Monumento à memória das vítimas do massacre de 1506


A Câmara Municipal de Lisboa vai discutir na quarta-feira, dia 31 de Outubro, a criação de um monumento evocativo da memória dos milhares de judeus portugueses assassinados na capital durante os sangrentos motins de 19, 20 e 21 de Abril de 1506. A proposta parte do vereador José Sá Fernandes, do Bloco de Esquerda, e conta com o apoio dos vereadores do PS e da vereadora Helena Roseta.
Segundo a proposta de Sá Fernandes o monumento será instalado no Largo de São Domingos, ao Rossio, local onde há 500 anos começaram os motins.
Aqui segue na integra a nota que nos chegou do gabinete do vereador José Sá Fernandes:

Na próxima sessão pública da CML, dia 31 de Outubro, Quarta-feira, o Vereador José Sá Fernandes irá propor a criação em Lisboa de um Memorial às Vítimas da Intolerância, evocativo do massacre judaico ocorrido na Cidade, em 1506, e de todas as vítimas que sofreram a discriminação e o aviltamento pessoal pelas suas origens, convicções ou ideias.
A 19, 20 e 21 de Abril de 1506, Lisboa foi palco do mais dramático e sanguinário episódio antijudaico de todos os que são conhecidos no nosso território, quando, por mera suspeita de professarem o judaísmo, foram barbaramente assassinados e queimados cerca de dois mil lisboetas.
Os acontecimentos tiveram início junto ao Convento de São Domingos (actual Largo de São Domingos) e culminaram em duas enormes fogueiras, no Rossio e na Ribeira, onde os crimes foram perpetrados.
O Vereador José Sá Fernandes propõe que a CML assinale estes acontecimentos, fazendo justiça póstuma a todas as vítimas da intolerância, naquilo que considera que constituirá uma afirmação inequívoca de Lisboa como cidade cosmopolita, multiétnica e multicultural, através da instalação de um Memorial às Vítimas da Intolerância, no Largo de São Domingos.
O memorial deverá ter, como elemento central, uma oliveira de grande porte e contemplará ainda uma lápide evocativa do massacre de 1506.
O arranjo urbanístico da área envolvente, a sua concepção, execução e instalação serão assegurados pelos serviços municipais.
De acordo com a proposta, a inauguração do Memorial deverá ter lugar no dia 19 de Abril de 2008, numa cerimónia promovida pela Câmara Municipal de Lisboa, para a qual serão convidadas todas as comunidades étnicas e religiosas da Cidade.
O Vereador José Sá Fernandes congratula-se pelo facto dos Senhores Vereadores do PS e da Senhora Vereadora Helena Roseta se terem associado a esta proposta, subscrevendo-a em conjunto.

::A LER:: 500 Anos do Massacre de Lisboa: Salomão Ibn Verga / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Garcia de Resende / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Samuel Usque / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Damião de Góis / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Alexandre Herculano / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Camilo Castelo Branco / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Oliveira Martins / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Ferreira Fernandes / 500 Anos do Massacre de Lisboa IX: Memória e Esquecimento

Quatro anos de Judiaria

Hoje, 27 de Outubro de 2007, faz precisamente quatro anos que a Rua da Judiaria nasceu na blogosfera.
Obrigado a todos os leitores que por aqui vão passando, permitindo que um simples blog sobre um tema tão restrito tenha alcançado, até ao momento em que escrevo, 1.813.044 visitas, a uma média de cerca de 2 mil leitores diários.
A 27 de Outubro de 2003 estava longe de imaginar que tal poderia ser possível.

ADENDA: Obrigado pelas amáveis referências: Francisco José Viegas; João Carvalho Fernandes; Heitor; Luís Novaes Tito; Miguel Noronha; Mário Pires; Filinto Melo; Teresa Castro; Armando Rocheteau; Miguel Lomelino; Jorge Ferreira; Justo; Elsa Ribeiro; Marco Oliveira; José Pimentel Teixeira; João Tunes; Sérgio Aires; Philosemite; Adolfo Mesquita Nunes; Pedro Gómez Valadés; Pedro Correia; Joaquim Moreira; João Moreira; Maria Fragoso; Nérida Madeira; Cristina Gomes da Silva…
(em actualização)

Uma Pequena História

Há aqueles que descobrem que são Judeus.
E não podem acreditar.
Sempre odiaram Judeus.
Ainda crianças, vagueavam em bandos nas noites de Inverno
no velho bairro, à procura de Judeus.
Não eram Judeus, eram Irlandeses.
Agitavam garrafas quebradas, gajos rijos com sangue nos
lábios, à procura de Judeus.
Apanhavam rapazes Judeus andando sozinhos e batiam-lhes.
Às vezes ficavam satisfeitos por perseguir um Judeu que lhes
escapava fugindo. Ficavam contentes de o ver assim
a fugir. O cobarde! Todos os judeus eram medrosos.
Escreviam Judeu com um j pequeno.
E agora descobrem que eles próprios são Judeus
Aconteceu por alturas da Inquisição.
Para escapar à perseguição, fingiram converter-se à Cristandade.
Vieram para cá e estabeleceram-se no Sudoeste.
Ninguém viria a saber se não fossem os ossos aparecidos
na escavação.
Que desastre. Como podia isto acontecer-lhes? (…)

Excerto do poema A Little History, de David Lehman.

Tradução minha, com a devida vénia a Ana Murteira, que me sugerira o poema há alguns meses.

Leitura em Dia

You depart while others, unamazingly enough, stay behind to continue doing what they’ve always done – and upon returning, you are surprised and momentarily thrilled to see that they are still there, and, too, reassured by there being somebody who is spending his whole life in the same little place and who as no desire to go.”

in Exit Ghost, o último livro de Philip Roth

Com Nova Iorque cinzenta, abafada e húmida, apanhei hoje uma valente gripe que veio mesmo a calhar: comecei a ler a obra que marca o regresso (e o fim) de Nathan Zuckerman, o personagem de nove romances de Philip Roth. Exit Ghost acabou de sair aqui nos EUA. Sugiro uma leitura da recensão assinada pelo notável Clive James no New York Times: Exit Ghost – Philip Roth – New York Times Book Review. E, já agora, uma entrevista ao autor feita num podcast da Amazon: Amazon: Interview with Philip Roth. Isto promete. Mas agora… “Excusez un peu… Que grande constipação física! Preciso de verdade e de aspirina.
Shabbat Shalom!

