação de um Governo integrista no Sudão, e depois do Hamas de Yassin e à própria estruturação da al-Qaeda. Há muito que são amparados por governos que se sentam na ONU e por fortunas que crescem nas bolsas internacionais. Fanatizam muito, contaminando milhares de pessoas. E matam desde há muito, mas decidimos não vê-los. Decidimos não ver como matavam dezenas em Buenos Aires faz mais de uma década. Afinal, eram judeus. Não ver quando matavam em Nairobi, afinal eram americanos. E não os vimos nem em Bali, nem na Turquia, nem em Beslan, nem em Jerusalém. Certamente, não os vimos em Nova York. E só quando nos mataram em Madrid começamos a descobrir que isto era connosco, mas aprendemos as lições? Ou continuamos com o discurso paternalista que explicava em termos épicos, domésticos e simples as suas façanhas terroristas? Entretanto estão os ianques para nos divertir e para explicar a maldade do mundo, para que nos preocuparmos com a estrutura terrorista que nos ataca? Agora a morte viajou de metro por Londres e, outra vez permanecemos desconcertados e boquiabertos. Até que alguém, bondoso, deu uma resposta: é por culpa da guerra do Iraque, e respiramos mais tranquilos. Não há nada como ter respostas simples para poder aplacar as inquietantes perguntas que não queremos fazer. É realmente terrível o que ocorre: estão a matar-nos na nossa própria casa, socializando o terror para destruir o nosso sistema de liberdades, e nós continuamos entretidos confundindo-nos com o inimigo. Mais do que adolescentes virgens, parecemos autênticos imbecis.

Pilar Rahola, jornalista e escritora, foi deputada da Esquerda Republicana da Catalunha no parlamento espanhol e vice-presidente da Câmara de Barcelona. Este artigo foi originalmente publicado no diário espanhol El País no seguimento dos atentados de Londres.

O Terror em Londres

A 7 de Julho de 2005, o Blitz regressou a Londres. É difícil acordar com notícias destas. Acordar com o telefone a tocar de madrugada, ouvindo uma voz, lá do outro lado do mundo, a contar coisas terríveis. Acordar para uma manhã que se anuncia negra. Mais difícil ainda é escrever sobre sentimentos desconexos, amalgamados sob a forma de um intenso nó no estômago. Já morei em Londres. Londres foi a minha cidade. Os lugares que hoje são notícia fizeram parte do meu quotidiano. Pisei aquele chão e respirei o mesmo ar que agora exala os odores pútridos de um terror sem explicação nem sentido. Mas o pior ainda é suspeitar que possa mesmo ter olhado os assassinos nos olhos – já aqui dei conta da minha experiência pessoal com os fundamentalistas islâmicos em Londres, enquanto preparava um trabalho para a Grande Reportagem (ver Tortura, Humilhação e Ódio). Com a impotência da distância, penso nos meus amigos que lá moram: a Ana e o Chaim, o James, o Eitan, o Oliver, o Tom e a Şebnem… Espero que estejam bem.
No ano passado, Paulo Moura, jornalista do Público, entrevistou Omar Bakri Mohammed, um sheik que se autoproclamava “líder do Londonistão” e “Teórico da Al-Qaeda na Europa”. Na entrevista, publicada a 18 de Abril de 2004, Omar Bakri falava da “inevitabilidade” de grandes atentados terroristas em Londres e dos grupos que os preparavam. Como é fácil ser profeta quando se controla os cordelinhos que precipitam o Apocalipse.

