O Spinoza da Rua do Mercado (IV)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte IV (ver Parte I; Parte II e Parte III)

De três em três meses um carteiro especial que só entregava vales de correio trazia ao Dr. Fischelson oitenta rublos. Desde o início de Julho que ele esperava a sua verba trimestral, mas os dias foram passando sem que lhe aparecesse o homem alto com bigode louro e botões reluzentes, fazendo com que ele ficasse cada vez mais ansioso. Já praticamente não lhe sobrava um vintém sequer. Quem sabe – possivelmente a comunidade de Berlim rescindira o seu subsídio; talvez o Dr. Hildesheimer tivesse morrido, Deus queira que não; os correios podem ter cometido um erro. Que todos os acontecimentos tinham a sua causa sabia o Dr. Fischelson. Tudo estava determinado, tudo era necessário, e um homem racional não tinha o direito de se preocupar. Mesmo assim, as preocupações invadiam-lhe o cérebro, zumbindo à sua volta como moscas. Na pior das hipóteses, pensou ele, poderia suicidar-se, mas depois recordou-se que Spinoza não aprovava o suicídio e comparava a loucos aqueles que acabavam com as suas próprias vidas.
Um dia, quando o Dr. Fischelson foi à loja comprar um caderno, ouviu gente a falar da guerra. Algures na Sérvia, um príncipe austríaco tinha sido morto a tiro e a Áustria enviara um ultimato aos sérvios. O dono da loja, um homem novo com barba amarelada e amarelados olhos manhosos, anunciou “então lá vamos ter uma guerrinha”, aconselhando o Dr. Fischelson a armazenar comida porque no futuro era provável que houvesse racionamento.
Tudo aconteceu tão depressa. O Dr. Fischelson ainda não tinha decidido se valia a pena gastar quatro centavos num jornal, quando começaram a aparecer por toda a cidade cartazes a anunciar a mobilização. Viam-se homens a caminhar na rua com pequenas placas metálicas redondas na lapela, sinal de que tinham sido incorporados no exército. Eram seguidos pelas suas mulheres chorosas. Numa segunda-feira, o Dr. Fischelson desceu à rua para comprar comida com o dinheiro que lhe restava mas encontrou as lojas fechadas. Os donos e as suas mulheres estavam na rua, a explicar aos fregueses que era impossível obter mercadorias. Mas alguns fregueses especiais eram chamados à parte e conduzidos ao interior da loja pela porta das traseiras. Na rua tudo era confusão. Viam-se polícias montados a cavalo com espadas desembainhadas. Uma grande multidão juntara-se em volta da taberna onde, a mando do Czar, barris de whisky eram despejados na sarjeta.
O Dr. Fischelson foi até ao seu café do costume. Talvez ali encontrasse algum conhecido que o pudesse aconselhar. Mas não encontrou ninguém conhecido. Decidiu, então, visitar o rabino da sinagoga onde ele em tempos dirigira a biblioteca, mas o secretário informou-o que o rabino fora com a família para as termas. O Dr. Fischelson tinha mais amigos na cidade, mas não conseguiu encontrar ninguém em casa. Doíam-lhe os pés de tanto andar; começou a ver manchas pretas e verdes à frente dos olhos e quase desfaleceu. Parou e esperou que as tonturas passassem. Alguns transeuntes empurraram-no. Uma aluna de liceu com olhos negros tentou dar-lhe uma moeda. Apesar da guerra estar ainda no início, soldados marchavam com farda de batalha – estavam já cobertos de poeira e queimados do sol. Tinham cantis amarrados à cintura e envergavam cinturões de balas sobre o peito. As baionetas das suas espingardas cintilavam com um brilho esverdeado e frio. Cantavam com vozes enlutadas. Com os soldados vinham canhões, cada um puxado por oito cavalos; respirando por entre as palas dos freios um terror sombrio. O Dr. Fischelson sentiu náuseas. Doía-lhe o estômago; os seus intestinos pareciam querer voltar-se do avesso. Suores frios cobriam-lhe o rosto.
“Estou a morrer,” pensou ele. “É o meu fim.” Mesmo assim conseguiu arrastar-se até casa, deitando-se na cama de ferro, onde ficou a ofegar e a gemer. Deve ter adormecido, porque subitamente imaginou que estava na sua terra natal, Tishvitz. Tinha uma dor de garganta e a sua mãe preparava uma meia cheia de sal quente para lhe colocar em volta do pescoço. Conseguia ouvir vozes pela casa; falavam sobre uma vela e como um sapo lhe tinha mordido. Ele queria ir para a rua mas não o deixavam porque estava a passar uma procissão católica. Homens com longas vestimentas, segurando nas mãos machados de dois gumes, entoavam uma melodia em latim ao mesmo tempo que salpicavam água benta. Cruzes reluziam; imagens sagradas eram agitadas nos ares. O ar cheirava a incenso e a cadáveres. Subitamente o céus tornou-se rubro e o mundo inteiro começou a arder. Os sinos repicavam; as pessoas corriam loucamente de um lado para o outro. Bandos de pássaros esvoaçavam ao alto, guinchando. O Dr. Fischelson acordou sobressaltado. O seu corpo cobrira-se de suor e a sua garganta estava agora realmente dorida. Tentou meditar acerca daquele sonho extraordinário, para encontrar a sua ligação racional ao que lhe estava a acontecer e para compreender a sua sub specie eternitatis, mas nada fazia sentido. “Ah, o cérebro é um receptáculo de absurdo,” pensou o Dr. Fischelson. “A terra pertence aos loucos.”
Cerrou as pálpebras outra vez; outra vez se deixou dormir; e outra vez mais sonhou.