Raiz judaica do Cantar Alentejano…

Sempre ouvi dizer que as raízes dos cantares tradicionais alentejanos eram árabes, e que remontavam aos séculos de domínio muçulmano do Sul de Portugal mas, confesso, e apesar de conhecer bastante música árabe, nunca encontrara entre elas qualquer analogia. Inclusive, alguma tentativas de aproximação entre as duas empreendidas por músicos contemporâneos, apesar de agradáveis, tinham sempre um sabor a casamento forçado.
Curiosamente, foi nas sinagogas sefarditas que encontrei melodias que me faziam de imediato lembrar as “modas” alentejanas das terras dos meus país.
As semelhanças encontram-se no todo, mas elas notam-se principalmente em pontos de contacto muito específico – o maior dos quais a sua forma “responsiva”, pois tanto na oração judaica como no cantar tradicional alentejano há um “líder” e um coro que responde. Mas é a forma como essa relação, esse diálogo melódico, se desenrola que parece deixar pouca margem para dúvidas acerca da evidente afinidade.
Comparem lá…

::PARA OUVIR::

Kedushah, gravada na Sinagoga Portuguesa e Espanhola de Londres, nos finais dos anos 50 e editada em 1960 pela Folkways Records, de Nova Iorque.


Meu Alentejo Querido, pelo Grupo Coral e Etnográfico “Os Ceifeiros de Pias”, editado em 2001 no CD Vozes do Sul.

::PARA LER E VER:: Smithsonian Folkways Recordings – Music of the Spanish and Portuguese Synagogue / Fundação Alentejo Terra Mãe / Raizes Musicais – Memória para os Cantares Tradicionais / YouTube – Cantares Alentejanos – Grupo Coral dos Mineiros de Aljustrel (vídeo)

O terrorismo dos “meninos nazis”

O país vai de carrinho
Vai de carrinho o país
Os falcões das avenidas
São os meninos nazis (…)

Assim começava a canção de Zeca Afonso que me saltou à memória no exacto momento em que li a notícia de que o cemitério Judaico de Lisboa tinha sido profanado por dois neonazis. Pelo menos 17 túmulos foram destruídos, lápides gravadas com cruzes suásticas. No final, para cúmulo da violação, li que os dois defecaram e espalharam excrementos pelas campas. Os jornais contam ter-se provavelmente tratado de uma “cerimónia de iniciação” de um dos criminosos implicados. Honestamente, acredito que a profanação do cemitério judaico de Lisboa foi um acto de terrorismo.
A resolução 51/210 da Assembleia Geral das Nações Unidas define “terrorismo” como um “acto criminoso destinado ou calculado para provocar um estado de terror junto do público em general ou de um grupo específico de pessoas”. A mesma resolução afirma serem os actos terroristas “injustificáveis em qualquer circunstância, quaisquer que sejam as considerações políticas, filosóficas, ideológicas, raciais, étnicas, religiosas”.
A intenção primária e única deste acto de barbárie, racismo e antisemitismo é espalhar o terror, o receio e o medo por entre os judeus portugueses.
O historial de violência, assassínios, agressões, ameaças e destruição perpetrados por este grupo de gente contribuem para enquadrar as suas acções entre os parâmetros delineados pela definição de terrorismo pela Lei Internacional. Tudo isto seria mais do que suficientes para que a Justiça portuguesa funcione desta vez.
Um olhar transversal pela História faz-nos ver que o antisemitismo, e os ataques a judeus e símbolos judaicos pelo simples facto de serem judeus, são inevitavelmente um prelúdio para uma generalização da violência. Os judeus, neste caso, funcionam como “balões de ensaio” numa sociedade insensível ao seu sofrimento. São as primeiras vítimas. Foi assim na Idade Média (ver Rua da Judiaria: “Como elRei mandou degollar dous seus criados, porque roubarom huum judeu e o matarom”); foi assim com a Inquisição; foi assim na Segunda Guerra Mundial; foi assim com os atentados suicidas terroristas da intifada
Mas nem aqui os “meninos nazis” portugueses são originais. Numa pesquisa rápida, encontra-se um número considerável de notícias relacionadas com profanações de cemitérios judaicos ocorridas um pouco por todo o mundo nas últimas semanas: Jewish cemetery vandalized in Siberian city – International Herald Tribune / Jewish cemetery vandalism suspect free on personal recognizance – Boston.com / Neo-Nazi Activity Spreading Around the World – Arutz Sheva / French court hands down 30-month prison term to vandal of Jewish cemetery – International Herald Tribune / Hevron Cemetery Desecrated Over Sabbath – Arutz Sheva / 2 arrested in West Side cemetery vandalism.
No meio de todo este hediondo cenário, e navegando as hiperligações dos jornais online, confesso, sorri ao deparar com o nome de um dos “meninos nazis”, um tal Pedro Isaque. Sim, um neonazi chamado Isaque… um admirador do terceiro reich que tem o nome de um dos patriarcas do judaísmo – justiça poética, na sua melhor acepção (ver Correio da Manhã: Líder skin fica preso, de 21/09/2007; e, já agora, Wikipédia – Isaac / Isaque).
Tudo isto me fez de novo pensar na imensa ironia sobre a qual já antes aqui escrevera, a propósito da origem judaica do sobrenome Machado, ostentado pelo neonazi Mário (ver “ultimo parágrafo do texto Os media e o “crime” ).
Mas esta gente nada sabe da História do seu país e da “raça” que diz ser a sua… Quando foram forçados a converter-se ao Catolicismo sob pena de morte, em 1497, o número de judeus portugueses cifrava-se em cerca de 200 mil. Isto num total de pouco mais de um milhão de portugueses fazia com que os judeus constituíssem mais de 20 porcento da população nacional na época (ver The Virtual Jewish History Tour – Portugal).
A conversão forçada não só os impele para a “clandestinidade” como inicia um processo de miscigenação que viria a ser reforçado quando, a 25 de Maio de 1773, o Marquês de Pombal acaba com a “limpeza de sangue”, manda destruir os registos e cadastros dos “cristãos novos” e ordena que famílias nobres, até então orgulhosas da sua “pureza de raça”, organizem casamentos com os descendentes dos judeus convertidos à força nos finais do século XV.
Depois de todas estas “aventuras do sangue”, como lhes chamou Jorge Luis Borges – ele próprio um descendente desses judeus portugueses convertidos à força –, será que existe algum português, um único que seja, que continue a dizer-se livre do sangue da semente de Abraão? Será que existe algum que queira apostar tudo nessa “pureza”? Que aceitem então um desafio, esses “meninos nazis”: que façam um teste de ADN, sim, porque o ácido desoxirribonucleico não mente e a ciência faz com que o código genético seja hoje tão transparente quanto a água. E bastante acessível… (aqui, por exemplo: Family Tree DNA – we do genetic tests for your genealogy questions!)
E se porventura o teste lhes demonstrar que a sua “raça portuguesa” não é assim tão pura quanto pensavam; que, em vez de traços de Viriato Lusitano, são feitos de mesclas das gentes de África e do Médio Oriente; que, em vez de nórdico ou “ariano”, o sangue que lhes corre nas veias é idêntico ao dos judeus, que odeiam, ou dos negros, que desprezam; se for este o resultado do teste de ADN, que farão eles?
A resposta racional, obviamente, levaria ao repensar de ódios e preconceitos. Forçaria a humanização da besta. Mas de nada vale acalentar esperanças. Mesmo perante todas as provas cientificas e racionais, a irracionalidade do ódio prevaleceria. A verdade é que esta gente nada tem de racional. Como escreveu Jonathan Swift: “É inútil tentar fazer um homem abandonar pelo raciocínio algo que não adquiriu pela razão.”
Quanto a nós, judeus, resta-nos fazer aquilo que mais os irrita; o que sempre fizemos, desde os tempos remotos da escravidão no Egipto ou de Nabucodonosor: sobreviver.