Aqui ficam, reveladores, alguns excertos dessa entrevista (PÚBLICA Domingo, 18 de Abril de 2004) :

“O terror é a linguagem do século XXI”

PÚBLICA: Acha que vai ocorrer algum grande atentado em Londres?
Omar Bakri Mohammed: É inevitável. Porque estão a ser preparados vários, por vários grupos.(…)

P. Há muitos desses grupos “free-lance” na Europa?
R. Cada vez mais. O que é perigoso, porque nem todos têm a preparação teórica adequada. Aqui em Londres há um grupo muito bem organizado, que se auto-intitula Al-Qaeda-Europa. Divulgam, pela internet e email, muito material de propaganda e têm um apelo muito grande sobre os jovens muçulmanos. Sei que estão prestes a lançar uma grande operação.(…)

P. Como sabemos que um atentado é realmente da Al-Qaeda?
R. É fácil. Em primeiro lugar são sempre operações em grande escala. O texto divino é claro quanto à necessidade de provocar “o máximo dano possível”. O operacional tem portanto de certificar-se de que mata o maior número de pessoas que pode matar. Se não o fizer, espera-o o fogo do Inferno. Em segundo lugar, a Al-Qaeda deixa sempre uma impressão digital: uma pista, como um carro com um Corão ou uma cassete, para ser encontrado pela Polícia. Terceiro, os ataques são feitos em dois ou três lugares ao mesmo tempo. Finalmente, a linguagem. Nos comunicados, basta ler uma frase para se reconhecer o seu rigor teórico: não há nenhum sinal de nacionalismo, não se dizem árabes, nem palestinianos, apenas muçulmanos. Falam sempre do martírio, da morte.(…)

P. Mas o que pode justificar matar deliberadamente milhares de civis inocentes?
R. Nós não fazemos a distinção entre civis e não civis, inocentes e não inocentes. Apenas entre muçulmanos e descrentes. E a vida de um descrente não tem qualquer valor. Não tem santidade.

P. Mas havia muçulmanos entre as vítimas.
R. Isso está previsto. Segundo o Islão, os muçulmanos que morrerem num ataque serão aceites imediatamente no paraíso como mártires. Quanto aos outros, o problema é deles. Deus mandou-lhes mensagens, os muçulmanos levaram-lhes mensagens, eles não acreditaram. Deus disse: “Quando os descrentes estão vivos, guia-os, persuade-os, faz o teu melhor. Mas quando morrem, não tenhas pena deles, nem que seja o teu pai ou mãe, porque o fogo do Inferno é o único lugar para eles”.(…)

P. O Corão diz isso?
R. Sim. As pessoas não percebem, porque a televisão e os jornais só entrevistam os seculares. Não falam com quem sabe. Os seculares dizem que “o Islão é a religião do amor”. É verdade. Mas o Islão também é a religião da guerra. Da paz, mas também do terrorismo. Maomé disse: “eu sou o profeta da misericórdia”. Mas também disse: “Eu sou o profeta do massacre”. A palavra “terrorismo” não é nova entre os muçulmanos. Maomé disse mais: “Eu sou o profeta que ri quando mata o seu inimigo”. Não é portanto apenas uma questão de matar. É rir quando se está a matar.

P. Isso quer dizer que o terrorismo é natural e legítimo?
R. Só é legítimo o terrorismo divino.(…)

P. O que pretende a Al-Qaeda?
R. O terror. Estão empenhados numa jihad defensiva, contra os que atacaram o Islão. E a longo prazo querem restabelecer o estado islâmico, o califado. E converter o mundo inteiro.(…)

P. Os EUA podem negociar com a Al-Qaeda?
R. A Al-Qaeda é por natureza uma entidade invisível, não é um Estado, por isso não pode dialogar com um Estado. O seu projecto é derrubar os governos corruptos dos países muçulmanos, substitui-los por governos islâmicos e reconstituir o califado. Nessa altura, como Estado, poderão negociar com os EUA, de igual para igual. Primeiro, tentarão um pacto de segurança com eles. Dirão: nós fornecemos o petróleo e viveremos em paz, mas na condição de podermos divulgar livremente o Islão no Ocidente. Se os americanos não permitirem isto, então o califado terá de lhes declarar guerra.(…)

