Dois anos de Aviz

O Aviz, de Francisco José Viegas, faz hoje dois anos. Tentei escrever este post por três vezes, ainda ontem à noite. Apaguei irremediavelmente as tentativas uma após outra. Um era demasiado íntimo, o outro muito genérico e o terceiro simplesmente mau… porque será que me custa tanto mandar um abraço escrito a um amigo? Será a saudade? Mas a saudade, afinal, o que é? Será que estar longe, por si só, a define? Será o tempo, o tempo tanto, que passou? Honestamente não sei. Poderá ser a distância, os 9.133 quilómetros de distância que nos separam. Hoje, acho que ela é não poder fazer o que seria tão natural há 10 anos: telefonar-te a combinar uma jantarada de aniversário, num restaurante mexicano, e ficar à conversa horas a fio. Catching up my friend, catching up for lost time.
Francisco José Viegas, meu judeu magnífico, parabéns pelo Aviz, muitos parabéns. E, claro, obrigado por tudo o resto.

!מזל טוב חבר

::Adenda:: Descobri isto por acaso: TSF – Francisco José Viegas, uma entrevista recente conduzida por Carlos Vaz Marques. Vale a pena ouvir o Mestre de Aviz. Na primeira pessoa.

Abraão e o tzaddik solitário (um pequeno conto)


Judeus portugueses de Amsterdão celebram o festival de Sukkot,
Bernard Picart, 1728

A princípio, o tzaddik* rabino Pinraz de Koritz era um desconhecido entre as gentes. Mas, aos poucos, a sua reputação foi crescendo e o povo começou a visitá-lo aos magotes, a tal ponto que ele chegou a lamentar todo o tempo que passava a atender os visitantes, que no seu entender o distraiam do estudo da Torá. Foi então que rezou, pedindo que o povo o deixasse de ter em tão alta consideração, para que não o apoquentassem tanto. A oração foi atendida e o rabino passou a viver uma vida solitária.
Na festa de Sukkot, quando é um grande mandamento ter convidados e ser generoso e hospitaleiro, o rabino Pinraz construiu um pequeno tabernáculo em frente do qual se pôs convidando os espíritos dos Patriarcas porque, sendo solitário e retirado do mundo, não queria partilhar refeição nenhuma com os vivos. Foi então que o Patriarca Abraão passou em frente da casa sem entrar. “Abraão, não quereis ser meu convidado? Teria muito gosto que vos juntásseis a mim”, pediu o rabino Pinraz ao espírito do Patriarca. “Meu caro, estudas tanto mas não compreendes nada… eu não posso juntar-me a quem recusa o mundo e enjeita os seus semelhantes”, respondeu-lhe Abraão prosseguindo o seu caminho.
Ao ouvir as palavras do Patriarca, grossas lágrimas escorreram pelo rosto do rabi Pinraz. Finalmente compreendera que a sua vida só fazia sentido se fosse compartilhada e posta ao serviço dos outros. Recolhendo-se no seu quarto, o rabino rezou para que merecesse de novo a estima do povo. Mais uma vez, a oração foi atendida.

Conto tradicional dos judeus da Europa oriental, transcrito por Martin Buber no livro Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), publicado simultaneamente em Jerusalém e Zurique, em 1949.

* Tzaddik (צדיק) – homem justo e honesto. Expressão usada frequentemente para designar os rabinos seguidores do Hassidismo, o movimento místico fundado no século XVIII na Polónia por Baal Shem-Tov (o Mestre do Bom Nome).

O fim do homem é a morte

Moisés ben Jacob Ha-Sallah ibn Ezra

Olho para o mundo – e ele
assemelha-se a um jardim
com as suas crianças de permeio,
como erva.
Alguns, cuja memória é como a fragrância
do bálsamo,
e outros, cujos rebentos são como feno.
Mas sobre todos a Morte empunha
a sua foice,
e a sepultura guardará esta colheita.

Contemplo os túmulos de outras eras, de
dias antigos,
onde pessoas dormem o eterno sono.
Não há inimizade entre estas gentes
– não há inveja;
Não há amor nem há ódio;
E o meu pensamento, vislumbrando-os,
falha em discernir o mestre do escravo.

Onde estão todos os túmulos de todos os homens
que morreram na terra desde os dias de outrora?
Uma sepultura é cavada sobre outra,
e corpos são enterrados sobre corpos;
em buracos na terra eles jazem juntos –
os pedaços de cal e as pedras preciosas.

