Feliz Ano 5770 – שנה טובה

Esta noite, ao chegar o primeiro dia do mês hebraico de Tishri (תשרי), celebra-se o Ano Novo Judaico, Rosh Hashaná. Aqui ficam os votos tradicionais para este dia, dedicados aos leitores da Rua da Judiaria: Que possam ser inscritos no Livro da Vida e selados para um ano doce e cheio de paz. Votos de um bom ano 5770!

שתהיה לך שנה מתוקה נפלאה ומלאה בדברים טובים
שנה טובה

Tarantino, o Vingador

“Os filmes sobre o Holocausto mostram sempre os judeus enquanto vítimas”, diz ele, francamente exasperado pela falta de imaginação de Hollywood. “Já todos vimos essa história. Eu quero ver algo diferente. Vamos lá ver alemães que tremem de medo de judeus.”

— Quintin Tarantino, sobre o seu novo filme, Inglourious Basterds. Jeffrey Goldberg fala com ele e escreve sobre o filme num artigo imperdível da Atlantic Monthly, aqui: Hollywood’s Jewish Avenger

Os meus mortos

‘Só os mortos não morrem’

Só eles a mim me restam, são tranquilos e leais
os que a morte não pode matar mais com seus punhais.

Ao declinar da estrada, no final do dia
em silêncio se acercam, em sossego seguem minha via.

Verdadeiro pacto é o nosso, nó que o tempo não desmente.
Só aquilo que perdi é meu eternamente.

Rahel (Bluwstein), 1890 – 1931.
(tradução minha)

Isaac D’Israeli: Jews in Portugal

Recordo o meu espanto ao ler de passagem os Anais da Real Academia de Lisboa, dos dias de hoje, e encontrar porções consideráveis ocupadas sobre os temas da erudição judaica e de escritores judeus, da primeira época da monarquia portuguesa até ao século XVII. Nenhuma outra Academia nacional regista este conhecimento recôndito e este grande deleite em seus autores judeus. O filosófico físico da embaixada elucidou-me; assegurou-me ele que a afeição pela religião de seus pais era excessiva, e que muitas personalidades públicas, na agonia das suas consciências religiosas, tinham frequentemente escapado para as sinagogas de Inglaterra ou da Holanda. Era este sentimento que, não obstante os seus Autos da Fé, o próprio governo não podia mais disfarçar. Tenho agora à minha frente vários decretos, o último deles datado de 1773. Aqui é formalmente abolida a odiosa distinção entre Cristãos Novos e Cristãos Velhos — que há tanto atormentava os portugueses meio judaizados. Até permite aos filhos de Moisés celebrarem as suas festas; proíbe a compulsão ao baptismo, liberta-os de todos os impostos até aqui aplicados aos judeus e faz honrosa menção, por nome, de certos oficiais do Estado que eram judeus, que tinham até sido primeiros-ministros e tesoureiros; declara finalmente que “o sangue dos hebreus é o sangue dos nossos apóstolos, dos nossos diáconos, dos nossos presbíteros e dos nossos bispos.” Tudo isto pode ser confirmado por uma recente observação casual de Madame Junot, a Condessa de Abrantes. Escreve ela: “A Nação Portuguesa, apesar de três partes judia, é obstinadamente reticente em admitir entre si qualquer pessoa que não traga boas provas da pureza do seu sangue.”

Isaac D’Israeli (1766 —1848), Genius of Judaism, pág. 242-5

“O Trompete de Miles Davis”