::A LER:: BBC NEWS – Front Page (com actualizações frequentes) / The Command Post – Global War On Terror / CNN – Minute-by-minute account – Jul 7, 2005 / Guardian Unlimited | Special reports | Terror blasts rock London / Guardian Unlimited | Special reports | London explosions ‘mirror Madrid bombings’ / Times Online – London hit by multiple terror blasts at rush hour / Times Online – London: a new and bloody chapter for al-Qaeda? / Times Online – London blast: survivors’ tales / Militant cleric says attack on London ‘inevitable’ (notícia agregada de agencies internacionais baseada na entrevista de Omar Bakri à Pública em Abril de 2004) / BBC NEWS – Cleric warns of ‘UK terror threat’ (14 de Agosto de 2002) / BBC NEWS – Dozens attend radical Muslim rally (25 de Agosto de 2002) / BBC NEWS – Waiting for the fatwa (15 de Agosto de 2002) / BBC News – UK ‘terror target’ claim dismissed (7 de Janeiro de 2002) / Telegraph – Cleric supports targeting children (5 de Setembro de 2004) / As Causas dos Atentados Suicidas (um artigo de Alan Dershowitz, 6 de Agosto de 2004).

Os media e o “crime”

“if it bleeds it leads”
ou o jornalismo “por arrastamento”

No princípio de 1995 as primeiras páginas da Imprensa e as aberturas dos jornais televisivos davam conta de um país à beira de um ataque de nervos. A acreditar nos media, uma intensa onda de criminalidade varria o país de norte a sul, criando um sentimento de insegurança nunca antes experimentado em Portugal. Na revista onde na altura trabalhava foi criada uma “task force” de oito jornalistas – um grupo para o qual fui chamado – com a missão de investigar o fenómeno e, no curto espaço de menos de uma semana, escrever um “dossier aprofundado” sobre a insegurança em Portugal. Dividido o trabalho, coube-me falar com alguns especialistas académicos – leia-se sociólogos –, para tentar perceber que tipo de leitura se podia fazer do fenómeno, e escrever uma peça ilustrativa, de “folclore”, sobre uma noite de sexta-feira passada numa das mais “movimentadas” esquadras de polícia da grande Lisboa.
A análise dos sociólogos com quem falei na altura coincidia com os números oficiais da criminalidade: não existia um aumento de criminalidade, garantiam, mas apenas um aumento da percepção da criminalidade existente. Isto, explicado em poucas palavras, quer apenas dizer que uma notícia de crime na TV propaga o sentimento de insegurança a uma vasta audiência – ou melhor, segundo a análise sociológica: ao fazer eco de um incidente isolado sem qualquer preocupação de enquadramento, uma notícia de crime faz com que o espectador/leitor se identifique com a vítima e, mesmo que esteja a mais de 500 quilómetros do local onde ocorreu o crime, multiplica a sua própria percepção da criminalidade, distorcendo muitas vezes a realidade que o circunda. Esta leitura nem sempre pode ser tomada de um modo literal, uma vez que depende de inúmeros factores, que vão da qualidade do trabalho jornalístico à realidade crua das estatísticas criminais. Mas naquela época, há 10 anos, não podia ser mais exacta, uma vez que os números oficiais chegavam a apontar para um decréscimo da criminalidade.
Convém abrir aqui um parêntesis para abordar brevemente a própria instabilidade destas estatísticas oficiais, uma vez que elas se referem apenas a queixas apresentadas junto das polícias (PSP, Judiciária e GNR) que, de uma forma ou outra, estão elas próprias dependentes de factores diversos, como a “visibilidade” de certos crimes, ou mesmo os custos emocionais que determinada queixa acarreta. Um exemplo concreto: após a abertura e consequente mediatização do Processo Casa Pia, o número de queixas contra pedófilos aumentou exponencialmente, não porque Portugal subitamente se transformara num país de violadores de crianças, mas simplesmente porque o processo em si sensibilizara a sociedade, lançando um holofote intenso para numa área onde as queixas-crime tinham ficado durante décadas muito aquém de traduzir um retrato fiel da realidade social. Outro exemplo é dado pelos casos de violação, onde alterações significativas no Código Penal modernizaram a padronização e enquadramento legal do crime, retirando à mulher violada o estigma que uma legislação quasi-medieval lhe conferira durante séculos. Nestes dois casos, tal como em muitos outros, um crescimento súbito nas estatísticas oficiais do crime não reflecte necessariamente um aumento da prática do crime em si, mas pode simplesmente ser o resultado prático da sua maior visibilidade social.
Regressando a 1995 e à reportagem de fundo sobre a tal “onda de criminalidade”. A menos de dois dias do fecho da edição, passei uma noite numa esquadra da periferia de Lisboa – aquela que supostamente seria a “Hill Street” da capital –, de sexta-feira para sábado, procurando estórias que supostamente ilustrassem a premissa maior do trabalho. Depois de oito horas a deambular por bairros degradados em carros-patrulha, com polícias afáveis dispostos a mostrar a dureza da zona (“isto tem dias”, diziam eles, fazendo questão de acrescentar que “mesmo assim não é tão mau como o pintam”), regressei à redacção com um bloco de apontamentos recheado de nada. Ou melhor, de nada do que se queria para a reportagem em causa. E foi isso que escrevi. O meu texto acabou por não ser publicado, porque simplesmente não se encaixava no fluxo que desde início se pretendera imprimir ao trabalho. A ideia central da reportagem, afinal, não era uma tentativa de perceber se existia ou não uma “onda de criminalidade”. A ideia tinha sido simplesmente a de transpor para as páginas da revista uma versão escrita do que debitavam as televisões. Era o “jornalismo por arrastamento” no seu melhor. E teve direito a capa, na edição 102, de 2 de Março de 1995.
Mesmo assim, gostava de acrescentar que a redacção desta revista foi a mais profissional, competente e democrática em que trabalhei ao longo dos meus 16 anos de jornalismo.
Obviamente, escrevo isto no seguimento de várias leituras sobre o agora célebre “arrastão” de Carcavelos e da forma como uma cobertura mediática desastrosa moldou a percepção dos acontecimentos – um tema dissecado de forma bastante lúcida no blog O Céu Sobre Lisboa, com uma série de posts que merecem uma leitura atenta: aqui, aqui, aqui, aqui e aqui (a ler ainda este post de Miguel Vale de Almeida).
Foi através d’O Céu Sobre Lisboa que cheguei ao documentário de Diana Andriga Era uma vez um Arrastão (que parece estar temporariamente off-line).