(continua…)

Os nossos fantasmas em Salónica

A Chave em Salónica

Abarbanel, Farias ou Pinedo
atirados de Espanha por ímpia
perseguição, conservam todavia
a chave de uma casa de Toledo.

Livres agora da esperança e do medo,
olham a chave ao declinar do dia;
no bronze há outroras, distância,
cansado brilho e sofrimento quedo.

Hoje que sua porta é poeira, o instrumento
é cifra da diáspora e do vento,
como essa outra chave do santuário

que alguém lançou ao azul quando o romano
com fogo temerário acometeu,
e que no céu uma mão recebeu.

Jorge Luís Borges,
in El Otro, El Mismo, 1964

Este belo poema de Borges – que se considerava a si próprio um descendente de judeus portugueses fugidos da Inquisição –, vem a propósito de um interessante post no Abrupto sobre Salónica e sobre os fantasmas de uma cidade que, durante séculos, serviu de refúgio e morada a uma florescente comunidade de judeus portugueses e espanhóis que acabaria por ser aniquilada quase na totalidade pelos nazis entre 1941 e 1944. Hoje, dos sefarditas de Salónica pouco ou nada resta. Aconselho vivamente a leitura do texto de José Pacheco Pereira: Nunca é tarde para aprender: “Las mocicas de agora / todas vistem de tango”.
Leiam o que por lá se escreve e, depois, regressem à Judiaria para ouvir uma melodia cantada em Salónica, nessa língua mesclada de português e castelhano que os judeus ibéricos levaram para os lados do Levante. Chama-se “Morenica”, cantada por Savina Yannatou, do álbum “Primavera en Salonico”.
Escutem.


Savina YannatouMorenica
in Primavera en Salonico

Um pintor português em Nova Iorque


O Barco, Francisco Duarte Azevedo, 2005.


Quando acabo um quadro seguro ao seu lado um qualquer objecto feito por Deus – uma pedra, uma flor, o ramo de uma árvore ou a minha mão – como se fora um teste final. Se o quadro se aguentar ao lado de algo que o homem não pode produzir, o quadro é autêntico. Se houver um choque entre os dois, a arte é má.”
Marc Chagal, pintor, judeu russo naturalizado francês, em entrevista ao Saturday Evening Post, de Nova Iorque, a 2 de Dezembro de 1962.

Não é todos os dias que um pintor português expõe o seu trabalho em Nova Iorque. Não é também todos os dias que sinto orgulho em poder chamar amigo a alguém cujo talento admiro profundamente. Esta bela citação de Chagal é pretexto perfeito para convidar os meus leitores de Nova Iorque – e arredores –a conhecerem a pintura de Francisco Duarte Azevedo, actualmente em exposição a escassos três quarteirões de Times Square. Diplomata de carreira, cônsul geral de Portugal em Newark, poeta e escritor, Francisco Duarte Azevedo tem na pintura o veículo perfeito. Para o seu indiscutível talento e para a sua imensa generosidade.
Francisco expõe em conjunto com a fotógrafa nova-iorquina Dorothy Krakauer, que mostra um conjunto de excelentes fotografias do sul de Espanha. “The painter constructs, the photographer discloses”, escreveu Susan Sontag.
A exposição tem lugar no restaurante Pomaire, (o único restaurante chileno de Nova Iorque), 371 W 46th St, entre as avenidas 8 e 9, no coração da Broadway. Vejam os belos quadros de Francisco Duarte Azevedo, as fotos de Dorothy Krakauer e, já agora, aproveitem para provar a sopa – o caldillo de congrio chileno é também uma obra de arte.

O Spinoza da Rua do Mercado (III)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)


Władysław Podkowiński, Avenida Novo Mundo, Varsóvia, durante o Inverno (1892).

Parte III (ver Parte I e Parte II)

