O Terror em Londres

A 7 de Julho de 2005, o Blitz regressou a Londres. É difícil acordar com notícias destas. Acordar com o telefone a tocar de madrugada, ouvindo uma voz, lá do outro lado do mundo, a contar coisas terríveis. Acordar para uma manhã que se anuncia negra. Mais difícil ainda é escrever sobre sentimentos desconexos, amalgamados sob a forma de um intenso nó no estômago. Já morei em Londres. Londres foi a minha cidade. Os lugares que hoje são notícia fizeram parte do meu quotidiano. Pisei aquele chão e respirei o mesmo ar que agora exala os odores pútridos de um terror sem explicação nem sentido. Mas o pior ainda é suspeitar que possa mesmo ter olhado os assassinos nos olhos – já aqui dei conta da minha experiência pessoal com os fundamentalistas islâmicos em Londres, enquanto preparava um trabalho para a Grande Reportagem (ver Tortura, Humilhação e Ódio). Com a impotência da distância, penso nos meus amigos que lá moram: a Ana e o Chaim, o James, o Eitan, o Oliver, o Tom e a Şebnem… Espero que estejam bem.
No ano passado, Paulo Moura, jornalista do Público, entrevistou Omar Bakri Mohammed, um sheik que se autoproclamava “líder do Londonistão” e “Teórico da Al-Qaeda na Europa”. Na entrevista, publicada a 18 de Abril de 2004, Omar Bakri falava da “inevitabilidade” de grandes atentados terroristas em Londres e dos grupos que os preparavam. Como é fácil ser profeta quando se controla os cordelinhos que precipitam o Apocalipse.

Aqui ficam, reveladores, alguns excertos dessa entrevista (PÚBLICA Domingo, 18 de Abril de 2004) :

“O terror é a linguagem do século XXI”

PÚBLICA: Acha que vai ocorrer algum grande atentado em Londres?
Omar Bakri Mohammed: É inevitável. Porque estão a ser preparados vários, por vários grupos.(…)

P. Há muitos desses grupos “free-lance” na Europa?
R. Cada vez mais. O que é perigoso, porque nem todos têm a preparação teórica adequada. Aqui em Londres há um grupo muito bem organizado, que se auto-intitula Al-Qaeda-Europa. Divulgam, pela internet e email, muito material de propaganda e têm um apelo muito grande sobre os jovens muçulmanos. Sei que estão prestes a lançar uma grande operação.(…)

P. Como sabemos que um atentado é realmente da Al-Qaeda?
R. É fácil. Em primeiro lugar são sempre operações em grande escala. O texto divino é claro quanto à necessidade de provocar “o máximo dano possível”. O operacional tem portanto de certificar-se de que mata o maior número de pessoas que pode matar. Se não o fizer, espera-o o fogo do Inferno. Em segundo lugar, a Al-Qaeda deixa sempre uma impressão digital: uma pista, como um carro com um Corão ou uma cassete, para ser encontrado pela Polícia. Terceiro, os ataques são feitos em dois ou três lugares ao mesmo tempo. Finalmente, a linguagem. Nos comunicados, basta ler uma frase para se reconhecer o seu rigor teórico: não há nenhum sinal de nacionalismo, não se dizem árabes, nem palestinianos, apenas muçulmanos. Falam sempre do martírio, da morte.(…)

P. Mas o que pode justificar matar deliberadamente milhares de civis inocentes?
R. Nós não fazemos a distinção entre civis e não civis, inocentes e não inocentes. Apenas entre muçulmanos e descrentes. E a vida de um descrente não tem qualquer valor. Não tem santidade.

P. Mas havia muçulmanos entre as vítimas.
R. Isso está previsto. Segundo o Islão, os muçulmanos que morrerem num ataque serão aceites imediatamente no paraíso como mártires. Quanto aos outros, o problema é deles. Deus mandou-lhes mensagens, os muçulmanos levaram-lhes mensagens, eles não acreditaram. Deus disse: “Quando os descrentes estão vivos, guia-os, persuade-os, faz o teu melhor. Mas quando morrem, não tenhas pena deles, nem que seja o teu pai ou mãe, porque o fogo do Inferno é o único lugar para eles”.(…)

P. O Corão diz isso?
R. Sim. As pessoas não percebem, porque a televisão e os jornais só entrevistam os seculares. Não falam com quem sabe. Os seculares dizem que “o Islão é a religião do amor”. É verdade. Mas o Islão também é a religião da guerra. Da paz, mas também do terrorismo. Maomé disse: “eu sou o profeta da misericórdia”. Mas também disse: “Eu sou o profeta do massacre”. A palavra “terrorismo” não é nova entre os muçulmanos. Maomé disse mais: “Eu sou o profeta que ri quando mata o seu inimigo”. Não é portanto apenas uma questão de matar. É rir quando se está a matar.