::A LER:: DN “Hoje somos todos judeus” / SOS Racismo denuncia terror nas escolas da margem sul do Tejo provocado por “skinheads”; – Lusa – SAPO Notícias / New York Times: In DNA, New Clues to Jewish Roots / Family Tree DNA – we do genetic tests for your genealogy questions! / Expresso: Skins vandalizam cemitério judeu / Juiz decidiu soltar os dois skinheads perigosos: ‘Lobo Nazi” em liberdade / Skinheads ameaçam magistrada do MP / Leis penais entram em vigor: 36 skinheads acusados / Investigação na Margem Sul: PS, PCP e BE na mira / Southern Poverty Law Center Report: Hammerskin Nation / ADL: Hammerskin Nation – Extremism in America

Barca

Das navegações à distancia
que empreendemos de costa a costa
sob motivos e circunstancia
de exorcismos e alguma esperança
de fugirmos ao pedaço circunscrito
do legado ou povoado
onde parimos nossos filhos,
ficou essa paisagem do mar
em fim de terra, da tarde em fim de mar
e da terra cruzada por esses ambos elementos
mais a saudade tremelicando nos dedos
dos que partidos se foram
definitivamente
somente com a ideia de voltar
quando do cabo do mundo
trouxessem a mágica fórmula
de enriquecer para nos serões
com nossa prole recordarmos
gestas, historietas, lendas e canções
de anónimos heróis,
sábios poetas e cavaleiros andantes
despidos de andrajos dourados
e apenas fardados de suas palavras
exigindo às tábuas da lei
a única porção de chão
onde depositar seu corpo
com vistas para o vasto oriente
de um promontório extremo.

Como uma barca “roja” atracada
em fim de tarde.

Francisco Duarte Azevedo
Newport, Jersey City, 5 de Outubro de 2007

Depois de alguma insistência, o Francisco deixou que eu publicasse aqui este seu belíssimo poema – um poema de Diáspora – feito a partir do quadro, também de sua autoria, que aqui o ilustra. Já agora, aconselho uma passagem pela galeria online onde o Francisco tem expostos alguns dos seus quadros. É só seguir o link: aqui.

שנה טובה

Aqui ficam os meus desejos tradicionais para o Ano Novo Judaico, que se inicia esta noite, e que estendo a todos os meus leitores: Que os vossos nomes sejam inscritos e selados no Livro da Vida para um ano de 5768 doce e cheio de paz.

שתהיה לך שנה מתוקה נפלאה ומלאה בדברים טובים
שנה טובה

O Spinoza da Rua do Mercado (VII)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte VII (conclusão)
(ver Parte I; Parte II; Parte III; Parte IV; Parte V e Parte VI)