Moisés ben Jacob Ha-Sallah ibn Ezra (conhecido em árabe como Abu Harun Musa) (1070-1138), judeu de Granada. Filósofo, linguista e poeta medieval.

Em memória de Eugénio de Andrade e Álvaro Cunhal.

O salteador da Arca perdida


O excêntrico arqueólogo Vendyl Jones: em busca da Arca Perdida

Vendyl Jones é provavelmente o mais excêntrico e polémico arqueólogo da actualidade. Considerado um “génio” por alguns e um charlatão por muitos, Jones afirma ter sido ele a inspiração para o arqueólogo imaginário que o mundo haveria de conhecer como Indiana Jones. Agora, o Jones de carne e osso promete igualar a proeza do seu homónimo cinematográfico, afirmando estar preparado para desvendar até Agosto a localização exacta da Arca do Convénio – o receptáculo construído sob ordens de Moisés para guardar as Tábuas dos Dez Mandamentos, o mais sagrado dos artefactos judaicos desaparecidos – ver Kabbalist Blesses Jones: Now´s the Time to Find Holy Lost Ark.
O trabalho arqueológico Vendyl Jones, segundo ele próprio, baseia-se em grande medida no mais enigmático dos Pergaminhos do Mar Morto, o chamado Manuscrito de Cobre (ver University of Southern California: Copper Scroll). Ao contrário dos restantes 849 documentos, atribuídos aos Essénios, que compõem os pergaminhos encontrados em Qumran, este manuscrito não é uma obra literária ou religiosa, mas uma espécie de mapa de tesouro onde, em linguagem críptica, se descreve a localização de enormes quantidades de ouro, prata e artefactos que alguns historiadores acreditam terem pertencido ao Templo Sagrado de Jerusalém, destruído e saqueado pelos romanos no ano 70. Recorrendo ao Manuscrito de Cobre, Vendyl Jones acredita agora ter descodificado a localização exacta da Arca do Convénio (aron habrit, em hebraico, ארון הברית). Sim… a tal que os nazis buscavam desesperadamente e que Indiana Jones “encontrou” no filme de Stephen Spielberg.
Os especialistas académicos, mais uma vez, torcem o nariz: “Vendyl Jones diz ter sido ele a inspiração para Indiana Jones, o que é bastante apropriado porque os seus planos para encontrar a Arca são tão plausíveis quanto o cenário do Salteadores da Arca Perdida”, escreveu James Davila, professor de Estudos Judaicos da Universidade de St. Andrews, na Escócia, e especialista em Antiguidade Judaica.
Os métodos de Vendyl Jones podem ser pouco ortodoxos, mas a verdade é que os resultados alcançados até agora têm deixado boquiaberta parte da comunidade académica. Em 1988, decifrando o Manuscrito de Cobre, Jones encontrou uma pequena vasilha de barro cujo conteúdo ele afirma ser Shemen Afarshimon, o óleo sagrado do Templo. Análises químicas posteriores parecem dar razão a Vendyl Jones mas, mesmo assim a descoberta foi recebida com enorme cepticismo. Em 1992, Jones diz também ter encontrado cinzas de “incenso do Templo Sagrado” (ketoret), mas os seus críticos garantem que tudo não passa de um embuste. Agora, proclamando revelar ao mundo a Arca do Convénio até Agosto, Jones embarca numa excêntrica e quimérica corrida contra o tempo que poucos acreditam poder vir a correr-lhe de feição.
Tudo isto se passa, é claro, num recanto do mundo onde a arqueologia é arma de arremesso político, utilizada por ambos os lados para fazer valer as suas próprias narrativas da história e invalidar as do outro (ver Temple Mount relics saved from garbage).

::A LER:: Vendyl Jones – Wikipedia / Jewish Herald Voice Newspaper, Houston, TX, May 2000 – Vendyl Jones And The Ark Of The Covenant / Copper Scroll – Wikipedia / Vendyl Jones Research Institute

::A VER:: BBC – Real ‘Raiders of the lost Ark’ (formato RealAudio)

Jerusalém – ירושלים

Yehuda Amichai

Estava eu um dia sentado na escadaria junto às portas da Cidadela de David, depois de pousar duas pesadas cestas ao meu lado. Um grupo de turistas em redor do seu guia fez de mim um ponto de referência. “Estão a ver aquele homem ali com dois cestos? À direita da sua cabeça está um arco do período romano. Um pouco à direita da sua cabeça.” “Mas ele está a mexer-se!” Eu disse para mim próprio: a redenção só chegará quando lhes disserem: “Estão a ver aquele arco romano? Não importa, mas ao pé dele, um pouco para a esquerda e depois um pouco abaixo, está um homem que acabou de comprar fruta e vegetais para a sua família.”