Quando o Dr. Fischelson regressou a Varsóvia vindo de Zurique, onde estudara filosofia, houve quem previsse que um grande futuro se abriria à sua frente. Os seus amigos sabiam que ele estava a escrever um importante livro sobre Spinoza. Um jornal judaico polaco convidara-o a escrever artigos de opinião e crítica; era visita frequente de várias famílias de meios e tornara-se director da biblioteca da Sinagoga de Varsóvia. Ainda que na altura já fosse considerado um solteirão razoavelmente entrado nos anos, as casamenteiras tinham-lhe proposto arranjos com várias raparigas ricas. Mas o Dr. Fischelson não aproveitou essas oportunidades. Queria ser tão independente quanto o próprio Spinoza. E na verdade assim o foi. Mas por causa das suas ideias heréticas entrou em conflito com o rabino e foi obrigado a demitir-se do cargo de director da biblioteca. Durante anos, ganhou dinheiro dando aulas privadas de Hebraico e Alemão. Depois, quando adoeceu, a comunidade judaica de Berlim decidiu conceder-lhe um subsídio de quinhentos marcos anuais. Isto foi possível devido à intervenção do famoso Dr. Hildesheimer, com quem ele se correspondia sobre filosofia. O Dr. Fischelson mudara-se para o quarto do sótão e começara a cozinhar as suas próprias refeições num pequeno fogão a petróleo. Tinha um armário com inúmeras gavetas, cada uma delas rotulada com o nome do que continha – trigo, arroz, cevada, cebolas, cenouras, batatas, cogumelos. Uma vez por semana o Dr. Fischelson punha o seu chapéu negro de abas largas, com um cesto numa mão e a Ética de Spinoza na outra, e lá ia ao mercado comprar provisões. Enquanto esperava a sua vez, ia folheando a Ética. Os comerciantes conheciam-no e faziam-lhe sinal para que avançasse até aos balcões.
“Vai um queijinho senhor doutor? Este até derrete na boca.”
“Temos cogumelos frescos, acabadinhos de chegar da floresta.”
“Vá lá minhas senhoras, deixem passar o senhor doutor”, gritava o dono do talho.
Durante os primeiros anos da sua doença, o Dr. Fischelson ainda ia à noite até ao café frequentado por professores de Hebraico e por outros intelectuais. Tornara-se um hábito seu sentar-se por lá a jogar xadrez e a tomar café. Por vezes parava nas lojas da Rua de Santa Cruz onde se podiam comprar baratos todos os tipos de livros e revistas. Numa ocasião, um antigo aluno seu convidara-o para jantar, mas quando o Dr. Fischelson chegou ao restaurante foi surpreendido por um grupo de amigos e admiradores que o forçaram a sentar à cabeça da mesa enquanto faziam discursos sobre ele. Mas tudo isto aconteceu há muito tempo. Agora já ninguém se interessava por ele. Isolara-se completamente até se tornar um homem esquecido. Os acontecimentos de 1905 ainda aumentaram mais o seu isolamento, quando os rapazes da Rua do Marcado começaram a organizar greves, a atirar bombas a esquadras de polícia e a disparar contra os fura-greves de maneira a que as lojas estivessem fechadas até durante os dias de semana. Começou a desprezar tudo o que estivesse associado com o judeu moderno – sionismo, socialismo, anarquismo. Aos seu olhos, os jovens em questão não passavam de uma maralha ignorante decidida a destruir a sociedade – sociedade sem a qual nenhuma existência razoável seria possível. Ainda lia ocasionalmente uma revista em Hebraico, mas sentia um indisfarçável desdém pelo Hebraico moderno, que não tinha qualquer raiz na Bíblia ou na Mishná. A ortografia das palavras polacas também mudara. O Dr. Fischelson concluíra que até os chamados homens espirituais tinham abandonado a razão e estavam a fazer os possíveis para satisfazer a populaça. De vez em quando ainda visitava uma biblioteca e folheava os livros modernos de história da filosofia, mas achava que os professores não compreendiam Spinoza, citavam-no incorrectamente, atribuíam ao filósofo as suas próprias ideias desorganizadas. Apesar do Dr. Fischelson estar bem ciente que a raiva era uma emoção indigna daqueles que caminham na senda da razão, mesmo assim ficava furioso, e rapidamente fechava o livro e voltava a colocá-lo na estante. “Idiotas”, murmurava, “asnos, pretensiosos.” E jurava nunca mais voltar a pôr os olhos em filosofia moderna.

(continua…)

Dois judeus… uma sinagoga! *


Francisco José Viegas e o autor da Judiaria, com Manhattan em fundo. Fez-me muito bem ver-te por estes lados.

* referência a um velho provérbio judaico cuja essência incontestável deita logo por terra a base de muitas teorias da conspiração: “Onde há dois judeus tem de haver três sinagogas: uma onde tu vais e eu não vou; outra onde eu vou e tu não vais; e uma terceira onde nenhum de nós vai”