No dia em que Dobbe Preta foi ao escritório do rabino e anunciou que ia casar com o Dr. Fischelson, a mulher do rabino pensou que ela tinha enlouquecido de vez. Mas a notícia tinha já chegado ao alfaiate Leizer, espalhando-se pela padaria e pelas outras lojas. Havia os que pensavam que a “solteirona” estava cheia de sorte; o doutor, diziam eles, tinha muito dinheiro. Mas outros garantiam que o velho degenerado lhe havia de pegar sífilis. Apesar do Dr. Fischelson ter insistido numa cerimónia de casamento pequena e simples, uma multidão de convidados compareceu no gabinete do rabino. Os aprendizes do padeiro, que habitualmente andavam pelas ruas descalços, em cuecas e com sacos de papel na cabeça, vestiam agora fatos claros, chapéus de palha, sapatos amarelos, gravatas berrantes e tinham trazido com eles grandes bolos e panelas cheias de bolachas. Tinham mesmo conseguido encontrar uma garrafa de vodka, apesar das bebidas alcoólicas terem sido proibidas em tempo de guerra. No momento em que os noivos entraram no gabinete do rabino os murmúrios da multidão encheram também a sala. As mulheres não queriam acreditar nos seus olhos. A mulher que viam agora diante delas não podia ser a mesma que elas conheciam. Dobbe usava um chapéu de abas largas amplamente adornado com cerejas, uvas e ameixas; o vestido que ela envergava era de seda branca e tinha uma cauda; nos pés tinha sapatos de salto alto, dourados, e do seu fino pescoço pendia um colar de pérolas de imitação. Mas isto não era tudo: os seus dedos reluziam com anéis e pedras brilhantes. O seu rosto estava coberto por um véu. Ela parecia quase uma daquelas noivas ricas que se casam nos salões de Viena. Os aprendizes de padeiro assobiavam e riam. O Dr. Fischelson trazia o seu casaco preto e os sapatos de verniz. Ele quase não conseguia andar, apoiando-se em Dobbe. Quando ele viu a multidão que o esperava dentro do gabinete do rabino, assustou-se e ainda tentou dar uns passos atrás, mas o antigo patrão de Dobbe saltou-lhe ao caminho e disse: “Vá lá noivo. Não se acanhe. Agora isto é tudo família.”
A cerimónia prosseguiu de acordo com a lei. O rabino, que vestia uma velha gabardina de cetim, escreveu o contrato de casamento e depois fez com que os noivos tocassem no seu lenço como sinal de acordo; o rabino limpou então a ponta da sua caneta ao quipá. Alguns moços de recados chamados da rua para fazer quorum seguravam agora, durante a cerimónia, o toldo matrimonial. O Dr. Fischelson envergou uma veste branca, para simbolizar o dia da sua morte, e Dobbe andou à sua volta sete vezes, tal como requeria a tradição. A luz das velas entrançadas chamejava as paredes. As sombras ondulavam. Deitando vinho num cálice, o rabino cantou as bênçãos com uma triste melodia. Dobbe chorou. As outras mulheres seguravam os seus lenços rendados e faziam caretas. Quando os rapazes da padaria começaram a cochichar piadas entre eles, o rabino levantou o dedo em riste à altura dos lábios e murmurou: “Eh nu oh!” como sinal de que era proibido falar. Chegada a altura de colocar a aliança no dedo da noiva, as mãos do Dr. Fischelson começaram a tremer e ele não conseguia localizar os dedos de Dobbe. A seguir, de acordo com a tradição, devia partir-se o copo, mas apesar do Dr. Fischelson o ter pisado várias vezes, ele permanecia inteiro. Finalmente, um dos aprendizes estilhaçou o copo com o seu calcanhar. Até o rabino não conseguiu conter um sorriso. Após a cerimónia, os convidados beberam vodka e comeram bolo e bolachas. O antigo patrão de Dobbe veio ter com o Dr. Fischelson e disse-lhe: “Mazel tov, noivo. Que a sua sorte seja tão boa quanto a sua mulher.” “Obrigado, obrigado”, murmurou o Dr. Fischelson, “mas eu não espero sorte nenhuma.” Ele estava ansioso por regressar o mais depressa possível ao seu quarto no sótão. Sentia uma pressão estranha no estômago e doía-lhe o peito. O seu rosto tornara-se esverdeado. Dobbe subitamente ficou irritada. Levantou o véu e dirigiu-se à multidão de convidados: “De que se estão a rir? Isto não é nenhum espectáculo.” E sem pegar na fronha na qual tinham sido embrulhados os presentes, voltou com o marido aos seus quartos no quinto andar.
O Dr. Fischelson deitou-se na cama feita de lavado no seu quarto e começou a ler a Ética. Dobbe fora para o seu quarto. O doutor explicara-lhe que era já um homem de muita idade, que estava doente e sem forças. Não lhe prometera nada. Ainda assim, ela regressou com um vestido de noite de seda, pantufas com pompons e com o cabelo solto sobre os ombros. Tinha um sorriso acanhado e hesitante no rosto. O Dr. Fischelson estremeceu e a Ética tombou-lhe das mãos. A vela apagou-se. No escuro, as mãos de Dobbe procuraram o Dr. Fischelson. Ela beijou-lhe os lábios. “Meu querido marido”, sussurrou-lhe ela, “Mazel tov.”
O que aconteceu naquela noite pode ser descrito como um milagre. Se o Dr. Fischelson não estivesse convencido que tudo acontece em concordância com as leis da natureza, ele teria pensado que Dobbe Preta lhe lançara um feitiço. Poderes há muito adormecidos acordaram dentro de si. Apesar de ter tomado apenas um pequeno trago do vinho da benção na cerimónia, sentia-se como se estivesse embriagado. Beijou Dobbe e falou-lhe de amor. Citações há muito esquecidas de Klopstock, Lessing, Goethe saiam-lhe dos lábios. As dores cessaram. Abraçou Dobbe, apertou-a contra o seu corpo, era de novo um homem como tinha sido na sua juventude. Dobbe quase desfalecia de deleite; chorando, murmurou-lhe coisas num calão de Varsóvia que ele não compreendia. Mais tarde, o Dr. Fischelson mergulhou no sono profundo que só os homens novos conhecem. Sonhou que estava na Suíça, que escalava montanhas – corria, caía, voava. De madrugada abriu os olhos; pareceu-lhe que alguém soprava no seu ouvido. Dobbe ressonava. O Dr. Fischelson levantou-se da cama cuidadosamente. Na sua longa camisa de noite, aproximou-se da janela, subiu as escadas e olhou para fora maravilhado. A Rua do Mercado estava adormecida, respirando com uma tranquilidade profunda. As lâmpadas de gás piscavam. As negras persianas das lojas estavam cerradas com barras de ferro. Soprava uma brisa fresca. O Dr. Fischelson olhou para o céu. O arco negro estava semeado de estrelas – havia estrelas verdes, vermelhas, amarelas, azuis; havia estrelas grandes e pequenas, umas que piscavam e outras que permaneciam constantes. Havia estrelas aglomeradas em conjuntos e havia estrelas solitárias. Nas altas esferas, aparentemente, pouco importância tinha que um tal Dr. Fischelson, no tempo que lhe restava, casara com alguém a quem chamavam Dobbe Preta. Vista de cima, até a Grande Guerra nada mais era do que uma temporária tragédia de costumes. Uma miriade de estrelas continuou a viajar pelas suas rotas destinadas no espaço infinito. Os cometas, planetas, satélites e asteróides continuaram a circular estes centros brilhantes. No caos das nebulosas, formava-se matéria primordial. De vez em quando, uma estrela soltava-se e varria os céus, deixando um rasto de fogo. Estava-se no mês de Agosto, quando havia chuvas de meteoros. Sim, a substância divina alargava-se e não tinha princípio nem fim; era absoluta, indivisível, eterna, sem duração, infinita nos seus atributos. As suas ondas em ebulição dançavam no caldeirão universal, efervescentes de mudança, seguindo a ininterrupta cadeia de causa e efeito, e ele, o Dr. Fischelson, com o seu inevitável destino, era parte de tudo isto. O doutor cerrou os olhos e deixou que a brisa arrefecesse o suor da sua teste e penetrasse a sua barba. Respirou fundo o ar da madrugada, apoiou as mãos trémulas no parapeito da janela e murmurou: “Divino Spinoza, perdoa-me. Tornei-me um tolo.”