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Nixon, Watergate e os judeus

Quando as primeiras notícias sobre o escândalo Watergate começaram a ser publicadas pelo Washington Post, Richard Nixon, um homem já de si extremamente paranóico, tentou descortinar quem seria a fonte dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, conhecida durante mais de 30 anos apenas como Garganta Funda. Sabe-se agora que o Garganta Funda foi Mark Felt, então vice-director do FBI, que deu a conhecer a sua participação na revelação do Watergate esta semana à revista Vanity Fair (ver “I’m the Guy They Called Deep Throat”). Ironicamente, Nixon desconfiou dele porque pensou que Felt era judeu. A conversa do então presidente americano com o seu assessor H. R. Haldeman ficaria gravada para a posteridade:

Nixon – Isto veio do FBI… eu juro que mando aquela cambada toda para a rua… terá sido o Felt? Ele é católico?
Haldeman – Não, acho que é judeu.
Nixon – Cristo! O Hoover meteu lá um judeu!?… Pode ser coisa dos judeus. Não sei… é possível.

O assessor de Richard Nixon estava errado, Mark Felt nem era judeu, mas sim um agnóstico descendente de uma família de emigrantes protestantes irlandeses. O episódio, no entanto, vem sublinhar a paranóia de Nixon, que transparecera já em 1996, quando a vinda a público de uma série de gravações, efectuadas na Casa Branca em 1971, revelou o profundo antisemitismo do presidente republicano. A propósito dos financiadores da campanha da oposição democrata, Nixon pede a Haldeman que ponha o fisco à perna “dos judeus” democratas:

Nixon – Por favor tragam-me os nomes dos judeus… você sabe Bob, os judeus graúdos que contribuem para os democratas. Será que não podemos investigar alguns destes filhos da puta?

::A LER:: Deep Throat: Not a Jew / FORWARD : Shocked, Shocked
Allegations of Richard Nixon’s antisemitism, fueled by each new batch of tapes released, should come as no surprise
/ Nixon urged audits of Jewish contributors / Slate – Nixon: I Am Not an Anti-Semite / Tapes reveal Nixon as anti-Semite / TomPaine.com – Nixon: “Maybe I’m Jewish” / Jews repulsed by Nixon’s plans to audit Democrats / Slate – Deep Throat: The Game Is Afoot

Livro de Orações

Aharon Shabtai

Há anos que quero escrever um livro de orações
Porquê? Porque aprendi
que o sólido se suspende em nada
Porque descobri que a frase é uma espécie de súplica
e porque descobri que em tudo o que disse,
em tudo o que disse, disse apenas obrigado
assim, pouco a pouco,
na verdade, escrevi já este livro
e hoje pesa quase noventa quilos
e em breve fará cinquenta anos
e ontem comprei-lhe sapatos.

Aharon Shabtai, poeta israelita contemporâneo.

Lag ba’Omer


Túmulo do rabino Shimon bar Yochai na cidade de Meron, na Galileia. Foto de autor desconhecido, cerca de 1880.

Celebra-se hoje, dia 18 de Iyyar de 5765, o festival de Lag ba’Omer, que marca o aniversário da morte do rabino talmúdico Shimon Bar Yochai (século II), autor de Sefer Ha’Zohar (ספר הזהרO Livro do Esplendor) o maior tratado místico do judaísmo.

Grandes citações

Se eu estiver certo, os alemães dirão que sou alemão, e os franceses dirão que sou filho da humanidade. Mas se eu estiver errado, para os franceses serei um alemão; e para os alemães não passarei de um judeu.”

Albert Einstein, sobre a Teoria da Relatividade

Katerina moça

Luís Henriques

Qu’achaste ó “ahanim”,
que vos assim namorou?
rezar bem o “tafalim”?
ou com que vos “çabacou”?
Eu jurar por minha lei
ou polos dez mandamentos?
ou dizer – viva el-rei!
Como sei
em seus estrevançamentos?

Em rezar o “baracha”
ou de que fôstes contente
ou em ser mui diligente
quando vão a “minaha”.
Em guardar bem o “sabá”
ou cheirar-vos à “defina”?
Como fôstes tam mofina
Katerina
Sobre serdes muito má.