P. Isso quer dizer que o terrorismo é natural e legítimo?
R. Só é legítimo o terrorismo divino.(…)

P. O que pretende a Al-Qaeda?
R. O terror. Estão empenhados numa jihad defensiva, contra os que atacaram o Islão. E a longo prazo querem restabelecer o estado islâmico, o califado. E converter o mundo inteiro.(…)

P. Os EUA podem negociar com a Al-Qaeda?
R. A Al-Qaeda é por natureza uma entidade invisível, não é um Estado, por isso não pode dialogar com um Estado. O seu projecto é derrubar os governos corruptos dos países muçulmanos, substitui-los por governos islâmicos e reconstituir o califado. Nessa altura, como Estado, poderão negociar com os EUA, de igual para igual. Primeiro, tentarão um pacto de segurança com eles. Dirão: nós fornecemos o petróleo e viveremos em paz, mas na condição de podermos divulgar livremente o Islão no Ocidente. Se os americanos não permitirem isto, então o califado terá de lhes declarar guerra.(…)

::A LER:: BBC NEWS – Front Page (com actualizações frequentes) / The Command Post – Global War On Terror / CNN – Minute-by-minute account – Jul 7, 2005 / Guardian Unlimited | Special reports | Terror blasts rock London / Guardian Unlimited | Special reports | London explosions ‘mirror Madrid bombings’ / Times Online – London hit by multiple terror blasts at rush hour / Times Online – London: a new and bloody chapter for al-Qaeda? / Times Online – London blast: survivors’ tales / Militant cleric says attack on London ‘inevitable’ (notícia agregada de agencies internacionais baseada na entrevista de Omar Bakri à Pública em Abril de 2004) / BBC NEWS – Cleric warns of ‘UK terror threat’ (14 de Agosto de 2002) / BBC NEWS – Dozens attend radical Muslim rally (25 de Agosto de 2002) / BBC NEWS – Waiting for the fatwa (15 de Agosto de 2002) / BBC News – UK ‘terror target’ claim dismissed (7 de Janeiro de 2002) / Telegraph – Cleric supports targeting children (5 de Setembro de 2004) / As Causas dos Atentados Suicidas (um artigo de Alan Dershowitz, 6 de Agosto de 2004).

Os media e o “crime”

“if it bleeds it leads”
ou o jornalismo “por arrastamento”