FIM

O Spinoza da Rua do Mercado (VI)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte VI (ver Parte I; Parte II; Parte III; Parte IV e Parte V)


Conversa no Gueto de Varsóvia, Polónia, inverno de 1938. Fotografia de Roman Vishniac.

O Dr. Fischelson tinha a certeza que iria morrer brevemente. Escreveu um testamento, deixando todos os seus livros e manuscritos à biblioteca da sinagoga. As suas roupas e mobília iam para Dobbe, uma vez que ela tinha tomado conta dele. Mas a morte não veio. Em vez disso, a sua saúde melhorou. Dobbe voltou à sua banca no mercado, mas visitava-os várias vezes ao dia, fazia-lhe sopa, deixava-lhe uma chávena de chá e contava-lhe as notícias da guerra. Os alemães tinham ocupado Kalish, Bendin, Cestechow e marchavam agora em direcção a Varsóvia. Dizia-se que numa manhã sossegada se podia ouvir, ao longe, o estrondo dos canhões. Dobbe contou-lhe que as baixas eram pesadas. “Eles caiem que nem moscas”, disse ela. “Que desgraça para as pobres mulheres.”
Ela não conseguia explicar porquê, mas o quarto do velhote atraia-a. Gostava de tirar das estantes os livros debruados a dourado, de os limpar, e depois de os arejar no parapeito da janela. De vez em quando ela subia os degraus até à janela e espreitava pelo telescópio. Também gostava de conversar com o Dr. Fischelson. Ele falou-lhe da Suíça, onde estudara, das grandes cidades por onde tinha passado, das grande montanhas que se cobriam de neve mesmo no Verão. O seu pai tinha sido um rabino, contou ele, e antes de ter ido para a universidade o próprio Dr. Fischelson tinha estudado num seminário rabínico. Ela perguntou-lhe quantas línguas ele conhecia, ele respondeu-lhe que conseguia falar e escrever em hebraico, russo, alemão e francês, para além do yiddish. Também sabia latim. Dobbe ficava estupefacta que um homem com tanta instrução pudesse viver num sótão na Rua do Mercado. Mas o que mais a espantava era o facto de ele não poder passar receitas, apesar de ter o título de “doutor”. “Porque não se torna um doutor a sério?” perguntou-lhe ela. “Mas eu sou um doutor. Não sou médico, mas sou doutor.” “Que espécie de doutor?” “Doutor de filosofia.” Apesar de não fazer a mínima ideia do que isso significava, ela sentia que devia ser muito importante. “Oh, mas onde é que foi buscar uma cabeça dessas?”, dizia-lhe ela.
Uma noite, depois de Dobbe lhe ter um copo de leite com bolachas, ele começou a fazer-lhe perguntas: de onde tinha vindo; quem eram os seus pais; e porque não se tinha casado. Dobbe ficou surpresa. Nunca ninguém lhe perguntara estas coisas. Ela contou-lhe a sua história em voz baixa e ficou até às onze da noite. O seu pai fora moço de fretes num talho kosher. A mãe depenara galinhas num matadouro. A família viveu numa cave do número 19 da Rua do Mercado. Quando ela tinha dez anos começara a trabalhar como criada. O seu patrão era um receptador que comprava mercadoria roubada aos ladrões na praça. Dobbe tinha um irmão que foi para o exército russo e nunca mais voltou. A irmã casara com um cocheiro de Praga e morrera ao dar à luz. Dobbe contou as batalhas entre o submundo e os revolucionários em 1905; falou-lhe do cego Itche e da sua quadrilha e de como eles cobravam dinheiro aos comerciantes em troca de protecção, dos criminosos que atacavam rapazes e raparigas que passeavam nas tardes de sábado se não lhes dessem dinheiro. Falou também de proxenetas que vagueavam pelas ruas em carroças raptando moças novas para serem vendidas em Buenos Aires. Dobbe jurou até que um homem a tentou seduzir a entrar num bordel, mas que ela conseguiu fugir. Queixou-se de milhares de males de que tinha sido vítima. Tinha sido roubada; tinham-lhe roubado o namorado; uma vendedora sua inimiga vazara um dia gasolina na sua cesta de pão; o seu próprio primo, o sapateiro, tinha-a feito perder uma centena de rublos antes de partir para a América. O Dr. Fischelson ouvia atentamente. Fazia-lhe perguntas, abanava a cabeça, suspirava.
“Bem, acreditas em Deus?” perguntou ele finalmente.
“Não sei”, respondeu ela. “E você acredita?”
“Sim, acredito.”
“Então porque não vai à sinagoga?” perguntou ela.
“Deus está em todo o lado. Na sinagoga. No mercado. Neste mesmo quarto. Nós próprios fazemos parte de Deus”, respondeu ele.
“Não diga essas coisas que me assusta”, disse Dobbe.
Ela saiu do quarto e o Dr. Fischelson ficou com a certeza que ela se tinha ido deitar. Mas ficou sem perceber porque não tinha ela dito “boa noite.” “Assustei-a com a minha filosofia”, pensou ele. Momentos depois ouviu-lhe os passos. Ele entrou no quarto carregando uma pilha de roupa, como se fosse uma vendedora ambulante.
“Queria-lhe mostrar isto. É o meu enxoval”, disse ela. E começou a desdobrar vestidos sobre a cadeira – de lã, de seda, de veludo. Tirando um vestido de cada vez, ela segurava-os contra o seu corpo. Mostrou-lhe tudo o que tinha no enxoval – roupa interior, sapatos, meias.
“Não sou gastadora. Sou muito poupada. Tenho dinheiro suficiente para ir para a América”, disse-lhe ela.
Depois fez-se silêncio e a sua cara ficou vermelha como um tijolo. Ela olhou para o Dr. Fischelson pelo canto do olho, tímida, curiosa. O corpo do Dr. Fischelson começou a tremer como se ele tivesse febre. “Muito bonito… coisas muito bonitas”, disse ele. Com as sobrancelhas arqueadas, puxou pela barba com dois dedos. Um sorriso triste apoderou-se da sua boca desdentada e os seus grandes olhos agitados, olhando à distância através da janela do sótão, sorriam também melancolicamente.