É sempre difícil escrever sobre a obra de alguém de quem gostamos. É sempre fácil deixar que a amizade, as cumplicidades do quotidiano, as private jokes e um sem número de outras condicionantes próprias da proximidade toldem a visão e impeçam o necessário distanciamento exigido pela objectividade e pela justiça. Ainda assim, há excepções a esta regra que nem sequer o é. Quando um livro, um romance ou uma novela, neste caso, nos consegue convencer que transporta em si um universo que transcende quem o escreve, aí, a relação do leitor com o texto ganha independência e a tarefa de escrever sobre a obra liberta-se daquelas que podiam ser as restrições iniciais implícitas ditadas pela amizade.
Foi exactamente isto que senti ao voltar a página 260 do manuscrito intitulado O Trompete de Miles Davis, da autoria de Francisco Duarte Azevedo — o facto dele ser meu amigo, talvez o meu melhor amigo, se é que gradações aqui têm algum significado, pouco ou nada influiu na minha relação com o romance. Só por si, tanto o novelo narrativo como as personagens que dá a conhecer fazem de O Trompete de Miles Davis um texto cativante. Só isso já seria suficiente para despertar a atenção e a agarrar, mas a tudo isto junta-se o facto de ser bastante bem escrito — temperado aqui e ali com rasgos de um humor pícaro e de uma introspecção que raramente se conseguem casar entre a capa e a contra-capa do mesmo romance. Depois são também os lugares: a cidade de Newark — a pouco menos de 15 quilómetros de Nova Iorque —, o Ironbound, a Ferry Street, ícones da geografia e das emoções da imensa comunidade portuguesa emigrante de New Jersey. Na prática, se não estou enganado, este é o primeiro romance a retratar a diáspora lusitana destas paragens dos Estados Unidos. Nova Iorque também lá está, tal como o jazz, ambos catalogados num registo nítido reservado às paixões.
Usando os contornos da tradicional narrativa de um policial, como artifício para contar histórias que pouco ou nada têm a ver com as minúcias investigativas a que nos habituaram os CSI que vão enxameando os serões televisivos, O Trompete de Miles Davis tem como personagem principal um detective sem nome, um luso-americano introspectivo, um “coleccionador de rotinas”, como o descreve Francisco, que nos vai contanto os passos da sua vida e a forma como ela se altera a partir do dia em que o trompete verde de Miles Davis desaparece da biblioteca do Instituto de Estudos de Jazz da Rutgers University, em Newark (ver Institute of Jazz Studies, Rutgers University Libraries). Pelo meio, por entre uma trama por vezes leve e divertida, este detective é forçado a encarar coisas tão austeras como a morte e a deterioração (da cidade, do amor, das relações, dos corpos). Mas não se pense que O Trompete de Miles Davis é um romance pesado, antes pelo contrário. O grande trunfo que Francisco Duarte Azevedo tem ali é ter sido capaz de transportar numa narrativa descontraída, trabalhada com os sabores da linguagem do quotidiano, um romance fortemente introspectivo que merece sem dúvida absolutamente nenhuma ser chamado Literatura.

(a meu pedido, o Francisco acedeu a que desse a conhecer aqui, em pré-publicação e estreia absoluta, um pequeno excerto da abertura do romance)

O Trompete de Miles Davis

Francisco Duarte Azevedo

I PARTE
1.

Uma manhã de fevereiro dois mil e sete entrei no escritório como habitualmente. E antes de entrar, poli a placa metálica com o meu nome, fixei o horizonte indigo ao fundo do corredor, rodei o trinco da porta e enfrentei a confusão dos montículos de jornais e revistas que Mary Sue espalhava estrategicamente na sala de espera para ser mais fácil pegar num exemplar sem uma pessoa ter de se levantar do seu lugar. Todos os montículos estavam ao alcance de um braço ou da inclinação do tronco. Não era preciso tanto. A sala permanecia vazia a maior parte do tempo e nem havia muito para fazer.
Eu tinha comprado uma mesa de centro num yard sale, uma mesa quadrada, em madeira, meio rústica que Mary Sue detestava e cobria com revistas e jornais lidos e remexidos para que não se vissem senão as quatro pernas de trinta centímetros de altura em forma de traves de baliza de um campo de futebol de salão, carunchosas e repassadas de verniz mate. Sobre a mesa pairava o cheiro fresco de papel impresso vindo do exemplar do Star Ledger liberto dos periódicos empilhados no quiosque do lobby level. Era uma loja gerida por um indiano que, tendo o negócio às moscas o dia inteiro (o maior afluxo de clientes via-se na primeira hora da manhã), mudava permanentemente de lugar todos os recheios para dar a sensação de uma grande azáfama. Havia também pastilhas elásticas e medicinas de venda livre, aspirinas, tylenol, advil, aleve, preservativos, chocolates, sumos, bolachas, tostitos, caramelos, postais de felicitações e muitas outras coisas que não valiam um carago. Havia uma máquina de levantamentos automáticos com um aviso pedindo desculpas pela inconveniência de nunca funcionar.