No princípio de 1995 as primeiras páginas da Imprensa e as aberturas dos jornais televisivos davam conta de um país à beira de um ataque de nervos. A acreditar nos media, uma intensa onda de criminalidade varria o país de norte a sul, criando um sentimento de insegurança nunca antes experimentado em Portugal. Na revista onde na altura trabalhava foi criada uma “task force” de oito jornalistas – um grupo para o qual fui chamado – com a missão de investigar o fenómeno e, no curto espaço de menos de uma semana, escrever um “dossier aprofundado” sobre a insegurança em Portugal. Dividido o trabalho, coube-me falar com alguns especialistas académicos – leia-se sociólogos –, para tentar perceber que tipo de leitura se podia fazer do fenómeno, e escrever uma peça ilustrativa, de “folclore”, sobre uma noite de sexta-feira passada numa das mais “movimentadas” esquadras de polícia da grande Lisboa.
A análise dos sociólogos com quem falei na altura coincidia com os números oficiais da criminalidade: não existia um aumento de criminalidade, garantiam, mas apenas um aumento da percepção da criminalidade existente. Isto, explicado em poucas palavras, quer apenas dizer que uma notícia de crime na TV propaga o sentimento de insegurança a uma vasta audiência – ou melhor, segundo a análise sociológica: ao fazer eco de um incidente isolado sem qualquer preocupação de enquadramento, uma notícia de crime faz com que o espectador/leitor se identifique com a vítima e, mesmo que esteja a mais de 500 quilómetros do local onde ocorreu o crime, multiplica a sua própria percepção da criminalidade, distorcendo muitas vezes a realidade que o circunda. Esta leitura nem sempre pode ser tomada de um modo literal, uma vez que depende de inúmeros factores, que vão da qualidade do trabalho jornalístico à realidade crua das estatísticas criminais. Mas naquela época, há 10 anos, não podia ser mais exacta, uma vez que os números oficiais chegavam a apontar para um decréscimo da criminalidade.
Convém abrir aqui um parêntesis para abordar brevemente a própria instabilidade destas estatísticas oficiais, uma vez que elas se referem apenas a queixas apresentadas junto das polícias (PSP, Judiciária e GNR) que, de uma forma ou outra, estão elas próprias dependentes de factores diversos, como a “visibilidade” de certos crimes, ou mesmo os custos emocionais que determinada queixa acarreta. Um exemplo concreto: após a abertura e consequente mediatização do Processo Casa Pia, o número de queixas contra pedófilos aumentou exponencialmente, não porque Portugal subitamente se transformara num país de violadores de crianças, mas simplesmente porque o processo em si sensibilizara a sociedade, lançando um holofote intenso para numa área onde as queixas-crime tinham ficado durante décadas muito aquém de traduzir um retrato fiel da realidade social. Outro exemplo é dado pelos casos de violação, onde alterações significativas no Código Penal modernizaram a padronização e enquadramento legal do crime, retirando à mulher violada o estigma que uma legislação quasi-medieval lhe conferira durante séculos. Nestes dois casos, tal como em muitos outros, um crescimento súbito nas estatísticas oficiais do crime não reflecte necessariamente um aumento da prática do crime em si, mas pode simplesmente ser o resultado prático da sua maior visibilidade social.
Regressando a 1995 e à reportagem de fundo sobre a tal “onda de criminalidade”. A menos de dois dias do fecho da edição, passei uma noite numa esquadra da periferia de Lisboa – aquela que supostamente seria a “Hill Street” da capital –, de sexta-feira para sábado, procurando estórias que supostamente ilustrassem a premissa maior do trabalho. Depois de oito horas a deambular por bairros degradados em carros-patrulha, com polícias afáveis dispostos a mostrar a dureza da zona (“isto tem dias”, diziam eles, fazendo questão de acrescentar que “mesmo assim não é tão mau como o pintam”), regressei à redacção com um bloco de apontamentos recheado de nada. Ou melhor, de nada do que se queria para a reportagem em causa. E foi isso que escrevi. O meu texto acabou por não ser publicado, porque simplesmente não se encaixava no fluxo que desde início se pretendera imprimir ao trabalho. A ideia central da reportagem, afinal, não era uma tentativa de perceber se existia ou não uma “onda de criminalidade”. A ideia tinha sido simplesmente a de transpor para as páginas da revista uma versão escrita do que debitavam as televisões. Era o “jornalismo por arrastamento” no seu melhor. E teve direito a capa, na edição 102, de 2 de Março de 1995.
Mesmo assim, gostava de acrescentar que a redacção desta revista foi a mais profissional, competente e democrática em que trabalhei ao longo dos meus 16 anos de jornalismo.
Obviamente, escrevo isto no seguimento de várias leituras sobre o agora célebre “arrastão” de Carcavelos e da forma como uma cobertura mediática desastrosa moldou a percepção dos acontecimentos – um tema dissecado de forma bastante lúcida no blog O Céu Sobre Lisboa, com uma série de posts que merecem uma leitura atenta: aqui, aqui, aqui, aqui e aqui (a ler ainda este post de Miguel Vale de Almeida).
Foi através d’O Céu Sobre Lisboa que cheguei ao documentário de Diana Andriga Era uma vez um Arrastão (que parece estar temporariamente off-line).