Quando vier comer
que for o partir do pão
dir-vos ha ũ oração
sabê-lhe vós responder:
“Baru ata Adonai Eloheno”
Sam palavras que diz
Amoça “lecha minariz”
lhe respondêres, e peno,
pois meu bem foi tam pequeno.

Luís Henriques (finais do século XV), poeta e fidalgo da Casa de Bragança.
Esta estança, curiosamente recheada de palavras e frases hebraicas, foi escrita após Catarina, a sua amada “cristã-nova”, ter trocado Henriques por um judeu.
in Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516)

ShaBot6000: Tefillin


(clique na imagem para ampliar)

Glossário:
Tefillin – תפילין – Objecto ritual judaico habitualmente traduzido do grego (erradamente) para português como filactérios. Tefillin é composto por duas pequenas caixas de couro contendo pergaminhos com passagens bíblicas (Êxodos 13:1-10, 11-16; Deuteronómio 6:4-9, 11:13-21) utilizadas pelos judeus nas orações matinais (excepto no shabbat e em dias de festa). Ver Homem com Tefillin, de Marc Chagall. Higiene é fundamental quando se usa Tefillin. A tradição aconselha que se visite o quarto de banho antes de os colocar, de maneira a evitar ser acometido de vontades súbitas irreprimíveis durante as orações.

Sem título

Abraham Joshua Heschel

Quando vagueio por avenidas
De poemas, de visões deslumbrantes –
Comprimo nesse precioso espaço
Os meus jovens segredos crus.

Não quero cobrir com cartazes de Deus
As esquinas abertas das ruas,
Mas celebrar o aniversário da eternidade
No minúsculo recanto de cada momento.

Quero construir – velha amostra
Das vindimas do meu espírito –
Vinho verbal para gerações longínquas
No mais fresco abismo de um poema.

Abraham Joshua Heschel, (1907–1972), rabino, filósofo e poeta.

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]

A Oferenda (um pequeno conto)


A Cidade de Safed, xilogravura de Harry Fenn (1838-1911)