O exemplar fora posto num ponto cartográfico impossível de contornar, estava ali para chamar a atenção e travar as minhas passadas largas e apressadas. Tinha sido empurrado para a sala de entrada por um dos virtuosos ou até, quem sabe, um passa-paredes divertido e fugaz. Um título a preto, em caixa, ocupava o cabeçalho da primeira página e era difícil não o ver.

Miles Davis trumpet stolen
Roubado o trompete de Miles Davis

Não esperava voltar a falar sobre jazz. Não esperava de verdade. Eu já não vivia com Glory e Willy também já não estava ali. Deixei de ter com quem falar sobre jazz. A possibilidade de voltar a falar de jazz era muito pequena. Mas aquela notícia alterou tudo.
Vi muitas vezes esse trompete exposto na vitrina do instituto de jazz da Dana Library e imaginava os sons que dele se desprendiam como a batida de tranquilas vagas de maré na vazante rodopiando e retrocedendo e voltando a rodopiar. Comecei a criar hologramas de Miles por toda a parte e, onde quer que estivesse, ele tornara-se uma espécie de presença viva competindo com divindades e cores. Vi sempre cores, uma imperturbável e explosiva mistura de cores nas composições de Miles.
(…)

Mais vale tarde que nunca…

Pronto, ainda sem perceber muito bem a coisa (cheirando-lhe os cantos como um gato em casa nova), mas já fascinado com as possibilidades, resolvi aderir ao Twitter. Os leitores que desejarem, e tiverem paciência, podem seguir-me em http://twitter.com/nguerreiroj. Lá twitterei diariamente em três línguas (português, inglês e hebraico), escrevendo sobre tudo e sobre nada. O meu Twitter, é claro, encerra para o shabbat.
Shabbat shalom!

Shameless self-promotion …

Acaba de ser posto à venda em Portugal, com chancela da Quetzal, O Velho Expresso da Patagónia, de Paul Theroux, a minha primeira tradução literária — lançado exactamente 30 anos depois da sua edição original americana. A experiência da tradução (que tinha já sido anunciada em Novembro no blogue da revista LER, ver Paul Theroux – LER), não podia ter sido melhor. Arrisco mesmo confessar que esta foi a minha mais gratificante experiencia profissional — ao ponto de me ter feito repensar muita coisa; afinal a vida é demasiado curta para que não se invista verdadeiramente no que se gosta. Prometo contar novidades em breve…
Paul Theroux esteve na semana passada em Matosinhos, onde participou no IV Encontro Literatura em Viagem (ver IOL Diário – 40 escritores falam de viagens em Matosinhos e Notícia – C.M. Matosinhos: LEV com vasto público dos «oito aos oitenta»). Aproveitando a ocasião, Isabel Coutinho e Paulo Moura fazem-lhe uma deliciosa e imperdível entrevista, publicada na última edição da Ípsilon: Paul Theroux: “Quero que me aconteça alguma coisa hoje” (Isabel Coutinho, aliás, estreou o seu Sony Reader com a leitura de O Velho Expresso da Patagónia).
O Ilídio Martins aproveitou ainda o lançamento do livro como pretexto para escrever sobre o estado da literatura de viagens entre os escritores portugueses, no seu Esmaltes e Jóias