(continua…)

Dilema


Quanto mais me
afasto da loucura
na direcção do equilíbrio
e da razão,
mais me aproximo
da berma da loucura.
Devo surpreender-me:
mercador de paradoxos,
aliado da dialéctica?
Tremo com intimidações –
não de imortalidade.
Ou mudas, dizem eles,
ou morres de sanidade.

Nissim Ezekiel (1924-2004), poeta e dramaturgo. Judeu indiano.

::Do Mesmo Poeta::
Poemas à Moda da Antologia Grega / Vida e Poema Cartaz: Dois poemas de Nissim Ezekiel

Um pintor “português” morto em Auschwitz

Considerado um dos mais representativos retratistas holandeses dos finais do século XIX e da primeira metade do século XX, Baruch Lopes Leão de Laguna nasceu em Amsterdão, a 16 de Fevereiro de 1864, no seio de uma família sefardita portuguesa.
A sua vida começa tal como haveria de acabar – marcada pelos mesmos tons de tragédia. Aos dez anos perdeu os pais – Salomão Lopes de Leão Laguna e Sara Kroese – dando entrada no orfanato da comunidade de judeus portugueses de Amsterdão. Apoiado pelos professores da comunidade, ganhou o gosto pela pintura, estudando primeiro na Escola Quellinus e depois na Academia Nacional de Belas Artes da Holanda.
Para sobreviver, Leão Laguna trabalhou para o pintor Jacob Meijer de Haan – primeiro na pastelaria da família, no bairro judeu de Amsterdão, e posteriormente no atelier, como seu assistente.
Aos poucos, a pintura de Leão de Laguna foi ganhando fama e reconhecimento suficientes para lhe permitirem dedicar-se por completo à sua paixão. Em 1885 faz a sua primeira exposição na Associação Arti et Amicitiae, uma mostra bastante bem recebida pela crítica e pelos colegas. Por essa altura Baruch Lopes de Leão Laguna casa com Rose Asscher, filha de um lapidador de diamantes.
Durante os primeiros anos da ocupação nazi, Leão Laguna refugiou-se na região de Laren, no norte da Holanda. Terá sido nessa altura que pintou o auto-retrato que figura em cima. Auxiliado por uma família que o esconde numa quinta remota, Leão Laguna fica-lhes imensamente grato, oferecendo-lhes vários dos seus quadros (entre os quais este auto-retrato).
Eventualmente, Baruch Lopes de Leão Laguna é capturado pelos nazis e levado para o campo de extermínio de Auschwitz, onde é assassinado a 19 de Novembro de 1943, com 79 anos de idade.

Ilustração: Auto-retrato, Leão Laguna, óleo sobre tela, cerca de 1940, 82 x 54 cm

::PARA VER:: Baruch Lopes de Leao Laguna on Artnet / De Valk Lexicon kunstenaars Laren-Blaricum: Laguna / Baruch Leao Laguna – Ask Art / Kunsthandlung Nitsche / Joods Historisch Museum | Museumcollectie: Laguna…

O Spinoza da Rua do Mercado (V)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte V (ver Parte I; Parte II; Parte III e Parte IV)


O Gueto de Varsóvia, Polónia, inverno de 1938. Fotografia de Roman Vishniac.