Nos idos de 1500, um pobre e ingénuo judeu marrano português chamado Josué emigrou com a mulher para a cidade santa de Safed, na Galileia. Fugido da ameaça das fogueiras da inquisição portuguesa, Josué estava radiante por finalmente poder praticar livremente a religião dos seus antepassados.
Já instalado na Terra Santa, anos mais tarde, ouviu o rabino falar na sinagoga sobre os lechem hapanim, os “pães de rosto”1, que eram oferecidos na época do Templo Sagrado todas as sextas-feiras, antes do início do Shabbat. Depois de explicar as várias leis que em tempos antigos governaram estas oferendas, e de expor os seus significados místicos, o rabino suspirou profundamente e lamentou que, por causa dos nossos pecados, já não se podia alegrar Deus com estes pães.
As palavras sentidas do rabino sacudiram a alma do ingénuo marrano português. Quando chegou a casa, Josué contou tudo à mulher, Clara, e pediu-lhe que cozesse duas challot2 – o pão especialmente preparado para o shabbat – na sexta-feira seguinte. Deu-lhe todos os detalhes que se lembrava das palavras do rabino sobre o “pão de rosto”: a farinha, contou ele, devia ser peneirada 13 vezes, amassada ainda em estado de pureza e a massa devia ficar bem cozida no forno. “Deus deve estar cheio de fome, imagina, depois de tantos séculos sem poder comer estes pães! Vamos passar a levar-lhe challot todas as sextas-feiras.”, disse Josué cheio de alegria.
Clara cumpriu a vontade do marido e logo pela manhã da sexta-feira seguinte, quando Josué acordou, dois belos pães arrefeciam já sobre um pano imaculado na mesa da cozinha.
Faltando ainda muitas horas para o início do shabbat, o marrano português correu para a sinagoga, que estava deserta, e abrindo a Santa Arca disse com todo o fervor: “Oh! Senhor dos Céus, da Terra e de todos os seres, tem piedade deste teu filho e recebe esta pobre oferenda! Tomai estes pães e que eles sejam bem recebidos por Ti, como foram as oferendas dos nossos antepassados.”
Com as mãos trémulas, Josué depositou os pães na Santa Arca e, olhando em volta para ter a certeza que ninguém o vira, regressou rapidamente a casa.
Já Josué ia longe quando o shammash (o funcionário da sinagoga) chegou para preparar o shabbat. Ao abrir a Santa Arca para conferir os rolos da Torá, deparou com os dois belos e deliciosos pães e logo imaginou que só podiam ser para si. Algum judeu generoso os deixara em segredo, para não o envergonhar revelando a todos a sua pobreza, pensou ele.
Ao fim dessa mesma tarde, depois dos serviços religiosos, Josué dirigiu-se impacientemente à Arca Sagrada para ver se os pães ainda lá estavam. Quando viu que tinham desaparecido a sua alegria foi imensa. “Deus não desdenhou a nossa singela oferenda”, disse ele, radiante, à mulher.
E assim prosseguiu durante longos anos: sexta-feira de manhã Josué levava os dois pães feitos por Clara à sinagoga; e à tarde o shammash levava-os para casa profundamente agradecido ao seu secreto benfeitor. Ambos se deliciavam e agradeciam a Deus pelo milagre.
Tudo corria bem até que um dia o judeu português se preparava para cumprir o mesmo ritual de sempre quando os seus gestos foram observados pelo rabino, que nessa sexta-feira fora mais cedo para a sinagoga e, a um canto, preparava silenciosamente o sermão do dia seguinte. Intrigado, o rabino ouviu a prece de Josué oferecendo os dois pães a Deus. Primeiro ficou em silêncio, mas assim que compreendeu o que se passava, o rabino ficou irado. Finalmente, não se conseguindo conter por mais tempo, dirigiu-se a Josué: “Seu idiota! Que fazes tu? Por acaso pensas que Deus come e bebe como tu? É um pecado terrível imaginar que Deus tem qualidades físicas como os homens. Pensas mesmo que é Deus quem recebe os teus miseráveis pães? É óbvio que é o shammash que os come!”
O rabino gritava ainda, vermelho de raiva, quando o shammash entrou na sinagoga para cumprir as suas tarefas habituais. O rabino confrontou-o imediatamente: “Vá, diz lá a este pobre idiota quem é que todas as semanas tira os dois pães que ele deixa na Arca?!” O shammash admitiu logo ser ele quem levava os pães, sem compreender porque razão o rabino estava tão irritado.
Com os olhos encharcados em lágrimas, o marrano português contou então ao rabino como o seu sermão o inspirara a trazer os pães para a sinagoga. Acreditava que fazia uma boa acção, mas agora o rabino dizia-lhe que cometera um grande pecado. Desconsolado e sem saber o que dizer à mulher, Josué foi para casa.
Pouco tempo depois, entrou na sinagoga um mensageiro de Ari Ha’Kadosh3 que se dirigiu ao rabino. Em nome do seu mestre, o mensageiro disse ao rabino que fosse para casa, se despedisse da família e se preparasse, porque à hora destinada para o seu sermão de shabbat, na manhã seguinte, a sua alma teria já partido para o descanso eterno. “Assim anunciaram os Céus”, disse o mensageiro.
O rabino não queria acreditar na má notícia que ouvira. Sem perder tempo, foi ter directamente com o Ari Ha’Kadosh tentando saber que pecado fizera ele para merecer tal destino. O Ari confirmou a mensagem, acrescentando da forma mais gentil possível: “Ouvi que foi porque acabaste com um gesto que deleitava o Criador. Desde a destruição do Templo Sagrado que Deus não tinha uma alegria tão grande quanto aquela que lhe dava o gesto do marrano português, oferecendo os seus modestos pães do fundo do seu coração. Ao destruir a sua inocência, selaste o teu destino.”
E assim foi. Inconformado, o rabino dirigiu-se para casa e despediu-se da família. No dia seguinte, a sua alma partiu antes da hora marcada para a prédica de shabbat, tal como anunciara o Ari.

Este história, contada no século XVI no círculo de estudos do rabino Chaim Vital – sucessor de Isaac Luria, o Ari Ha’Kadosh, na liderança do movimento místico dos cabalistas de Safed – foi impressa pela primeira vez em meados do século XVII no livro Mishnat Hachamim, escrito pelo rabino Moshe Hagiz (1572-?), de Jerusalém.

::Notas::
1 Ver Levítico 24:5-9
2 Challot, plural de chalá. Ver Associação da Juventude Israelita Hehaver: Chalá – o que é ?
3 Ari Ha’Kadosh, expressão hebraica que significa “Leão Sagrado”, o cognome do rabino cabalista Isaac Ben Solomon Luria.