::A LER:: Do Velho Expresso da Patagónia ao Metro do Porto – Quetzal / "Un hombre feliz no puede ser escritor" · ELPAÍS.com / "Problema do Mundo é ter gente a mais" – JN / Paul Theroux reedita «O Velho Expresso da Patagónia» / Paul Theroux, do metro de Boston à Patagónia – RTP Notícias / Velho Expresso da Patagónia – Paul Theroux « Novidades Editoriais / PaulTheroux.com {} Home / Paul Theroux – Wikipedia

::A VER:: Escritor Paul Theroux lança obra em Portugal – RTP Notícias, Vídeo

::PARA COMPRAR:: Bertrand / Wook.pt / Fnac / Cultura e Saberes

200 anos de Mendelssohn

Este ano, assinalam-se os 200 anos do nascimento de Felix Mendelssohn (1809–1847) , um compositor notável de ascendência judaica, neto do filósofo Moses Mendelssohn, o “pai” do chamado iluminismo judaico. Neste vídeo, outro judeu magnífico, o violinista israelita Itzhak Perlman, então com 13 anos (sim, 13 anos!), interpreta o famoso Concerto para Violino em Mi menor de Mendelssohn (ainda hoje uma das minhas peças musicais favoritas).

Anjos — יום השואה , יום הזיכרון לשואה ולגבורה

por caminhos impensáveis
anjos e anjos e anjos

eram pegadas, legiões, bandos,
autómatos caminheiros, peregrinos
sem bordão, que as promessas
vivas navegavam entre os corpos
e as incertezas, pisavam a lama
tijolos de adobe, inconsistente
desespero do sangue dos braços
caídos, sem forças para erguer
clamores, lamentos inauditos,
inaudíveis fronteiras de aço,
gritos de nevoeiro rasgado,
urgência de um clarão
para lá do abandono. porquê

… as eternas diferenças
intemporais?! anjos

Poema de João S Martins, aguarela de Fernando Silva (inéditos).

Hoje, 21 de Abril de 2009, assinala-se o Yom HaShoá, o Dia da Memória do Holocausto. A cada passo, o presente recorda-nos a necessidade premente de nos tornarmos — cada um de nós — guardiões da Memória. Porque essa Memória é a voz de milhões de vozes. É a nós que nos cabe garantir que não foram caladas em vão.
Um muito obrigado ao João Martins e ao Fernando Silva pela generosidade dos seus talentos.

À minha mãe

Procuro,
folheio livros e livros,
em busca de um poema,
de um parágrafo, de uma frase,
que me falasse de ti
sem que eu tivesse que procurar-te
nas minhas entranhas.
Celan, Heine e Ginsberg não te conheceram,
e nem nos seus mais tristes versos
contam a falta que me fazes.
Mas as palavras dos outros são sempre
mais fáceis. Mais distantes.
Procurei,
em livros e livros,
um poema, um parágrafo, uma frase,
que me resguardasse da mágoa,
como janela de vidro protegendo o rosto
da chuva.
Mas nada do que leio
chega para contar o que sinto.
I miss you
Perco-te. Perdi-te.
Mais do que saudade, que a saudade,
a dor verdadeira está na eternidade
da tua ausência. I miss you
Perco-te. Perdi-te.
Nada que eu faça — nem que galgue quilómetros,
nem que nade o Atlântico — fará com que
me beijes novamente a testa,
que me chames outra vez filhote.

Fecho os livros. Não há poemas
que me possam abrigar a ferida em chaga
que faz hoje dois anos se me abriu na alma.
Com o rosto molhado de lágrimas, desvio
o olhar para a janela. Fixando as luzes da cidade
sob o fundo negro do céu e do rio, vejo o teu rosto
como se estivesses ao meu lado.
Instintivamente levo as mãos aos olhos,
para os secar.
Não quero que me vejas chorar.

N.G.J.
New York, 26 de Novembro de 2008.