Por último, queria apenas notar a ironia suprema que transpira do nome de família de um dos organizadores da manifestação xenófoba e racista “pós-arrastão” realizada em Lisboa. Entre os gritos de “Portugal aos portugueses”, Mário Machado evocava “a expulsão dos mouros e dos espanhóis” como exemplo a seguir “para os pretos”. Esqueceu-se dos judeus. Sem o saber, o senhor Mário Machado (um assassino condenado e cadastrado) regurgitava alguns dos mesmos argumentos primários usados há cinco séculos pelos antisemitas para expulsar os judeus portugueses – ou melhor, para os obrigar a uma conversão ao catolicismo imposta sob pena de morte. No vocabulário racista e antisemita, o estrangeiro é, acima de tudo, definido pela diferença – na cor da pele, na religião, nos costumes. No caso dos judeus portugueses, que se fixaram pela primeira vez no espaço geográfico de Portugal há mais de 2500 anos, nem as inúmeras gerações nascidas no país, ainda antes da formação da nacionalidade, garantiam que não deixassem de ser vistos como estrangeiros. E foi assim que, há pouco mais de 500 anos, a família ancestral do senhor Mário Machado foi forçada a esconder o seu judaísmo sob um catolicismo de fachada que lhe mereceria a alcunha de “marranos”. Inconsciente da sua própria história familiar, Mário Machado é hoje um neo-nazi encartado, um racista e antisemita que cospe na sepultura dos seus próprios antepassados. (Ver ainda Jewish Encyclopedia – Machado Portuguese Jewish Family Name e Uriah (Machado) Levy – O judeu português que salvou Monticello).


Monticello, mansão de Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos: inscrição no túmulo de Raquel Machado (1769-1839), sepultada em Monticello, explicando a ligação das famílias judaicas Levy e Machado à propriedade. O original ampliado pode ser visto aqui, acompanhado por uma explicação.

Notas da blogosfera

Leitura mais do que recomendada: A new translation of Pessoa: a review, um comentário de Zackary Sholem Berger à nova edição de uma selecção de poemas de Fernando Pessoa traduzidos para inglês por David Butler. Berger, ele próprio poeta e tradutor, parece não ter ficado muito impressionado com o resultado final. E explica porquê.

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Na mesma altura em que se anuncia a desventurada implosão do Barnabé, um lote de blogs excelentes celebrou o segundo ano de existência, garantindo a continuidade das boas leituras. Um imenso abraço agradecido para para os autores de A Natureza do Mal, Terras do Nunca, Memória Virtual, Opiniondesmaker, A aba de Heisenberg, Pantalassa e A Destreza das Dúvidas (este um primeiro aniversário com direito a retorno).
Já veterana, no outro lado do mundo, em Tóquio, a doce Fabiola Mendonça da Silva escreve o seu De Cabeça para Baixo há quatro anos (o aniversário foi a 23 de Junho e o beijo já vai muito atrasado). E já agora, e porque na Judiaria não se bloga ao Sábado, aqui ficam os parabéns antecipados para Rui Cerdeira Branco: o seu Adufe faz amanhã dois anos.
Obrigado a todos e votos de מזל טוב (parabéns e boa sorte!)

Emídio Guerreiro

Dignidade

Chegou a meia-noite.
As palavras nunca foram meras palavras
para quem, com as próprias mãos, lutou ao meio-dia
contra carmona,
contra franco,
contra hitler,
contra salazar.
Pela Dignidade.
Nas palmas das mãos
do homem de quem o meu pai tem o nome
ficaram gravadas as linhas de um mapa –
a geografia da margem justa da História.

Em memória de Emídio Guerreiro (1899-2005)

Obituário distribuído pela Agência Lusa:

Uma vida em três séculos

Ao longo da sua longa vida, que atravessou três séculos, Emídio Guerreiro assistiu à implantação da República, viu nascer e morrer a ditadura, de que foi um dos mais destacados combatentes, atravessou duas guerras mundiais e participou na construção do regime democrático em Portugal.
Emídio Guerreiro nasceu a 6 de Setembro de 1899, em Guimarães, numa família de ideais republicanos, que acolheria como seus durante toda a vida.
Frequentou a Universidade do Porto, onde cursou Matemática, depois de ter lutado como voluntário na I Guerra Mundial – o seu primeiro encontro com a conturbada história do século XX.
Em 1926, um golpe de Estado impõe a ditadura em Portugal, mas a 3 de Fevereiro do ano seguinte Emídio Guerreiro junta-se aos revoltosos que, em vão, tentaram derrubar os golpistas. Em 1928, funda no Porto a loja maçónica “A Comuna”, do Grande Oriente Lusitano Unido.
Em 1932, escreve um panfleto contra o então presidente Óscar Carmona, acabando por ser detido, mas um ano depois conseguiria evadir-se, iniciando um exílio que se prolongaria por mais de 40 anos. A primeira paragem é em Espanha, onde dá aulas, mas o início da guerra civil leva-o a combater ao lado das forças republicanas.
Em 1939, com a vitória dos franquistas, fixa-se em França, passando à clandestinidade quando os nazis invadem o país, durante a II Guerra Mundial, tendo sido membro activo da resistência à ocupação alemã. Findo o conflito, Emídio Guerreiro voltou ao ensino de Matemática, desta vez na Academia de Paris.
Na capital francesa, funda em 1967, juntamente com outros exilados políticos, a LUAR, Liga Unificada de Acção Revolucionária, para combater o regime salazarista.
De regresso a Portugal, depois do 25 de Abril, foi um dos fundadores do PPD. Em 1975 foi eleito secretário-geral, tendo liderando o partido durante o período de ausência de Sá Carneiro no estrangeiro, por doença. Deputado à Assembleia Constituinte, viria a afastar-se do PPD, descontente com o rumo que o partido estava a seguir, e nos últimos anos aproximou-se do PS.
Em entrevista ao “Expresso”, por ocasião do centenário do seu nascimento, Emídio Guerreiro elegeu a dignidade humana como o ideal que norteou a sua vida. “Como não pode haver dignidade se não houver liberdade, naturalmente que eu lutei pela liberdade. Lutei contra todos os regimes prepotentes, lutei contra todas as ditaduras”, afirmou.