As leis eternas, aparentemente, não tinham ainda ordenado o fim do Dr. Fischelson.
À esquerda da entrada do quarto do Dr. Fischelson havia uma porta que dava para um corredor escuro, apinhado de caixas e cestos, no qual um cheiro a cebola frita e sabão azul e branco estava sempre presente. Atrás desta porta vivia uma solteirona a quem os vizinhos chamavam Dobbe Preta. Dobbe era alta, magra e morena como a pá de um padeiro. Tinha o nariz partido e por cima do lábio despontava um bigode. A sua voz era rouca e masculina e usava sapatos de homem. Durante anos, Dobbe Preta vendera pão que comprava ao padeiro da esquina. Mas um dia zangou-se com o padeiro e mudara-se para o mercado, onde agora vendia “amassados”, um nome que o povo dava a ovos rachados. Dobbe Preta não tinha sorte com os homens. Ficara noiva duas vezes de aprendizes de padeiro mas duas vezes acabara o noivado. Algum tempo depois ficou noiva de um velho, um vidreiro que lhe dissera ser divorciado, mas que mais tarde se descobriu ainda ter mulher. Dobbe Preta tinha um primo na América, um sapateiro, que ela sempre dizia que um dia lhe havia de mandar uma passagem. Mas ia ficando por Varsóvia. As mulheres da vizinhança provocavam-na dizendo: “Já não há esperança para ti, Dobbe. Vais morrer velha e solteira.” Dobbe respondia sempre: “Não quero ser escrava de um homem qualquer. Eles que apodreçam todos.”
Naquela tarde Dobbe recebeu uma carta da América. Habitualmente ela pedia a Leizer, o alfaiate, que lhe lesse a correspondência. Mas naquela tarde Leizer não estava na loja, por isso Dobbe pensou no Dr. Fischelson, que os vizinhos pensavam ser um converso por nunca ir rezar à sinagoga. Ela bateu à porta do quarto do doutor mas não houve resposta.
“O herege saiu”, pensou Dobbe mas, mesmo assim, bateu novamente e, desta vez, a porta moveu-se ligeiramente. Ela empurrou-a ainda mais e entrou, assustada. O Dr. Fischelson jazia na sua cama completamente vestido; a sua cara estava amarela como cera; a maçã de Adão quase que lhe saltava do pescoço; a sua barba apontava para cima. Dobbe gritou; tinha a certeza que ele estava morto, mas – não – o seu corpo mexeu-se. Dobbe pegou num copo que estava em cima da mesa e correu para o encher à torneira, trazendo-o para a beira da cama e atirando a água à cara do homem inconsciente. O Dr. Fischelson abanou a cabeça e abriu os olhos.
“Que se passa consigo? Está doente?” perguntou Dobbe.
“Muito obrigado! Não!”
“Tem família? Posso ir chamá-los.”
“Não tenho família,” disse o Dr. Fischelson.
Dobbe queria ir ao outro lado da rua chamar o barbeiro, mas o Dr. Fischelson insistiu que não queria a ajuda do barbeiro. Uma vez que Dobbe não ia nesse dia ao mercado, uma vez que não havia “amassados” para comprar ou vender, ela decidiu fazer uma boa acção. Ajudou o doente a sair da cama e colocou-lhe um cobertor sobre os ombros. Depois despiu o Dr. Fischelson e preparou-lhe uma sopa no fogão a petróleo. O sol nunca entrava no quarto de Dobbe, mas aqui os raios de sol desenhavam rectângulos luminosos nas paredes desbotadas. O chão estava pintado de vermelho. Por cima da cama estava pendurada a imagem de um homem de cabelo comprido com um enorme colarinho de folhos. “Um homem de tanta idade mas, mesmo assim, tem o quarto tão asseado e arrumado,” pensou Dobbe. O Dr. Fischelson pediu-lhe a Ética e ela deu-lhe o livro a contragosto. Estava convencida que se tratava de um livro de orações dos gentios. Depois começou a arrumar o quarto, varreu o chão e trouxe um balde de água. O Dr. Fischelson comeu; depois de terminar, estava com mais forças e Dobbe pediu que ele lhe lesse a carta.
Ele leu-a devagar, com o papel a tremer-lhe nas mãos. Vinha de Nova Iorque, do primo de Dobbe. Uma vez mais ele escrevia que lhe havia de mandar “uma carta muito importante” e um bilhete para a América. Dobbe já sabia a história de cor e até ajudou o velhote a decifrar os rabiscos do seu primo. “Ele está a mentir”, disse Dobbe. “Há muito tempo que ele se esqueceu de mim.” Dobbe voltou à noite. Uma vela num candelabro de bronze ardia na cadeira ao lado da cama. Sombras avermelhadas tremiam nas paredes e no tecto. O Dr. Fischelson estava sentado na cama, a ler um livro. A vela lançava uma luz dourada sobre a sua testa, que parecia fendida em duas metades. Um pássaro voara pela janela e pousara na mesa. Por um momento Dobbe ficou com medo. Este homem fazia-a pensar em bruxas, espelhos negros, cadáveres a vaguear pela noite e mulheres aterradoras. Mesmo assim, deu alguns passos na direcção dele e perguntou: “Então, como se sente? Está melhor?”
“Sim, um pouco melhor, obrigado.”
“É verdade que é um converso?” perguntou ela sem compreender muito bem o que a palavra significava.
“Eu, um converso? Não, sou um judeu como qualquer outro judeu”, respondeu-lhe o Dr. Fischelson.
A garantia do doutor fez com que Dobbe se sentisse mais em casa. Procurou a garrafa de petróleo e acedeu o fogão, depois foi a casa buscar um copo de leite para fazer papas de farinha. O Dr. Fischelson continuou a estudar a Ética, mas naquela noite ele não estava com cabeça para os teoremas e provas com as suas muitas referências a axiomas, definições e outros teoremas. Com as mãos trémulas ele ergueu o livro à altura dos olhos para ler: “A ideia de uma afecção qualquer do corpo humano não implica um conhecimento adequado do corpo exterior… A ideia de uma afecção qualquer da mente humana não implica um conhecimento adequado da mente humana.”

(continua…)

Imagens da nossa Diáspora

A réplica de uma lápide do cemitério de judeus portugueses de Curaçao, nas Antilhas Holandesas, exposta no museu da Sinagoga Mikvé Israel-Emanuel, conhecida oficialmente como United Netherlands Portuguese Congregation Mikvé Israel-Emanuel, testemunha a presença inequivoca dos nossos e da nossa língua naquelas paragens.
Datada da primeira metade do século XVIII, a lápide encontra-se quase integralmente escrita em português, com excepção da inscrição cimeira, em hebraico, que cita o Livro de Ester: “E Mordecai compareceu perante o Rei”

No resto da lápide pode ler-se:

Do bem-aventurado e insigne varão Mordecai Hisquiau Namias de Crasto benquisto do geral e procurador da paz. Faleceu em 13 de Yiar do ano 5476 [5 de Maio de 1716]. Sua alma goze da glória.”


Esta rara imagem mostra o interior da Sinagoga Portuguesa de Curaçao, palco de uma curiosa tradição sefardita que apenas se mantém ainda nas Caraíbas: o chão encontra-se coberto de areia – por um lado para abafar os passos, recordando os tempos da Inquisição, em que o judaísmo era praticado em segredo; por outro para fazer lembrar que aqueles que a frequentam estão ainda no exílio – que pisam as areias do deserto do seu “Egipto”.

Fotos gentilmente cedidas por Francisco Duarte Azevedo.