Este Holocausto será diferente

um ensaio de Benny Morris

O segundo holocausto não será como o primeiro.
Os nazis industrializaram o massacre, claro. Mas, mesmo assim, eram obrigados a ter contacto com as vítimas. Antes de as matarem de forma efectiva, podem tê-las desumanizado nas suas mentes ao longo de meses e anos com recurso a humilhações terríveis, mas, mesmo assim, tinham com as suas vítimas um contacto visual e auditivo, e alguns mesmo táctil.
Os alemães, e os seus ajudantes não germânicos, tiveram de tirar de suas casas homens, mulheres e crianças; tiveram de os arrastar e de lhes bater pelas ruas e de os ceifar em bosques circundantes, ou empurrá-los para vagões de gado que comboios transportariam para campos, onde “o trabalho liberta”, separando os sãos dos completamente inúteis que colocavam sob “chuveiros”, matavam com gás e depois retiravam os corpos para a carrada que se seguia.
O segundo holocausto será bastante diferente. Numa radiante manhã, daqui a cinco ou dez anos, talvez durante uma crise regional, talvez sem qualquer motivo aparente, um dia ou um ano ou cinco anos após o Irão ter obtido a Bomba, os Mullahs de Qom reunirão numa sessão secreta, sob um retrato do Ayatollah Khomeini com olhar severo, e darão a luz verde ao presidente Mahmoud Ahmadinejad, então no seu segundo ou terceiro mandato.
As ordens serão dadas e mísseis Shihab III e IV serão lançados contra Tel Aviv, Bersheva, Haifa e Jerusalém e provavelmente contra alvos militares, incluindo meia dúzia de bases aéreas israelitas e (alegadas) bases de mísseis nucleares. Alguns dos Shihab terão ogivas nucleares. Outros serão meros engodos, carregados com agentes químicos e biológicos, ou simplesmente com jornais velhos, destinados a confundir as bateiras antimísseis israelitas.
Para um país com o tamanho e a forma de Israel (20 mil quilómetros quadrados alongados), provavelmente quatro ou cinco ataques serão suficientes. Adeus Israel. Um milhão ou mais de israelitas nas áreas metropolitanas de Jerusalém, Tel Aviv e Haifa morrerá imediatamente. Milhões sofrerão os graves efeitos da radiação. Israel tem cerca de sete milhões de habitantes. Nenhum iraniano irá ver ou tocar um único israelita. Tudo será bastante impessoal.
Alguns dos mortos inevitavelmente serão árabes – cerca de 1,3 milhões dos cidadãos de Israel são árabes e outros 3,5 milhões vive no território semi-ocupado da Cisjordânia [Judeia e Samaria] e na Faixa de Gaza. Jerusalém, Tel Aviv-Jaffa e Haifa possuem igualmente minorias árabes substanciais. Existem igualmente grandes concentrações de populações árabes em torno de Jerusalém (em Ramallah-Al Bireh, Bir Zeit, Bethlehem) e nos arredores de Haifa.
Aqui também, muitos morrerão, imediatamente ou aos poucos.
É duvidoso que um tão grande massacre de muçulmanos perturbe Ahmadinejad e os Mullahs. Os iranianos não gostam particularmente de árabes, especialmente de árabes sunitas, com quem têm guerreado intermitentemente desde há séculos. E eles têm um desprezo particular para com os (sunitas) palestinianos que, apesar de tudo, mesmo sendo inicialmente em número dez vezes mais do que os judeus, não conseguiram impedir durante o longo conflito que eles criassem o seu próprio estado ou controlassem toda a Palestina.
Além de tudo isso, a liderança iraniana encara a destruição de Israel como um supremo mandamento divino, tal como um sinal da segunda vinda, e as muitas vítimas colaterais muçulmanas serão sempre encaradas como mártires na nobre causa. De qualquer forma, os palestinianos, muitos deles dispersos por todo o mundo, sobreviverão enquanto povo, tal como o fará a grande Nação Árabe da qual fazem parte. E, com toda a certeza, para se livrarem do Estado judaico, os árabes estarão dispostos a fazer alguns sacrifícios. No saldo cósmico das coisas, valerá a pena.

UMA QUESTÃO pode mesmo assim levantar-se nos concílios iranianos: E Jerusalém? Afinal, a cidade alberga os terceiros mais sagrados lugares de culto do islamismo (depois de Meca e Medina): a mesquita de Al Aksa e a Mesquita de Omar. Mas Ali Khamenei, o líder espiritual supremo, e Ahmadinejad muito provavelmente responderiam da mesma forma que o fariam em relação à questão mais lata de destruir e poluir de forma radioactiva a Palestina inteira. A cidade, tal como a terra, pela graça de Deus, em 20 ou 30 anos irá recuperar. E será restaurada para o Islão (e para os árabes). E a outra poluição mais profunda terá sido erradicada.
A julgar pelas referências contínuas de Ahmadinejad à Palestina e à necessidade de destruir Israel, e à sua negação do primeiro Holocausto, ele é um homem obcecado. E partilha a obsessão com os Mullahs: todos eles criados sob os ensinamentos de Khomeini, um prolífico antisemita que frequentemente proferia sentenças contra “o pequeno satã”. A julgar pelo facto de Ahmadinejad ter organizado um concurso de cartoons sobre o Holocausto e uma conferência para negar o Holocausto, os ódios do presidente iraniano são profundos (e, claro, descarados).
Ele está disposto a pôr em jogo o futuro do Irão, ou mesmo o do Médio Oriente inteiro, em troca da destruição de Israel. Sem dúvida que ele acredita que Allah irá proteger o Irão, de alguma forma, de uma resposta nuclear israelita ou de uma contra-ofensiva americana. Mas, Allah à parte, ele pode muito bem acreditar que os seus mísseis pulverizarão o estado Judaico, destruindo a sua liderança e as suas bases nucleares terrestres, desmoralizando e confundindo de tal forma os comandantes dos seus submarinos nucleares que estes serão incapazes de responder. E, com o seu profundo desprezo pela indecisão frouxa do Ocidente, não levará a sério a ameaça de uma retaliação nuclear americana. Ou poderá muito bem achar, de uma forma irracional (para nós), que uma contra-ofensiva é um preço que está disposto a pagar. Tal como o seu mentor, Khomeini, disse num discurso em Qom em 1980: “Nós não adoramos o Irão, adoramos Allah… que esta terra [Irão] arda. Que esta terra desapareça em fumo desde que o Islão saia triunfante…”
Para estes adoradores do culto da morte, mesmo o sacrifício literal da pátria é aceitável se dai sair o fim de Israel.