קדיש אבלים

יתגדל ויתקדש שמה רבא בעלמא די ברא כרעותה וימלך מלכותה, בחייכון וביומיכון ובחיי דכל בית ישראל, בעגלא ובזמן קריב. ואמרו אמן. יהא שמה רבא מברך לעלם ולעלמי עלמיא. יתברך וישתבח ויתפאר ויתרומם ויתנשא ויתהדר ויתעלה ויתהלל שמא דקדשא בריך הוא לעלא מן כל ברכתא ושירתא תשבחתא ונחמתא, דאמירן בעלמא ואמרו אמן .יהא שלמא רבא מן שמיא, וחיים טובים עלינו ועל כל ישראל ואמרו אמן .עשה שלום במרומיו, הוא יעשה שלום עלינו, ועל כל ישראל ואמרו אמן

Autodefesa

Santob de Carrion

O meu cabelo cinza com cuidado tinjo,
Não que lhe odeie o tom,
Nem sequer porque finjo
Ser mais jovem do que na verdade sou

Mas isto faço por palavras que temo
De homens a quem quero bem,
Que procuram na minha branca cabeça
Sabedoria que ela não tem.

Santob de Carrion [Shem Tov ben Isaac ibn Ardutiel] (século XIV), poeta, escritor e filósofo. Judeu castelhano nascido na cidade de Carrion de los Condes.

Julius Lester

Dezembro de 1982
No Inverno de 1974, estava eu num retiro no mosteiro dos Trapistas de Spencer, em Massachusetts, quando um monge me disse: “Quando souberes o nome pelo qual Deus te conhece, saberás quem és.”
Procurei esse nome com a paixão de quem busca a Amada Eterna. Chamei a mim próprio Pai, Escritor, Professor, mas Deus não respondeu.
Agora sei o nome pelo qual Deus me chama. Sou Yaakov Daniel ben Avraham v’Sarah.
Tornei-me aquele que sou. Sou aquele que sempre fui. Já não me deixo enganar pela cara negra que me olha do outro lado do espelho.
Sou um judeu.

Retratos – Judeus na Primeira Pessoa


Dezembro de 1982
No Inverno de 1974, estava eu num retiro no mosteiro dos Trapistas de Spencer, em Massachusetts, quando um monge me disse: “Quando souberes o nome pelo qual Deus te conhece, saberás quem és.”
Procurei esse nome com a paixão de quem busca a Amada Eterna. Chamei a mim próprio Pai, Escritor, Professor, mas Deus não respondeu.
Agora sei o nome pelo qual Deus me chama. Sou Yaakov Daniel ben Avraham v’Sarah.
Tornei-me aquele que sou. Sou aquele que sempre fui. Já não me deixo enganar pela cara negra que me olha do outro lado do espelho.
Sou um judeu.

Julius Lester
, escritor premiado, fotógrafo, catedrático, activista pelos direitos civis da comunidade negra americana. Extraido do livro autobiográfico Lovesong: Becoming A Jew, 1988.