Os judeus portugueses de Newport (I)

A Sinagoga Touro

“A Sinagoga Touro não só é a mais antiga sinagoga da América, mas também um dos seus mais antigos símbolos de liberdade. Não há melhor tradição do que a história das contribuições da Sinagoga Touro para os objectivos de liberdade e justiça para todos.”
John F. Kennedy, Presidente dos Estados Unidos,
15 de Setembro de 1963


Ostentando o nome de uma família judaica luso-americana com raízes em Tomar, a Sinagoga Touro, de Newport, Rhode Island, foi dedicada a 7 de Dezembro de 1763, no primeiro dia de Hanuká, e permanece hoje como a mais antiga sinagoga dos Estados Unidos — a única do período colonial que ainda sobrevive e se mantém em actividade. A congregação foi fundada em 1658 (apenas 4 anos após a chegada dos primeiros judeus portugueses a Nova Iorque) por judeus sefarditas, na sua maioria marranos e descendentes de marranos que inicialmente tinham fugido da Inquisição portuguesa e que escapavam agora de perseguições sofridas nas Caraíbas às mãos dos espanhóis. Entre os fundadores da comunidade contavam-se Mordecai Campanal, Moisés Israel Pacheco, Simão Mendes e Abraão Burgos. O líder religioso chamava-se Isaac Touro — e um dos seus filhos, Judah Touro ficaria para a história como um dos maiores beneméritos norte-americanos do século XIX. Mas sobre ele prometo escrever outro dia.
Inicialmente impossibilitados de construir uma sinagoga própria, a comunidade de judeus portugueses de Newport reunia-se em casas particulares nas noites de sexta-feira e nas manhãs de sábado.
Durante o seu primeiro século de permanência em Rhode Island (a primeira colónia das 13 colónias originais americanas a declarar independência da Grã-Bretanha), os judeus portugueses prosperaram, tornando-se artesão e mercadores respeitados na colónia esmagadoramente protestante. O seu sucesso atraiu um influxo migratória de judeus sefarditas e asquenazim (judeus da Europa Oriental, com raiz na palavra hebraica Asquenaz, que significa Alemanha), que se juntaram à comunidade inicial, adoptando em conjunto os rituais religiosos tradicionais dos judeus de Portugal e Espanha. Com o crescimento da comunidade veio a necessidade de encontrar um local permanente para a realização dos serviços religiosos, e para isso voltaram-se para outras comunidades de judeus portugueses. A primeira resposta veio da congregação Shearith Israel, de Nova Iorque, a mais antiga do país, que enviou uma generosa contribuição de £149.060. Outras congregações de judeus portugueses — nomeadamente da Jamaica, Curaçao, Suriname e Londres — contribuíram também com ajuda financeira para a construção da sinagoga.
Peter Harrison, o mais famoso arquitecto americano do século XVIII, ofereceu-se para fazer o projecto do edifício, que demorou quatro anos a construir, sendo dedicado a 2 de Dezembro de 1763 pelo rabino da congregação, o luso-americano Isaac Touro.
A cerimónia de dedicação do edifício contou com a presença de muitos notáveis entre a elite protestante de Newport. A sinagoga Touro é considerada uma das mais emblemáticas obras de Peter Harrison, entre as quais se incluem a Kings Chapel, de Boston, e a Igreja de Cristo, em Cambridge, ambas no estado de Massachussetts.

Com a sinagoga, e um cemitério adquirido anos antes, a congregação portuguesa podia agora cumprir três das funções essenciais da vida comunitária judaica — os rituais religiosos propriamente ditos, a educação das crianças e os funerais. A congregação de judeus portugueses de Newport escolheu para si o nome de Yeshuat Israel (Salvação de Israel).
Durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos, e por causa do bloqueio britânico ao porto da cidade, grande parte da comunidade escapou para Nova Iorque. Findo o conflito, a vitalidade da congregação reacendeu-se. Pelo facto de durante a guerra muitos dos edifícios públicos da cidade terem ficado danificados, a Sinagoga Touro foi utilizada também para reuniões da Assembleia Geral de Rhode Island e do Supremo Tribunal estadual.
Em 1790, a convite do rabino Moisés Seixas, o Presidente George Washington visita esta sinagoga de judeus portugueses e dias depois lhes envia uma carta que ficaria para a história, reafirmando os princípios de igualdade e tolerância religiosa que norteavam a Constituição americana: “(…) Porque felizmente, o governo dos Estados Unidos, que não confere sanção à intolerância, nem à perseguição assistência (…)”. Estas palavras eram escritas um ano antes da Declaração de Direitos, que mesmo assim apenas se aplicava ao governo federal.