O VICE-MINISTRO israelita da Defesa, Ephraim Sneh, sugeriu que o Irão nem sequer tem de utilizar a Bomba para destruir Israel. A simples nuclearização do Irão poderá intimidar e deprimir os israelitas de tal maneira que eles perderão a esperança, emigrando gradualmente; com investidores e imigrantes a evitarem o estado Judaico ameaçado de destruição. Conjugados, estes factores contribuiriam para o fim de Israel.
Mas sinto que Ahmadinejad e os seus aliados não têm a paciência necessária para esperar pelo lento desenrolar desta hipótese; eles procuram a aniquilação de Israel aqui e agora, no futuro imediato, durante as suas vidas. Eles não querem deixar nada à mercê dos vagos ventos da História.
Tal como durante o primeiro, o segundo holocausto será precedido por décadas de preparação de corações e mentes, tanto pelos líderes iranianos e árabes, como por intelectuais e órgãos de comunicação social ocidentais. Diferentes mensagens foram dirigidas a diferentes audiências, mas todas (de forma concreta) têm servido o mesmo objectivo – a demonização de Israel. Muçulmanos em todo o mundo têm sido ensinados que “os sionistas/judeus são a personificação do mal” e que “Israel tem de ser destruído.”
De forma mais subtil, o mundo ocidental foi ensinado que “Israel é um estado opressor racista” e que “Israel, nesta época de multiculturalismo, é um anacronismo supérfluo”. Gerações de muçulmanos, e pelo menos uma geração no Ocidente, têm sido criados com estes catecismos.

O CRESCENDO para o segundo Holocausto (que, curiosamente, irá provavelmente ter sensivelmente o mesmo número de vítimas que o primeiro) tem sido acompanhado por uma comunidade internacional fragmentada e conduzida pelos seus próprios apetites egoístas – a Rússia e a China obcecadas com os mercados muçulmanos; a França com o petróleo árabe; e os Estados Unidos, empurrados a um isolacionismo mais profundo pelo descalabro no Iraque. O Irão tem tido liberdade para prosseguir os seus sonhos nucleares, e Israel e o Irão foram deixados sós para se enfrentarem.
Mas Israel, basicamente isolada, não estará à altura da tarefa, tal como um coelho encadeado pelos faróis de um carro que corre contra ele. No Verão passado, liderado por um primeiro-ministro incompetente e por um sindicalista a fingir de ministro da Defesa, utilizando tropas treinadas para dominar gangues de palestiniano mal armados e pior treinados e demasiado preocupados em não sofrer ou infligir baixas, Israel falhou numa mini-guerra de 34 dias contra um pequeno exército de guerrilha financiado pelos iranianos (ainda que bem treinado e bem armado). Essa mini-guerra desmoralizou totalmente as lideranças política e militar de Israel.
Desde então, ministros e generais, tal como os seus homólogos ocidentais, limitam-se a observar taciturnamente à medida que os patronos do Hizbullah constróem os arsenais do Apocalipse. De forma perversa, os líderes israelitas podem até ter ficado satisfeitos com as pressões ocidentais a apelar à contenção. Muito provavelmente, eles querem acreditar de forma profunda nas garantias ocidentais de que alguém – a ONU, o G-8 – irá tirar do lume a batata quente radioactiva. Há mesmo quem tivesse acreditado na bizarra ideia de que uma mudança de regime em Teerão, conduzida por uma classe-média laica, acabaria por parar os loucos Mullahs.
Mas de forma ainda mais concreta, o programa iraniano apresentava um complexo desafio para um país com um número limitado de recursos militares tradicionais. Aprendendo com a experiência do sucesso da destruição pela Força Aérea israelita do reactor nuclear iraquiano de Osirak em 1981, os iranianos duplicaram e dispersaram as suas instalações, enterrando-as em bunkers profundos. Para atacar as instalações nucleares iranianas com armas convencionais seria necessário uma força aérea do tamanho da americana, trabalhando 24 horas por dia durante mais de um mês.
Na melhor das hipóteses, a força aérea israelita, os comandos e a marinha, podiam almejar a atingir apenas um dos componentes do projecto iraniano. Mas, no fim de contas, ele continuaria substancialmente intacto – e os iranianos ainda mais determinados (se tal for possível) a alcançar a Bomba o quanto antes. Ao mesmo tempo, sem qualquer dúvida, seria gerada também uma campanha mundial de terrorismo islâmico contra Israel (e possivelmente contra os seus aliados ocidentais) e, claro, uma campanha quase universal de vilipêndio. Orquestrados por Ahmadinejad, todos clamariam que o programa nuclear iraniano se destinava a propósitos pacíficos. Na melhor das hipóteses, um ataque convencional de Israel poderia apenas atrasar os iranianos em cerca de dois anos.

IMEDIATAMENTE, a liderança incompetente de Jerusalém enfrentaria um cenário catastrófico, quer fosse depois do lançamento de uma ofensiva convencional ou, em vez dela, lançando um ataque nuclear preemptivo e antecipado contra o programa nuclear iraniano, que tem algumas das suas instalações em torno de grandes cidades. Teriam eles estômago para isso? Estaria a sua determinação em salvar Israel alargada à eventualidade de matar milhões de iranianos e, na verdade, destruir o Irão? Este dilema foi há muito definido de forma certeira por um sábio general: o arsenal nuclear de Israel é inutilizável. Apenas pode ser usado demasiado cedo ou demasiado tarde. Nunca haverá uma altura “certa”. Usado “cedo demais”, quer dizer antes do Irão adquirir armas nucleares similares, Israel será investida no papel de pária internacional, alvo de um ataque muçulmano universal, sem um amigo no mundo; “tarde demais” quererá dizer que os iranianos já atacaram. Que vantagem tem?
Então os líderes israelitas cerrarão os dentes na esperança de que tudo corra pelo melhor. Talvez, depois de terem a Bomba, os iranianos se portem de forma “racional”?