Relativismo moral e “A Mighty Heart”

Um artigo de Judea Pearl *


Angelina Jolie e Dan Futterman nos papéis de Marianne e Daniel Pearl

Acreditei em tempos que o mundo estava basicamente dividido entre dois tipos de pessoas: aqueles que eram de um modo geral tolerantes e os que se sentiam ameaçados pela diferença. Se as forças da tolerância conseguissem vencer as forças da intolerância, pensava eu, o mundo poderia finalmente conhecer alguma paz.
Mas havia um problema com a minha teoria, e nunca tal fora tão claro como numa conversa com um amigo paquistanês que me disse que abominava pessoas como o Presidente Bush, que insistia em dividir o mundo entre “nós” e “eles”. O meu amigo, é claro, tomava uma posição inocente contra a intolerância e não percebeu que, ao fazê-lo, ele próprio estava também a dividir o mundo entre “nós” e “eles”, caindo exactamente no campo das pessoas que dizia abominar.
Esta é a versão política de um famoso paradoxo formulado por Bertrand Russell em 1901, que na época abanou os alicerces lógicos das matemáticas. Qualquer pessoa que diz ser tolerante naturalmente se define a si própria em oposição àqueles que são intolerantes. Mas isso faz com que essa mesma pessoa seja intolerante em relação a certas pessoas – o que acaba por invalidar a afirmação de tolerância.
A lição política do paradoxo de Russell é que não existe tolerância absoluta. No fim de contas, é necessário poder ser intolerante em relação a certos grupos ou ideologias sem renunciar à superioridade moral normalmente ligada à tolerância e à inclusão. Deve-se, na verdade, condenar e resistir a doutrinas políticas que advogam o assassínio de inocentes, que minam as normas básicas da civilização, ou que tentam tornar impossível o pluralismo. Não pode haver equivalência moral entre aqueles que procuram – mesmo por vezes desajeitadamente – construir um mundo mais livre e tolerante, e aqueles que defendem a aniquilação de outras religiões, culturas ou estados.
Tudo isto vem a propósito do meu filho, Daniel Pearl. Graças à estreia do filme A Mighty Heart, o filme baseado no livro homónimo de Mariane Pearl, o legado de Danny está novamente a merecer atenção. É claro, nenhum filme poderia captar exactamente o que fazia de Danny uma pessoa especial – o seu sentido de humor, a sua integridade, o seu amor pela humanidade – ou por que razão ele era admirado por tantos. Para os jornalistas, Danny representa a coragem e a nobreza inerentes à sua profissão. Para os americanos, Danny é o símbolo de um dos melhores instintos nacionais: o desejo de estender uma mão de amizade e diálogo a gentes de terras distantes. E para quem tenha orgulho nas suas origens e na sua fé, as últimas palavras de Danny, “eu sou judeu”, mostraram que é possível encontrar dignidade na nossa identidade, mesmo nos momentos mais negros. Traços destas ideias são certamente evidentes em A Mighty Heart, e espero que os espectadores saiam dos cinemas sentindo-se inspirados por elas.
Ao mesmo tempo, preocupa-me que A Mighty Heart possa cair numa armadilha que Bertrand Russell teria reconhecido: o paradoxo da equivalência moral, da tentativa de esticar demasiado a lógica da tolerância. Podem ver-se traços desta lógica nas comparações feitas pelo filme entre o rapto de Danny e Guantánamo – o filme abre com imagens da prisão – e com as suas comparações entre os terroristas da al-Qaeda e os agentes da CIA. Podem ainda ler-se nos comentários do realizador do filme, Michael Winterbottom, que escreveu no site do Washington Post que A Mighty Heart e o seu filme anterior Road To Guantanamo eram “muito semelhantes. Ambos contam histórias de pessoas vítimas de um crescendo de violência de ambos os lados. Há extremistas em ambos os lados que pretendem aumentar o clima de violência e centenas de milhares de pessoas morreram por causa disso.”
Estabelecer comparações entre o assassínio de Danny e os suspeitos detidos em Guantánamo é precisamente o que os assassinos queriam, tal como o expressaram nos seus emails e no vídeo do assassínio. Obviamente, Winterbottom não quis fazer eco destes sentimentos, nem certamente justificar as suas exigências nem os seus actos. Mesmo assim, preocupa-me que aspectos deste filme possam fazer o jogo dos profissionais da ofuscação da clareza moral.
Na verdade, após um visionamento antecipado de A Mighty Heart, um representante do Council on American-Islamic Relations alegadamente afirmou: “Precisamos acabar com a cultura das bombas, da tortura, da ocupação e da violência. Esta é a mensagem que sobressai do filme.”
A mensagem passada a jovens inflamados é infeliz: Todas as formas de violência são más; então, enquanto uma persistir, as outras não podem ser postas de parte. Esta é precisamente a lógica utilizada por Mohammed Siddiqui Khan, um dos bombistas suicidas de Londres, na sua mensagem transmitida pela Al Jazeera. “O vosso governo democraticamente eleito”, disse ele aos seus compatriotas, “continua a perpetrar atrocidades contra o meu povo… nós não vamos parar.”
A tragédia de Danny exige um fim para esta lógica. Não pode haver comparações entre aqueles que têm orgulho em matar um jornalista desarmado e aqueles que fazem votos de acabar com actos semelhantes – sem apelo nem agravo. O relativismo moral morreu com Daniel Pearl, em Carachi, a 31 de Janeiro de 2002.
Tempos houve em que traçar simetrias morais entre dois lados de qualquer conflito era a marca d’água do pensamento original. Hoje, com os intelectuais ocidentais a traçarem equivalências de forma absurda e negligente, reflecte apenas um preguiçoso conformismo. O que é necessário agora aos intelectuais, realizadores de cinema e a todos nós é resistir a esta perigosa moda e traçar distinções legítimas sempre que essas distinções se justifiquem.
O meu filho Danny teve a coragem de examinar todos os lados. Ele era também um ouvinte atento e um campeão do diálogo. Mas ele tinha também princípios e linhas que não ultrapassava. Ele foi tolerante mas não o foi de forma irresponsável. Espero que os espectadores se lembrem disto quando forem ao cinema ver A Mighty Heart.


Marianne e Daniel Pearl na vida real

* Judea Pearl, matemático e professor universitário, é pai de Daniel Pearl, o jornalista do Wall Street Journal assassinado brutalmente pela al-Qaeda no Paquistão, em Janeiro de 2002. Este artigo foi publicado na edição impressa desta semana da revista The New Republic.
O filme, que está em fase de lançamento nos Estados Unidos, estreará em Portugal em meados de Setembro próximo.