Por último, queria apenas notar a ironia suprema que transpira do nome de família de um dos organizadores da manifestação xenófoba e racista “pós-arrastão” realizada em Lisboa. Entre os gritos de “Portugal aos portugueses”, Mário Machado evocava “a expulsão dos mouros e dos espanhóis” como exemplo a seguir “para os pretos”. Esqueceu-se dos judeus. Sem o saber, o senhor Mário Machado (um assassino condenado e cadastrado) regurgitava alguns dos mesmos argumentos primários usados há cinco séculos pelos antisemitas para expulsar os judeus portugueses – ou melhor, para os obrigar a uma conversão ao catolicismo imposta sob pena de morte. No vocabulário racista e antisemita, o estrangeiro é, acima de tudo, definido pela diferença – na cor da pele, na religião, nos costumes. No caso dos judeus portugueses, que se fixaram pela primeira vez no espaço geográfico de Portugal há mais de 2500 anos, nem as inúmeras gerações nascidas no país, ainda antes da formação da nacionalidade, garantiam que não deixassem de ser vistos como estrangeiros. E foi assim que, há pouco mais de 500 anos, a família ancestral do senhor Mário Machado foi forçada a esconder o seu judaísmo sob um catolicismo de fachada que lhe mereceria a alcunha de “marranos”. Inconsciente da sua própria história familiar, Mário Machado é hoje um neo-nazi encartado, um racista e antisemita que cospe na sepultura dos seus próprios antepassados. (Ver ainda Jewish Encyclopedia – Machado Portuguese Jewish Family Name e Uriah (Machado) Levy – O judeu português que salvou Monticello).


Monticello, mansão de Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos: inscrição no túmulo de Raquel Machado (1769-1839), sepultada em Monticello, explicando a ligação das famílias judaicas Levy e Machado à propriedade. O original ampliado pode ser visto aqui, acompanhado por uma explicação.