MAS OS IRANIANOS são motivados por uma lógica mais elevada. E lançarão os seus mísseis. E, tal como no primeiro Holocausto, a comunidade internacional nada fará. Tudo acabará, para Israel, em poucos minutos – não como na década de 1940, quando o mundo teve cinco longos anos para cruzar os braços e nada fazer. Depois dos Shihabs caírem, o mundo enviará navios de salvamento e ajuda médica para os levemente carbonizados. Não atacará o Irão com armas nucleares. Com que objectivo e com que custos? Uma resposta nuclear americana alienaria de forma permanente o mundo muçulmano, aprofundando e universalizando o actual choque de civilizações. E, claro, não traria Israel de volta. (Enforcar um criminoso devolve à vida as suas vítimas?)

Então qual seria o propósito?
Ainda assim, o segundo holocausto será diferente no sentido em que Ahmadinejad não verá nem tocará aqueles que deseja ver mortos. Na verdade não haverá cenas como a seguinte, citada no recente livro de Daniel Mendelsohn, The Lost, A Search for Six of Six Million, na qual é descrita a segunda acção nazi em Bolechow, na Polónia, em 1942:

Um episódio terrível aconteceu com a senhora Grynberg. Os ucranianos e os alemães irromperam pela sua casa e encontraram-na prestes a dar à luz. As lágrimas e as súplicas dos familiares não ajudaram e ela foi levada de casa em camisa de noite e arrastada para a praça em frente da Câmara Municipal.
Ali ela foi arrastada para um contentor de lixo no pátio da Câmara, onde a multidão de ucranianos presentes dizia piadas e ria das suas dores de parto, até que ela deu à luz. A criança foi imediatamente arrancada dos seus braços, ainda com o cordão umbilical, e atirada ao ar – foi espezinhada pela multidão e ela ficou de pé à medida que sangue escorria do seu corpo, com pedaços pendurados a sangrar, e permaneceu desta forma algumas horas encostada à parede da Câmara Municipal. Depois foi com todos os outros para a estação de caminho de ferro de onde foi levada de comboio para Belzec.

No próximo holocausto não haverá cenas destas de cortar o coração, de criminosos e vítimas ensopados em sangue.
Mas será na mesma um holocausto.

Benny Morris é professor de História do Médio Oriente na Universidade Ben-Gurion e um dos mais marcantes representantes da esquerda académica israelita. Este ensaio foi publicado em Janeiro de 2007 no Jerusalem Post.

Aborto: uma perspectiva judaica

Exactamente com este título, publiquei aqui há quase três anos um texto do rabino Abraão Assor Z’L, líder espiritual da comunidade judaica de Lisboa entre 1941 a 1993. Na altura, as posições defendidas no texto foram bastante comentadas na blogosfera, especialmente pelo facto de, pela sua abertura, elas constituírem um dado completamente inesperado no campo religioso.

A poucos dias do referendo em Portugal, vale a pena reler esta contribuição para o debate público do tema:

Aborto: Uma Perspectiva Judaica

Kaddish

Há largas semanas que nada de novo acontece na Rua da Judiaria. Tenho de pedir desculpa aos meus leitores, a todos aqueles que por aqui passavam esperando ler outras coisas que não apenas os textos antigos postos ainda no topo da página. Sinto que vos devo uma explicação, ainda que tenha adiado escreve-la dia após dia. Escrever, por vezes, é um acto extremamente doloroso, especialmente quando somos forçados a olhar para dentro de nós próprios e só encontramos escombros. E ausência.
As últimas semanas têm sido o tempo mais difícil da minha vida. Perdi a minha mãe nos últimos dias de Novembro, na madrugada do dia 26, ao fim de meses e meses de sofrimento e angústia. Dentro de mim há ainda muito de negação, de dificuldade extrema em aceitar o insustentável e definitivo peso da inexistência.
Sou ainda incapaz de olhar para fotos de família. As memórias encharcam-me os olhos de lágrimas. Temo que esta dor intensa não desapareça nunca.
Ainda assim, vejo-lhe o rosto quase ininterruptamente ao longo de todo o dia. Durante todos os dias. Vejo-a como ela sempre foi, antes da doença terrível que a fez sofrer de maneira inimaginável. Basta uma pausa; basta fechar os olhos por um breve instante. Ouço-lhe a voz como se ela estivesse ao meu lado. E sei que ela aqui estará sempre. Longe de tudo e dos meus, do outro lado do mundo, queria estar ao lado do meu pai e da minha irmã.

קדיש אבלים

יתגדל ויתקדש שמה רבא בעלמא די ברא כרעותה וימלך מלכותה, בחייכון וביומיכון ובחיי דכל בית ישראל, בעגלא ובזמן קריב. ואמרו אמן. יהא שמה רבא מברך לעלם ולעלמי עלמיא. יתברך וישתבח ויתפאר ויתרומם ויתנשא ויתהדר ויתעלה ויתהלל שמא דקדשא בריך הוא לעלא מן כל ברכתא ושירתא תשבחתא ונחמתא, דאמירן בעלמא ואמרו אמן .יהא שלמא רבא מן שמיא, וחיים טובים עלינו ועל כל ישראל ואמרו אמן .עשה שלום במרומיו, הוא יעשה שלום עלינו, ועל כל ישראל ואמרו אמן

Barros Basto

um artigo de Inácio Steinhardt *

“Tudo se ilumina para aquele que busca a Luz”