::A LER:: Beth El Synagogue Lay Religious Leader – Julius Lester / University of Massachusetts :: Judaic & Near Eastern Studies – Julius Lester / Downhomebooks.Com Julius Lester interview / BCCB-True Blue Julius Lester / Scholastic.com – Julius Lester’s Biography / Children’s Literature: Julius Lester

As invenções modernas (um pequeno conto)


Podemos aprender sempre algo com todas as coisas”, disse o rabi de Sagadora a um dos seus alunos. “O mais insignificante dos objectos pode dar-nos uma lição, e não apenas o que foi criado por Deus. As criações do homem podem também ensinar-nos.”
“Que podemos nós aprender com um comboio?”, perguntou-lhe o aluno com desconfiança.
“Que tudo se pode perder num segundo.”
“E com o telégrafo?”
“Que cada palavra é contada e tem o seu preço.”
“E o telefone?”
“Que tudo o que dizemos pode chegar muito longe.”

Rabino Abraham Yaakov de Sadagora (Moldávia, finais do século XIX)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

Notas da blogolândia e arredores

The Song Remains the Same é o título que Mário Pires deu à galeria online das suas fotografias dedicadas à música. Iimprescindível.

Hugo Neves da Silva lançou o projecto BlogReporters, um espaço destinado a servir de veículo ao trabalho de jornalistas (ou candidatos a jornalistas) à procura de emprego. Uma iniciativa a seguir atentamente.

O Blogo Existo, de João Pinto e Castro, fez dois anos. Um dos blogs mais lúcidos da nossa praça. Muitos parabéns!

Por último, recomendo a leitura da entrevista a Oriana Fallaci publicada ontem no Wall Street Journal, intitulada Prophet of Decline. Aos 76 anos, fragilizada por um cancro quase em fase terminal, a lendária jornalista italiana vive aqueles que poderão ser os últimos meses da sua vida envolvida num polémico processo judicial por “difamação” (vilipêndio é o termo jurídico italiano aplicado ao caso), movido por grupos islâmicos que querem ver banido o seu livro La forza della Ragione.

Grandes citações

Quando me falaram em casamento homossexual disse logo que era contra. Mas depois mudei de opinião quando me explicaram que, afinal, não seria obrigatório e que eu podia continuar casado com a minha mulher.”

Jon Stewart (Jonathan Stuart Leibowitz), comediante, apresentador do The Daily Show. Judeu norte-americano.

O Surdo (um pequeno conto)


Violiniste bleu (detalhe), Marc Chagall, 1947

O rabino Moshe Hayim Efraim, o neto do Baal Shem Tov, escreveu:
“Ouvi esta história do meu avô: um dia um violinista tocava na rua uma melodia tão bela e tão doce que todos os que por ele passavam começavam a dançar, até que se juntou em volta dele uma pequena multidão de gente. Todos dançavam. Nesse altura passou pela rua um homem surdo, que nada conhecia de música. Sem poder ouvir a beleza sublime do som do violino, tudo o que ele viu foi gente aos saltos, gesticulando e comportando-se como loucos.”

Pequeno conto da escola mística do rabino Israel Ben Eliezer, conhecido como o Baal Shem Tov (Polónia 1698-1760), o Mestre do Bom Nome, citado em Die Legende des Baal Schem [As Lendas de Baal Shem], Martin Buber, Frankfurt 1908.
Um conto dedicado a Bruno Sena Martins, pelo segundo aniversário do seu excelente Avatares de um Desejo.

Características comuns em estados pós-genocídio

Jonathan Edelstein escreveu um post absolutamente indispensável: On the commonalities of post-genocidal states: a rough sketch, um ensaio onde se estabelecem termos de comparação entre as experiências de Israel, da Arménia e do Ruanda, três estados que vivem com a pesada herança deixada pelo genocídio. No texto, Jonathan Edelstein (que explica as razões para a não inclusão de Timor-Leste neste grupo) desenvolve cinco noções básicas comuns – um forte sentido de pátria e refúgio; uma ética de autodefesa; ligação a um protector; problemas com os países vizinhos; e uma extrema reticência em confiar nas intenções de terceiros.
Escrito com extrema lucidez. Para ler com atenção.

A beleza das estrelas

Moisés ibn Ezra

Contemplo a beleza das estrelas
que cobrem a face dos céus,
Imagino-as como um jardim em flor –
Até que a alva alba sobe, como pomba,
Debaixo das asas de um corvo
Que esvoaça para longe.

Moisés ibn Ezra (1070-1138), filósofo, linguista e poeta medieval. Judeu de Granada.