A par da Sinagoga Touro, o cemitério da congregação de judeus sefarditas de Newport é outro testemunho da dimensão e peso da comunidade de Newport. No Verão de 1852, o poeta Henry Wadsworth Longfellow ficou tão impressionado com o cemitério sefardita que o imortalizou num dos seus mais reconhecidos poemas, publicado na Putnam’s Monthly Magazine, em Julho de 1854:

The Jewish Cemetery at Newport

How strange it seems! These Hebrews in their graves,
Close by the street of this fair seaport town,
Silent beside the never-silent waves,
At rest in all this moving up and down!

The trees are white with dust, that o’er their sleep
Wave their broad curtains in the south-wind’s breath,
While underneath these leafy tents they keep
The long, mysterious Exodus of Death.

And these sepulchral stones, so old and brown,
That pave with level flags their burial-place,
Seem like the tablets of the Law, thrown down
And broken by Moses at the mountain’s base.

The very names recorded here are strange,
Of foreign accent, and of different climes;
Alvares and Rivera interchange
With Abraham and Jacob of old times.

“Blessed be God! for he created Death!”
The mourners said, “and Death is rest and peace;”
Then added, in the certainty of faith,
“And giveth Life that nevermore shall cease.”

Closed are the portals of their Synagogue,
No Psalms of David now the silence break,
No Rabbi reads the ancient Decalogue
In the grand dialect the Prophets spake.

Gone are the living, but the dead remain,
And not neglected; for a hand unseen,
Scattering its bounty, like a summer rain,
Still keeps their graves and their remembrance green.

How came they here? What burst of Christian hate,
What persecution, merciless and blind,
Drove o’er the sea — that desert desolate–
These Ishmaels and Hagars of mankind?

They lived in narrow streets and lanes obscure,
Ghetto and Judenstrass, in mirk and mire;
Taught in the school of patience to endure
The life of anguish and the death of fire.

All their lives long, with the unleavened bread
And bitter herbs of exile and its fears,
The wasting famine of the heart they fed,
And slaked its thirst with marah of their tears.

Anathema maranatha! was the cry
That rang from town to town, from street to street;
At every gate the accursed Mordecai
Was mocked and jeered, and spurned by Christian feet.

Pride and humiliation hand in hand
Walked with them through the world where’er they went;
Trampled and beaten were they as the sand,
And yet unshaken as the continent.

For in the background figures vague and vast
Of patriarchs and of prophets rose sublime,
And all the great traditions of the Past
They saw reflected in the coming time.

And thus forever with reverted look
The mystic volume of the world they read,
Spelling it backward, like a Hebrew book,
Till life became a Legend of the Dead.

But ah! what once has been shall be no more!

The groaning earth in travail and in pain
Brings forth its races, but does not restore,
And the dead nations never rise again.


No seu bloco de notas, enquanto caminhava entre as campas, Longfellow foi escrevendo os nomes dos judeus portugueses ali sepultados. Professor de Românicas e Línguas Modernas em Harvard, o poeta ficou fascinado com a conjugação dos sobrenomes portugueses aos nomes próprios hebraicos que ele se habituara a encontrar na Bíblia.

Escrevendo como um observador externo, Longfellow seria ainda indirectamente responsável por outra ligação dos judeus portugueses de Newport à poesia novecentista americana. Inspirada no poema de Henry Wadsworth Longfellow, Emma Lazarus — ela própria descendente de judeus portugueses — visita Newport em 1867 e, com apenas 18 anos de idade, escreve um poema sobre a Sinagoga Touro fazendo-o, desta vez, do lado de dentro da comunidade judaica sefardita dos Estados Unidos:

In the Jewish Synagogue at Newport

Here, where the noises of the busy town,
The ocean’s plunge and roar can enter not,
We stand and gaze around with fearful awe,
And muse upon the consecrated spot.