Não é uma máxima judaica, nem sequer cristã.
É um versículo do “SHAHAR”, o livro básico da doutrina “Oryam”, uma nova religião, que nasceu na cidade do Porto, na década de 1910.
Foi seu fundador e Mestre, um jovem cadete do Exército Português, chamado Arthur Carlos de BARROS BASTO.
Foi ele também o autor do “SHAHAR”, e de mais quatro livros sobre a doutrina do “Oryam”, parte dos quais escritos durante a sua estadia na Flandres, onde, já tenente, comandou um batalhão do Corpo Expedicionário Português, na Primeira Grande Guerra Mundial.
Arthur tinha a obsessão do Fogo e da Luz. Já em pequeno brincava com fósforos, imaginando-se a realizar sacrifícios de uma suposta religião pagã.
A chama eterna e a luz eram um tema constante do ritual do “Oryam”, cujo templo, em lugar improvisado para o efeito, tinha o nome simbólico de Mayan (fonte).
Como se vê, todos estes termos e muitos mais presentes na literatura do “Oryam”, tinham origem hebraica. O próprio nome “Or-Yam”, significa “A Luz do Ocidente”. “Yam” é o mar, e o lado do mar, em relação à Terra de Israel, é o ocidente. Portanto uma luz nascida não no oriente, mas no ocidente.
Uma consulta à imprensa da época, com muitas notícias e entrevistas sobre os actos do culto “Oryam”, faz pensar que, naquela época, o Mestre Barros Basto tinha angariado muitos adeptos. E um estudo da sua doutrina revela uma ideia religiosa sã e muito humana.
No entanto, Barros Basto ficou na história como o “Apóstolo dos Marranos”, denominação que lhe atribuiu o historiador Cecil Roth, no opúsculo em que descreveu os primórdios da sua “Obra do Resgate”.
E está certo: Barros Basto foi um verdadeiro apóstolo dos Marranos, aos quais dedicou a sua vida e padeceu por eles, morrendo na desgraça, quando todos à sua volta estavam convencidos de que a sua Obra tinha sido vencida pelos duros golpes infligidos pelos seus inimigos, de fora e de dentro.
Mas Barros Basto era um homem de fé inabalável. “Adonai li velo irá” (Tenho Deus comigo, por isso não temerei”). Foi sepultado, segundo o seu desejo, com a sua farda de valoroso capitão, e suas medalhas e condecorações obtidas numa brilhante carreira de militar, na implantação da República em 1910, e nas batalhas da Flandres.
“Se lá no assento etéreo onde subiu, memória desta vida se consente”, Barros Basto terá com certeza a prova de que, cá em baixo, a sua Obra não terminou com a sua morte.
Foi apóstolo dos Marranos, mas ele próprio não era um Marrano. Não tenhamos receio de usar esta palavra, que há muito que deixou de ser o termo pejorativo, que foi na sua origem, para se tornar, pelo esforço de Barros Basto, num distintivo de que se podem orgulhar os que a ele têm jus.
Barros Basto não era um Marrano, porque esse termo designa o judeu forçado a converter-se ao cristianismo, cuja família continuou a praticar a religião dos seus pais, em segredo, consciente do perigo de morte em que incorria.
Barros Basto era descendente desses judeus convertidos pela força – revelou-lhe muito em segredo, seu avô, na biblioteca da casa em Amarante, quando ele tinha apenas 8 anos. Era um segredo que, em cada geração, só um membro da família Barros Basto guardava. E o avô, antes de morrer, escolheu Arthur, e não o pai deste, para depositário desse segredo.
A família não guardava qualquer preceito judaico, e, pelo contrário, sua extremosa Mãe era católica muito praticante, que o levava à Igreja, e tinha grande desgosto pela aversão que a criança demonstrava, sem saber porquê, aos círios e às procissões.
Da existência de judeus em Portugal só soube em 1904, quando leu num jornal que havia sido inaugurada uma sinagoga em Lisboa.
Foi nessa sinagoga que ele tentou ser admitido, quando, anos mais tarde, o exército o mandou frequentar um curso na Escola Politécnica, em Lisboa.
Mas os dirigentes da sinagoga dissuadiram-no. Não só porque o judaísmo é adverso a aceitar prosélitos, como porque os judeus de Lisboa se sentiam ainda apenas “tolerados” e temiam ser acusados de missionarismo.
O jovem oficial português não foi às cegas para o judaísmo. Pelos seus próprios meios, como autodidacta, ele estudou profundamente e comparou as principais religiões: além do Judaísmo, o Cristianismo, o Islão, e as doutrinas teosóficas de Madame Blavatsky e de Steiner.
Vendo baldados todos os seus esforços para ser aceite pelos judeus, aos quais, segundo a revelação de seu avô, ele pertencia, Barros Basto entendeu que, para ser um homem digno não era necessário ser admitido na sinagoga.
Foi então que criou o “Oryam”, com elementos do judaísmo e da teosofia, que falavam à sua forma de pensar.
O “Oryam” terminou quando dois factos importantes o fizeram compreender que ser judeu era um estigma a que o mundo exterior o não deixaria escapar.
O primeiro, foi a noiva, que ele havia escolhido, e com quem tencionava casar, que lhe revelou que a família dela nunca a deixaria casar com um judeu.
O segundo foi um evento na Universidade de Coimbra em honra dos heróicos oficiais portugueses das batalhas da Flandres. Um orador salientou o facto de Barros Basto e um membro da nobreza, que também combatera com ele, deviam ser aparentados. O outro levantou-se indignado, para afirmar peremptoriamente que na família dele não havia judeus.
Arthur não hesitou mais. Foi a Tanger, apresentou-se perante um tribunal rabínico, prestou todas as provas de conhecimentos de judaísmo, com que procuram dificultar-lhe a conversão e garantiu-lhes que dali não sairia sem um certificado de conversão.
“Tudo se ilumina para aquele que busca a luz” – ou, por outras palavras nada resiste à vontade firme do Homem. “Querer é poder”.
De regresso a Lisboa, apresentou-se na sinagoga como judeu orgulhoso do seu certificado, ali casou com uma judia, e voltou com ela para o Porto.
Aí reuniu os 17 judeus russos, polacos e alemães, que viviam na cidade, que não tinham sinagoga e só pelas festas vinham a Lisboa. Com eles fundou a Comunidade Israelita do Porto, e alugou um andar para servir de sinagoga, onde logo a seguir celebrou o primeiro casamento de um casal russo.
São insondáveis os desígnios da Providência.
Até essa altura Barros Basto não sabia a missão que lhe estava destinada. Ele nunca tinha ouvido falar em Marranos. Os Marranos, que viviam no Porto, na sua maioria provenientes das aldeias de Trás-os-Montes, é que ouviram falar na sinagoga que abrira na cidade. E tal como ele se apresentara na sinagoga de Lisboa, eles começaram a apresentar-se na sinagoga “Mekor Haim” (Fonte da Vida) na Rua do Poço das Patas.
Foi assim que nasceu a “Obra do Resgate”.
Muito se poderia ainda escrever sobre a obra deste herói do judaísmo.
Mas o pano não chega para mais roupa.
“Tudo se ilumina para aquele que busca a Luz” – foi o lema que continuou da desaparecida religião oryamita para o cabeçalho do jornal que Barros Bastou publicou na sua comunidade judaica, e cujo nome, “Halapid”, O Facho, continua a lembrar a sua paixão pelo Fogo e pela Luz, que existem dentro de cada um de nós.


A Sinagoga Mekor Haim, no Porto, fotografada por Carlos Romão

* Este texto de Inácio Steinhardt, escrito propositadamente e em exclusivo para a Rua da Judiaria, revela uma faceta praticamente desconhecida do Capitão Barros Bastos. Biógrafo de Barros Basto, Inácio Steinhardt é co-autor, com Elvira Azevedo Mea, do livro Ben-Rosh: Biografia do Capitão Barros Basto, o apóstolo dos marranos, publicado em 1997 com chancela das Edições Afrontamento.

Eli, Eli…

Meu Deus, meu Deus, que não acabem nunca
a areia e o mar,
o murmurar das águas,
os relâmpagos dos céus,
as orações dos homens.

אלי, אלי, שלא יגמר לעולם
החול והים
רישרוש של המים
ברק השמים
תפילת האדם

Hannah Szenes (1921-1944)

Judeus votam à esquerda nas eleições americanas

“Os judeus norte-americanos votaram de forma esmagadora no Partido Democrata. Os democratas alcançaram 87% do voto judaico, contra apenas 10% para os republicanos, segundo revelam os resultados de uma sondagem à boca das urnas realizada pela Edison Media Research para a CNN.
Em contraste, 55% da totalidade do eleitorado americano votou no Partido Democrata e 44% nos candidatos republicanos. De entre todos os grupos religiosos, os judeus foram aqueles que percentualmente mais votaram no Partido Democrata.”

Fontes: Jewish Telegraphic Agency e CNN.com – Elections 2006 Exit Polls

O mundo permanece em silêncio II

Os refugiados


Shaar Aliyah, 1950. Campo de refugiados judeus Rosh Hay’n, Haifa. Foto de Robert Capa

Na primeira parte desta série de artigos publicados no Ma’ariv, Ben Dror Yemini analisou a ausência de reacção mundial face aos massacres de árabes e muçulmanos, geralmente perpetrados por árabes e muçulmanos. O silêncio do mundo tem um significado especial devido à intensa exposição mediática e académica do conflito entre Israel e os palestinianos, com milhares de publicações a acusarem Israel de cometer um “genocídio” que não existe. Na verdade, tal como foi amplamente demonstrado, o conflito israelo-palestiniano provocou um número de vítimas mínimo quando comparado com conflitos similares no resto do mundo.
Neste capítulo, Ben Dror Yemini analisa o problema dos refugiados de uma forma global, com destaque especial para a relação de dualidade da ONU e da comunidade internacional para com o problema dos refugiados em geral, e dos refugiados palestinianos em particular. O original em hebraico pode ser lido aqui: והעולם משקר

um artigo de Ben Dror Yemini

Começo com uma história que, à partida, parece bastante familiar. Num certo Estado, que em tempos pertencera ao Império Otomano, havia uma vasta minoria muçulmana. A maioria não muçulmana e a minoria muçulmana não morrem de amores uma pela outra. A minoria e a maioria têm uma história triste entre si, repleta de actos de hostilidade mútua. Numa certa etapa do conflito entre os dois grupos, a maioria forçou uma parte considerável da minoria muçulmana a abandonar este Estado, e a emigrar para um país onde a minoria faz parte da maioria, em termos religiosos, étnicos e nacionais.

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