No signs of life are here: the very prayers,
Inscribed around are in a language dead,
The light of the “perpetual lamp” is spent
That an undying radiance was to shed.

What prayers were in this temple offered up,
Wrung from sad hearts that knew no joy on earth,
By these lone exiles of a thousand years,
From the fair sunrise land that gave them birth!

Now as we gaze, in this new world of light,
Upon this relic of the days of old,
The present vanishes, and tropic bloom
And Eastern towns and temples we behold.

Again we see the patriarch with his flocks,
The purple seas, the hot sky o’erhead,
The slaves of Egypt–omens, mysteries–
Dark fleeing hosts by flaming angels led.

A wondrous light upon a sky-kissed mount,
A man who reads Jehovah’s written law,
‘Midst blinding glory and effulgence rare,
Unto a people prone with reverent awe.

The pride of luxury’s barbaric pomp,
In the rich court of royal Solomon–
Alas! we wake: one scene alone remains
The exiles by the streams of Babylon.

Our softened voices send us back again
But mournful echoes through the empty hall;
Our footsteps have a strange, unnatural sound,
And with unwonted gentleness they fall.

The weary ones, the sad, the suffering,,
All found their comfort in the holy place,
And children’s gladness, and men’s gratitude
Took voice and mingled in the chant of praise.

The funeral and the marriage, now, alas!
We know not which is sadder to recall;
For youth and happiness have followed age,
And green grass lieth gently over all.

And still the shrine is holy yet,
With its lone floors where reverent feet once trod.
Take off your shoes as by the burning bush,
Before the mystery of death and God.

Leituras

As plantas arquitectónicas originais utilizadas, em 1941, para a expansão dos campos de extermínio de Auschwitz foram descobertas num apartamento em Berlim, segundo noticiou o tablóide alemão Bild. A data dos projectos agora encontrados é anterior à Conferência de Wannsee, ocorrida a 20 de Janeiro de 1942, provando que o extermínio dos judeus residentes na Europa fazia já parte dos planos da Alemanha nazi.
.::PARA LER::. Auschwitz – Die Baupläne: BILD druckt Dokumente des Grauens, die jetzt in Berlin gefunden wurden – Bild.de / Blueprints for Auschwitz camp found in Germany | Reuters / Auschwitz plans found in Berlin flat – Telegraph / Auschwitz documents not new, experts say | JTA.

5 anos de Judiaria

A Rua da Judiaria (ou simplesmente רחוב הרובע היהודי, em hebraico) fez cinco anos. No dia 27 de Outubro. Apesar de o fazer com duas semanas de atraso, não queria deixar de agradecer a todos os que por aqui vão passando, superando todas as minhas expectativas: ao fim destes cinco anos, a Rua da Judiaria já vai com 2.136.195 leitores (no momento em que escrevo e segundo o Sitemeter).
Um muito genuíno e sentido obrigado a todos, com a promessa de actualizações mais frequentes num futuro muito próximo.
!תודה רבה חברים

ADENDA: Um muito obrigado especial para todos os que felicitaram, em blogs e por email, o aniversário da Rua da Judiaria.

Miriam Makeba (1932 — 2008)

Morreu a Mãe África, Miriam Makeba, cujo nome completo tinha o tamanho do seu talento: Zenzile Makeba Qgwashu Nguvama Yiketheli Nxgowa Bantana Balomzi Xa Ufun Ubajabulisa Upaphekeli Mbiza Yotshwala Sithi Xa Saku Qgiba Ukutja Sithathe Izitsha Sizi Khabe Singama Lawu Singama Qgwashu Singama Nqamla Nqgithi.

.::PARA OUVIR::.

Erev Shel Shoshanim (“Noite das Rosas”), Miriam Makeba canta em hebraico.